Haicai Brasileiro: Como fosse a primeira vez (8)

Ouvi muitas vezes a palavra desapego na composição de haicai. Este termo é muito comum no budismo e, possivelmente, teria sido levado em consideração pelos antigos. A sua influência se daria por Matsuo Bashô, que também fora um monge leigo do Rinzai Zen. Mas quando trazido para o Ocidente, seja pelo budismo, seja por Bashô, o termo desapego não foi devidamente traduzido em relação ao contexto utilizado no Japão. Esta é uma questão que incomoda. Simplesmente traduzir uma palavra por uma outra equivalente não corresponde à realidade. Visto desta forma, deixar de utilizar o pronome de primeira pessoa (Eu) pela terceira pessoa (ele) me parece empobrecedor. Não é suficiente.
O desapego deve ser visto como algo que compreende a alma do haicaísta. Bashô teria se tornado num grande haicaísta quando abandonou os seus alunos, deixou o casebre em que morava e resolveu se tornar monge peregrino. É quando cria a grande obra: Caminhos Estreitos do Interior (Oku no Hosomichi). Este desapego se refere a esta atitude, de abandono. Compor sem amarras é também abandono. Seguem-se as regras, a disciplina, entretanto existe um abandonar-se na composição.

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