ESPECIAL: Japão, terra de contrastes onde a tradição e a sabedoria milenares andam de mãos dadas

Monte Fuji durante a época do Hanami é uma das atrações do calendário japonês (divulgação)

O Japão é um pais admirável e fascinante, em todos os sentidos. Uma terra de contrastes onde a tradição e a sabedoria milenares andam de mãos dadas, em um mesmo compasso, com a inovação e a tecnologia avançada. Uma nação em que sociedade dignifica a honra, a retidão, a disciplina, a perfeição e o respeito ao próximo e à natureza. Quem já teve a oportunidade de visitar o arquipélago localizado no extremo oriente do continente asiático, dificilmente não se deixa de impressionar com a história, a arte e a cultura locais, os festivais e eventos tradicionais, as paisagens bucólicas, os templos e castelos milenares em meio a tanta modernidade.
Filho de pai nissei (segunda geração de imigrantes japoneses) e mãe japonesa, tive a honra e a felicidade de poder visitar a terra de meus antepassados no ano de 2002, para realizar um intercâmbio universitário na área jurídica. O destino escolhido foi a terra natal de meus avôs da família Fujihara, a província de Yamaguchi, considerada o berço da Revolução Meiji, que marcou a transição de um país isolado e feudal para um Estado moderno.
Refiz o trajeto que, há sessenta anos, minha mãe e a família Yanagizawa fariam numa longa viagem que durou quase dois meses a bordo do navio Santos Maru, pela imensidão do Oceano Pacífico. Durante a jornada, com a esperança de encontrarem uma vida melhor que a da terra que haviam abdicado e que estava devastada pela Segunda Guerra Mundial, os imigrantes japoneses tinham aulas de português e praticavam gincanas esportivas (o chamado undokai), como forma de passar o tempo.

Navio Kasato Maru e os pioneiros da imigração japonesa

A imigração japonesa para o Brasil havia iniciado meia década antes, com a chegada do navio Kasato Maru em 18 de junho de 1908, oriundo de Kobe e com destino final ao porto de Santos (SP). Os imigrantes pioneiros firmaram-se inicialmente nas fazendas de café para substituir a mão de obra escrava e logo se espalharam pelos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, e mais tarde pelo Amazonas e Pará, para se dedicarem ao cultivo de legumes e hortaliças, principalmente. Enfrentaram grandes dificuldades com a adaptação ao clima e às doenças tropicais, ao idioma português, aos costumes e hábitos alimentares brasileiros, que eram muito diferentes dos que estavam acostumados em sua terra natal. Mas com muita inteligência, suor, dedicação, perseverança, disciplina e união, os imigrantes japoneses conseguiram superar as inúmeras dificuldades e começaram a ter uma condição de vida mais próspera e digna no Brasil, destacando-se gradualmente na sociedade brasileira na agricultura e no comércio.
Com o auxílio do governo japonês, formaram grandes cooperativas agrícolas, como a Cooperativa Agrícola de Cotia e a Sul-Brasil, dedicadas à produção de alimentos como batata e hortaliças. Mas a vida não era fácil, pois muitos trabalhavam trezentos e sessenta dias por ano, sob sol ou chuva, não tinham sábado, domingo ou feriados, nem o direito de ficarem doentes, folgando apenas na época do Oshougatsu (Ano Novo).
Felizmente, não precisei enfrentar as mesmas dificuldades nem a longa jornada de navio feita pelos antigos imigrantes. O voo de avião ao Japão durou pouco mais de vinte e quatro horas. Logo ao desembarcar no aeroporto de Haneda, em Tóquio, pude começar a sentir os encantos da terra de meus ancestrais. No trajeto para Yamaguchi, observei que tudo funcionava em perfeita sintonia, como um metrônomo que cadencia o ritmo de um pianista: desde as filas de desembarque do aeroporto à pontualidade dos trens e dos metrôs, das ruas e avenidas limpas e sem nenhuma imperfeição ao trânsito organizado e pacífico, as lojas de conveniência e os funcionários extremamente cordiais. Todos imbuídos do espírito de omotenashi, a tradicional hospitalidade japonesa de servir os convidados de todo o coração e de tratar o cliente ou mesmo o próximo da melhor forma possível.

