‘Precisamos, sim, manifestar nosso apoio e tentar eleger os bons políticos nikkeis’, diz Renato Ishikawa em vídeo ao 9º Simpósio Virtual do Movimento Político Nikkei

Idealizado em 2018 com o objetivo de “valorizar o político nikkei e as entidades japonesas”, o Movimento Político Nikkei atinge seu 9º Simpósio “com o princípio de melhorar o país, usando usos e bons costumes”, nas palavras de seu fundador, o ex-deputado estadual Hatiro Shimomoto.
Deste encontro, realizado em formato online por conta da pandemia, participaram o cônsul geral do Japão em São Paulo, Ryosuke Kuwana, o empresário e presidente do Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), Renato Ishikawa, e o ex-deputado federal e atualmente presidente da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), Walter Ihoshi.

Walter Ihoshi é o primeiro nikkei a presidir a centenária Jucesp (arquivo/Jiro Mochizuki)

Ihoshi que, aliás, apresentou um vídeo institucional da centenária Junta Comercial com a sua história desde que a instituição doi fundada, em 19 de julho de 1890, até os dias atuais.
Subordinada tecnicamente ao Departamento de Registro Empresarial e Integração – DREI, órgão ligado à Secretaria Especial da Micro e Pequena Empresa, a qual compõe a estrutura do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, a Jucesp é um órgão estadual que, em janeiro de 2011, passou a integrar a estrutura da Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, com o objetivo de alinhar seu trabalho às políticas públicas de desenvolvimento econômico, desburocratização e incentivo ao empreendedorismo.
Das 27 juntas comerciais do país, a Jucesp é a primeira colocada no ranking do Sistema Nacional de Registro Mercantil respondendo por cerca de 42% de toda a demanda nacional.
Ihoshi, que assumiu a Presidência em fevereiro de 2019 a convite do governador João Doria (PSDB) com o desafio de modernizar a entidade, é o primeiro descendente de japoneses a ocupar o cargo. Entre outras conquistas, Ihoshi falou sobre o Balcão Único, sistema implementado pela Jucesp em parceria com o governo federal e o município de São Paulo em que o empreendedor consegue abrir uma empresa em apenas 30 minutos.

Junta 100% Digital – Com o lançamento do Balcão Único, explica Ihoshi, a ideia é melhorar significativamente a posição do Brasil no ranking de abertura de empresas do Doing Business, projeto do Banco Mundial que mapeia, objetivamente, as regulações aplicáveis a empresas locais em 190 diferentes países do mundo, de 40 a 60 posições, o que, na prática, propiciará um ambiente atrativo para os investidores nacionais e estrangeiros.
Por fim, Walter Ihoshi disse que está nesse desafio de tornar a Junta Comercial do Estado de São Paulo “100% Digital” e que assumiu um compromisso com o desenvolvimento econômico do Estado de São Paulo.

Kuwana: “Japão e Brasil compartilham os mesmos valores básicos” (arquivo/Jiro Mochizuki)

Parlamentarismo – Em seu vídeo, o cônsul geral do Japão em São Paulo, Ryosuke Kuwana falou sobre sua trajetória e sobre política no Japão. Em sua introdução, abordou o sistema parlamentarista – “um sistema político diferente do presidencialismo, que existe no Brasil”. Ele lembrou que esse sistema, o parlamentarismo, foi adotado também no Reino Unido e na Alemanha, entre outros países.
Segundo Kuwana, a Dieta – órgão de poder supremo do Estado – consiste na Câmara dos Representantes – equivalente à Câmara dos Deputados – e na Câmara dos Conselheiros – equivalente ao Senado, sendo que os membros da Câmara dos Representantes têm mandatos de 4 anos e os Conselheiros de 6 anos.
O cônsul explicou que é o povo que escolhe os membros do Parlamento e que o primeiro-ministro é eleito por eleições mútuas entre os membros do Parlamento. “O líder do partido com maioria geralmente é nomeado primeiro-ministro”, observou, lembrando que o premiê deve ser membro do parlamento, bem como a maioria dos ministros.
Como exemplo, citou o atual primeiro-ministro japonês, Yoshihide Suga, que foi eleito oito vezes membro da Câmara dos Representantes. “Antes, ele foi vereador na cidade de Yokohama”, contou.
Outro politico – esse bem mais conhecido dos brasileiros – o vice-primeiro-ministro e ministro das Finanças, Taro Aso, foi eleito 13 vezes.
Diferentemente do Brasil, onde o presidente é eleito através de eleições diretas e muitos dos ministros são tecnocratas.

