PROJETO MÃOS PELA PAZ: Em Minas Gerais, assistente social usa origami como ferramenta de reinserção social

Mãos pela Paz foi criado em 2014 e atendeu mais de 600 internos (arquivo pessoal/divulgação)

A assistente social e arte educadora Rosemary Ramos descobriu na técnica do origami – a milenar arte japonesa de dobrar papel – uma poderosa ferramenta para reintegrar presos de volta ao convívio da sociedade. Idealizadora do projeto Mãos pela Paz, criado em 2014 com o objetivo de “atender pessoas privadas de liberdade que cumprem pena em regime fechado e semiaberto”, Rosemary explica que um dos objetivos “é promover um trabalho mais extenso na área de reinserção social através da educação e multiplicação do saber em espaços culturais, além de abertura para negócios, pois o origami é uma rica fonte de geração de renda”.
Durante seis anos, entre 2014 e 2020, o Mãos pela Paz foi inserido em quatro unidades prisionais da Secretaria de Segurança Pública e Justiça de Minas Gerais e fez parte da grade de atividades laborativas da unidade, onde os participantes foram beneficiados pela remição da pena. Ou seja, a cada três dias trabalhados é retirado um dia da pena.
Segundo Rosemary, os participantes tiveram a oportunidade de multiplicar o aprendizado em eventos fora da Unidade Prisional. Ao todo foram 60 meses de atividades divididos em 940 encontros na unidade, com turmas de 12 participantes. Foram atendidos diretamente no projeto mais de 600 internos. “Atendemos quatro Unidades Penas, 15 oficinas externas, três exposições, cinco feiras de artesanatos, dois eventos da Pastoral Carcerária, dois eventos acadêmicos e dois eventos internacionais de promoção do Bem Estar, “World Wellness” Weekend”, diz ela, destacando que até novembro de 2020, atividades do projeto foram subordinadas à Diretoria de Humanização e atendimento do Ceresp -– Centro de Remanejamento do Sistema Prisional de Betim (MG).

Rosemary Ramos: “Vivi muitas histórias que jamais esquecerei” (arquivo pessoal/divulgação)

A última exposição foi entre agosto e outubro de 2019, no Museu Mineiro, em Belo Horizonte, e levou o nome de Vidas Interrompidas, uma homenagem às vítimas dos rompimentos das barragens da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, e do Fundão, em Mariana, por meio da arte do origami. Foi também uma homenagem às cidades japonesas atingidas pelas bombas atômicas, Hiroshima e Nagasaki.
De acordo com a educadora, os detentos – 40 custodiados –   tiveram apenas cinco meses para aprender sobre Hiroshima e Nagasaki e confeccionar cerca de duas mil peças de origami em forma de flores, pássaros, peixes, borboletas, entre outros seres vivos que sucumbiram sob o mar de lama.
Ela conta que, “dentre os inúmeros benefícios que o origami tem a oferecer na prevenção à criminalidade, posso citar o desenvolvimento de memória seqüencial, de modo a produzir o modelo desejado, onde o participante tem de seguir determinadas etapas em ordem”. Para ela, a manipulação repetida de papel na ordem certa ajuda o participante a compreender a importância da seqüência.

Virada Cultural – Outro evento que ela guarda com bastante carinho foi a participação no projeto na Virada Cultura realizado em 2014 no Parque Municipal, na capital mineira. Na ocasião, cinco detentos deram aulas para cerca de 300 interessados, entre elas, muitas crianças. “ Foi o maior desafio da cadeia e o convite gerou várias reuniões, pois a diretoria não achava seguro e a facilidade para uma fuga era muito grande. Foi necessário solicitar autorização do juiz responsável que, com muita insegurança autorizou. Providenciei uma blusa personalizada e solicitei calças e tênis para os internos autorizados, porém, a diretoria não autorizou porque não achava certo o preso ir para a sociedade sem o uniforme da Suapi [Subsecretaria de Administração Prisional], mas permitiu a blusa. Então, convoquei a equipe para que todos fôssemos com calças vermelhas e chinelos, assim como eles. E assim foi”, diz a educadora, lembrando que que, para a exposição, fez uma “enorme pesquisa em vídeos, filmes, depoimentos, fotos”
“Era minha oportunidade de fazer algo mais representativo, uma exposição temática. Escolhemos o tema Vidas Interrompidas e a Secretaria de Turismo nos auxiliou com o espaço que foi o Museu Mineiro. A escolha do tema foi o depoimento de um japonês que disse não ter espelho em casas para não ver as cicatrizes. Um dos internos falou: nossa, então os que sobreviveram em Brumadinho, nunca mais vão gostar de ouvir a palavra lama. Foi forte”, recorda.
A exposição foi um sucesso. “Realizamos oito oficinas de origami para o público em geral. Aos finais de semana um origamista ficava no salão de exposição para explicar as três obras: Vida, morte e renascimento’”, conta Rosemary, reforçando que o projeto fez parte da grade de atividades laborais dos detentos, ou seja , o origami passou a ser visto como um labor, e os participantes frequentavam diretamente o ateliê durante seis horas diárias.