História milenar – A história do Japão é milenar. Desde criança, ouvia de minha mãe histórias como a lenda de Izanagi, Izanami e Amaterasu, cujo primeiro registro escrito pode ser encontrado no livro Kojiki, de 712 d.C. Segundo a mitologia japonesa, Izanagi e Izanami eram duas divindades que representavam o Céu e a Terra. Eles decidiram se casar e, desta união, nasceram diversos deuses e surgiram as oito principais ilhas que compõem o arquipélago do Japão. Izanami, porém, acabou morrendo durante o nascimento do filho Kagutsu-chi, e Izanagi, transtornado com o trágico fim de sua amada, decidiu ir buscá-la no mundo dos mortos. Sem su-cesso, Izanagi retornou ao mundo dos vivos e, ao se banhar no mar para purificar-se, deu origem à deusa do Sol, Amaterasu.
Para os japoneses, os imperadores têm origem divina e são descendentes diretos desta deusa, Amaterasu. O termo Tenno Heika (天皇陛下), utilizado para designar os imperadores, significa “soberano celestial” ou “imperador de Deus”. Ele é o símbolo do Estado e da unidade do povo japonês e sua linhagem é considerada a mais antiga dinastia do planeta então existente, sucedendo gerações há mais de 2.600 anos. Apesar de não deter poder político ou econômico, o imperador exerce um papel de extrema importância na sociedade japonesa.
Todos os dias, na condição de sumo sacerdote xintoísta, o imperador deve rezar pelos seus antepassados e pelo bem-estar e felicidade do povo japonês. Desde tempos remotos, o imperador utiliza como selo imperial o Kiku no Gomon (菊の御紋), o “Nobre Símbolo do Crisântemo”. Trata-se de um brasão com a flor do crisântemo em cor amarela ou dourada contendo dezesseis pétalas e uma pequena esfera ao centro, visto em diversos templos e edificações japoneses.
O xintoísmo ou shintoísmo é uma das religiões ou filosofia ou estilo de vida (como alguns preferem denominar) mais antigas e predominante no Japão, ao lado do budismo, oriundo da China. O termo Shinto (神道) traduz-se literalmente como “o caminho de Deus” e caracteriza-se pela prática do culto e respeito a Deus, à natureza e aos ancestrais. Para o xintoísmo, Deus ou Kami (神) está em todas as coisas, vivas ou não, como as árvores, os animais, as montanhas e os rios. O princípio do xintoísmo é que as pessoas vivam em harmonia entre si e com a natureza e se afastem das imperfeições para que atinjam a pureza espiritual. O xintoísmo coexiste pacificamente com outras religiões, como o budismo e o cristianismo, e muitos japoneses declaram-se adeptos ao xintoísmo e à outra crença simultaneamente, sem que disto decorra qualquer conflito.
Ao longo do território japonês, é possível encontrarmos centenas de milhares de santuários e templos budistas (寺 ou Otera) e xintoístas (神社 ou Jinja), muitos deles erguidos há mais de mil anos, sem o emprego de qualquer tipo de prego ou parafuso na estrutura de madeira. Os encaixes dos pilares e das vigas são milimétricos e se amoldam de forma justa e perfeita, numa construção arquitetônica bastante avançada. Os templos e santuários são geralmente edificados em meio à natureza, no alto de uma colina ou montanha, e se amoldam em perfeito equilíbrio e harmonia ao meio ambiente. Periodicamente, os templos e santuários são reconstruídos com o mesmo tipo de material e da mesma forma que foram erguidos originariamente, para que perdurem por mais diversos anos.

