ERIKA TAMURA: Eu amo meu trabalho

Preciso escrever sobre o meu trabalho no Japão, pois muitas pessoas não fazem ideia do que eu faço.
Pois bem, sou presidente de uma ONG, a NPO SABJA (Serviço de Assistência aos Brasileiros no Japão), e como o próprio nome diz, prestamos assistência e apoio aos brasileiros que vivem no Japão.
Já trabalhei em fábrica no Japão, já fui pesquisadora em um centro de pesquisa de tecnologia em Tsukuba e hoje estou na área de assistência social, a qual tem me proporcionado muita satisfação pessoal.
O carro chefe é o atendimento psicológico, no qual disponibilizamos psicólogos brasileiros para a comunidade brasileira em geral. Sem restrições nenhuma.
Confesso que o trabalho social não é fácil, por muitas vezes é frustrante, exaustivo e triste…
Mas o retorno social e pessoal que isso me proporciona, me faz esquecer de tudo e ver que o bem social vale a pena. O impacto na sociedade é a médio e longo prazo, mas não pode ser esse o motivo desanimador.
A vida nos prega muitas peças, não é mesmo? Quantas ironias do destino não vemos por aí? Aquele médico que perdeu um filho por doença, o piloto que perdeu um ente querido em acidente aéreo, o workaholic que perdeu o filho trabalhando… pois é! Eu perdi minha filha para o suicídio. Logo eu, que lido todos os dias com jovens suicidas no Japão!
Não é fácil, mas entendi que o meu trabalho tem que ser feito, e por isso decidi seguir em frente. E por eu gostar tanto do que eu faço, o trabalho tem sido a minha terapia, assim como escrever para este jornal.
Nunca imaginei que salvar vidas no Japão, significaria salvar a minha própria vida. Pois quando se perde uma filha, nada mais faz sentido, e tudo o que nos propusemos a fazer até este momento, perdeu o valor.
E é neste fio, de alento e superação que estou tentando me segurar, com todas as minhas forças para poder continuar a viver.
Na época do tsunami, quando trabalhei como voluntária nas áreas atingidas pelo terremoto e maremoto, eu falava que o meu ato de ajudar as pessoas, na verdade era uma auto ajuda. Fazia muito mais bem para mim do que para a pessoa que eu estava ajudando em si. E hoje, vejo o quanto isso é verdadeiro e quanto sentido tem esse pensamento.
Estou te ajudando, mas na verdade, quem precisa de ajuda sou eu! E a oportunidade de poder apoiar alguém, faz muito mais por mim, do que pelo outro…
E assim quero seguir na luta, pela troca de energia e ressignificação da minha vida.
Será que um dia as coisas voltarão a fazer sentido? Enquanto a resposta não vem, sigo trabalhando de acordo com o que me manda o coração.
Valores e princípios sofreram uma atualização e algumas futilidades foram banidas da minha vida, e isso estou levando para o âmbito profissional. Os parâmetros mudaram, e talvez essa seja a evolução.
Amar o próprio trabalho pode nos levar à uma elevação espiritual, intelectual e experimental. Por que não?

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