TSURU: As mil dobraduras de saúde e longevidade que proporcionam fé e esperança

Dobradura carrega uma história muito forte e significados ligados à saúde, longevidade e felicidade (divulgação)

Em tempos de isolamento social, ausência de esperança e horas que parecem passar cada dia mais devagar, a prática de elaborar origamis de tsuru pode ser uma boa alternativa, se tornando um ótimo passatempo e uma boa maneira de adquirir boas energias e pensamentos positivos. Isso porque essa dobradura carrega consigo uma história muito forte e significados ligados à saúde, longevidade e felicidade.
Traduzido para o português, a palavra significa “grou” ou “garça”, simbolizando explicitamente as altas aves de pernas finas e plumagem exuberante, com suas cores — preto, branco e vermelho — características e contrastantes que formam um degradê. Assim, devido à sua beleza e diversas lendas, esse pássaro é considerado sagrado e místico.
Os poderes de um tsuru são voltados principalmente à cura de doenças às pessoas hospitalizadas ou em estado de recuperação no lar, contudo podem e devem ser utilizados também para a prevenção e proteção, sendo indicados como uma espécie de talismã para combater o mal que angustia o mundo nesse momento de pandemia (2021).

As lendas do tsuru
A popularidade da longevidade dos tsurus possui duas lendas típicas do Japão que os consideram seres milenares e místicos, a ponto de, segundo as mitologias, serem capazes de viver por mais de 1000 anos.

A popularidade da longevidade das garças é contada em lendas (divulgação)

Talismãs de saúde e juventude
A primeira história afirma que os poderes de longevidade dos grous japoneses foram comprovados durante uma peregrinação na qual diversas aves da espécie acompanharam eremitas — religiosos que se isolavam da sociedade e seguiam para orar em altas montanhas —. Nesse período, muitas pessoas se impressionavam com a saúde e aparência dos monges, pois, apesar do longo tempo distante, esses se mantinham jovens e saudáveis. Assim, acredita-se que os pássaros companheiros foram os responsáveis por protege-los e retardar o processo de envelhecimento, se transformando em um talismã poderoso.

O retorno da garça
O segundo folclore marcante do Japão possui algumas variações e é conhecido por “A Gratidão da Garça” (Tsuru no Ongaeshi) ou “Esposa Garça” (Tsuru Nyōbō). Nesse conto, um camponês, que salva uma garça ferida por um caçador, recebe, na mesma noite, a visita de uma linda mulher que pede para se tornar sua esposa, mesmo ele não possuindo riquezas ou bens para lhe dar. Logo o rapaz aceitou e passou a ter uma rotina cada vez mais feliz, com uma boa companhia e comida boa e quente ao voltar do trabalho.
Após alguns dias, sua companheira se propôs a tecer uma peça especial feita com um material raro e de boa qualidade, que o marido poderia vender por um bom preço, porém seria feito em um quarto em que não devia ser vista ou espiada. Com a finalização do produto, a venda foi a parte fácil do processo, gerando mais encomenda que em breve era feita. Ao final do segundo e terceiro tecido, sua mulher se encontrava abatida e o preocupava cada vez mais, fazendo com que o moço não aguentasse mais de curiosidade e descobrisse que, na realidade, ao entrar no cômodo para tecer, a moça se transformava em uma garça que arrancava as próprias penas para criar a peça ideal.
Sendo descoberta, a mulher se explicou dizendo ser a grua que o homem salvou e que assim queria demonstrar o seu amor e gratidão, apesar disso, com a revelação, não podia continuar ao seu lado e, portanto, devia se despedir e ir embora, o que logo foi feito, para então nunca mais ser vista.

Variação do tsuru no ongaeshi
Uma alternativa dessa história conta que a garça foi salva por um senhor de idade e, na mesma noite, uma garota perdida visitou o lar do idoso e de sua esposa pedindo por abrigo e ajuda enquanto esperava a nevasca passar. Sem a estabilidade do clima e com os dias se passando, o casal se afeiçoou à menina que os cuidava tão bem, assim como ela passou a se sentir cada vez mais apegada, pedindo, então, para que pudessem morar juntos e se tornar uma família.
Da mesma forma que na lenda do camponês, a moça logo pediu para que pudesse tecer uma peça para que pudesse auxiliar na vida financeira da casa, mas sem ser vista e nem espiada, algo que durou por pouco tempo, já que a curiosidade da senhora foi crescendo cada dia mais. Assim, a menina apressadamente se explicou como sendo a grua resgatada e, imediatamente, partiu, os deixando para sempre.

Senbazuru: Os mil origamis e sua história
O senbazuru é a “Lenda dos Mil Tsurus” que oferece esperança e pensamentos positivos a quem tem algo a desejar, visto que há a crença de que, ao dobrar mil dessas aves em origami, é possível adquirir um desejo concedido pelos deuses ou benefícios mais específicos, tais como: felicidade, longevidade, boa saúde, sorte e vitórias. Essa superstição existe há tempos, a partir da ideia de grous japoneses que vivem por mais de 1000 anos, contudo só se tornou popular, em 1955, com a história de Sadako Sasaki.
Sadako foi uma menina que conseguiu escapar quase ilesa da bomba atômica de Hiroshima, junto com sua família, quando tinha 2 anos de idade. Apesar disso, após a tragédia, os sobreviventes situados próximos ao local foram expostos à chuva radioativa que, posteriormente, viria a manifestar suas consequências.
Até os 12 anos, a garota viveu bem, saudável e feliz, sendo uma das melhores corredoras da turma e almejando se tornar uma atleta. Entretanto, em janeiro de 1955, os efeitos da chuva contaminada surgiram em forma de tonturas, manchas pelo corpo e caroços, a internando e diagnosticando sinais clínicos de leucemia, uma das enfermidades conhecida por “doença da bomba atômica”. Isso porque muitas crianças, expostas aos resquícios da catástrofe, estavam morrendo, apresentando problemas de saúde semelhantes.

Torre dos Tsurus – Preocupada com a saúde física e emocional de Sadako, Chizuko Hamamoto, sua melhor amiga, a visitou e contou a história dos mil tsurus, incentivando que os fizesse e aumentando as expectativas sobre a melhoria de sua saúde. Mas, mesmo com muito esforço de amigos e parentes, em outubro do mesmo ano, a menina não resistiu e faleceu, completando apenas 644 tsurus, elaborados não apenas para si, porém também ao resto mundo, para que ninguém mais sofresse com as consequências de guerras, desejando mais “paz” escrito nas asas de cada origami.
Para homenageá-la, amigos e familiares criaram os restantes 356 grous que foram enterrados junto ao seu túmulo e formaram uma campanha que ajudou a construir um monumento em memória à garota e às vítimas da bomba, chamado de “Monumento das Crianças à Paz” ou “Torre dos Tsurus”, projetado no Parque de Hiroshima.
Devido a todas essas histórias, o tsuru se tornou um símbolo importante de paz, felicidade, saúde, esperança e amor, uma vez que se tratam de animais milenares e fiéis aos parceiros. Assim, é comum presentear um ou mais origamis de garças como forma de desejar boas energias e saúde ou mesmo decorar um ambiente para trazer proteção. Então que tal montar alguns nesse momento e desejar pelo bem mundial?
(Mariana Kisaki)

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