Origem e Evolução Humana – PARTE III

Poucos sabem quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O Homem ainda está em processo evolutivo?

Por Marcelo Szpilman*

O Aumento no Tamanho do Cérebro
O caráter diferencial mais importante entre o homem e os antropóides (gorilas e chimpanzés) é certamente o descomunal aumento do cérebro, acompanhado pelas faculdades permitidas por essa nova massa encefálica. O aumento dramático de tamanho do cérebro humano no espaço de tempo compreendido entre 1,3 e 0,3 milhão de anos atrás, ou seja, 1 milhão de anos, é a modificação evolutiva mais rápida que se tem conhecimento dos primeiros macacos hominóides aos primeiros hominídios, cerca de 12 milhões de anos se passaram sem grandes aumentos na capacidade endocraniana média.
Qualquer tentativa de descobrir o que teria sido responsável por este acontecimento evolutivo dramático é sempre hipotética. Certamente, o responsável foi uma combinação de pressões seletivas sobre a mudança do homem para uma zona adaptativa inteiramente nova. Entre os fatores causais, três parecem ter sido particularmente importantes. Antes de descrevê-los, cabe um esclarecimento quanto à suposição de que a introdução de uma dieta mais rica em carne (proteína) foi uma das principais causas do rápido crescimento do cérebro.
Sabemos hoje que uma dieta rica em proteína animal é muito importante para o desenvolvimento da criança. No entanto, não se pode atribuir a esse fato tamanha distinção, haja vista que nenhum dos grandes mamíferos carnívoros evoluiu para um considerável aumento do cérebro simplesmente porque comia carne. Como será visto adiante, o mais importante foi a mudança na dieta e não a dieta em si. Em outras palavras, a busca de soluções mais eficientes para a obtenção da carne (captura da presa) foi mais importante do que comê-la simplesmente. A dieta mais rica em proteínas pode, isto sim, ser considerada como um fator adicional concomitante que forneceu as condições nutritivas favoráveis ao crescimento do cérebro.

1º Fator – A caça de animais grandes: o que distinguia a caça do homem primitivo da caça inconstante de seus parentes chimpanzés, gorilas e babuínos capturam ocasionalmente pequenas presas é que para o homem a caça passou a ser uma das principais fontes de alimento (proteínas da carne) e que seu método de caça era muito diferente daqueles empreendidos pelos outros animais.
Para obter um grau crescente de sucesso na caça aos grandes animais, especialmente quando esses passaram a ser os ariscos ungulados (gnus, antílopes e gazelas) das planícies africanas, foi necessário o desenvolvimento de uma série de novos comportamentos:
(a) para caçar e retalhar suas presas, permitindo a distribuição e transporte, houve um grande aumento na necessidade de inventar e manufaturar novas armas e ferramentas;
(b) para um maior sucesso na caçada passou a haver a necessidade de cooperação entre vários machos, inclusive com a divisão de trabalho e responsabilidades, e o desenvolvimento de técnicas mais refinadas de comunicação;
(c) as frequentes expedições prolongadas de caça, com a consequente ausência dos homens, passou a obrigar o estabelecimento de campos-base onde as mulheres e crianças podiam ser deixadas sob os cuidados de guardas;
(d) o sucesso na caçada exigia planejamento, conhecimento dos movimentos das manadas, acúmulo de informações (memória) para localização de fontes de água, para acontecimentos estacionais e para os hábitos das várias espécies de presas, e um cuidadoso controle dos competidores.
Com tudo isso, não há dúvidas de que os prêmios de caças bem sucedidas provocaram uma pressão seletiva forte para um cérebro melhorado.

2º Fator – A articulação da palavra: planejamento, cooperação e divisão de trabalho não teriam tido muita utilidade sem um sistema eficiente de comunicação. A capacidade de falar é a característica humana mais típica, sendo provável que tenha sido a invenção-chave que provocou o passo do hominídio para o homem.

A fala permitiu a estrutura comunitária e transformou o homem em um organismo social. Como tal, havia a necessidade de mecanismos de promoção de direitos comunais, mitos e crenças. Todos esses mecanismos exerceram uma intensa pressão para a melhoria da fala, aumento do vocabulário e aumento da capacidade de acúmulo de memória. Essa cadeia de desenvolvimento inclui os mecanismos de feedback positivo, ou seja, cada progresso exercia uma pressão seletiva em favor de um desenvolvimento ainda maior do cérebro.

