LITERATURA JAPONESA: Títulos de renome que proporcionam conhecimento sobre a cultura e reflexão sobre a vida

Obras da literatura japonesa oferecem um pouco de cultura oriental e também de contemplação (reprodução)

Sem muito tempo no dia a dia, a leitura é uma forma de viajar no tempo e no espaço que proporciona uma pitada de diversão com certa reflexão e conhecimento. Pelo menos é isso que se pode observar nas obras da literatura japonesa, que em sua maioria oferece aos leitores um pouco da cultura oriental e contemplação em cima de questões banais que por vezes são ignoradas ou até mesmo esquecidas em meio ao caos que é a rotina moderna.
Confira a seguir uma lista de histórias que vão te preencher de uma avalanche de sentimentos e momentos únicos do Japão.

O Livro do Travesseiro (Makura no Soshi, 1002)
Considerada uma leitura leve, comovente e relaxante, O Livro do Travesseiro é uma obra de trezentos textos escrita pela autora Sei Shônagon (966 — 1017), dama de companhia da Imperatriz Teishi (Princesa Sadako), durante o período Heian (794 — 1185).
Com um nome peculiar e inúmeras páginas de leitura, o livro passa a sensação de algo relacionado ao sono, como um objeto voltado ao bom repouso. Contudo essa é a interpretação errada do título e de sua estrutura, pois, na época, Shônagon foi presenteada com papéis especiais, recebidos pela esposa do Imperador Teishi, assim como suas colegas. Logo a acompanhante propôs que todas escrevessem fragmentos de “travesseiro”, ou seja, íntimos e extremamente particulares, o que, consequentemente, deu origem ao exemplar que mescla uma ideia de diário e obra literária, fornecendo pequenos trechos, comparados às listas que atualmente diversas pessoas amam e matam seu tempo.
Assim, se torna compreensível o porquê de O Livro do Travesseiro fazer tanto sucesso até nos dias de hoje, uma vez que proporciona uma visão intimista de um Japão do século X, usando palavras sensíveis e tocantes para atividades da rotina e do dia simplista de uma dama de companhia, apresentando poemas e história por meio de capítulos de diferentes tamanhos, expressividade, humor e protagonistas do mundo, como o clima, as pessoas, a natureza e tudo mais o que há ao redor.
“Coisas que parecem intermináveis. A torcedura do cordão do quimono sem manga. A viagem para a região nordeste, após passar o Posto de Fiscalização do monte Osaka. O tempo do recém-nascido se tornar adulto.” (SHONAGÔN, 1002, p.103)

O Livro do Chá (The Book of Tea, 1906)
Aos curiosos sobre a cultura japonesa, O Livro do Chá de Kakuzo Okakura (1862 — 1913) é o conteúdo que aborda a importância e a história da cerimônia do chá, ritual que acompanha um toque de equilíbrio, sofisticação, tranquilidade e concentração. Sendo uma atividade que teve seu início na China, mas seu auge e perpetuação no Japão.
A obra é uma das diversas tentativas de refletir e expandir a tradição, criando uma leve barreira que proporciona harmonia entre a modernidade ocidental e as heranças culturais asiáticas. Assim, o autor escreveu na língua inglesa, de forma a alcançar mais leitores e garantir mais conhecimento referente a um hábito que vai além de servir e saborear uma bebida, uma vez que esse está relacionado à conquista da perfeição e à fuga do imediatismo.
“Esse ‘chá’ se desenvolveu como um modo de vida — um meio de adestramento na busca da satisfação espiritual. Esse ‘chá’ era a chanoyu.” (OKAKURA, 1906, p.110)

1Q84 (2009)
1Q84 é a trilogia produzida por Haruki Murakami (1949), um dos autores mais renomados mundialmente da literatura moderna japonesa, devido ao fato de abordar temas do dia a dia com um toque de drama e reflexão, apresentando protagonistas que se veem deslocados do mundo, para que, posteriormente, se compreendam como parte de um todo. Assim, suas obras envolvem os leitores a partir de sua narrativa e conteúdo universal, compatível com a rotina de diversas pessoas.
O conto em questão se passa em 1984, fazendo alusão ao livro “1984” de George Orwell que foi grande inspiração à criação de suas páginas. O livro relata a história de Aomame, instrutora de artes marciais, e Tengo, professor de matemática e escritor, que durante a infância tiveram suas vidas entrelaçadas gerando um amor puro infantil, algo que volta à tona quando tudo no mundo parece mudar, alterando o ano de 1984 para 1Q84, a data do universo paralelo composto por duas luas e destinos ligados a propósitos.
Embora pareça mais um simples romance, Murakami não decepciona seus fãs, mostrando que por trás de ambos os personagens há grandes traumas que fazem com que seus dias sejam extremamente incomuns, já que Aomame segue matando homens que maltratam mulheres e Tengo é solitário e se relaciona com uma mulher casada, enquanto reescreve o livro “Crisálida de Ar” que se mostra mais que uma ficção, uma realidade que persegue o casal, unindo suas existências e criando uma nova relação.
“Quando se faz algo incomum, as cenas cotidianas se tornam um pouco diferentes do normal. Mas não se deixe enganar pelas aparências. A realidade é sempre única.” (MURAKAMI, 2009, vol.1)

