JOGOS OLÍMPICOS: Para Jorge Kuge, da 1ª geração de skatistas, inclusão do esporte foi um ‘tiro certo’ para atrair jovens

Jorge Kuge, que fez parte da primeira geração de skatistas e ainda hoje compete: “Não é modismo” (arquivo pessoal)

Dentre os novos esportes que ganharam o status de modalidades olímpicas em Tóquio, os que mais chamaram a atenção dos brasileiros foram, certamente, o surfe e o skate. Também pelas medalhas de ouro de Ítalo Ferreira no surfe, desbancando o japonês Kanoa Igarashi – que eliminou o brasileiro Gabriel Medina – e das pratas no skate de Kelvin Hoefler e Rayssa Leal, que aos 13 anos da idade se tornou a atleta mais jovem da história do Brasil a subir ao pódio em Olimpíadas.
Mas não só por isso. No caso do skate, o simples fato de fazer parte do programa olímpico já representou a realização do sonho de toda uma geração. “Vi e vivi toda essa batalha para o skate ser reconhecido como um esporte respeitado, mas não poderia imaginar que um dia ele se tornasse um esporte olímpico”, explica Jorge Kuge, que fez parte da primeira geração de skatistas brasileiros. Para ele, o skate foi um “tiro certo” dos organizadores para atrair os jovens.
“As Olimpíadas tem muito mais a ganhar com a inclusão do skate”, explica Kuge, que aos 58 anos ainda continua praticando seu esporte favorito – é bicampeão do Circuito Brasileiro na categoria Banks Grand Legend da Confederação Brasileira de Skate.
“Símbolo de uma época” e uma referência para as novas gerações, Jorge Kuge conta que, quando começou a praticar, em 1974, aos 11 anos de idade, a história era bem diferente. Na época, não existia nem mesmo a categoria feminina. “Apesar de sempre existir meninas no skate, o esporte era praticado basicamente por meninos muito por conta das lesões e machucados, que são muito frequentes. Isso começou a mudar dos anos 90 para cá e em 2000 essa mudança se consolidou, inclusive com premiação idêntica”, conta.

Perseguição – Por isso, toda conquista é motivo de comemoração. E que emociona quem viveu, literalmente, os dias de luta do skate, que em 1988 chegou a ser proibido na cidade de São Paulo pelo então prefeito Jânio Quadros – o decreto foi revogado por sua sucessora, a prefeita Luiza Erundina em 1989, em seu primeiro ano de mandato. “Fugimos muito da polícia por causa disso”, lembra Jorge Kuge, que em 1982 fundou a Urgh Skates, a primeira empresa de skate originalmente brasileira e que em 2022 completará 40 anos de existência.
Encontrar lugares para praticar, aliás, era outra dificuldade. “Antigamente tinha pouquíssimas pistas”, diz Kuge, que em 1981 desenhou a primeira pista pública do país, localizada em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, e foi, também um dos primeiros a assinar um shape (peça de madeira que compõem o skate).

Esporte de maloqueiro – Se já era difícil praticar, convencer a família que era possível viver de um esporte que, na época, era considerado “coisa de maloqueiro” seria algo inimaginável para um nikkei. No início, seu pai, Shigeto, um issei, bem que tentou e insistiu para que o filho seguisse carreira em uma multinacional. Foi a mãe, no entanto, Dona Teruko, a grande responsável para que o filho pudesse realizar o sonho de “trabalhar com que gostava”. “Ela costurava e eu vendias as roupas nas competições”, diz ele, lembrando que para divulgar sua marca, andava com peças em uma kombi para poder custear suas despesas.
Segundo o skatista, o pioneirismo rendeu muitas conquistas. A Urgh desenvolveu o primeiro shape resinado em marfim e epoxi glass, considerada na época uma novidade e que contribuiu para uma evolução gigantesca no cenário nacional. Como o skate, a empresa – que hoje é comandada pelos filhos Akira, de 27, e Akio, de 26 – também se consolidou e chegou a ter sua própria equipe, com nomes como os de Bob Burnquist. E até mesmo o hoje medalhista olímpico Kelvin Hoefler foi amador da equipe Urgh por oito anos.

Kuge em ação: “Antigamente era muito dificil encontrar pistas” (arquivo pessoal)

Essência – Por isso, para Jorge Kuge o desempenho dos brasileiros em Tóquio não foi surpresa. “A Rayssa é um fenômeno. Para chegar onde chegou ela teve que passar por todas as etapas, como qualquer atleta. Tanto que nos Jogos Olímpicos ela competiu com gente de 34 anos, ou seja, ela não chegou à medalha de prata por acaso. Ela lutou muito e inspirou milhares de crianças”, elogia Kuge, acrescentando que maranhense mostrou em Tóquio “a essência do skate”, que, apesar de ser individual, é considerado por seus praticantes o mais coletivo dos esportes, além de saudável.
Daí um atleta torcer pelo sucesso do outro. “Isso está na cultura do skate, é algo que vem das ruas. Para ser aceito pela comunidade, você tem que ter respeito e humildade, como nas artes marciais. Quem é arrogante está fora. Isso é um diferencial”, conta Kuge, explicando que a evolução dos japoneses, que conquistaram a medalha de ouro na categoria street com Yuto Horigome, e ouro e bronze com Momiji Nishiya e Funa Nakayama, respectivamente, é recente e tem muito a ver com um nikkei: Clebson Motoki “Cofox”, ex-skatista profissional dos anos 80 e que está radicado no Japão há cerca de 25 anos, onde foi para trabalhar como dekassegui.

Timidez – “Ele foi o professor da maioria dos japoneses que estão despontando nas Olimpíadas, diz Kuge, explicando que o skate teve um boom no Japão muito por conta dos Jogos Olímpicos. “Até então os japoneses eram muito tímidos no skate. O foco mudou depois que anunciaram que seria um esporte olímpico e os pais começaram a incentivar mais”, diz Kuge, que vê uma forte ligação entre o skate e os orientais. “Sou descendente e tinha muitos descendentes na primeira geração de skate, o Jun Hashimoto, o Wilson Kinoshita, o Sergio Ueta, o Christian Hosoi… Em geral, os orientais e, principalmente, os japoneses se dão muito bem com o skate. O japonês, mesmo, possui um estilo e uma plasticidade muito bonita, próprios dos orientais”, diz ele, que não considera o skate um modismo.

Estilo de vida – “O skate hoje é um fato. As conquistas da Rayssa e do Kelvin vão inspirar muita gente e a indústria esportiva vai estar de olho nesse crescimento, mas acredito que a maioria dos praticantes são fieis à marca. O que vai acontecer é que vai aparecer muita gente, mas acredito que hoje o mercado está mais alinhado”, conta Kuge, afirmando que o skate é “multifacetado” e “há várias frentes que podem ser trabalhadas”. Para ele, a massificação do esporte deve ficar “mais sério” mas o skate continuará sendo um estilo de vida. Apesar de afirmar que hoje um atleta de ponta consegue viver bem e que, no geral, a média consegue viver “razoavelmente bem”, para muitos o skate continuará sendo um hobby, um instrumento para “desestressar”.

Jorge Kuge, na marquise do Ibirapuera: “Fugíamos da polícia” (arquivo pessoal)
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