RECICLAGEM NO JAPÃO: Conheça as medidas tomadas para diminuir o desperdício e aumentar o pensamento sustentável

A separação do lixo é uma das principais tarefas ao se iniciar o processo de reciclagem no Japão (divulgação)

A cada ano, o meio ambiente grita cada vez mais por socorro, pois seus esforços para se manter firme contra os atos humanos que a destroem já não são mais o suficiente. Pensando nisso e no lixo descartado diariamente nas ruas, a reciclagem no Japão e a consciência dos japoneses são exemplos a serem seguidos o quanto antes.
Mesmo o arquipélago japonês já teve seus dias de extrema sujeira e falta de responsabilidade com o mundo. Isso após o fim da Segunda Guerra Mundial (1939 — 1945), período em que houve o aumento da produção e do consumismo como forma de desenvolver a economia até então destruída com a derrota na guerra.
Em 1971, o governador de Tóquio, Minobe Ryōkichi, voltou a atenção da população sobre os inúmeros desperdícios causados, passando a buscar não somente uma solução para o lixo gerado pelo consumo em excesso, mas também a conscientização das compras e descartes responsáveis. Assim se iniciou um novo processo da elaboração de um estilo de vida que proporcionasse conforto e melhor qualidade de vida sem a necessidade do gasto e com o aumento da reciclagem no Japão, estimulada principalmente pela chamada filosofia Mottainai.

A partir do mottainai é possível analisar os padrões da sociedade (divulgação)

Filosofia Mottainai
O estilo de vida Mottainai não possui sua data de surgimento registrada, porém, acredita-se que seu conceito exista há milênios, pois, embora seja traduzido como “desperdício”, seu significado vai muito além, sendo importante à população que valoriza as poucas coisas da vida e crê no budismo e/ou xintoísmo.
Seu nome expressa sua ideia com precisão, visto que “mottai” representa a essência de tudo que há no universo, seja um elemento inanimado ou não, enquanto o “nai” é a negação da definição. Assim, ao uni-las, as palavras se aplicam aos ensinamentos das principais religiões japonesas: o shinto que afirma que tudo é habitado por um deus e o budismo que direciona à valorização dos esforços.
Com a prática dessa filosofia é possível compreender o motivo do combate ao desperdício, analisar os padrões de vida e consumo da sociedade, alterar maus hábitos e perceber a falta de reconhecimento dado aos esforços em busca de algo que desejava. Logo o Mottainai está presente em todos os sentidos, como o desperdício de: tempo, dinheiro, habilidades, esforços, comida, entre outras noções ligadas ao ser.
Ao fim da guerra e início da produção e consumo desenfreados, foi quase impossível não relembrar o estilo de vida dos ancestrais que davam valor a tudo e menosprezavam o desperdício. A partir de então, o país já não era mais o mesmo, e a consciência, responsabilidade e reciclagem no Japão passaram a ser assuntos sérios.

Quando o assunto é sustentabilidade, é essencial lembrar dos famosos “3Rs”: reduzir, reciclar e reutilizar (divulgação)

Regras de reciclagem no Japão
Quando é comentado sobre sustentabilidade, é essencial lembrar dos famosos 3Rs: reduzir, reciclar e reutilizar. Apesar disso, no caso da reciclagem no Japão, há outros dois a levar em conta: repensar e recusar. O repensar é o ato de analisar a real necessidade do produto e o recusar é a contrariedade ao consumismo excessivo e desnecessário.
Ao inserir esses pensamentos à sua rotina, ficará mais fácil evitar o gasto de tempo e dinheiro com itens de pouco valor à sua vida. Além disso, você estará reduzindo a quantidade de lixo gerada pela embalagem dos objetos, mas já que sabemos que nem toda compra é sem sentido, os japoneses criaram seu método de reciclagem acompanhado por algumas regras:

Japoneses são capazes de reciclar e reutilizar até 80% do lixo (divulgação)

