ERIKA TAMURA: Paralimpíada

O início das paralimpíadas, nos traz reflexão.
O evento que começou essa semana em Tóquio, conta com uma grande estrutura e suporte para a sua realização, ainda mais neste momento tão delicado por qual estamos passando. Muitas pessoas comentam que é um evento apagado e que a mídia não dá muita importância. Pode até ser que a mídia não trata do assunto com a mesma pompa que os jogos olímpicos, porém a paralimpíadas tem uma atenção especial dos japoneses.
O Japão é um país que cuida muito bem das pessoas portadoras de necessidades especiais, e a paralimpíada tem uma importância especial no discurso inclusivo do Japão.
Agora, falando sobre a comunidade brasileira no Japão, em uma conversa com o vice-cônsul brasileiro, surgiu um questionamento: “Nunca fizemos nenhum evento voltado às crianças brasileiras portadoras de necessidades especiais, aqui no Japão!”. Pois é, concordei mesmo com essa observação, porém nesses anos todos que trabalho com assistência aos brasileiros no Japão, nunca soube de nenhum caso, nem sequer chegou para nós nenhum pedido de ajuda para as crianças nesse sentido. O que nos fez entender que, existem duas possibilidades: não temos crianças portadoras de necessidades especiais na comunidade ou elas existem, porém estão tão bem amparadas pelo governo japonês que não há a necessidade de vir até as entidades brasileiras e órgãos consulares para um pedido de ajuda.
Acredito muito mais na segunda hipótese. Pois pelas minhas pesquisas, o governo do Japão oferece uma estrutura de apoio excelente, e os trâmites nem são tão difíceis se os cidadãos estiverem em dia com as suas obrigações.
Por isso escrevi a primeira frase deste artigo, onde eu disse que a paralimpíadas traz reflexão. Muito mais do que um evento esportivo, é uma lição de vida!
Todos os atletas do mundo todo, possuem uma história incrível que fez com que cada um chegasse até aqui. Percebi que na paralimpíadas o fato de ganhar ou perder torna-se secundário diante das histórias de superações. É uma energia diferente!
Sou muito privilegiada em poder viver tudo isso, apesar da pandemia que nos tira de forma presencial do evento, mas temos a oportunidade de ver e viver tudo isso, mesmo que à distância, mesmo que de forma virtual. Eu não reclamo de nada, o fato de estar viva já é motivo de agradecimento. O mundo à nossa volta é muito maior do que as lamentações e lamúrias, capazes de cegar momentaneamente (ou não) os dias resilientes por que passamos.
É a chance do Japão mostrar para o mundo, a importância do momento e o quão estruturado este país é, para àqueles que buscam por inclusão no dia a dia, mesmo sendo portadores de necessidades especiais.
O meu marido é piloto de paraglider por hobby, e eu o acompanho nos dias de vôos, em um desses dias, estava eu lá tirando as fotos que eu adoro, e de repente vejo uma movimentação em cima de um piloto que estava prestes a decolar. O piloto no caso, é um senhor cadeirante, e voa de paraglider por hobby, a movimentação era porque, para decolar, ele precisa de uma ajuda, que alguém empurre a cadeira até ele conseguir decolar, e só! Depois disso, até o momento do pouso, e até mesmo na hora de guardar o seu equipamento, ele não quer mais ajuda, fica até bravo se alguém quiser ajudá-lo.
Histórias como essa que nos faz ficar com olhos marejados e o coração agradecido por tudo o que a vida nos proporciona.
E talvez o verdadeiro significado da paralimpíadas esteja na sua realização em si, sem mais, somente para ser apreciada, admirada e sermos surpreendidos com sensações que nos pega no alento, em meio a tudo isso que estamos vivendo.

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