UNDOKAI: Um encontro que vai além da competitividade, atingindo a admiração e interesse de diversos brasileiros e descendentes orientais

Undokai celebra, acima de tudo, a confraternização entre familiares de diferentes gerações (divulgação)

Se no Brasil há as típicas festas juninas preparadas e celebradas entre Junho e Julho, no Japão o evento que atrai e reúne diversas famílias é o popular undokai, promovido em solo brasileiro no mês de maio, considerado o “outono dos esportes”, a estação ideal para a diversão de um dia inteiro que se inicia no período da manhã e se estende até o final da tarde, contando com a participação de todas as gerações.
Aos jovens, os dias poliesportivos se caracterizam como uma fonte de entretenimento, gastronomia rica em pratos tradicionais do país, muita energia e prêmios, enquanto que aos mais velhos é o tempo para mais companheirismo, união de laços familiares e gratidão acima dos sorrisos sinceros adquiridos a partir de cada atividade.
No Brasil, o undokai tem se tornado uma ponte entre os descendentes japoneses, a cultura e os ancestrais, capaz de unir e cativar até mesmo os brasileiros que, depois da primeira visita, deixam sua presença garantida para os próximos anos que prometem um misto de aconchego, hospitalidade, bom humor e satisfação. Ausência sentida principalmente nos últimos anos devido à pandemia do coronavírus que afasta as pessoas e suplica por mais cuidados, porém quem sabe em 2022 a tradição retorne aos Maios esportivos tão esperados.

Para os jovens, gincanas se caracterizam como fontes de diversão (divulgação)

História por trás do Undokai
O undokai pode ser traduzido por “dia dos esportes” ou, literalmente, “encontro de exercícios”, sendo um evento um tanto quanto competitivo, mas altamente associado à questão amistosa que envolve colaboração e espírito de equipe, embora nem sempre um indivíduo conheça seu parceiro de prova, criando vínculos curtos cheios de ânimo e alegria independentemente da vitória ou da derrota.
Sua origem possui teorias que afirmam seu surgimento como forma de homenagear o Imperador Hirohito da Era Showa (1901 — 1989), o estímulo de exercícios a partir de influências ocidentais e o incentivo do desenvolvimento das crianças voltadas ao militarismo. Dentre essas ideias, as duas últimas são as mais aceitas, já que se acredita que tudo começou, no Japão, por volta de 1880 por ação de um professor britânico como forma de incrementar a prática de atividades físicas em todas as unidades de ensino, isso porque, anterior a essas gincanas, apenas os filhos de samurais possuíam o conhecimento referente às artes marciais e exercícios, atividades que deviam ser comuns a todos.
A hipótese militar de toda essa história está no ponto da disciplina, formação física, educação, trabalho em grupo e posicionamento dos participantes de cada disputa, colocados em fileiras e conduzidos ao canto do hino e de marchas militares antes de qualquer ato. Apesar disso, ninguém nunca foi obrigado a se tornar soldado, uma vez que houve a diminuição do apelo militarista e o aumento do caráter coletivo, após a derrota do país na 2ª Guerra Mundial.
Para os brasileiros, o undokai se tornou especial, em 1908, ainda no primeiro navio de imigrantes japoneses, local onde diversos nipônicos se reuniram e se entreteram com as diversas modalidades que compõem o típico encontro esportivo de seu país. Logo vários brasileiros pararam para contemplar e se divertir com a exibição de mais uma tradição que estava por vir e se enraizar no Brasil, como modo de proporcionar mais familiaridade e intimidade entre diversas famílias estrangeiras que, embora tivessem vindo de regiões diferentes, sabiam exatamente do que se tratava as gincanas do companheirismo.