Separar o lixo
A separação do lixo é uma das principais tarefas ao se iniciar o processo de reciclagem no Japão, isso porque a divisão por categorias facilitará o encaminhamento para o destino correto do elemento. Essa etapa possui diversas variações, de acordo com a província em que o indivíduo se encontra. Portanto é indicado se informar corretamente na prefeitura da cidade e adquirir um guia de reciclagem, assim dificilmente haverá erros de conduta.
Apesar disso, a fase de separar lixos possui padrões que normalmente divide os resíduos em:

  • Combustível: elementos que podem ser queimados, devem ser descartados 2 vezes por semana, tais como: papéis, madeira, restos de alimentos, pó, sachê de chá, tecidos, tampas de garrafas, rótulos, entre outros;
  • Não combustível: itens que não podem ser queimados e são coletados 1 vez por semana, como: objetos de plástico, pilhas, metais, cerâmicas, lâmpadas e cristais.
  • Reciclável: recolhido uma vez por semana, são as embalagens plásticas, papel, vidros, óleos orgânicos, jornal, papelão e latinhas.
  • Entulhos pesados: são os móveis, eletrodomésticos, bicicletas, tapetes, colchões e entre outros demais objetos do gênero que devem ser retirados individualmente, com a cobrança de uma taxa.
Japão busca reutilizar tudo o que for possível (divulgação)

Preparar para o descarte
Dentro de cada categoria, ainda há formas corretas de descarte e suas subdivisões de acordo com o material, assim é essencial conhecer a forma ideal para que seu lixo não retorne à sua porta.

  • Papel: considerando os jornais, revistas, panfletos, caixas de papelão e outros tipos de papéis, junte-os separando em grupos, amarre e coloque em caixas vazias ou sacolas, mantendo afastado de outros resíduos;
  • Garrafa: deve ser dividida de acordo com a cor e o material, vidro ou PET. Não se esqueça de retirar os rótulos e tampas, já que possuem materiais diferentes da garrafa, essa dica deve ser levada em conta também às caixas de suco e leite;
  • Metal: coloque em outro saco os alumínios e latas;
  • Objetos perigosos: tais como facas e vidros quebrados, devem ser bem embalados e rotulados, devendo indicar na parte externa do saco a necessidade de cuidado ao manuseá-lo;
  • Lixo incinerável e não incinerável: são divididos em sacolas diferentes que devem ser compradas em lojas de conveniência.

Antes de descartar, saiba que é fundamental lavar as embalagens e deixa-las secar, pois assim não haverá acúmulo de resíduos, liberação de odores indesejados e facilitará o processo de reciclagem.

Para o descarte, cada prefeitura tem suas próprias regras; dica é não deixar o lixo na porta de casa (divulgação)

Descartar nos dias e locais corretos
Para o descarte nos locais e dias corretos, é recomendado adquirir conhecimentos na própria prefeitura da província, uma vez que cada cidade tem suas regras. Contudo uma dica de ouro é não deixar os sacos de lixo na porta da residência, assim como é feito no Brasil, pois há áreas adequadas, conhecidas por centros de separação de lixo, que disponibilizam lixeiras com algumas instruções.

Destino do que é descartado
A reciclagem no Japão é muito conhecida pelo sucesso da cidade de Kamikatsu que é capaz de reciclar e reutilizar cerca de 80% de todo o lixo produzido no local, a partir da separação em 34 categorias. Esse exemplo vem sendo seguido por diversas outras cidades do arquipélago japonês, trazendo algumas boas notícias como a diminuição de desperdícios em Minamata, Oki e Hayama.
Outras províncias, porém, ainda seguem com o mesmo modelo de descarte, direcionando uma parte às incineradoras, outras para a reciclagem e as restantes são encaminhadas aos aterros. Entretanto não há com o que se desesperar, pois garrafas PET, plásticos, papéis e eletrônicos são reciclados, podendo ser utilizados na fabricação de novos produtos, enquanto que os materiais incinerados auxiliam com a produção de energia barata, construções e liberam menos gases e resíduos tóxicos ao ambiente.
Assim, de uma forma ou de outra, o Japão busca valorizar e reutilizar tudo o que for possível, diminuindo os desperdícios e os danos causados pelo consumismo consciente.
(Mariana Kisaki)

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