HOSPITAL JAPONÊS SANTA CRUZ: Livro ‘Sabor do Japão’ reúne receitas hospitalares japonesas adaptadas para o paladar brasileiro

Masayuki Eguchi (Jica), a nutricionista Solange Leal, Renato Ishikawa e a cônsul Chiho Komuro (Aldo Shiguti)

Fruto de uma bolsa de treinamento da Jica (Japan International Agency Cooperation) para a comunidade nikkei no Brasil realizada de maio a junho de 2019 por sete nutricionistas brasileiras de seis hospitais nikkeis no Hospital da Universidade de Kyushu, no Japão, o livro ‘Sabor do Japão’, foi lançado no último dia 15, na sede do Ipesc – Instituto de Pesquisa e Ensino Santa Cruz – organização externa ao Hospital Japonês Santa Cruz.
Participaram da cerimônia, em formato híbrido, o presidente do HJSC, Mário Sato; o presidente do Conselho Deliberativo da instituição, Renato Ishikawa; o presidente do Ipesc, Koshiro Nishikuni; a cônsul geral do Japão em exercício, Chiho Komuro (representando o cônsul geral Ryosuke Kuwana) e o representante chefe do Escritório da Jica no Brasil, Masayuki Eguchi. Do Japão, acompanharam via online, o vice-presidente e o nutricionista chefe da Universidade de Kyushu, respectivamente, Shuji Shimizu e Hirokazu Hanada.
Solange Leal Garcia, ex-bolsista do treinamento, representou as nutricionistas que participaram do curso: Carmen Regina Neves de Bezerril Maia (Hospital Amazônia), Cristina Hattanda Hirata (Hospital Paraná), Denise Maki Kunitake, Elisa Mitie Azuma dos Santos (Hospital Nipo-Brasileiro), Heloisa Kazumi Wada Friguglietti (Hospital Novo Atibaia) e Roseli Maki Yamane (Hospital Sugisawa/PR).

A nutricionista Solange Leal Garcia (Aldo Shiguti)

O livro, que em breve estará disponível para download gratuito no site do HJSC, traz, na primeira parte, 32 receitas de refeições aprendidas na Escola de Medicina da Universidade de Kyushu – uma das instituições japonesas que mantém intercâmbio com o HJSC – e adaptadas para o paladar brasileiro. Na segunda parte, “Receitas produzidas no Japão”, apresenta os mesmos pratos originalmente preparados no Japão. Segundo Solange Garcia, as refeições já fazem parte do dia a dia do Santa Cruz e, aliás, diga-se de passagem, “estão tendo uma aceitação muito boa pelos pacientes que optam pela culinária japonesa”.

Renato Ishikawa, presidente do Conselho (Aldo Shiguti)

Apoios – Em seu discurso, o presidente do Conselho Deliberativo do HJSC, Renato Ishikawa, destacou que o livro “incorpora as quatro diretrizes do Ipesc – pesquisas na área de saúde, educação, cultura e esportes; promoção de intercâmbios médicos e culturais com instituições de ensino e pesquisa nacionais e internacionais; promoção de intercâmbio estre especialistas e tradução de tratados na área de saúde e divulgação no Brasil – “por isso decidimos publicar o livro físico, além da sua versão digital pelo próprio Ipesc”.
Já o presidente do HJSC lembrou que a relação com a Universidade de Kyushu teve início antes mesmo da fundação do Santa Cruz, em 1939. “Em 1930, o doutor Yoshinobu Takeda, graduado na Faculdade de Medicina da Universidade de Kyushu, veio ao Brasil como médico itinerante do Ministério dos Negócios Estrangeiros e foi um dos fundadores do hospital, onde trabalhou, inclusive, antes e durante o período da guerra”.
“O hospital e a Universidade de Kyushu tem um relacionamento de mais de 90 anos e que segue se fortalecendo por meio de projetos como o livro ‘Sabor do Japão’”, observou Mário Sato, acrescentando que o apoio da Jica também vem de muitos anos e foi de fundamental importância para a compra de equipamentos e modernização do hospital, nos anos 90.

Mário Sato agradeceu à Jica e ao governo japonês (Aldo Shiguti)

Mudança de nome – “E a Jica segue nos apoiando, a exemplo do Centro Oncológico que está sendo implantado no hospital, e as iniciativas de intercâmbio como a que vemos hoje, com o lançamento deste livro”, disse Sato, que também manifestou gratidão ao governo japonês “que tem nos ajudado desde a nossa fundação”.
Como exemplo, ele citou a doação, por parte do governo japonês, de quatro ventiladores mecânicos por meio do Programa de Assistência para Projetos Comunitários e um subsídio da Jica para a adaptação do hospital para separar os pacientes com e sem Covid. “E contamos com grande apoio para projetos futuros, como a doação para o Centro Oncológico Santa Cruz, que está sendo instalado no hospital”.

A cônsul Chiho Komuro (Aldo Shiguti)

Segundo ele, a mudança de nome de Hospital Santa Cruz para Hospital Japonês Santa Cruz, em 29 de abril deste ano, “foi feita em reconhecimento aos fortes laços com o Japão para expressar as raízes e identidade do hospital, que foi construído com os esforços coletivos do povo japonês”.
A cônsul Chiho Komuro destacou a grande contribuição dos hospitais de origem japonesa para a sociedade brasileira e explicou que a culinária japonesa é conhecida por ser saudável e por seu equilíbrio nutricional.

