PANDEMIA: A situação do novo coronavirus no Japão e o efeito das medidas tomadas

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Gráfico com a média móvel de casos desde março de 2020 até fevereiro deste ano (divulgação)

O surgimento de uma pneumonia de causa desconhecida na cidade de Wuhan, na China, no final de 2019, tendo como o agente causador um novo coronavírus, foi nomeado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como Covid-19 (Sars-CoV-2). No Japão, o primeiro caso relatado, em 16 de janeiro de 2020, foi de um homem de nacionalidade chinesa que retornou ao Japão, vindo de Wuhan, no dia 6 de janeiro. Neste momento, a transmissão de pessoa a pessoa era limitada, com baixa patogenicidade em comparação às síndromes respiratórias Sars e Mers e ainda se imaginava que o nível de agravamento e de transmissão não eram elevados.
Mas o surto de infecção que ocorreu no cruzeiro Diamond Princess fez com que o Japão ficasse conhecido mundialmente. O navio partiu do porto de Yokohama no dia 20 de janeiro e passou por Kagoshima, Hong Kong, Okinawa e atracaria em Yokohama em 4 de fevereiro, mas com o diagnóstico de covid-19 em um passageiro que desembarcou em Hong Kong, os 2666 passageiros e 1045 tripulantes, num total de 3711 pessoas retornaram para Yokohama.
No dia 5, 10 pessoas do cruzeiro testaram positivo e as autoridades japonesas determinaram quarentena de 14 dias para todos os tripulantes e passageiros. O fato de não providenciar locais que pudessem acomodar tantas pessoas, a deficiência na realização dos exames, além das medidas para conter a proliferação da infecção terem sido ineficientes dentro do cruzeiro, acarretou num grande número de infectados, de pacientes graves e até de mortos o que fez com que o governo recebesse muitas críticas.
Por outro lado, neste período, verificou-se que muitos pacientes foram assintomáticos, foi possível determinar como ocorreu a rota de propagação dentro do cruzeiro, além de saber muito sobre este desconhecido vírus. Ainda, o comitê de especialistas que assessora o governo identificou 3 situações que quando acontecem simultaneamente propiciam uma maior propagação do vírus: espaço fechado (local com pouca ventilação), aglomeração (várias pessoas no mesmo espaço) e distanciamento social.

Estado de emergência – Em março, houve o aumento do movimento de pessoas devido ao feriado e o retorno de viajantes principalmente vindos da Europa que testaram positivo, e em 7 de abril foi decretado o estado de emergência em 7 províncias. Posteriormente, no dia 16 de abril isso foi estendido para todo o país. A declaração do estado de emergência é baseada na lei de medidas especiais de combate ao novo coronavirus criada em 13 de março de 2020.
É a medida que permite ao primeiro-ministro determinar de forma emergencial, o local e o período, quando há risco de transmissão em escala nacional ou de forma rápida, e que possa trazer grandes consequências à economia e ao cotidiano da população. O governador da província em estado de emergência pode solicitar a colaboração da população em relação às medidas de prevenção da infecção como evitar sair de casa sem necessidade urgente.
Ainda, pode determinar o fechamento de escolas, fazer o controle da entrada e saída de pessoas ou proibir o funcionamento de locais que causem aglomeração como cinemas e shoppings. E caso necessite de terrenos ou construções para usar como hospitais de campanha é possível fazer uso de tais locais mesmo sem a autorização do proprietário.

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Cartaz com formas de prevenção ao novo coronavírus (divulgação)

