Origem e Evolução Humana – PARTE II

Poucos sabem quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O homem ainda está em processo evolutivo?

Por Marcelo Szpilman*

Exemplo teórico: como surgiu o pescoço comprido dos antílopes e girafas?
Imaginemos, hipoteticamente, que a há milhões de anos na África, em uma população herbívora ruminante qualquer com comprimento de pescoço mediano, nascem, ao acaso, dois indivíduos com variação: um com pescoço menor do que a média e outro com o pescoço maior do que a média. Como os indivíduos dessa espécie competem entre si e com outras espécies herbívoras pela vegetação disponível na copa das árvores, teremos duas situações.
O indivíduo com pescoço menor terá poucas chances de sobreviver, já que não poderá alcançar as folhas que a maioria alcança. Já o indivíduo com pescoço maior, passará a ter um nicho diferente dos demais para se alimentar, já que conseguirá alcançar folhas que a maioria não consegue. Terá assim maiores chances de sobreviver e passar a nova característica para sua prole, que, melhor adaptada, tenderá a se tornar maioria na população nas gerações futuras. Até que ocorram novas variações nesse sentido, direcionando a evolução para um aumento gradativo do pescoço nesse ambiente.
Exemplo real: as asas da mosca são importantes para a sua sobrevivência?
Em quase todo o planeta, as moscas, assim como a maioria dos insetos, têm nas asas um eficiente meio de sobrevivência. Com elas, podem procurar alimento e fugir dos predadores.
Visto desta forma, a asa é extremamente importante, e, sem ela, o indivíduo teria poucas chances de competir e sobreviver na maioria dos ambientes naturais. Entretanto, nas praias de uma ilha do Pacífico, onde sopra um vento forte e constante, vive, protegida do vento entre pedras empilhadas, uma espécie de mosca sem asas. Ocasionalmente, ocorre uma mutação que gera o aparecimento de asas rudimentares. Basta, então, que essas asas, agora ou nas gerações futuras, sejam suficientes para um “vôo experimental” e o indivíduo é imediatamente levado para o mar pelo vento. Esse é um exemplo marcante e real de como a seleção natural atua. As asas, que são vantajosas em quase todo o planeta, passam a ser nocivas nesse ambiente. O que normalmente seria um direcionamento evolutivo natural, será sempre deletado pela seleção natural nesse ambiente em especial.
Quais foram os fatores seletivos mais importantes que canalizaram a evolução humana?
Como e por que o homem adquiriu suas características únicas, tão distintas dos outros animais, pode ser respondido através de dois tipos básicos de fatores seletivos: as mudanças no meio ambiente e as modificações no comportamento.
As principais mudanças no ambiente foram provocadas pela criação das cadeias de montanhas no Rift Valley, na África. Essa barreira natural passou a reter os ventos e nuvens e modificaram o clima no leste da África há 8 milhões de anos. Enquanto o lado oeste não sofreu grandes mudanças climáticas e suas florestas tropicais permaneceram abrigando os ancestrais dos gorilas e chimpanzés, o lado leste caracterizou-se por um aumento gradativo de aridez nas áreas habitadas pelos hominídios (ancestrais do homem), causando a criação de um novo habitat que variava desde as savanas florestadas até as áreas muito áridas, quase desérticas. A ocupação e sobrevivência nesse novo habitat forçou as mudanças no comportamento. E diversos fatores intimamente correlacionados, descritos a seguir, favoreceram e explicam essas modificações no comportamento.

A Locomoção Bípede
Frequentemente diz-se que os nossos ancestrais adotaram posição ereta e locomoção bípede quando passaram da vida arbórea para a vida no chão. Contudo, esta correlação não é necessária. Nenhum dos outros grandes primatas terrestres adotou o bipedalismo. Gorilas e chimpanzés andam no chão com as articulações dos dedos e os babuínos são estritamente quadrúpedes. Como não sabemos exatamente como isso ocorreu, podemos apenas sugerir que alguma peculiaridade dos ancestrais arborícolas dos hominídios primitivos, como braços mais curtos, assim como alguma pré-adaptação anatômica, tenha favorecido o bipedalismo.
A locomoção bipedal, em especial nos seus estágios primordiais, deve ter sido uma forma muito ineficiente de locomoção para um mamífero de quatro membros. Porém, só evoluiu nessa direção porque fornecia vantagens. E, presumivelmente, suas maiores vantagens seletivas foram permitir uma melhor visão das redondezas (prevenção de predadores e visualização de alimento), liberar os membros anteriores para problemas novos de comportamento (possibilitou um melhor aproveitamento e utilização das mãos na manipulação de ferramentas e no transporte de alimento) e diminuir a área do corpo que sofria a incidência da radiação solar em campo aberto (possibilitou a procura de alimento nos horários mais quentes, quando os outros animais, especialmente os predadores, estavam inativos).
O início do bipedalismo se encontra nos primórdios da linhagem hominídia, mas seu aperfeiçoamento deve ter ocupado a maior parte do tempo subsequente. As diferenças de pélvis e extremidades posteriores entre os gêneros Australopithecus e Homo mostram que foram necessários cerca de 2 milhões de anos para aperfeiçoar o bipedalismo.

A Utilização de Ferramentas
Acreditava-se antigamente que o uso e a fabricação de ferramentas fosse o fator fundamental para o aumento dramático no tamanho do cérebro no estágio Homo erectus. No entanto sabe-se hoje que o uso e a confecção de ferramentas é muito comum no reino animal os chimpanzés são exímios no uso de ferramentas e capacitados a adaptar implementos naturais aos seus propósitos.
A confecção de ferramentas simples no estágio Australopithecus e Homo habilis aparentemente não provocou uma pressão seletiva forte para o aumento no tamanho do cérebro e não exigiu uma reconstrução mais profunda das extremidades anteriores. As ferramentas só se tornaram cruciais para a evolução humana, com maior significado seletivo, somente na passagem do estágio Homo erectus para Homo sapiens, quando a sobrevivência passou a depender do aumento na capacidade de criar e usar novas e melhores ferramentas de trabalho, de caça e de luta.

CONTINUA NAS PRÓXIMAS EDIÇÕES

*Marcelo Szpilman, biólogo marinho formado pela UFRJ, com Pós-graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor dos livros Guia Aqualung de Peixes (1991) e de sua versão ampliada em inglês Aqualung Guide to Fishes (1992), Seres Marinhos Perigosos (1998), Peixes Marinhos do Brasil (2000) e Tubarões no Brasil (2004). Indicado à personalidade 2015 na categoria Sociedade/Sustentabilidade do Prêmio Faz Diferença do Globo, atualmente, é diretor-presidente do Aquário Marinho do Rio de Janeiro, membro do Conselho da Cidade do Rio de Janeiro (área de Meio Ambiente e Sustentabilidade) e colunista do site Green Nation.


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