Toriis – Os Torii (鳥居) constituem outro famoso símbolo do Japão e, atualmente, podem ser vistos em diversas partes do mundo, inclusive em parques e praças brasileiros. Consistem em estruturas formadas por dois pilares paralelos conectados por duas vigas transversais, geralmente de madeira ou pedra, e muitas vezes ornadas na parte superior por uma corda trançada decorada com tiras de papel branco. São colocados na entrada dos santuários xintoístas, como um portal que separa simbolicamente o mundo profano do sagrado.
Ao passar pelo Torii, o visitante encontra uma fonte de água cristalina conhecida como temizuya logo na entrada do santuário, na qual pode lavar as mãos em ritual de purificação. Após caminhar pelo átrio, chega-se a uma edificação sagrada, onde são realizadas as orações e os rituais xintoístas. Na frente desta edificação, os japoneses costumam bater palma duas vezes e colocar as mãos em posição de oração, curvando o tronco em um ângulo de quarenta e cinco graus para fazer a tradicional reverência em demonstração de respeito a Deus. Há ainda uma outra edificação, atrás da primeira, considerada mais sagrada e denominada o “Santo dos Santos”, cujo acesso é restrito ao público e permitido apenas aos sacerdotes xintoístas.
Uma grande quantidade de templos budistas e santuários xintoístas é classificada como Patrimônio Mundial da Unesco e pode ser encontrada na cidade de Nara, a primeira capital permanente do Japão que se manteve nesta condição durante o século VIII d.C. A região abriga, por exemplo, o Palácio Imperial Heijo e os templos Todai-ji e Horyu-ji e seu magnífico pagode, que são tidos como uma das mais antigas edificações feitas em madeira no mundo. Uma outra atração típica da região são os cervos, considerados animais celestiais pelos japoneses, que frequentam os parques bem preservados da cidade e podem ser alimentados e tocados pelos visitantes.
Distante cerca de quarenta e cinco quilômetros de Nara situa-se a cidade Kyoto que, por mais de um milênio, abrigou a antiga capital do Japão e a sede da Corte Imperial. Kyoto é uma rica e histórica cidade que possui, além de museus e palácios que serviram de residência para a família imperial, centenas de templos budistas e santuários xintoístas. Dentre as mais famosas edificações, podemos citar o templo Kiyomizudera, com seu famoso terraço de madeira e que tem uma vista espetacular, o Kinkaku-ji, com as suas paredes recobertas de folhas de ouro puro, e o Heian Jingu, que possui um dos maiores Torii do Japão. A paisagem destes lugares costuma ficar ainda mais exuberante conforme cada estação do ano, adquirindo tons de coloração extraordinária durante o outono, com as folhas multicoloridas das árvores, que os japoneses chamam de koyo (紅葉), ou com o desabrochar das flores de cerejeira ou sakura, na época da contemplação das flores, conhecido como hanami (花見).

Peculiaridades – Há muitas outras cidades japonesas fascinantes e cheias de histórias para contar. Cada região possui uma peculiaridade e um traço que a distingue das demais, seja em termos de história, cultura e gastronomia. Hokkaido, a ilha mais setentrional do Japão, com suas paisagens deslumbrantes e festivais de inverno; Okinawa, ao sul do Japão, com suas praias paradisíacas; Nagano e seus Alpes japoneses, que abrigaram as Olimpíadas de Inverno de 1998; Hiroshima e Nagasaki, que foram devastadas pela bomba atômica, com seus memoriais da paz; Hyogo, com seu belíssimo castelo Himeji, todo branco e imponente; e muitas outras localidades.
Todos os passeios podem ser facilmente realizados com a utilização do eficiente transporte público, principalmente trens e metrôs que compõe o extenso sistema ferroviário japonês, considerado referência mundial em termos de alcance, eficácia e organização. A malha ferroviária abrange praticamente todos os bairros e cidades do país, inclusive os mais distantes, e a pontualidade dos trens é impressionante. Há inclusive um manual impresso com todos os itinerários e horários atendidos pelo transporte público, que auxiliam o planejamento de uma viagem.
O atraso de um singelo minuto gera constrangimento e insta a companhia a anunciar os motivos da demora e a expressar pedidos de desculpas nos vagões e nas estações de trem. Tudo beira à perfeição na terra do sol nascente, tudo é feito com muito esmero, dedicação e perfeição. Foi por isto que o país, completamente devastado com a Segunda Guerra Mundial, conseguiu se reerguer para se tornar a terceira maior economia global, com um PIB de mais de US$ 5 trilhões. Nela, estão sediados gigantes corporativos como a Toyota, Honda, Nissan, Softbank, Mitsubishi, Sumitomo, Sony, Nintendo, Panasonic, Toshiba, Bridgestone, Ajinomoto e muitas outras marcas conhecidas pelo público brasileiro e mundial.