Kyoto (1962)
Último livro escrito pelo autor Yasunari Kawabata (1899 — 1972), lançado originalmente em 1962 e premiado com o Nobel de Literatura em 1968. A história descreve com riqueza os detalhes da capital Kyoto, seus festivais e suas estações, durante o peíodo pós-guerra e influenciada pelos países ocidentais, por meio da representação da vida das gêmeas Chieko e Naeko, que cresceram separadas e se reencontraram pelo acaso, fazendo com que ambas desejassem criar vínculos familiares, apesar das diferenças.
Contudo os laços parecem fracos e de difícil relação, uma vez que Chieko foi criada em meio ao comércio na área central da cidade e Naeko viveu por muito tempo na aldeia com seus pais biológicos, trabalhando no campo e amadurecendo precocemente. Dessa forma, Kawabata exibe de forma implícita as barreiras e conflitos entre a tradição japonesa e a ocidentalização, marcada pela modernidade. Ao mesmo passo que mostra um costume antigo, que provoca uma trama ao redor da filha abandonada por causa do julgamento alheio que considerava uma vergonha ter filhos gêmeos.
“Tudo havia acontecido vinte anos antes. Chieko teria sido abandonada porque, na época, ter filhos gêmeos era considerado uma vergonha, além do que se acreditava na dificuldade de criá-los com saúde.” (KAWABATA, 1962)

Do Outro Lado (1997)
Livro das categorias policial e suspense, Do Outro Lado é uma obra de Natsuo Kirino (1951), escritora comparada a Haruki Murakami, por seus contos inéditos e impressionantes que misturam realismo com um extremo mistério que proporciona uma turbulência de sentimentos em qualquer leitor.
Em seus capítulos observamos a vida de quatro mulheres: Yayoi, Masako, Yoshie e Kuniko, que possuem em comum suas duplas jornadas de trabalho que se dividem entre o empacotamento de marmitas, entre meia-noite e cinco da manhã, e suas vidas pessoais compostas por dificuldades familiares e financeiras.
Não bastando todo o desgaste e pressão emocional causadas pela rotina, tudo muda quando Yayoi assassina, acidentalmente, o seu marido que a humilhava e a traía, fazendo com que as suas três colegas de trabalho a ajudassem a se livrar do corpo, de acordo com seus interesses, que variam de empatia à avareza, mostrando o quão longe as pessoas podem se afundar e refletindo sobre as capacidades dos atos desumanos.
“De meia-noite às cinco e meia, sem intervalo, tinha de ficar de pé ao lado da esteira transportadora, embalando refeições. O salário era bom para um trabalho de meio expediente, mas o -serviço era desgastante. Mais de uma vez, quando não se sentia bem.” (KIRINO, 1997, p.1)

Uma Questão Pessoal (1964)
Para quem curte os livros que mexem com diversas emoções, Uma Questão Pessoal é a sugestão perfeita, mas talvez nem tanto, aos leitores mais emotivos e sentimentais. Isso porque foi criado por Kenzaburo Oe (1935), um dos maiores romancistas naturalistas da literatura contemporânea, que busca representar a realidade dos atos humanos, comparando seus personagens a animais, seres que agem por instinto e de forma irracional. A partir de então, cenas e atitudes são mostradas de forma a causar desgosto e desconforto em quem lê, ao mesmo tempo em que cria curiosidade e permite que qualquer um devore a obra do início ao fim, com o intuito de descobrir o desfecho de histórias tão macabras e polêmicas.
Uma Questão Pessoal foi escrita em 1964, período em que foi revelado ao autor que seu primogênito havia nascido com anomalia cerebral, o que o manteria em estado vegetativo por toda sua vida. Assim, há quem descreva o livro como uma autobiografia misturada com ficção, pois o protagonista, Bird, é um professor de inglês de 27 anos, que deseja aproveitar sua vida livre e com anseios de viajar à África, porém, em meio à sua juventude, presencia o nascimento de seu primeiro filho, portador de um problema cerebral. Dessa forma, surgem insegurança e desespero que o fazem desejar a morte da criança e fugir da realidade de pai de família, correndo para os braços de sua amiga da faculdade que passa a se tornar sua amante.
Com trechos repulsivos que lembram cenas de “O Cortiço”, o conto causa antipatia por parte do leitor em relação ao anti-herói e provoca reflexões sobre a hipocrisia referente à realidade, já que qualquer indivíduo reagiria com medo em frente à essa situação, o que acontece nessa ficção é apenas a ampliação de atos irracionais.
“O desejo crescera com a espantosa rapidez de um bando abjeto de moscas negras e desde então vinha ganhando contornos nítidos. Ai de mim e de minha mulher com essa criatura vegetal, esse bebê-monstro atrelado a nossas vidas! Preciso fugir dele.” (OE, 1964)
Além dessas obras, o mundo é composto por uma vasta riqueza da literatura japonesa, tais como: O Museu do Silêncio, Guerra das Gueixas, Declínio de um Homem e A Casa das Belas Adormecidas, todos capazes de tocar as almas dos leitores e proporcionar mais que uma leitura de lazer, assim como um conteúdo didático que entretém e ensina.
(Mariana Kisaki)

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