Oficina realizada dentro do projeto Virada Cultural no Parque Municipal de Belo Horizonte (arquivo pessoal/divulgação)

Seleção – Segundo ela, a seleção do público que demanda a participação neste projeto é feita pelas Comissões Técnicas de Classificação. “A maioria dos participantes solicitam para participar do Mãos pela Paz e seus pedidos são encaminhados para a comissão. Recebia diariamente inúmeros pedidos. O ateliê de origami, era como se fosse um paraíso, o espaço do saber. Era muito comum levarem textos enormes sobre a cultura japonesa para as celas. Além de estudarem, multiplicavam o conhecimento adquirido”, diz.
Para participar dos workshops externos, conta, o participante era avaliado pelos membros do ateliê. “Então, todos tinham que ler os textos para avaliarem o nível de conhecimento do interessado. Era comum também falarmos os nomes das peças aprendidas em japonês. Diariamente eram atendidos 10 alunos por turno, ao todo 20 por dia”, observa Rosemay, acrescentando que, “quando o origamista é transferido, a sua pasta já vai contendo a informação que ele é origamista e este labor pode acompanha-lo até o fim do seu cumprimento de pena, se assim eles desejarem”.

Potencial – Ela explica que “o projeto não tem a intenção de formar artistas e sim desenvolver a potencialidade de cada um, criar espaços e mecanismos para os participantes expressarem suas angústias, medos, sonhos, ansiedades, resgate e manutenção dos vínculos familiares e principalmente a autovalorização e o planejamento para o retorno ao convívio social com novos valores e comportamentos”.
“Com este projeto foi possível utilizar a técnica do origami de uma forma educativa, produtiva e transformadora. Cada peça de origami confeccionada, representa os anseios e emoções daqueles que possuem talento e precisam despertar novos valores para o retorno ao convívio social. Surgiram participantes que destacaram pela compreensão da técnica e facilidade de transmitir o conhecimento e suas habilidades foram valorizadas e enriquecedoras”, diz Rosemary, garantindo que hoje o origami é a sua vida.
“Não consigo viver sem. O origami me trouxe renovação e resiliência. Entrar em uma unidade prisional e ficar trancada com 12 internos durante horas é um grande desafio. Vivi muitas histórias lá dentro que jamais esquecerei. Os vínculos familiares resgatados, a despedida dos que ganhavam a liberdade, mas se comprometiam em continuar dando oficinas, os pedidos para levar a blusa do projeto de lembrança, o nervosismo nos rostos deles quando tinham que dar as primeiras oficinas… Aprendi muito, vi que você pode até cometer um crime muito grave, mas a essência está lá, e o origami me ajudou a resgatar muitos humanos que estavam atrás de uma couraça. Quase uma lapidação”, emociona-se Rosemary, que só veio a descobrir a técnica em 1994.

Transformação – Natural de Jacinto, no Vale do Jequitinhonha, Rosemary, atualmente com 54 anos de idade, é enfática ao afirmar que “o origami me salvou”. “Em 1989 concebi minha filha Iza e a maternidade me transformou. Em 1994 larguei tudo para criar minha filha. Sou adotada e para mim, aquela conexão era muito importante, mas veio a questão financeira que me trazia inquietude em relação a minha escolha. Nesse mesmo ano, conheci a Ana Cerqueira, e ao fazer uma visita em sua casa, percebi que ela tinha uns passarinhos de papel sobre a mesa. Me chamou muito a atenção, e logo perguntei o que era, ela já tinha papel japonês e fez um tsuru para eu ver a técnica. Fiquei encantada. Cheguei em casa e fiquei até 5h da manhã tentando, sem conseguir. Voltei em sua casa e a Ana me corrigiu”, conta.
E a paixão pelo origami só cresceu. “Logo depois uns amigos do grupo Uakti foram ao Japão apresentar um show musical e trouxeram um livro que ensinava caixas em origami. Peguei emprestado da Ana e tirei cópias. Como a explicação estava toda em japonês, treinei a leitura dos diagramas. E isso me auxiliou muito e despertou minha visão espacial. Meu interesse foi aumentando e consegui outros livros para tirar cópias. Quando meu esposo fez sua primeira viagem internacional para Alemanha, ele trouxe meus primeiros livros originais de origami”, diz.
Em 1996 ela já estava ministrando aulas de origami para crianças nas escolas do bairro. “Ai fui atuar no Programa Curumim, que atendia crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Lá eu passei a ver o origami com um olhar diferente e passamos a trabalhar cenários para teatro e decoração de festividades da instituição”, observa.
Em 1999 foi convidada para criar seu primeiro ateliê em um centro Sócio educativo, que atendia adolescentes internados, que cometeram atos infracionais. “Foi uma experiência incrível. Todas as celas eram decoradas com origami”, diz, acrescentando que nesse mesmo ano, sua filha, então com nove anos de idade, passou a dar aula de origami em um programa infantil da TV horizonte.