Tóquio – A atual capital do Japão é Tóquio, cujo significado é “capital do Leste ou Oriente”. Trata-se de uma região densamente povoada, com aproximadamente 37 milhões de habitantes em toda a área metropolitana. Antigamente conhecida como Edo, passou a ser chamada de Tóquio com a mudança da capital em 1868, durante a Revolução Meiji, vindo a abrigar o Palácio onde fica a residência oficial do atual imperador do Japão, Naruhito, e sua família.
Uma das famosas atrações turísticas da cidade é a Torre de Tóquio, estrutura metálica com seus 333 metros de altura e inspirada na Torre Eiffel de Paris. Da plataforma de observação da torre, é possível avistar, em dias de céu limpo, o monte Fuji, considerado o maior vulcão ativo do Japão e um dos mais icônicos símbolos do país. Todos os anos, milhares de pessoas retratam o Fujisan (富士山), como é chamado pelos japoneses, em fotografias e obras de arte, especialmente quando o cume está coberto de neve. Outros milhares de turistas escalam os seus 3.776m de altitude, para poderem contemplar, por cima das nuvens, o nascer do sol e a paisagem do arquipélago japonês.
Outra atração é Odaiba, uma ilha artificial construída na baía de Tóquio a partir de terra e resíduos de incineração que foram depositados sobre pequenas ilhas fortificadas erguidas durante o século XIX para proteger a cidade dos ataques marítimos. Em Odaiba, ficam a futurística sede da Fuji Television, a roda gigante de 115 metros de altura, o centro de convenções Tokyo Big Sight e o Museu Nacional de Ciência e Inovação Emergentes (o Mi-raikan), que inclui o famoso robô Asimo, criado pela Honda em 2000 e o primeiro a andar sobre duas pernas.
Há ainda o Toyota Mega Web, o showroom de uma das maiores e mais admiradas marcas automotivas do mundo, que desenvolveu o sistema de produção industrial conhecida como toyotismo, caracterizado pela produção just in time, o método kanban para controle de estoques e a implementação de rigorosos sistemas de qualidade na produção e distribuição, o que fez elevar o nível de confiabilidade e satisfação dos clientes em relação à marca e aos automóveis japoneses, como um todo. Tais métodos são considerados referência na administração pública e privada e são seguidos por empresas de todas as partes do mundo.

Mottainai – A construção de Odaiba revela um valor que está intrinsicamente ligado à sociedade japonesa, o mottainai, a virtude do não-desperdício e da valorização às coisas. O Japão foi um país que passou por inúmeras guerras e desastres naturais, enfrentando a fome e a escassez de recursos naturais. Todas essas dificuldades fizeram com que os japoneses passassem a dar valor e respeito às coisas, ao tempo e ao trabalho de outras pessoas. Há um sentimento de culpa e tristeza para quem age de forma contrária a estas ideias, isto é, que não atua de forma a evitar o desperdício e que não busca encontrar o máximo potencial das coisas, inclusive em si mesmo.
A concepção do mottainai não se limita a questões materiais, pois está ligado também aos aspectos morais e espirituais do ser humano, como apregoa o xintoísmo. Assim, é considerado mottainai não somente o desperdício de comida (a sociedade nipônica não permite que se deixe sobrar um único grão de arroz no prato, durante as refeições) e a falta de reciclagem de resíduos que podem ser reaproveitados, como também o é a vida de uma pessoa que tem a mente vazia de ideias ou cujo coração esteja esvaziado de bons sentimentos. Da mesma forma, para os mais tradicionais, é considerado mottainai gastar o tempo com fofocas, intrigas e outras conversas que não agregam nenhum valor à vida.
Como não poderia deixar de ser diferente, Tóquio abriga inúmeros templos e santuários, como o Meiji-Jingu, um oásis de paz e tranquilidade dentro da agitada metrópole. O santuário possui um enorme Torii com doze metros de altura feito com madeira de cipreste com mais de 1.500 anos de idade e é dedicado ao imperador Meiji, que deu o nome à revolução que permitiu a abertura do Japão ao mundo e a transformação do país em uma grande potência mundial, a partir do final do século XIX.
A Revolução Meiji teve início em 1868 e foi liderada pelos mestres Yoshida Shoin e Takasugi Shinsaku, na região de Choshu, atual província de Yamaguchi. Eles promoveram inúmeras mudanças em relação ao sistema de governo, ao ensino, à política, à economia e à sociedade da época, que fizeram o Japão alavancar uma forte industrialização e um movimento de modernização e de expansionismo de fronteiras, que fez do país um Estado Moderno e afastou as ameaças do imperialismo europeu que colonizava diversos países africanos e asiáticos, como a Índia e China.