Turismo – Em anos normais, o aumento da temperatura faz com que o número de turistas também aumente, mas mesmo durante o longo feriado de maio, graças à colaboração da população no “stay home”, foi possível frear os índices de infecção. Acredito que devido à característica própria da população japonesa conseguimos segurar a explosão da contaminação apenas solicitando e não impondo como aconteceu em vários países. Também, facilitou bastante, o fato de no Japão a etiqueta da tosse e o hábito de usar a máscara já estar consolidado.
A declaração do estado de emergência teve impacto muito grande ao turismo pois a rede hoteleira, de transporte e de lojas que trabalhavam com os estrangeiros foram muito afetados. Assim, o governo elaborou a campanha “GO TO” e aprovou orçamento para ajudar a área de alimentação, viagens e eventos entre outros. O “GO TO TRAVEL” que promovia viagens deu descontos de 35%, com teto de 20 mil ienes, na hospedagem em reserva feita nos sites e agências de viagens participantes da campanha, além de dar cupom de desconto no valor de 15% para gastar com lembranças e/ou em restaurantes.
Mas, a partir de meados de junho foram descobertos casos de contaminação em massa em bares da área central de Tóquio o que acarretou num aumento de infectados em escala nacional. Tóquio foi retirada da campanha “GO TO TRAVEL” mas os números continuaram subindo o que fez com que algumas localidades declarassem, por si próprios, o estado de emergência. Houve a preocupação de que a campanha estivesse aumentando o contato interpessoal e assim as chances de infecção. Na mesma época, o governo fechou acordo com 4 países (Tailândia, Vietnã, Austrália e Nova Zelândia) onde o intercâmbio já era intenso e liberava a entrada e saída com o propósito de negócios.
Se formos analisar agora, entendemos que este período foi a segunda onda de infecção, mas mesmo que medidas especiais não tenham sido tomadas, o fato das infecções estarem controladas se deve ao motivo da população estar ciente desde o primeiro estado de emergência e que na região metropolitana de Tóquio as ações terem sido bastante intensificadas.

Terceira onda – Mesmo sem ter conseguido controlar completamente, a campanha “GO TO TRAVEL” foi liberada no outono, fazendo com que turistas japoneses e estrangeiros pudessem visitar todo o país o que fez com que alguns alertassem para uma possível terceira onda que se aproximava. E houve críticas para a falta de preparo para a chegada do inverno e já sabido possível aumento de casos de infecção. Infelizmente, houve o aumento do número de infectados relacionados a eventos e comemorações de natal e final de ano, e após o Ano Novo foi decretado novo estado de emergência. Imagino que muitos ficaram frustrados por não terem sido tomadas, em novembro, medidas enérgicas e eficazes para se evitar a explosão de contágio.
O segundo estado de emergência foi aplicado em alguns locais, mas não foi muito eficaz no sentido de diminuir a circulação de pessoas, onde pudemos observar que alguns se cuidavam e outros nem tanto, mostrando a diferença no comprometimento da população. Os pontos turísticos e as metrópoles não mostraram significativa redução no movimento de turistas diferentemente do primeiro estado de emergência. Mesmo assim, a diminuição no número de infectados foi devido ao empenho da população usando máscara em locais públicos e higienizando as mãos, entre outras medidas, mostrando que estas boas atitudes foram completamente incorporadas pela população como uma nova cultura.
Mas, infelizmente, ainda hoje, vemos uma parcela de pessoas se alimentando enquanto fala em voz alta. Imagino que durante a refeição seja complicado, mas o fato de após a refeição ficar conversando em grupos grandes, sem o uso da máscara, deveria ser passível de chamada da atenção. Acredito que, criar um clima para que nesta situação qualquer pessoa possa intervir, seria uma medida eficaz.

Yasutaka Mizuno (divulgação)

Vacinação – Agora em março de 2021, a região metropolitana está novamente em estado de emergência e os casos que estavam em queda mostram um leve aumento e vejo que as medidas estão perdendo a eficácia. Quando há aumento nos casos de infecção fazer estes números regredir é um processo que requer certo tempo. A vacinação começou também no Japão, mas sem a aplicação em massa não podemos ver a sua eficácia e isso demora.
Agora estão sendo encontradas novas variantes do vírus que se mostram mais transmissíveis, mas o que não podemos esquecer em relação à Covid-19 é a grande facilidade em espalhar nas 3 situações específicas; ser altamente transmissível sem o uso de máscara e sem o distanciamento social; e, ser transmissível desde aproximadamente 2 dias antes do surgimento dos sintomas. Tendo em mente estas características, imagino ser possível manter um certo cotidiano sem grande restrição comportamental e sem grandes privações.
Global Helthcare Clinic – Yasutaka Mizuno

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