PASTEL DE FEIRA E OS JAPONESES: A imigração pós-guerra e seu gostinho a mais na gastronomia brasileira

Famoso pastel de feira foi adaptado ao paladar dos brasileiros (divulgação)

O pastel e os japoneses possuem uma relação tão forte entre si que para muitos parece apenas coincidência devido à grande quantidade de famílias orientais vendedores dessa famosa fritura de feira, além das típicas piadas de mau gosto que se referem aos asiáticos com as falas “pastel de flango” ou “família de pasteleiros”.
Na realidade, a história entre ambos anda de mãos dadas, desde o surgimento desse alimento até a sua fama e preferência por diversos brasileiros e turistas que se deliciam com essa refeição rápida sem igual.
A popularidade do pastel e dos japoneses só cresceu, porém por causa de uma pequena mentira motivada por preconceito e medo, gerados após a Segunda Guerra Mundial, período em que alguns imigrantes fugiam e se escondiam em busca de uma nova vida e um novo lar.

Paixão teve início nas feiras livres (divulgação)

Feiras livres anterior ao pastel e os japoneses
Atualmente, as feiras livres têm seu lugar no coração de diversos brasileiros como o ponto semanal de compra de legumes, frutas, verduras, flores e algumas bugigangas por preços mais acessíveis e boa qualidade, apesar disso, nem sempre foi assim, visto que tudo começou, no Brasil, entre o século XV e XVI com o surgimento da expansão marítima.
Esse modelo de comércio apresentou seus primórdios, em países europeus, durante a Idade Média, estando relacionado às festividades religiosas como uma maneira de auxiliar na venda de produtos artesanais em locais públicos, de forma a ser nomeado com inspiração na palavra em latim “feria”, traduzida como “dia santo” ou “feriado”.
Com a popularidade do negócio e a constante imigração, as feiras livres brasileiras foram promovidas com o intuito de proporcionar a interação social e troca de produtos peculiares de diferentes povos e países. Assim, foi criada a Feira de Mercado que ocorria todo sábado para a venda à população e a Feira de Gado, organizada duas vezes ao ano para o comércio de bens de regiões distintas.
O mercado público logo se tornou parte da cultura brasileira, sendo o ambiente de turismo, compra frequente e relacionamento saudável entre fregueses e comerciantes, além de ser uma área de lazer para degustação de alimentos próprios da tradição, como o famoso pastel de feira e a cana-de-açúcar.

Popularização possibilitou o surgimento de pastelarias (divulgação)

Origem do famoso pastel oriental
O pastel de feira e os japoneses, assim como os chineses, possuem uma forte relação que começa antes mesmo dessa fritura ter se transformado num dos maiores vícios dos brasileiros, iniciando ainda em 1840. Nesse período, os chineses surgiram com a adaptação do popular rolinho primavera oriental, elaborando o pastel que até então era recheado com carne de porco.
A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, houve a grande imigração dos japoneses ao Brasil, em busca de uma nova oportunidade de vida e crescimento, contudo havia uma barreira que os impedia: o preconceito, gerado devido à aliança do Japão com países do eixo que apoiava a Alemanha nazista. Logo, para conseguir o crescimento desejado entre os brasileiros, esses novos imigrantes se envolveram no comércio da fritura de feira, omitindo suas origens, se disfarçando em meio aos estabelecimentos chineses e garantindo uma vida mais pacífica no país, já que ainda nessa época poucos sabiam diferenciar as características dos orientais.
A vinda do povo japonês trouxe consigo um novo hábito e uma nova paixão: as idas às feiras para saborear os pastéis que, em 1940, se tornaram famosos devido à nova alteração, moldada de acordo com as preferências da população, oferecendo como recheio a carne de vaca e dando mais crocância ao alimento, ao fritá-lo.
Essa popularização possibilitou o aparecimento de pastelarias e novas barracas nas feiras, que muitas vezes eram repletas de famílias japonesas que vendiam não apenas os pasteis, mas também hortaliças, frutas e legumes.

Receita é simples e fácil (divulgação)

Receita
O que muitas pessoas não entendem até hoje é o que há nos pastéis japoneses que não se encontra em nenhum outro. Uma prova da popularidade dessas frituras é possível ver até nos nomes de alguns estabelecimentos que levam os sobrenomes orientais, porém não possuem nenhum funcionário de descendência asiática. Assim, se não é possível carregar o sangue japonês nas veias, então por que não seguir algumas ideias?
Para começar o pastel de feira perfeito, separe alguns ingredientes para a massa:

  • 400g de farinha de trigo
  • 1 colher de chá de sal;
  • 1 colher de sopa de óleo;
  • 1 colher de sopa de vinagre branco;
  • 1 colher de sopa de cachaça (o segredo para a massa crocante perfeita);
  • 200ml de água morna.

Referente ao recheio, você pode escolher o que mais te agrada, mas o mais comum e popular em 1940 era o de carne bovina, então que tal tentar:

  • 500g de carne moída;
  • ½ cebola em cubos;
  • 1 colher de sopa de óleo;
  • 1 alho;
  • 1 tomate em cubos;
  • Sal, pimenta e salsinha a gosto;
  • Azeitonas sem caroço, se desejar.

Para o preparo da massa, una em uma tigela 300g de farinha de trigo juntamente com todos os demais ingredientes. A seguir, comece misturando com uma colher para homogeneizar todos os elementos e formar uma espécie de liga. Assim que estiver tudo um pouco mais grudado, despeje na mesa limpa e amasse com as mãos, enquanto acrescenta, aos poucos, os 100g restantes da farinha. Após esse processo e já com a massa firme, a embale em um plástico filme e deixe descansar por 10 minutos.
Enquanto isso, faça o recheio. Se optar pelo de carne, comece adicionando um fio de óleo em uma panela aquecida, para então cozinhar em etapas a cebola, o alho triturado, a carne e o restante dos ingredientes.
Para as etapas finais, basta separar uma parte da massa para abrir e outra para reservar em plástico filme, evitando que resseque. Logo abra a massa com o rolo, adicionando um pouco de farinha de trigo para não grudar, até ficar bem fina, pronta para ser cortada no tamanho desejado e frita. Ao fritar, aqueça bem o óleo em uma panela grande e coloque os pastéis crus esperando dourar, afim de garantir o cozimento perfeito.
Por fim é só deixar escorrer e se deliciar com o pastel semelhante ao de feira que carrega muita história além da coincidência.
(Mariana Kisaki)

 

Comentários
Loading...