3º Fator – A estrutura do grupo reprodutor: existem evidências que comprovam que a evolução dos hominídios primitivos direcionada para uma estrutura mais complexa de família favoreceu a rápida evolução no tamanho do cérebro. Ao explicar esse terceiro fator, entenderemos também por que esse aumento foi tão rápido e por que parou?
É interessante saber que, basicamente, todo ser vivo existe e sobrevive para perpetuar sua espécie, passando seus genes para as gerações seguintes. Nesse aspecto, todas as evoluções adaptativas tendem para uma melhoria da eficiência dos equipamentos naturais que favorecerão a sobrevivência do indivíduo (comer e não ser comido) e sua primazia dentre seus pares para que ele tenha como prêmio o sucesso reprodutivo.
O sistema de reprodução original do homem provavelmente era a poligamia, onde a monogamia seria uma condição derivada. Explica-se: a poligamia estaria reservada ao indivíduo que, por apresentar as qualidades de líder, teria maiores possibilidades de ter mais de uma mulher evidências sugerem que poderia inclusive haver maior fertilidade e passar seus genes à próxima geração. Aos outros machos do grupo, não conseguindo usurpar o lugar do chefe, caberia no máximo, quando muito, uma mulher.
Na estrutura de população social dos hominídios primitivos, a posição de chefe do grupo, clã ou tribo não seria herdada, mas adquirida por uma combinação de atributos, como liderança, oratória, iniciativa, coragem na caça e na guerra com outros grupos e força e habilidade na luta. A seleção natural, dentro desses grupos, passou então a favorecer o indivíduo com maior poder inventivo, previsão, liderança e, em muitos casos, cooperação, e não somente a força bruta e o egoísmo.
Aqueles que davam uma maior contribuição para a harmonia e o bem-estar do grupo poderiam, em consequência, tornar-se ancestrais de um maior número de descendentes viventes. No grupo social, as qualidades éticas passaram a ser importantes componentes de adaptabilidade. Desta forma, mais importante do que ser o mais forte era associar esta força à inteligência. Daí se tem uma grande pressão seletiva para melhorar rápida e continuamente o cérebro.
No entanto todos esses fatores que favoreceram o rápido aumento do tamanho do cérebro subitamente perderam seu poder ao atingir o nível de Homo sapiens, e o tamanho do cérebro estabilizou-se. Aparentemente, houve um estágio na evolução humana em que os grupos melhor sucedidos cresceram tanto que a vantagem de fertilidade dos líderes se tornou mínima. Quanto maior fosse um grupo populacional, tanto menor seria a contribuição relativa dos genes de seu líder para o patrimônio gênico da geração seguinte e tanto mais protegido (biologicamente) do processo seletivo estaria o indivíduo médio ou abaixo da média. Assim, nos grandes grupos, o sucesso reprodutivo não estaria mais correlacionado com a superioridade genética adaptativa. Com o tempo, houve uma redução ainda maior do prêmio seletivo para as características que previamente haviam sido favorecidas durante a evolução humana.
Fica assim evidente o porquê de a tendência que criou o homem não ter continuado em direção ao super-homem. A estrutura social contemporânea passou a não dar mais prêmios de sucesso reprodutivo aos mais fortes, mais inteligentes ou mais bem adaptados. Todos os membros da sociedade passaram a se beneficiar igualmente com as descobertas médicas e tecnológicas dos indivíduos mais bem preparados. Assim, o indivíduo abaixo da média, desde que não estivesse muito abaixo, passou a viver e se reproduzir com tanto sucesso quanto o indivíduo acima da média. Não é por outra razão que, diferente dos primórdios onde havia grande semelhança física entre homens e entre mulheres, hoje temos uma incrível diversidade global de tamanhos e formatos físicos.
CONTINUA NAS PRÓXIMAS EDIÇÕES…

*Marcelo Szpilman, biólogo marinho formado pela UFRJ, com Pós-graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor dos livros Guia Aqualung de Peixes (1991) e de sua versão ampliada em inglês Aqualung Guide to Fishes (1992), Seres Marinhos Perigosos (1998), Peixes Marinhos do Brasil (2000) e Tubarões no Brasil (2004). Indicado à personalidade 2015 na categoria Sociedade/Sustentabilidade do Prêmio Faz Diferença do Globo, atualmente, é diretor-presidente do Aquário Marinho do Rio de Janeiro, membro do Conselho da Cidade do Rio de Janeiro (área de Meio Ambiente e Sustentabilidade) e colunista do site Green Nation.

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