Guerra fria – Ryosuke Kuwana falou também sobre a história da política contemporânea do Japão e sobre o surgimento do esquema chamada “sistema 1955” e que manteve o Partido Liberal Democrata (PLD) no poder por um longo período.
Os principais temas de debate político nesse período foram os relacionados à segurança, como a criação da Força de Autodefesa – ou, em outras palavras, o rearmamento do Japão depois da Segunda Guerra – e o Tratado de Segurança Japão-EUA.
Esse sistema, conta Kuwana, durou cerca de 40 anos, coincidindo com o período da guerra fria. Em 1993, o PLD perdeu a maioria na Câmara dos Representantes dando início, assim, a um novo governo de coalização formado por oito partidos de oposição, mas que não chegou a ficar muito tempo no poder. “Depois disso, o PLD voltou a dominar a cena política ao estabelecer um governo de coalização com o Partido Socialista – coincidentemente adversários políticos durante muitos anos.
“Desta forma, o PLD voltou ao poder em 1996 e continuou assim até 2009, quando o Partido Democrático do Japão venceu as eleições gerais. “Foi um acontecimento marcante mas cujo poder durou apenas três anos e, durante o seu governo, enfrentou o Grande Terremoto do Leste do Japão, em 2011”, lembra o cônsul, acrescentando que o PLD voltaria ao poder em 2012, estabelecendo o mais longo governo na história política moderna do Japão liderada pelo então primeiro-ministro, Shinzo Abe.

Democracia – Como se sabe, Abe teve que renunciar no ano passado por motivo de doença e para o seu lugar foi nomeado Yoshihide Suga, que está até hoje. “Como podem ver, no Japão dom pós-guerra ocorreu uma transição pacífica de poder. Também podemos ver que a política doméstica está relacionada com a política internacional. Embora a história política do Brasil seja diferente da do Japão, também [aqui] houve mudança de poder entre a direita, o centro e a esquerda”, conta, afirmando que “uma transição pacífica é uma prova do funcionamento da democracia.
“Para que uma democracia funcione, os valores básicos como a liberdade de pensamento e de expressão, a liberdade de imprensa e o sufrágio devem ser garantidos. Esses valores são conquistas importantes que a humanidade alcançou ao longo da história”, explicou Ryosuke Kuwana, lembrando que, em janeiro deste ano, o Brasil recebeu a visita do ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão, Toshimitsu Motegi.

Valores básicos – “O chanceler Motegi se reuniu com o presidente Jair Bolsonaro e com o [então] chanceler Ernesto Araújo para confirmar que o Japão e o Brasil compartilham não somente laços de amizades tradicionais, como a comunidade nipo-brasileira, mas também valores básicos como o estado de direito, a liberdade e a democracia. E que concordam trabalhar juntos como parceiros estratégicos globais para manter e fortalecer uma ordem internacional livre e aberta baseada no estado de direito”.
E Ryosuke continuou sua aula afirmando que “no mundo globalizado de hoje, tudo está relacionado e nenhum país pode viver sozinho”.
Por isso, disse, é “muito natural” que países que compartilham esses valores básicos trabalhem juntos. “Embora o Japão e o Brasil estejam geograficamente bem distantes, é natural que Japão e Brasil cooperem na diplomacia global de acordo com estes valores básicos compartilhados”. E finalizou afirmando que pretende se empenhar, “junto com a comunidade nikkei, para um maior desenvolvimento da comunidade nipo-brasileira, o maior fortalecimento das relações entre o Japão e o Brasil e para a paz e a prosperidade internacional”.

Falando em seu nome pessoal, Renato Ishikawa deu uma aula sobre política e história (arquivo/Jiro Mochizuki)