Samurais – Antes da Revolução Meiji, o Japão era marcado pelo isolacionismo imposto pelo regime de xogunato, que, dentre os grandes feitos, unificou o país e trouxe paz e estabilidade à nação dividida por guerras internas. Os maiores expoentes deste período foram os senhores feudais ou daimyos Toyotomi Hideyoshi, Oda Nobunaga e Tokugawa Ieyasu. Neste período, uma das castas que mais se destacavam na sociedade eram os samurais, que, além de serem exímios guerreiros e espadachins que serviam os daimyos, dominavam as artes e a caligrafia.
Os samurais tinham uma vida bastante regrada e obedeciam rigorosamente ao código de ética bushido, que lhes ensinava a ter disciplina, lealdade, honra, coragem e respeito aos seus ancestrais. Quando falhavam ou cometiam algum ato desonroso passível de pena capital, os samurais preferiam tirar a própria vida por meio do harakiri ou seppuku, um ritual nobre e doloroso no qual cortavam o ventre na região do umbigo com uma pequena espada e sangravam até morrer. Os samurais acreditavam que ninguém, além deles mesmos, seria digno de tirar-lhes a vida, e que o harakiri era uma forma de restabelecer a honra e elevar o espírito. O livro Musashi, escrito pelo autor Eiji Yoshikawa, é um romance épico mundialmente famoso que retrata a história e os valores do samurai Miyamoto Musashi.
A literatura japonesa é bastante rica e fértil e os registros escritos mais antigos já descobertos datam do século VIII, com o Kojiki, onde são narradas as mitologias e lendas japonesas, e o Nihon Shoki, o livro de história antiga. Uma obra clássica bastante conhecida são as Lendas de Genji ou Genji Monogatari, do início do século XI. Também mundialmente famosos são os poemas haikai, como os do monge Basho, que inspiram inclusive brasileiros a escreverem poemas. Há ainda um grande destaque do Japão nas áreas científicas, como a Medicina, Física, Química, Engenharia e Matemática, inclusive com diversos Prêmios Nobel, e os níveis de alfabetização alcançam quase que a totalidade da população. Tudo isto, fruto de muito estudo, dedicação e perseverança. Há uma expressão que muito bem define este aspecto comportamental japonês, o ganbatte! Ou seja, faça o seu melhor!

Sumô – No Japão, é também possível conhecer o sumô, (相撲) esporte tradicional tipicamente japonês que tem origem há mais de dois mil anos em antigos rituais xintoístas, no qual os sumotoris (lutadores de sumô) devem empurrar o adversário para fora do ringue ou fazê-lo tocar o chão. Antes de lutarem, há uma longa cerimônia de entrada em que os lutadores purificam a boca com água benzida, batem as palmas e levantam as mãos e pernas em um ritual cerimonial, e jogam sal para purificar o ringue. A luta em si costuma durar pouco mais de alguns segundos. Os sumotoris levam uma vida extremamente regrada, acordando às quatro ou cinco da manhã para realizar as tarefas domésticas e seguindo uma rigorosa rotina que inclui treinos, alimentação e vestimentas.