3D – Em 2000 foi trabalhar no Sesc, onde foi possível levar o origami para 15 escolas públicas com aulas duas vezes por semana. Como aluna do curso de Serviço Social na pontifícia Universidade Católica (PUC), passou a apresentar seus trabalhos acadêmicos utilizando o origami para ilustração e logo foi convidada para atuar no Programa Bolsa Dignidade, que atendia crianças e adolescentes com dificuldade de aprendizado.
Em 2001 concluiu o curso e passou a trabalhar como funcionária e responsável pelos eventos e projetos culturais da PUC na cidade de Contagem. “Além desse programa, foi possível dar oficinas para o grupo da melhor idade, que tinha como participante o Sr. Taketa , que faleceu este ano aos 100 anos”, lembra.
Em 2011 como funcionária da PUC coordenou o projeto O ser atrás das Máscaras, que tinha como objetivo preparar os internos da penitenciária Nelson Hungria para o retorno social. “Como ferramenta utilizei o origami, o que incentivou e muito a participação de todos. O projeto durou um ano e foi desafiador e muito enriquecedor”, observa.
Em 2012 foi convidada para ser integrante da equipe técnica da Secretaria de Justiça e Defesa social. “Fui para um presídio na cidade de São Joaquim de Bicas e infelizmente a diretora não entendeu minha proposta, o que impossibilitou de introduzir o origami na Unidade”, explica.
Foi então que começou a trabalhar no Ceresp, em 2013. “No meu quinto dia vi um detento levando para a psicóloga um patinho 3 D feito com folha de caderno para presenteá-la. Fui até ele e perguntei o que era, e ele disse-me que era um patinho de papel e que muitos detentos faziam igual. Quatro dias depois fui convidada para fazer uma exposição de origami para um evento da FIEMG. Aproveitei a chance e pedi minha primeira reunião com a diretoria. Eu só tinha um mês para fazer todas as peças. Sugeri a eles que se eu fizesse uma pesquisa na unidade eu conseguiria uns 10 internos que já fazem patinhos de papel para me ajudar e levaríamos a exposição como atividade de reinserção social. Foi aceito na hora e no outro dia eu já tinha 10 artesãos”, conta Rosemary.

Continuidade – Para este ano, sua intenção é dar continuidade ao projeto, mas desta vez em unidades femininas – trabalho iniciado em 2020 mas que, infelizmente, foi interrompido por causa da pandemia, “justamente no momento em que estávamos no nosso auge”. Segundo ela, a Japan House do Japão já havia solicitado para que a casa de São Paulo entrasse em contato com ela para uma possível exposição.
“Os professores estavam super animados da possível ida a São Paulo pois querem conhecer o bairro japonês”, diz, explicando que a pandemia a fez refletir e ver que estava na hora de ampliar o projeto para a prevenção, “pois eu conheço a cadeia do Brasil e sei como é”.

OrigAmar – “Recebi apoio do Antônio Marcos Lerbach, professor de vôlei que atualmente está morando no Japão para escrever o projeto origAmar, que tem como objetivo principal a prevenção à criminalidade e geração de renda através do origami para adolescentes em situação de vulnerabilidade social”, explica.
O próximo passo é captar recursos. “Estamos buscando financiadores para espalharmos esta técnica incrível para outros cantos de Minas Gerais, principalmente o Vale do Jequitinhonha, que é muito carente de recursos e projetos. Penso que o origami vai ajudar e muito tirar os jovens que estão cada vez mais entrando para o mundo do crack”, diz ela, afirmando que “todos os professores – como se refere aos detentos origamistas – foram cumprir o restante das penas em suas casas e isso só foi possível pelo bom empenho ao trabalho no projeto Mãos pela Paz e disciplina”. “Eles estão prontos para atuarem como pessoas livres”, garante Rosemary, explicando que durante esses anos, o projeto só foi possível graças a ajuda de gráficas, pastoral carcerária e venda dos produtos em feiras.
“Além do meu auto patrocínio com as blusas, banner, cartão de visitas, transportes, papéis japoneses e outras despesas que tinha para dar uma visibilidade para o projeto”, diz Rosemary, que foi nomeada “Embaixadora do Bem-Estar do Vale do Jequitinhonha” e está terminado de ler o livro “Corações Sujos”, de Fernando Morais.

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