Renato Ishikawa – Também Renato Ishikawa, presidente da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo) deuuma verdadeira aula e levantou questões polêmicas, entre elas, “se a comunidade nikkei, que goza dos melhores conceitos junto à sociedade, porque tem poucos representantes junto ao poder político?”
E prosseguiu: “O que falta para a comunidade nikkei chegar a exercer um papel significativo nesta área como acontece em outros setores da sociedade?”
Confira os principais trechos da explanação de Renato Ishikawa:
“Antes de tudo, é importante destacar que estou falando em meu nome pessoal, não como presidente de uma entidade representativa da comunidade nipo-brasileira. Minhas colocações resultam de minha convivência como profissional e voluntários junto a várias associações”, frisou antes de contar que, “historicamente, temos a tradição de trabalho coletivo e união que foi uma das condições essenciais para adaptar-se às condições da nova terra. Podemos afirmar que esse legado de nossos pioneiros até hoje persiste na maioria das entidades nipo-brasileiras”.
Assim, partindo dessa premissa, porque esse coletivismo não se traduz em votos para os candidatos descendentes de japoneses?”, indagou Ishikawa, que traçou um perfil da comunidade ao longo dos anos traçando um paralelo com a participação política dos nikkeis.
A partir da década de 1940, registramos o início de uma participação política que ao longo dos anos será bastante irregular.
Nesse processo, é interessante destacar a presença histórica de três políticos, todos já falecidos, e que ressaltam a longevidade da atuação deles.
Em 1955, a eleição de Yukishigue Tamura como o primeiro deputado federal foi bastante festejada – a presença de um nipo-brasileiro na Câmara Federal era motivo de orgulho e apoio unânime.
Tamura, que teve uma trajetória política peculiar, foi eleito vereador em São Paulo, em 1947, com amplo apoio da comunidade nipo-brasileira, em especial dos tintureiros e beisebolistas. Em 1951 tornou-se deputado estadual e, em 1955, chegou à Câmara Federal aos 39 anos de idade, como um dos mais jovens parlamentares ao cargo.

Esforço coletivo – Quando falamos do esforço coletivo é interessante a estratégia usada pelos tintureiros na campanha eleitoral – nos bolsos das roupas que passavam pela lavandeira, na entrega, eram colocados um “santinho” do candidato Tamura.
Depois de Tamura, seguiram-se outros, alguns deles exerceram longos mandatos. Diogo Nomura, eleito vereador em 1951, em Marília; em 1962 tornou-se deputado estadual e, em 1970 assumiu a Câmara Federal, prosseguindo até 1995, após várias reeleições.

Outro nipo-brasileiro foi Antônio Ueno que, em 1955, eleito vereador em Assaí, e em 1967 assumiu primeiro mandato como deputado federal, prosseguindo até 1999 depois de várias reeleições.
Mas, enfim, ao comentar sobre a questão anterior, existe uma frase interessante. Por diversas vezes, ouvi: “nikkei não vota necessariamente em candidato nikkei”.
Isso será verdade? Então porque alguns políticos conseguiram se reeleger por longos mandatos, como aconteceu com Yukishigue Tamura, Diogo Nomura e Antonio Ueno? Ou ainda, como o sempre deputado estadual Hatiro Shimomoto que atuou na Assembleia Legislativa de São Paulo de 1971 até 1999, ou seja, por seis legislaturas, e, ainda continua com toda energia liderando diversas iniciativas, como este presente Simpósio.
Não sou estudioso do tema, mas pela convivência com os membros de diversas localidades e entidades, gostaria de fazer algumas colocações.
Como sabemos, as entidades reunindo originários dos países do Eixo, e, nesse caso os japoneses estavam incluídos, foram proibidas com o advento da Segunda Guerra.
Terminado o conflito em 1945, novas associações foram organizadas, sendo que na maioria delas, seu estatuto proibiam internamente as manifestações e/ou participação política. Tenho a impressão que, depois, nas décadas seguintes, com o governo militar, esse item continuou sendo respeitado.
Para ele, os políticos eram bem-recebidos nas cerimônias e eventos festivos considerados especiais, mas não havia uma iniciativa de estabelecer uma aproximação mais efetiva deles junto à entidade.
É fato que, historicamente, as entidades nipo-brasileiras têm procurado se manter distante da questão de participação político-partidária.

