PANDEMIA/VACINAÇÃO: Entidades nikkeis veem ‘luz’. Mas esperam um 2021 ainda difícil

Apesar dos problemas iniciais, campanha trouxe um certo alento para parte da população (Governo do Estado de SP)

O início da campanha de imunização contra a Covid-19, já em andamento em praticamente todo o território brasileiro, trouxe um alívio não só para a população – ou pelo menos parte dela – como também para as entidades nipo-brasileiras. Apesar de vários desencontros entre o governo federal e o governador de São Paulo, João Doria, o pontapé trouxe, literalmente, “uma injeção de ânimo”, especialmente para aqueles que carregam consigo a responsabilidade de zelar também pela vida de terceiros.
Como é o caso da presidente da Sociedade Beneficente Casa da Esperança – “Kibô-no-Iê” – entidade que abriga cerca de 70 adultos de idades variadas (todos com deficiência intelectual ou física) – Dirce Shimomoto. Para ela, “o início da vacinação contra a Covid no Brasil é de extrema importância para toda a população do país por diminuir os casos da doença e, também, o número de internação por evitar os casos mais graves”.
Segundo Dirce, especificamente para a Kibô, “é de suma importância pois, atendemos hoje 69 residentes e apesar de nenhum deles ter sido infectado, temos sofrido   com a angústia e medo de ter um caso”. “Devido a deficiência intelectual é difícil conseguirmos que adotem medidas de distanciamento, uso de máscaras e álcool gel”, conta ela.
Além da questão assistencial, explica, a vacina tem grande importância na captação de recursos pois a entidade poderá retomar os eventos de arrecadação que representavam aproximadamente 25% da   receita anual e que com a pandemia a arrecadação reduziu pela metade.
Entre as atividades presenciais que foram canceladas em 2020 estão o Chá Beneficente, Festival de Delícias, Festa Junina, Festa do Verde e o Jantar das 4 Entidades. Parte deste prejuízo foi amenizado com eventos online e deliveries – como as Lives Solidárias, Feijoada Solidária e Matsuri Online Beneficente (este último com arrecadação de recursos também para a Enkyo, Kodomo-no-Sono e Assistência Social Dom José Gaspar – Ikoi-no-Sono).
“Esperamos que a população se conscientize e quando chegar a vacinação do seu grupo, não temam e tomem a vacina”, diz a presidente da Kibô-no-Iê.

Boa notícia – Para o presidente da Associação Pró-Excepcionais Kodomo-no-Sono, que cuida de mais de 70 pessoas, entre homens e mulheres, na faixa etária de 25 a 74 anos, Sergio Oda, a notícia do início da vacinação contra a Covid-19 “é a mais auspiciosa dos últimos dias”. Ele explicou que, logo na segunda-feira conversou com a equipe que cuida dos assistidos e confirmou que será elaborado um plano de vacinação tanto para eles quanto para os colaboradores. Segundo Sergio Oda, esse plano será coordenado pela UBS Vila Carmosina, que tem dado retaguarda ao trabalho da entidade e deve contemplar quase 140 pessoas, entre assistidos (67) e funcionários.
Sergio disse que a Kodomo-no-Sono está enquadrada na primeira fase da vacinação (abrigo de idosos e deficientes) e, “se tudo correr conforme nossa expectativa, a vacinação deve ocorrer em, no máximo, 15 dias”
“Vimos nossos profissionais passarem por momentos muito estressantes, principalmente no auge da pandemia, mas agora, este início da vacinação, nos acalenta a esperança de que os piores dias ficarão para trás. Acredito que esta vacinação é só o início de um longo processo… Devemos continuar com todos os cuidados sanitários indicados e recomendados”, diz Sergio, lembrando que a entidade realizou apenas dois eventos presenciais ao longo de 2020.