Festivais –Além disso, o Japão possui inúmeros festivais tradicionais. Um deles é o Shitigosan (七五三), que significa “sete – shiti, cinco – go, três – san”, em que os pais vão aos templos e santuários acompanhados de suas crianças que completam três anos de idade, ou com seus filhos meninos de cinco anos e as filhas meninas de sete anos, para agradecer e rezar pela saúde e crescimento.
No dia 03 de março é comemorado o Hinamatsuri (雛祭り), o Festival das Bonecas ou o Dia das Meninas no Japão, época em que começam a desabrochar as flores de pêssego e de cerejeira e no qual era costume lançar as bonecas nas correntezas do rio para que levassem junto todos os males. Neste dia, era comum festejar com saquê, bebida fermentada feita à base de arroz, e outras comidas típicas como o sakuramochi, um bolinho de arroz envolto por folha de cerejeira.
Um outro festival milenar japonês tem como atração o Omikoshi (お神輿), um altar portátil sagrado do xintoísmo que servia para transportar uma divindade e outros itens sagrados e que é carregado nos ombros pelos participantes, que anunciam gritos de Wasshoi! Wasshoi! para dar ritmo e força às procissões nas ruas.
Os omikoshis são revestidos em ouro e podem ser ornados com uma ave fênix na parte superior, sendo transportados por meio de duas grandes barras, à semelhança da arca dos levitas. Aqui no Brasil, é possível conhecer um Omikoshi no Pavilhão Japonês do Parque do Ibirapuera, em São Paulo.
Certamente, porém, a festividade mais tradicional e celebrada pelos japoneses é o Oshougatsu ou Ano Novo, em que as famílias, desde as crianças até os idosos, costumam realizar uma grande faxina nos últimos dias do ano, não só de suas casas, mas das ruas, praças, escolas e dos locais de trabalho, para deixar tudo limpo e organizado para o ano que virá. No primeiro dia do ano, é tradição comemorar o Oshougatsu com saquê, que deve ser bebido em três goles em um recipiente especial, e com o ozooni, uma sopa feita por sete ingredientes (as receitas variam conforme cada família e província) e que costuma ser a primeira refeição do ano para os japoneses. Um dos ingredientes primordiais do ozooni é o mochi, um bolinho feito à base de arroz socado e que tradicionalmente é feito em um evento conhecido como Mochitsuki. O arroz é cozido e colocado em um gral ou pilão (usu) para ser batido com uma espécie de martelo de madeira (kine) até a massa ficar uniforme.

Bunkyo – O Brasil é o país que conta com o maior número de imigrantes japoneses no mundo inteiro, são cerca de 1,6 milhões de pessoas espalhadas pelas regiões do Paraná, Mato Grosso do Sul, Pará e São Paulo, principalmente. Muitas das influências trazidas por estes imigrantes estão arraigadas nos costumes e nos hábitos brasileiros, desde a gastronomia ao entretenimento, com os mangás (revistas de desenho animado), aos esportes como o judô, karatê e beisebol, até a cultura, a arte e a educação. Em São Paulo, há um tradicional bairro formado pela maior concentração da comunidade japonesa fora do Japão, a Liberdade. Na região das ruas Galvão Bueno, Glória e Estudantes, há uma infinidade de lojas, livrarias e restaurantes típicos japoneses. Nos finais de semana, o local abriga a tradicional Feirinha da Liberdade, que oferece barracas de comidas orientais e brasileiras e de artesanato e cultura.
A cidade de São Paulo conta ainda com um importante centro cultural e assistencial, o Bunkyo, que serve de apoio à comunidade nipo-brasileira e tem como missão promover a preservação e a divulgação da cultura japonesa no Brasil. O local foi fundado com o intuito de organizar as comemorações do cinquentenário da imigração japonesa, em 1954, e tinha como pilar fundamental as associações de imigrantes japoneses que tradicionalmente se reuniam e se auxiliavam mutuamente diante das dificuldades que os imigrantes enfrentavam com a língua, as tradições e costumes e hábitos brasileiros
O Bunkyo é ainda responsável pela conservação do Pavilhão Japonês, localizado no Parque do Ibirapuera, que foi construído pelo governo japonês e pela comunidade nipo-brasileira, tendo como inspiração o Palácio Katsura, antiga residência de verão do Imperador, em Kyoto.
Papel de suma relevância no processo de imigração, suporte e integração dos imigrantes ao Brasil exerce o Kenren (Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil) e os Kenjinkais (que são as associações de Províncias). Atualmente, o Kenren é responsável por organizar o Festival do Japão, evento realizado anualmente no São Paulo Expo que reúne mais de 150 mil pessoas e traz diversas atividades como oficinas gratuitas de arte e cultura japonesas, ikebanas (arranjos florais), cerimônia do chá, shows e culinária típica de cada uma das 47 províncias do Japão.
Em 2008, durante o centenário da imigração, o governo japonês, em reconhecimento aos esforços dos imigrantes no país, lançou na Avenida Paulista o projeto Japan House, um local concebido para propagar todas as características do Japão, desde a cultura milenar até as perspectivas inovadoras. São Paulo foi uma das três cidades escolhidas, juntamente com Londres, na Inglaterra, e Los Angeles, nos Estados Unidos, para abrigar a Japan House.

