Jornal Nippak e Nikkey Shimbun encerram atividades com legado de conquistas em prol da comunidade

Jornal acompanhou mudanças da comunidade nipo-brasileira nos últimos 23 anos: fim de uma história (Akira Deido)

Gratidão. Uma palavra simples que traz todo um histórico de momentos, vivências, lutas e desafios. Pois é justamente assim que os dois maiores veículos de comunicação da comunidade terminam um grande ciclo. Porta vozes dos nikkeis no Brasil, o Jornal Nippak e o Nikkey Shimbun encerram suas atividades em dezembro, com um saldo mais que positivo: foram décadas de luta em prol do jornalismo, dando voz aos anseios, conquistas, tristezas e aos principais fatos relacionados aos nikkeis no Brasil.
Fundados há 23 anos após a fusão do Jornal Paulista e do Diário Nippak, o Nikkey Shimbun e o Jornal Nippak surgiram em meio a um momento turbulento, com a necessidade de se inovar e transformar os dois veículos em um único nome forte, capaz de expandir as informações para mais pessoas. À época, os jornais japoneses encontravam dificuldades para aumentar o número de assinantes e, comercialmente, também enfrentavam dificuldades com a concorrência acentuada.
“Realmente, a fusão ocorreu por questão de necessidade, para que pudéssemos ter um veículo mais forte e competitivo”, diz o presidente da Editora Jornalística União Nikkei, Raul Takaki. Para ele, seguir adiante ano após ano, enfrentando diversas crises econômicas e do segmento, só transformou a missão – que já era difícil – quase insustentável.
“Mas o que sempre nos motivou foi o carinho e compreensão da comunidade. Especialmente dos leitores, que sempre nos honraram com renovação de assinaturas, enviando mensagens de apoio. Esta jornada nos fez fortes, mas chegou a hora de dar uma pausa e repensar nossas ações”, destaca Takaki.
Um dos principais personagens do jornalismo nipo-brasileiro, Takaki acumula experiência de 45 anos no segmento – sempre com o sentimento de gratidão a todos que fizeram (e fazem) parte da história. “Não é um momento triste encerrar as atividades, somente tenho o sentimento de ser grato por toda a história, pois são 45 anos produzindo um jornal diário. E sem a colaboração e apoio de muitos amigos e, especialmente, de nossos leitores, não seria possível chegar até aqui. Atualmente no Brasil só temos o Nikkey Shimbun escrito em japonês e com a crise que estamos passando é cada vez mais desafiador manter esta produção. Diversas pessoas falaram que tínhamos de encerrar as atividades, mas o sentimento de levar adiante uma tradição dentro da comunidade sempre falou mais alto. Por isso chegamos até aqui, firmes e fortes, com um trabalho sempre exemplar de todos os colaboradores. Temos respeito e gratidão a todos que nos acompanham e tenho certeza que os jornais japoneses têm vida longa”, destacou Takaki.

Abnegação – Nas centenas de coberturas jornalísticas, tanto o Nikkey Shimbun quanto o Jornal Nippak prezaram pela informação correta e bem apurada. Norte esse seguidos desde os primórdios do pós-Guerra, quando os imigrantes japoneses necessitavam de notícias relacionadas ao Japão mas, principalmente, sobre o que estava acontecendo no contexto político e econômico do Brasil. Cada vez mais a vontade de retornar a terra-natal estava distante e a necessidade de construir um futuro por aqui se fazia necessária. Assim, a função dos jornais era justamente abastecer os japoneses com informações relevantes para nortear os planos dos imigrantes.
Década após década, os jornais mantiveram a tradição de noticiar os fatos principais que envolviam os japoneses espalhados pelo Brasil. Grandes eventos fizeram parte e ganharam a devida notoriedade principalmente pela cobertura dos jornais japoneses, como na visita do então príncipe-herdeiro Akihito em 1967, 1978 e, como imperador, em 1978.
Em 2008, o centenário da imigração japonesa ganhou projeções nacionais da grande mídia e, também, contou com a cobertura completa dos eventos (e bastidores) do Nikkey Shimbun e Jornal Nippak.

Saudosismo – Tamanha era a representatividade dos jornais japoneses que muitas personalidades lembram com carinho e saudosismo o contato com uma edição escrita em japonês. Para o presidente da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), Walter Ihoshi, “ter uma edição de jornal japonês era natural em sua casa”. Já para o vereador Aurélio Nomura, a importância do Nikkey Shimbun e do Jornal Nippak “vai além do que podemos imaginar”.
“São dois veículos de comunicação imprescindíveis para todos nós, nikkeis. Estão presentes de forma muito intensa no nosso cotidiano e deixam um legado de muito esforço, suor e dedicação. É um trabalho de abnegação e pensamento em prol do coletivo”, explica o vereador, que entregou um voto de júbilo a Raul Takaki pelos relevantes serviços prestados à comunidade e ao município de São Paulo.

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