Nova cônsul geral adjunta do Japão, Chiho Komuro quer intensificar laços com a comunidade

Chiho Komuro, que esteve em Curitiba em 86 e no Rio: “Fortalecer as relações com as entidades nikkeis” (divulgação)

Simpática e já familiarizada com os assuntos da comunidade nipo-brasileira. Nem parece que a nova cônsul geral adjunta do Japão em São Paulo, Chiho Komuro, mal acabou de desembarcar em território brasileiro para cumprir sua nova missão. A sucessora do cônsul Akira Kusunoki – que foi transferido para as Ilhas Canárias, na Espanha, após sua estadia no Brasil – fala fluentemente o português e já esteve no país em outras ocasiões.
Nascida em Yokohama (ao sul de Tóquio), Komuro conta que foi criada na parte oeste da capital japonesa. Apesar de ter ficado apenas uma semana em sua cidade natal, explica que mantém fortes laços com Yokohama. “‘Chiho’ quer dizer mil velas de navios e foi inspirado nas embarcações do porto de Yokohama”, destaca Komuro, acrescentando que, quando criança, seu sonho era conhecer o mundo. “Mas nunca tive oportunidade”, disse ela em entrevista ao Jornal Nippak.
Mas por essas obras do destino, decidiu ingressar no Departamento de Estudos Lusos Brasileiros da Universidade de Estudos Estrangeiros de Tóquio e em 1986 acabou indo para Curitiba através de um programa de intercâmbio.
Ficou um ano na capital paranaense. Tempo suficiente para “observar o dinamismo da sociedade brasileira” daquela época. Época do Plano Cruzado, “fiscais do Sarney” e escassez de produtos nas prateleiras, especialmente carne bovina. “Antes de vir para o Brasil, as pessoas falavam para eu comer muita carne aqui”, recorda Komuro, que, na Cenibrac (Casa do Estudante Nipo-Brasileiro de Curitiba), aprendeu várias maneiras de fazer ovo – de mexido a frito.
A experiência não a frustrou, ao contrário, serviu de incentivo para que, em seu retorno ao Japão, ingressasse na carreira diplomática, o que acabou acontecendo em 1989, no primeiro ano da Era Heisei.
“Como já tinha estado no Brasil, queria aprender um pouco mais o português de Portugal”, lembra, explicando que teve seu pedido aceito. De Portugal, onde ficou de 1990 a 1992, foi transferida para o Consulado Geral do Japão no Rio de Janeiro, onde ficou até 1995. Nesse período, participou do projeto de restauração do Jardim Japonês do Jardim Botânico, que foi reinaugurado em 1995 pela princesa Sayako por ocasião das comemorações do Centenário do Tratado de Amizade, Comércio e Navegação Brasil-Japão.

Afetividade – De volta ao Japão, aprofundou seus conhecimentos em outra área de seu interesse, o desarmamento e a não proliferação de armas químicas. Por conta disso, foi enviada para Haia, na Holanda, como representante do Japão para a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), onde ficou por quatro anos. Depois disso, voltou novamente para o Japão até ser transferida, em novembro de 2018, outra vez para Portugal, onde ficou até julho de 2021.
De lá, veio direto para o Brasil. Desta vez para a sua primeira experiência na capital paulista. “Já estive aqui em outras ocasiões como intérprete, mas para morar e trabalhar será a primeira vez”, conta Komuro.
E nesse primeiro contato, Chiho Komuro já notou que, apesar da distância geográfica que separam os dois países, a presença japonesa em São Paulo é muito marcante, se comparada a Portugal. Outro fato que a impressionou foi a “dimensão” da cidade. “Em qualquer lugar que você vá, os edifícios são todos muito altos. Parece que estou voltando para Tóquio ou visitando Nova York”, comenta a cônsul. Para ela, no entanto, a comunidade nikkei não é, exatamente, uma novidade. Sabe que os japoneses contribuíram para o desenvolvimento do país em diversas áreas, não só na agricultura. Participação que acabou influenciando a imagem dos japoneses e seus descendentes na sociedade brasileira.
“Os brasileiros são muito afetivos para com os japoneses e isso é algo muito espontâneo”, diz Chiho Komuro, explicando que não ficou preocupada por chegar em meio à pandemia. “Li algumas notícias ainda em Portugal sobre como estava a situação no Brasil mas chegando aqui constatei que, se a situação não estava boa, também não era de toda ruim, apesar de as pessoas estarem passando por algumas restrições”, disse ela, afirmando que uma de suas expectativas é fortalecer os laços com as entidades nikkeis e os grupos jovens. “Acho que as novas gerações são muito importantes para fortalecer os laços entre os dois países”, conta a cônsul, lembrando o discurso feito pelo ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe em sua visita à capital paulista, em 2014, quando falou sobre a diplomacia japonesa para a América Latina e Caribe: “Progredir juntos, Liderar juntos e Inspirar juntos”, e que acabou inspirando a criação de um programa de intercâmbio. “Acabei conhecendo muitas pessoas que participaram deste programa”, explicou, acrescentando que hoje as redes sociais são fundamentais e faz parte de um novo estilo de vida.
Mas algumas coisas não podem ser substituídas, como a velha e boa visita presencial. “Quando a situação melhorar gostaria muito de conhecer pessoalmente as entidades e aprender mais sobre elas. Gostaria de conhecer um pouco mais também sobre os membros que fazem parte dessas associações, seus anseios e expectativas para que assim possamos fortalecer e estreitar ainda mais nossas relações”, explica Komuro, afirmando que “não podemos nos esquecer também da comunidade brasileira residente no Japão”, que no ano passado comemorou os 30 anos das alterações da Lei de Imigração Japonesa que possibilitaram os brasileiros de ascendência japonesa estabelecerem-se no país.

Em casa – Segundo ela, apesar de a população de brasileiros residentes naquele no Japão estar caindo nos últimos anos, a comunidade brasileira ainda conta com a quarta maior população de estrangeiros. “E essa comunidade também é muito importante para essa relação”, conta a diplomata, afirmando que também já foi informada sobre a expectativa dos yonseis (quarta geração de descendentes de japoneses) em relação à liberação do visto de trabalho no Japão. “Também estamos atentos para esta questão”, explicou a cônsul, que parabenizou os atletas brasileiros que conquistaram medalhas nos Jogos Olímpicos de Tóquio.
“Acho que a realização dos Jogos foi muito importante porque trouxeram uma energia positiva. O mundo inteiro ficou sensibilizado com o esforço e o empenho dos atletas”, disse Chiho Komuro, afirmando estar muito feliz por poder voltar a São Paulo, “onde tenho muito amigos e não me sinto uma estrangeira”.

Comentários
Loading...