Aprendizado – Apesar de se passarem mais de um século desde a vinda dos primeiros imigrantes, ainda temos muito a aprender com os japoneses, suas técnicas e comportamentos milenares que são passados de geração a geração, desde os tempos ancestrais. Brasil e Japão têm muito a evoluir juntos. Esperamos que o ano de 2022 seja de muita evolução para todos nós brasileiros. Como dizem os japoneses: Shinnen akemashite omedetou gozaimasu. Kotoshi mo yoroshiku onegaishimasu. Ganbarimashou! Felicitações pelo Ano Novo que se inicia e que, neste ano, possamos contar com a cooperação de todos! Vamos dar o nosso melhor!

Daniel Toshihiko Fujihara

Um breve histórico da Maçonaria no Japão

Nos tempos pré-modernos os japoneses se desenvolveram praticamente isolados. Os primeiros ocidentais a chegar no Japão foram comerciantes portugueses que desembarcaram em Tanegashima, uma pequena ilha do sul do Japão em 1543. Posteriormente pessoas de outras nacionalidades começaram a chegar. Como o xogunato então o governante ficou preocupado com a crescente influência estrangeira, em 1639 ele praticamente isolou o Japão do resto do mundo, condição esta que durou mais de dois séculos, até 1854. Neste período somente protestantes holandeses e chineses não cristãos estavam autorizados a fazer negócios com o Japão.
Acredita-se que o primeiro maçom a visitar o Japão foi Isaac Titsingh, iniciado na Batavia em 1772, quando estava a serviço da companhia das Indias Orientais Holandesa. Ele foi ao Japão três vezes, em 1779, 1781 e 1783. Chefiou o posto de comércio holandês em Nagasaki, fez amizade com muitos japoneses em altos postos e com japoneses estudiosos do conhecimento ocidental. Seus livros, cerimônias usadas no Japão para funerais e casamentos (1819), Memórias e anedotas sobre a dinastia reinante dos xoguns, soberanos do Japão (1820) e ilustrações do Japão (1822) são fontes valiosas de informações sobre o Japão e seu povo e costumes na segunda metade do século 18.
Embora o Japão estivesse em um estado de isolamento, embarcações estrangeiras frequentavam suas costas periodicamente. Com o tempo, o governo abriu o país e celebrou tratado com potências estrangeiras. Em 1863, o governo japonês liberou o assentamento de tropas inglesas e francesas em Yokohama. Foi durante esse período que a primeira loja maçônica foi introduzida no Japão. A loja militar chamada Loja esfinge Nº 263, de Constituição irlandesa, veio ao Japão. Em Yokohama, a loja realizou reuniões e admitiu membros civis. Sendo uma Loja militar, no entanto, ela não podia operar no Japão por muito tempo e realizou a sua última reunião em março de 1866.
Enquanto isso, aqueles irmãos que viviam em Yokohama sentiram que era desejável formar sua própria loja escocesa, assim, a primeira loja local, Loja Yokohama realizou sua primeira sessão ordinária em 1866. Com a abolição da extraterritorialidade em 1899, os irmãos realizavam suas reuniões com um acordo de cavalheiros com o governo japonês de que este não interferiria com as atividades da fraternidade, enquanto a adesão fosse limitada a estrangeiros e que as reuniões