Masayuki Eguchi, representante chefe da Jica (Aldo Shiguti)

Desafios – Masayuki Eguchi agradeceu as nutricionistas que participaram do projeto, “apesar dos desafios da pandemia”, e à Universidade de Kyushu por ter oferecido a oportunidade de treinamento. O representante chefe do Escritório da Jica no Brasil lembrou que o mundo ainda sente os efeitos da pandemia e lamentou pelas vítimas da doença. Disse que, “por outro lado, as doenças não transmissíveis, como as doenças cardiovasculares, diabetes e câncer também representam um sério desafio” e citou alguns fatores que contribuem para o seu agravamento, como uma alimentação não saudável e a obesidade. Segundo ele, a prática de exercícios aliada a uma alimentação saudável são essenciais para prevenir algumas dessas doenças.
Eguchi informou ainda que o livro ‘Sabor do Japão’ será traduzido para o espanhol e compartilhado para todos os escritórios da Jica na América Latina. A iniciativa também deve ser apresentada em uma exposição da Jica no Japão.

Intercâmbio – Do Japão, Shuji Shimizu lembrou que o relacionamento com o Santa Cruz começou em 2017, “quando o doutor Nishikuni e nossa equipe se encontraram pela primeira vez enquanto participavam do 2º Congresso Internacional de Medicina Clínica, em Tóquio”. E se intensificou no ano seguinte, “quando tivemos oportunidade de visitar o Hospital Japonês Santa Cruz dando início a um verdadeiro intercâmbio”.
“No final da visita, no carro que nos levou ao aeroporto, o doutor Nishikuni nos disse que a comida japonesa no Brasil está gradualmente se tornando cada vez menos parecida com a comida japonesa: ‘’Mesmo o sabor da sopa missô no hospital é diferente do gosto japonês’”.
“Daí, conta, nasceu o desejo de “fazer algo a respeito” e este desejo chegou ao escritório da Jica, que em maio de 2019 viabilizou o programa de treinamento. E afirmou estar ”encantado” com o lançamento do livro, que segundo ele, representa o resultado de todas essas atividades entre as duas instituições.

Esforços – “Esperamos que ele seja introduzido em todo o Brasil e esperamos que também esteja disponível para a comunidade japonesa que vive na América Latina”, discursou.
Já Hirokazu Hanada comentou que, durante o treinamento, as nutricionistas tiveram oportunidade não só de comer comida japonesa como também vivenciar a cultura nipônica. “Além dessas experiências, o livro mostra o esforço que elas têm feito para aprender a comida japonesa desde a sofisticação da apresentação dos pratos e a escolha dos utensílios, tornando-a acessível não só ao Brasil, mas também às pessoas de todo o mundo que se interessam pela culinária japonesa”., disse Hanada.

Koshiro Nishikuni, presidente do Ipesc (Aldo Shiguti)

Umami – Após os discursos, o presidente do Ipesc, Koshiro Nishikuni falou sobre “Promoção da melhoria da expectativa de vida saudável para os brasileiros por meio da difusão da culinária japonesa – Washoku”. De forma sucinta e bastante clara, ele prendeu a atenção dos convidados ao destacar a importância de uma alimentação saudável. Antes, mencionou duas frases do médico e filósofo grego Hipócrates, considerado o ‘pai da Medicina’: ‘Que seu alimento seja seu remédio e seu remédio seja seu alimento’ e ‘Que a alimentação seja teu único remédio’. E falou sobre as qualidades da culinária japonesa que, em 2013 recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural Imaterial. Entre os motivos, destacou o respeito pela natureza, o uso sustentável dos recursos naturais e os reflexos culturais.
Disse como o umami – que em japonês significa delicioso – está atraindo a atenção mundial e se tornou reconhecido como o quinto sabor do paladar: doce, azedo, salgado, amargo e umami. Também falou que a OMS (Organização Mundial de Saúde) preconiza o consumo diário de pelo menos 400 gramas de frutas ou hortaliças e que apenas 18% dos brasileiros atingem essa meta contra “quase que a totalidade dos japoneses”. Segundo ele, para 35% dos brasileiros, o prato principal ainda é a carne, mesmo com a recente alta dos preços.
Ainda em cima de números, Nishikuni explicou que 10% dos brasileiros tem “pelo menos um tipo de doença”. “E o mais grave é que eles se consideram saudáveis e só percebem [a doença] quando já está à beira de um infarto”, disse o médico, que prosseguiu: “21% dos brasileiros sofrem de hipertensão arterial; 18% tem problema de coluna enquanto 12% tem colesterol alto”. E finalizou afirmando que a Jica levou menos de um ano para aprovar o projeto que levou as sete nutricionistas de seis hospitais nikkeis, “frente à importância do assunto”.

Degustação – Na ocasião, o Ipesc homenageou a Jica e a Universidade de Kyushu. Na condição de presidente do Ciate (Centro de Informação e Apoio ao Trabalhador no Exterior), Masato Ninomiya entregou um quadro da artista Tomie Ohtake ao presidente do Ipesc, Koshiro Nishikuni, pelo atendimento prestado pelo HJSC aos diretores e funcionários do Ciate.
A cônsul Chiho Komuro e o representante chefe do Escritório da Jica no Brasil, Masayuki Eguchi, receberam os primeiros exemplares impressos do livro, que também terá uma edição digital disponível na Internet.
No final, os convidados puderam degustar uma das receitas que faz parte do livro.

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