Origem e Evolução Humana – Parte Final

Poucos sabem quem somos, de onde viemos e para onde vamos. O Homem ainda está em processo evolutivo?

Por Marcelo Szpilman*

A Reconstrução do Crânio
O aumento do tamanho do cérebro foi o mais importante fator responsável pela reconstrução completa do crânio. Duas pressões seletivas adicionais também favoreceram esta reconstrução. Uma foi o deslocamento do suporte do crânio para frente, resultante da posição ereta. A outra foi a diminuição da pressão seletiva favorável a mandíbulas fortes e dentes grandes, desnecessários para alimentos mais macios (mudança na dieta), pré-cortados (ferramentas) ou preparados (fogo). Tudo isso possibilitou a redução das mandíbulas, dentes e a parte facial do crânio provocada pela redução dos músculos faciais e de todas as cristas e elevações ósseas às quais se prendiam esses músculos e a simultânea ampliação da parte cerebral.

O Papel do Comportamento
O comportamento (e suas mudanças) é uma das mais fortes pressões seletivas no reino animal. A evolução dos hominídeos para o homem foi extremamente rica em transformações: arborícola para terrestre, dieta vegetariana para aumento da dieta de carne, uso de ferramentas para confecção de ferramentas, e outras mais. Cada uma destas modificações iniciou novas pressões seletivas, facilitando e acelerando o processo de “hominização” ou, mais posteriormente, invertendo ou interrompendo as tendências anteriores. E um dos aspectos mais significativos do comportamento hominídio foi o aumento gradual do tempo dispendido para os cuidados com a prole.
A instituição dos cuidados com a prole, marcante em todos os mamíferos, permitiu um decréscimo da mortalidade ao acaso (acidental). A sobrevivência da prole passou a depender cada vez mais da qualidade do cuidado dado pelos pais. O aumento do tamanho do cérebro induzido pela prática deste cuidado, requereu um aumento do período de desenvolvimento do filhote, e consequentemente um aumento do período, durante o qual é necessário o cuidado materno. Esse desenvolvimento reforça o valor seletivo do cuidado com a prole e provoca pressão seletiva mais intensa em favor de um aumento do cérebro dos pais.
A maioria dos animais inferiores nasce com uma resposta pronta para a quase todas as situações que o ambiente lhes apresenta. Reagem instintivamente e têm pouca capacidade para aprender e acumular informações novas e úteis. Este sistema herdado de respostas prontas é chamado de “programa fechado”. Já os organismos superiores, como os mamíferos, têm um “programa aberto”. Significa ter uma capacidade muito maior de aprender e acumular informações novas que lhes permitam reagir adequadamente às situações ambientais. O gradiente de tamanho dessa “abertura” irá determinar o quão vulnerável será o filhote ao nascer quanto menos respostas instintivas mais vulnerável e mais dependente de cuidados.

Nos mamíferos, esse gradiente começa pelos herbívoros, cujos filhotes são capazes de correr junto à manada e escapar de predadores horas após nascer, e dependem dos cuidados maternos somente até 6 meses a 1 ano de idade (até o desmame), passa pelos carnívoros, que necessitam aprender as estratégias de sobrevivência e de caça, e para isso dependem dos pais por cerca de 1 a 2 anos, continua pelos primatas, que precisam aprender a utilizar suas ferramentas e a conviver em uma estrutura social hierárquica mais complexa, e para isso costumam permanecer sob a guarda dos pais por cerca de 1 a 3 anos, e termina no homem, cujos filhotes dependem dos pais por pelo menos 10 anos.

O cuidado com a prole protege o jovem enquanto ele adquire as informações que necessitará para enfrentar as leis da seleção natural. O programa aberto permite uma resposta muito mais refinada a estímulos externos, melhorando, consequentemente, as possibilidades de sobrevivência do indivíduo. E o aumento da abertura desse programa passou a requerer um sistema nervoso central muito maior e, assim, exerceu uma pressão seletiva adicional em favor do aumento do tamanho do cérebro.
Outra característica do cuidado com a prole é que ela é uma manifestação típica de seleção de grupo a espécie é considerada como um agregado de populações em competição, cada qual com uma mistura distinta de tendências. Populações com combinações boas de genes prosperarão, enquanto aquelas com combinações “perdedoras” serão eliminadas. Assim, os hominídeos primitivos não enfrentavam seu ambiente adverso somente como indivíduos, mas, principalmente, como grupos de famílias ou pequenos bandos disputando os recursos com outros bandos semelhantes. Mais uma vez, a sobrevivência do grupo dependia essencialmente da sobrevivência da prole que, por sua vez, dependia da qualidade e da intensidade de cuidados e de informações fornecidas pelos pais e pelo grupo como um todo.

O Futuro do Homem
Para saber qual será o futuro da espécie humana, devemos agora responder se as forças que possibilitaram nossa evolução continuam atuando e se o homem, como é atualmente, seria o ponto final de um desenvolvimento evolutivo. Por mais longa que tenha sido a linha de desenvolvimento que culminou na criação do homem, seu curso evolucionista chegou praticamente ao fim, ou pelo menos a uma restrição, e não é provável que a linhagem humana produza jamais outra coisa a não ser o homem.
Já tendo alcançado praticamente o limite do desenvolvimento orgânico, o homem se encontra no fim de sua evolução física, no que diz respeito aos seus aspectos mais importantes. Poderá ainda perder algum cabelo, seus dentes poderão degenerar um pouco mais e as unhas dos pés poderão desaparecer, mas não ocorrerão grandes transformações, pois há tempos temos nos poupado das forças da natureza que moldaram nossa evolução.
Graças à superioridade de intelecto, o homem continuará como homem pelo resto de sua existência. E essa existência não poderá ser abreviada por qualquer grupo de animais conhecidos, mas somente por ele mesmo. Ainda assim, enquanto não houver uma sintonia global sobre a urgente necessidade do desenvolvimento sustentável, com preservação, decência e dignidade para todos os seres que habitam este Planeta, o homem, um triunfo biológico da natureza, não poderá considerar-se vitorioso do ponto de vista social e ecológico.

*Marcelo Szpilman, biólogo marinho formado pela UFRJ, com Pós-graduação Executiva em Meio Ambiente (MBE) pela COPPE/UFRJ, é autor dos livros Guia Aqualung de Peixes (1991) e de sua versão ampliada em inglês Aqualung Guide to Fishes (1992), Seres Marinhos Perigosos (1998), Peixes Marinhos do Brasil (2000) e Tubarões no Brasil (2004). Indicado à personalidade 2015 na categoria Sociedade/Sustentabilidade do Prêmio Faz Diferença do Globo, atualmente, é diretor-presidente do Aquário Marinho do Rio de Janeiro, membro do Conselho da Cidade do Rio de Janeiro (área de Meio Ambiente e Sustentabilidade) e colunista do site Green Nation.


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