fossem realizadas sem ostentação. Os membros da ordem daquele tempo contribuíram com a modernização do Japão.
No entanto, alguns japoneses ingressaram na Ordem no exterior. Entre eles estavam dois estudantes da Universidade de Leyden, na Holanda Amane Nishi e Mamichi Matsuda. Ambos foram iniciados na Loja La Vertu Nº.7 em Leyden em 1864. O conde Tadasu Hayashi, um diplomata de carreira, e posteriormente um estadista, tornou-se membro da ordem quando estava na Inglaterra. A aliança Anglo-japonesa foi celebrada em 1902 e ele assinou esse tratado em nome do Japão. Ele foi iniciado na Loja Empire N◦.2018 em fevereiro de 1903. Hayashi tornou-se venerável da Loja em 1904. Ele foi o primeiro embaixador japonês na Grã-Bretanha. Por aquele tempo, cidadãos japoneses também foram iniciados em outros países, por exemplo, nos Estados Unidos e nas Filipinas.
O período das guerras foram tempos difíceis. Todas as Lojas tiveram que cessar atividades no inicio de 1940 devido a intensificação de movimentos anti-maçônicos. Após as guerras as atividades foram retomadas. Uma loja inglesa e duas escocesas sobreviveram. A grande Loja das Filipinas entrou no Japão durante o período de 1947 a 1956, foram fundadas 16 lojas. O general Douglas McArthur, comandante supremo dos aliados, ele como maçom era muito favorável às atividades maçônicas no Japão. Gradualmente o ingresso na maçonaria tornou-se disponível aos cidadãos japoneses.
Em 16 de janeiro de 1957, a loja Moriahyama Nº 134 fez uma convenção para a formação de uma grande loja do Japão. Uma reunião da Grande loja distrital foi realizada em 26 de janeiro de 1957 e a convenção ocorreu em 16 de fevereiro de 1957 realizada na Tokyo Masonic Building. Nesta convenção, onze lojas presentes aprovaram por unanimidade. Em nova convenção realizada em 16 de março daquele ano, mais quatro lojas aprovaram por unanimidade a resolução. Na comunicação anual da Grande Loja das Filipinas em abril de 1957, estendeu reconhecimento à Grande Loja do Japão e ela foi instituída em 1º de maio de 1957.

Considerações Finais
O Ilustre Grão Mestre da Ordem Real de Heredom de Kilwinning do Brasil Internacional, o Sr. Wagner Caparelli agradece a família japonesa pelo carinho, colaboração e solidariedade com a Maçonaria nessa fantástica matéria que contemplamos a união japonesa com a maçonaria, buscando sempre a igualdade, fraternidade e solidariedade entre todos.
Agradecemos a todos os envolvidos, especialmente ao nosso querido irmão venerável mestre Daniel Fujihara e as famílias Fujihara e Yanagizawa, pelo excelente trabalho e somos eternamente gratos mais uma vez a família japonesa por nos receberem de braças abertos, pela amabilidade e hospitalidade a nós dispensada desde o primeiro dia, não há como dimensionar o sentimento que fica desses momentos especiais de união fraternal. O Grande Arquiteto do Universo foi muito generoso conosco permitindo esse trabalho tão agradável e nos unindo com uma nação tão sublime como o povo Japonês.
Termino pedindo ao Grande Arquiteto do Universo, que derrame Luzes sobre nossas famílias e que proteja a todos nós. S⸫F⸫U⸫

Capa da matéria Heredom

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