SHODÔ: Caligrafia oriental transformada em arte e cultura

Shodô é a representação da arte da caligrafia japonesa que traz consigo beleza, tradição e significado (divulgação)

Mais que meros ideogramas escritos sem prática e refinação, o Shodō é a representação da arte da caligrafia japonesa que traz consigo beleza, tradição e significado, expressando por meio das palavras o que há na alma.
Tal cultura possui uma rica história, contando com a contribuição da religião zen budista que busca promover o autoconhecimento e a iluminação do ser, conquistando bem-estar, paz interior e equilíbrio sem a necessidade de elementos exteriores, como bens materiais ou acontecimentos.
Com isso, o Shodō tem se tornado uma técnica capaz de tranquilizar e harmonizar corpo, mente e alma, ensinando ao indivíduo que até mesmo as coisas mais simples precisam de estudos e métodos para se atingir o ideal que atrai vislumbres e toca o coração de muitos, proporcionando o sentimento de realização e iluminação não apenas a quem executa, mas também a quem admira.

Originária da China, shodô teve início no Japão a partir do sec VI (divulgação)

História do Shodō
O Shodō é uma cultura originária da China, existente desde 1300 a.C., que teve seu início no Japão a partir do século VI. Seu surgimento se deu pela necessidade da padronização da escrita na administração do estado chinês, sendo estabelecido o método baseado em quadrados que aplica apenas oito traços com direções pré-determinadas, iniciando de cima para baixo, da esquerda para a direita.
A princípio, o traçado não continha expressões, uma vez que era utilizado um tipo de estilete afiado que mantinha os ideogramas em espessura fina e reta, manifestando ideias apenas por meio da forma do que era escrito, situação que se alterou com a criação do pincel que possibilitou novos contornos e intensidade.
A disseminação do Shodō ao Japão aconteceu por meio dos monges zen budistas que aprenderam a técnica chinesa copiando textos e poesias. Com o passar do tempo, a caligrafia foi adotada ao estilo japonês apresentando alterações em sua execução e objetivo, que passara de padronização para a busca pelo equilíbrio, o que justifica a tradução do seu nome que significa “caminho da escrita” ou “caminho da caligrafia”.
Embora a tradição seja antiga e pareça interessante para poucos, entre os japoneses é uma prática fundamental que proporciona paz e harmonia, de modo que se tornou uma obrigatoriedade na grade curricular de diversas escolas. Além disso, é recomendado que um dos primeiros passos da cerimônia do chá seja a admiração da caligrafia Shodō, já que essa será capaz de oferecer a concentração e serenidade essenciais ao preparo da bebida ideal.
Logo, se expressando ou apenas admirando, essa arte traz à pessoa a calmaria necessária para superar as dificuldades e tranquilizar a alma.

Para uma execução correta a escrita exige uso de materiais corretos (divulgação)

Execução correta da técnica
Como forma de passatempo ou meditação, o Shodō é uma prática que, embora possua regras e estilos, não se aprende apenas treinando, já que depende principalmente de uma mente concentrada nas palavras e vazia de preocupações. Assim uma de suas normas fundamentais tem relação com o traço espontâneo, não permitindo retoques e correções.
Além disso, para sua execução correta, é recomendado a escrita de ideogramas japoneses e o uso de materiais corretos, tais como: o fude (筆, pincel com cerdas de animal), o sumi (墨, tinta preta encontrada na forma de bastão ou líquida), o washi (和紙, papel de caligrafia feita de fibra de amora, arroz ou bananeira), o suzuri (硯, similar a um tinteiro), shitajiki (下敷き, tapete), bunchin (文鎮, pesos para o papel) e inkan (印鑑, carimbo para assinatura).

Shodô depende principalmente de concentração (divulgação)

Tipos de Shodō
Após a separação de todas as ferramentas, ainda é importante definir qual será o seu estilo de Shodō: Tensho (篆書), Reisho (隷書), Kaisho (楷書), Gyōsho (行書) ou Sōsho (草書).

  • Tensho: é o estilo pioneiro da cultura, tendo originado os demais. Sua característica principal são os traços uniformes, não apresentando mudanças de espessura no contorno;
  • Reisho: similar ao Tensho, possui sua diferença clara na espessura e fluidez dos caracteres;
  • Kaisho: atualmente é a fonte base aprendida em escolas primárias. É reconhecida pela forma quadrada dos ideogramas e traçados retos e firmes, de modo que é comparado à digitação em eletrônicos;
  • Gyōsho: conhecido por escrita semifluida, é semelhante ao Kaisho, porém é considerada um tipo de caligrafia legível e rápida, com linhas suaves e arredondadas;
  • Sōsho: ainda mais rápido e fluido que o Gyōsho, pode ser considerado um tanto quanto abstrato e itálico, pois, às vezes, pode se tornar algo incompreensível e de difícil leitura, representando assim as emoções e o vento que sopra sob o mato, explicando o motivo por ser reconhecido também como “escrita de capim”.

A escolha do tipo será essencial para a manifestação correta do significado da palavra e dos sentimentos a serem expressos, isso porque essa tradição implica na simbologia da vida. Essa que não é ensaiada, treinada e possui diversos momentos de altos e baixos, representados principalmente pelos traços e contornos, assim como os períodos de espera, similares às pausas tomadas entre uma pincelada e outra, e as retomadas que iniciam uma linha e finalizam a escrita.
Dessa forma, a questão principal do Shodō não é a perfeição, mas sim o quão significativo é a arte a quem vê e a quem fez.
(Mariana Kisaki)

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