ERIKA TAMURA: Convivendo com o terremoto

Sábado, 13 de fevereiro de 2021, 23:07.
Estava deitada no sofá da minha sala, vendo televisão e sonolenta sinto o apartamento chacoalhar. Terremoto, claro! Afinal, moro no Japão, terremotos por aqui são comuns, logo passa…
Não parou, foram alguns minutos, que pareciam eternos e intensos.
Ligo o noticiário da TV, já está passando o informativo sobre o terremoto. Epicentro: Tohoku (Miyagi e Fukushima).
Estamos no ano de 2021, mas esse terremoto me fez lembrar de 10 anos atrás. Onde no mesmo lugar e quase na mesma época, ocorreu o grande terremoto seguido de tsunami.
Para quem mora no Brasil, ou não estava no Japão em 2011, pode ser apenas mais um terremoto, entre tantos outros desastres que tem acontecido no mundo. Tão irrelevante que pode parecer egoísmo japonês falar sobre um terremotinho de nada perto do caos em que o mundo vive atualmente. Mas para mim, e tenho certeza que, para os japoneses, não é um fato para ser subestimado. E vou explicar o motivo.
Esse terremoto de sábado, mesmo que não tenha sido tão violento como o de 2011, veio carregado de lembranças. Lembranças essas que, talvez, seria melhor esquecer, mas percebi que quem viveu aquele momento jamais esquecerá.
Pelo menos para mim, o terremoto de sábado serviu como gatilho de sentimentos que foram despertados.
Em março completa-se 10 anos do grande terremoto seguido de tsunami, que assolou o Japão. Lembro-me de cada detalhe desse dia, como se fosse ontem.
As incertezas e inseguranças, o medo, as dúvidas… quantos sentimentos vividos naquela época. E o que mudou dentro de mim? Tudo!
Eu digo que minha vida divide-se entre 2011 e depois de 2011. Pois com o terremoto perdi minha moradia, perdi bens materiais, mas ganhei vida! Ganhei experiência, e uma nova visão sobre a vida, com novos princípios. Foi trabalhando voluntariamente nas áreas atingidas pelo tsunami que aprendi a valorizar coisas mínimas, que o dinheiro jamais comprará.
O terremoto de sábado trouxe sorrateiramente todas essas lembranças, mas também trouxe um alerta para que ninguém se acomode. O alerta para a vida.
Estamos vivos, bem, com saúde, mas não significa que sabemos o que acontecerá no futuro, por isso fique atento! Para mim, esse foi o recado que recebi através do terremoto.
Para os japoneses, o trabalho de prevenção é essencial. Por isso há treinamentos constantes para os momentos emergenciais, regras para tudo, até mesmo nas catástrofes. E é assim que o país consegue manter-se soberano e altivo.
E ainda tiveram a audácia de me falarem que no Brasil nada foi noticiado sobre esse terremoto de sábado, portanto eu estava fazendo drama a toa! E sabe por que a imprensa do Brasil não deu muito ênfase à notícia? Porque não houve vítima fatal.
Ninguém morreu porque o Japão tem desde sempre, todo um trabalho preventivo para momentos como esse, além de toda uma estrutura que envolve cada detalhe do cotidiano japonês.
Portanto, para quem subestima um terremoto no Japão, peço para que pense antes de falar, pois envolve muita dor para quem sobreviveu às várias catástrofes que ocorrem por aqui. Sororidade não é somente da boca para fora, tem que ser praticado também, senão fica parecendo hipocrisia.
Respeito! Ainda mais neste momento…

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