MA (間): Fatores de equilíbrio entre os períodos estático e dinâmico

O dia a dia é uma rotina repleta de momentos que variam da agitação do trabalho à tranquilidade do lar, da relação entre duas ou mais pessoas, de uma conversa que muda de assunto e de diversas outras situações que se alternam de maneiras não tão abruptas quanto muitos indivíduos imaginam. Isso porque, sem querer, tanto os orientais quanto ocidentais possuem o Ma em suas vidas, até porque, essa é considerada uma quarta dimensão não controlada pela força de vontade humana.
Essa realidade pouco conhecida é resumida por “vazio, espaço, pausa”, de maneira que está presente em vários períodos de um dia, embora seja reconhecido mais facilmente na arte, arquitetura, música e dança.
Com tantos acontecimentos, o Ma é, então, uma pausa necessária, porém despercebida, que acontece entre uma alteração e outra, proporcionando equilíbrio e coexistência de dois fatores distintos, unidos apenas durante o “vazio”, também considerado tempo de preparação para novos eventos.

O que é o Ma
Em muitos casos, o Ma é nomeado por “espaço negativo”, uma vez que funciona como uma quarta dimensão. Contudo há quem prefira o conceito de “zona livre”, já que se trata de uma palavra composta por dois kanjis: portão/portal (門) e sol (日), explicando literalmente o seu significado como um espaço vazio relacionado ao portal que permite a contemplação e preparo para descobrir o que há do outro lado e é iluminado pelo sol.
Mas nem sempre foi exatamente assim, já que antigamente sua escrita levava o kanji da lua (月) no lugar do sol, de maneira a expressar a luz do luar adentrando por uma fresta do portão.
De qualquer maneira, em ambos os sentidos há a presença de três fatores: uma situação nítida antes da pausa, um elemento dado e uma ocasião subjetiva, provocando o chamado Ma e o identificando como um vazio, um espaço de coexistência ou um espaço-tempo que permite a preparação para um novo acontecimento.
Além disso, é importante entender que não é porque essa ideia possui a “forma” de uma porta que o destino traçado é único, pois, na realidade, é apenas um trajeto de reflexão e possíveis escolhas, criando um mar de possibilidades em meio a um imenso vazio.
Assim, o Ma é um elemento capaz de conciliar o espaço e o tempo entre dois momentos, de maneira a proporcionar interrupções geram equilíbrio, harmonia e consciência do que está por vir. Um exemplo disso é a ida ao santuário que conta com uma trilha longa e, por vezes, cansativa, além de seu torii (鳥居, portal de entrada de santuários xintoístas), fatores capazes de trazer paz e preparo à alma do indivíduo.

Surgimento do conceito
O início do Ma ainda é pouco debatido, porém o que se sabe é a sua relação com as duas religiões mais presentes no Japão: o xintoísmo e o budismo, visto que o primeiro auxiliou com a ideia da importância das conexões e relacionamentos, enquanto que o segundo, teve um pé no conceito de vazio.
As ligações xintoístas estão associadas não apenas à matéria, mas também à harmonia do homem com a natureza, e do ser real ao surreal, gerando a ideia de uma vida pura, tranquila e equilibrada.
Já o vazio do budismo é altamente relacionado ao desapego, pois sua noção está centrada no conceito de que nem mesmo o “eu” e o tempo possuem características fixas e determinadas. Assim sendo, o “eu” só é identificado quando mutável e o tempo mantém os elementos distantes da permanência, de modo a nunca haver duração, mas sim transitoriedade. Uma vez que cada objeto se transforma a cada segundo a partir de uma nova ação.
Com isso, o Ma é uma reflexão originária das religiões orientais, mas que atualmente de nada tem a ver com religiosidade, apenas tempo e espaço, buscando oferecer interrupções e ausências num mundo carregado de momentos infinitos.

Inspirados no Ma
Sendo um aspecto oriental indispensável, embora pouco conhecido, o Ma tem sido inspiração de diversos artistas e pensadores, tais como: Kakuzo Okakura, Michiko Okano e Hayao Miyazaki. Estando presente também na obra N-House, de Sou Fujimoto, arquiteto japonês que palestrou numa das exposições do Japan House.
Nas criações de Hayao Miyazaki, cofundador do Studio Ghibli, essa quarta dimensão costuma ser apresentada de maneira muito explícita, como um tipo de interrupção na trama de cada filme, que conta sobre um universo extremamente mais complexo, dentro de um vazio repleto de experiências e fatores que contemplam o tempo e espaço.
Por outro lado, na construção N-House o admirador pode ter uma noção mais física do que é o Ma, já que o edifício possui diversas portas, janelas e 3 camadas em cada parede. De modo a ser considerado uma obra de arte para reflexão, visto que cada janela permite a entrada de iluminação, chuva e vento; e por vezes uma área que parece externa, na verdade, também é interna, havendo um momento de coexistência entre um ambiente e outro.
Assim são exibidas algumas das teorias elaboradas por Michiko Okano, pesquisadora e professora da Universidade Federal de São Paulo, e Kakuzo Okakura, autor e artista altamente popular no Japão. Ambos afirmando que o Ma é um vácuo que concede a entrada para inúmeras possibilidades que coincidem em algum curto espaço intermediário.

Como aplicar o Ma à rotina
Para uma vida com o Ma consciente, a pessoa não precisa de muito, uma vez que é algo inserido na rotina de forma muito sutil e sem muitos esforços, podendo ser adicionado à decoração, ao gênero da leitura, à forma como um momento é vivido e até mesmo à alteração dos hábitos. Assim há quem opte pelo estilo de vida minimalista para mais períodos de boas energias e limpeza da alma, já que esse modo de vida garante menos excessos e mais “vazios” que podem ser completos por alguns pequenos objetos funcionais ou decorativos.

Além disso, outras dicas são:

  • Meditar: minutos ou horas de completa reflexão que permitem à alma e mente um espaço vazio, sem preocupações e livre de energias negativas;
  • Adicionar objetos que quebrem o padrão de um ambiente: sendo responsáveis pelo rompimento da mesmice, mas sem criar desequilíbrio;
  • Observar alguns momentos como um tipo de portal: como por exemplo o ato de se arrumar para ir ao trabalho ou a um encontro, acordar após uma noite de sono e dirigir numa estrada a caminho de uma viagem. Pois, embora algumas dessas situações não sejam desejáveis, a maneira como você a realiza pode determinar como será “do outro lado do portal”;
  • Contemplar certas reflexões e admirar belas paisagens: certamente são ações que poucas pessoas realizam, já que há pouco tempo para muitas tarefas e correria. Contudo lembre-se que em quase todo lugar há algo bonito para se encantar, então não perca esses pequenos vislumbres.

(Mariana Kisaki)

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