Iniciativa pessoal – Embora alguns manifestem apoio a determinados candidatos em determinadas eleições, isso acaba sendo uma iniciativa pessoal. Em geral, as entidades têm optado pela neutralidade política.
Nos dias atuais percebemos em nossas entidades uma aproximação de vários candidatos em busca de apoio junto às entidades na época das eleições. Isso tem criado certo congestionamento de candidatos, nikkeis ou não, em busca de apoio e que acaba diluindo essa força eleitoral e acaba gerando muita frustração.
Ocorre que hoje, ao mesmo tempo, as lideranças das entidades já não conseguem um apoio unânime, coeso de seus membros para suas escolhas.
Acredito que, em grande parte das entidades, observamos uma mudança na liderança geracional delas (uma geração mais nova). Mas, mesmo assim, podemos admitir que no momento do voto, nem sempre prevaleceu simplesmente a indicação do presidente.
Assim, levando-se em conta essas condições, existem alternativas para o movimento de valorização dos políticos nikkeis e das entidades nikkeis?
Acredito que sim. Está na hora de deixar de lado aquela antiga ideia de que não podemos nos manifestar nosso apoio político. Precisamos, sim, manifestar nosso apoio e tentar eleger os bons políticos nikkeis.
Como argumenta nosso sempre deputado Hatiro Shimomoto, necessitamos “orientar as entidades nikkeis para incentivar a participação dos associados e o ingresso na vida parlamentar em todos os níveis”. Ressalta que “a razão direta disso é porque as leis são feitas pelos políticos e, com a participação de bons políticos nikkeis, poderemos melhorar a sociedade brasileira através de usos e bons costumes”.

Bons frutos – Precisamos, no seio de nossas entidades, começar a tratar dos assuntos políticos como buscamos conversar sobre outros temas. Será difícil chegar a uma unanimidade, mas acredito que essa discussão de maneira organizada e bem conduzida poderá produzir bons frutos.
Ao mesmo tempo, criar oportunidades para despertar o interesse e estimular a formação de uma nova geração de políticos comprometidos com a comunidade nikkei.
Penso que o político que optar por uma atuação unicamente centrada na comunidade nikkei estará cometendo um suicídio político. A comunidade está amplamente integrada, atuando em diferentes setores da sociedade. Da mesma forma, os anseios políticos dessa comunidade, principalmente da geração mais jovens, está identificada com o amplo espectro de valores, reivindicações e expectativas gerais da sociedade.
Assim, acredito que seria importante um projeto de compromisso de ambas as partes: o tema da participação política poderia fazer parte do cotidiano das entidades nikkeis; ao mesmo tempo, estabelecer meios para que os políticos além de nossos eventos, também possam participar ativamente de nossas realizações e planejamentos.
As associações nipo-brasileiras que, num primeiro momento, foram criadas para atender às necessidades, de adaptação à nova pátria, agora, têm de atender aos novos tempos. Juntamente com as necessidades de sua comunidade, de intercâmbio Brasil-Japão, também deve ter os olhos voltados para as necessidades de uma sociedade mais ampla.
Quando me refiro a criar condições de participação efetiva da comunidade, imagino estimular a participação em projetos variados (sociais, assistenciais, culturais).
Imagino que a difusão da cultura japonesa deve ser uma prioridade, mas é desejável que se abra um leque mais amplo de projetos. Na pandemia, tivemos, por exemplo, uma incrível ajuda da comunidade para o fornecimento de alimentos (como o projeto Água no Feijão). Trabalhos semelhantes poderiam ser planejados estimulando a participação de toda a comunidade nikkei.
Mais iniciativas, tal como a limpeza das ruas e praças do bairro, poderiam ser organizadas, contando com o apoio e participação de políticos, conduzindo não só a ação da limpeza propriamente dita, como também, de difusão de conceitos de preservação do ambiente em que vive.

Projeto Geração – Minha expectativa, ao mesmo tempo, é de que não fiquemos somente em iniciativas pontuais, mas na elaboração de um projeto que também pode ter abrangência estadual, federal.
O Bunkyo, por meio da Comissão Kakehashi Brasil-Japão, promoveu o Dia Internacional do Nikkei em 2019. Na ocasião, com o Projeto Geração realizou uma série de incursões junto às varias comunidades nikkeis e levantou os oito valores legados de nossos ancestrais e que ainda persistem em nossa comunidade.
São eles: Perseverança, Integridade, Gratidão, Coletividade, Respeito, Responsabilidade, Gentileza e Educação. Acredito que estimular e difundir sua prática junto à sociedade por meio de diferentes projetos seria de grande valia nos dias atuais.
Acredito que as iniciativas para o desenvolvimento desses projetos carregam consigo não somente a possibilidade de valorização dos políticos nikkeis e de nossas entidades, como também traz à tona o sentimento de “pertencimento” dos nipo-descendentes de várias gerações. Sentimento de estar profundamente comprometido com os destinos desta não que também lhe pertence”.

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