Esperança – Presidente da Enkyo – Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo – Paulo Seichiti Saita vê o início da vacinação como se a maioria da população brasileira “vislumbrasse uma luz no final do túnel”. “Parte dos brasileiros está passando por momentos de incerteza, insegurança, medo, temor, agravada ainda mais com a chegada da segunda onda da pandemia. Agora a vacina será uma esperança que tudo vai normalizar, mesmo que ainda demore algum tempo para atingir toda a população”, diz Paulo, que assumiu a Presidência da Enkyo em janeiro deste ano.
Para ele, “todos os brasileiros devem tomar a vacina e não ficar questionando a sua eficácia e também não ficar duvidando porque é de origem chinesa”. “Acredito que tomando a vacina tiraremos um peso da nossa cabeça e sentiremos mais aliviados e seguros. Essa pandemia do coronavírus mexeu com o emocional de muita gente, que hoje vive angustiada e deprimida e o fato de pensar que será imunizada trará um grande alívio”, diz Paulo, que, apesar de pertencer ao grupo de risco, procura se manter sempre otimista, além de praticar exercícios, meditações e dieta alimentar.

Festival do Japão – Quem também vê uma “luz” nessa pandemia com a chegada da vacinação é o presidente do Kenren – Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil – Toshio Ichikawa. Ele ressalta, porém, que pelo PNI (Plano Nacional de Imunização) do Ministério da Saúde, ´”a velocidade de execução desse plano (duas doses por indivíduo) dependerá da disponibilidade de vacinas que, no momento, temos dois institutos que irão produzir no Brasil (Butantan e Fundação Oswaldo Cruz). “O próprio governo federal anuncia que a população brasileira só estará vacinada no final de 2021”, diz Toshio, afirmando que o cenário é de “muitas incertezas”.
Segundo ele, nessas circunstâncias, o Kenren terá um grande desafio em 2021. “Como realizar o 23º Festival do Japão físico, com segurança, e dar aos kenjinkais uma ‘injeção’ de ânimo?”, indaga, referindo-se ao evento programado para os dias 9, 10 e 11 de julho, no São Paulo Expo, em São Paulo.
“É difícil afirmar e planejar com segurança, mesmo assim, de alguma forma, o Kenren deseja realizar esse evento, minimizando os riscos de contágio para os frequentadores do SP Expo, contando com a evolução positiva da vacinação e ajustando o formato do festival. Sem dúvida é um grande desafio”, conta Ichikawa, destacando que, “para a organização do festival, a Comissão Executiva vem estudando as normas municipais e estaduais relativas ao Covid-19, esquemas de isolamento, as evoluções quanto às aberturas de atividades comerciais e de eventos, pois, dependemos do Alvará de Autorização para Eventos Temporários, emitida pelo órgão da Prefeitura Municipal de São Paulo”. “Mas, tudo depende da evolução do contágio, que tem apresentado momentos de otimismo e de fechamentos, como é a fase atual. E agora, a imunização da população paulista via vacina, por faixa etária e de risco”, afirma.
Para o presidente da principal entidade representativa da comunidade nipo-brasileira, o Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social –, Renato Ishikawa, 17 de janeiro de 2021 “foi um grande dia para nós, brasileiros que estamos desde março do ano passado em isolamento e com todos os cuidados, com restrições protocolares da saúde, na pandemia do Covida-19”.

Caminhada – Para ele, mesmo da forma como vem ocorrendo – com impasses para cumprir o cronograma devido à dificuldade para se conseguir o insumo para a produção da vacina – o início da vacinação, “que ainda é tímida”, inicia uma fase de grande esperança da imunização.
“É claro que vai levar ainda muito tempo – talvez o ano de 2021 inteiro para imunizar uma grande percentagem da nossa população de 230 milhões – mas a grande caminhada começa com o seu primeiro passo”, diz Ishikawa, que lamenta muito a politização entre o governo federal e o governo de São Paulo em torno da vacina. “Fora isso, é um grande alento para nós brasileiros, ver uma luz no fim do túnel”, afirma o presidente do Bunkyo.

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