Satisfação garantida, basta escolher a disputa da sua faixa etária (divulgação)

Diferença entre o evento esportivo japonês e brasileiro
Ao migrar de um local a outro totalmente diferente, foi praticamente impossível tentar manter todas as características do undokai japonês em terras brasileiras, começando pelo fato de que a tradição não se difundiu completamente pelo país, permanecendo apenas em certos grupos ligados às associações japonesas ou em clubes voltados aos descendentes orientais. Assim, as primeiras grandes distinções são pertinentes ao ambiente de realização e sua data, já que no Japão é comum que as crianças pratiquem as gincanas no próprio colégio, em Outubro, mês do Taiku no Hi, Dia do Esporte, comemorado na 2ª segunda-feira de Outubro), enquanto que no Brasil são elaboradas em Maio, próximo ao Kodomo no Hi, Dia das Crianças no Japão, 5 de Maio), nos campos de beisebol ou áreas amplas de clubes, devido à falta de espaço em escolas.
Esse evento esportivo costuma ser preparado pelos alunos japoneses que muitas vezes auxiliam na decoração, arrumação e escolha das apresentações e disputas que desejam exibir aos seus amigos e parentes. Em alguns casos, os pais e avôs podem ser chamados ao centro, para participação nas atividades, promovendo uma interação entre todos os indivíduos presentes. Apesar disso, a maior preocupação dos mais velhos costuma estar focada em chegar o mais cedo possível para conseguir o melhor local para admiração da alegria dos mais novos, além das inúmeras fotos e vídeos que devem extrair de cada momento único da festividade.
Por aqui, os fatores mudam um pouco de figura, pois são as associações e clubes que planejam todo o undokai, inserindo diversas peças decorativas, tais como as bandeiras de carpas (Koinobori, típicas da comemoração do Kodomo no Hi), definem as atividades e buscam por diversos brindes aos participantes, de maneira que é comum haver a cobrança de pequenas taxas para a entrada no encontro esportivo. Entre os brasileiros e descendentes, o importante é se divertir e aproveitar a proximidade com a cultura e gastronomia nipônica.
Havendo ou não algumas diferenças, observadas também nas vestimentas casuais brasileiras, no uso de uniformes japoneses de ginástica, grupos de torcida e formalidade japonesa, uma coisa é certa, ainda há semelhanças que são inegavelmente especiais, associadas à alma comunitária, ao entretenimento e ao fortalecimento da união.

Undokai ajuda a preservar as tradições japonesas (divulgação)

Principais atividades e brindes
Um dos aspectos peculiares do undokai é a premiação de todos que participarem, independentemente se foi o primeiro ou último de cada prova, esclarecendo a todos que o essencial é a diversão e não a competição. Dentre os brindes mais comuns, são oferecidos materiais escolares, produtos de higiene, pequenos pacotes de alimentos não perecíveis e outras prendas, todos como forma de agradecimento pela participação e dedicação.
A satisfação garantida a todos está nas performances e nas pequenas atividades que contam com trabalho em equipe, bom humor e poucas habilidades físicas, permitindo que qualquer pessoa faça parte de uma equipe. Então basta escolher algumas das disputas que se encaixam na sua faixa etária:

  • Corrida de 50 ou 100 metros rasos;
  • Corrida de revezamento: proporcionada aos adultos que devem dar quatro voltas de 400 metros;
  • Corrida do cálculo: partida em que no meio do percurso a criança deve realizar cálculos simples de soma, subtração, multiplicação ou divisão;
  • Procura do parceiro: depende da busca pelo companheiro com o número de cartão igual ao seu e da velocidade de ambos para chegar ao fim da corrida;
  • Cabo-de-guerra;
  • Corrida do empréstimo: prova em que a criança retira um cartão, no meio da corrida, com o nome de um objeto que deve ser procurado e pego emprestado com um de seus amigos ou familiares, para então finalizar o percurso;
  • Corrida do saco: o participante deve vestir um saco e sair pulando para chegar ao seu destino.

Além dessas gincanas, o undokai conta com algumas dezenas mais que perduram até o final do dia, fornecendo um pouco da tradição japonesa à rotina tão ocidentalizada dos descendentes e brasileiros. Contudo ainda há quem diga que essa cultura está para se extinguir por causa da diminuição de filhos e do incentivo da música e práticas esportivas tanto no Japão quanto no Brasil. Assim a busca pela valorização e estímulo do interesse no mundo nipônico tem se mostrado cada vez mais necessário a fim de manter um “encontro de exercícios” saudável e rico em conhecimento.
(Mariana Kisaki)

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