ERIKA TAMURA: Comemorações dos 113 anos da imigração japonesa no Brasil

Semana passada comemoramos os 113 anos da imigração japonesa no Brasil! Uau! Parabéns!
Todos sabem da suma importância desse fato histórico que envolve Brasil e Japão, não vou ficar aqui debatendo sobre esse tema, afinal faço isso todos os anos, há mais de dez anos.
Mas quero ressaltar aqui, as comemorações que envolvem essa data. Senti uma mistura de vergonha alheia e vontade de me rebelar com as coisas que vi. Não podemos chamar isso de homenagem, nunca!
Vi Ana Maria Braga, colocando em seu programa uma moça com um vestido chinês (!!), e um moço caricato falando de uma forma bem estranha (para não dizer outra coisa). Vi pessoas imitando japoneses em sua fala, como forma de “homenagear” a imigração japonesa…
Só para lembrar, os japoneses não conseguem pronunciar a letra “L”, nem existe no vocabulário japonês, portanto falar “flango flito, aligatô e sei lá mais o que”, não é homenagem, é uma forma pejorativa de designação racial. Não sei, encaro como tiração de sarro mesmo.
A imigração japonesa, agregou muito ao Brasil. O povo japonês levou consigo técnicas agrícolas, culturas, conhecimentos em diversas áreas, e até hoje continua nutrindo o povo brasileiro com materiais culturais excelentes, como por exemplo na arquitetura, artes plásticas, sem contar a infinidade de desenhos animados e mangás na área do entretenimento.
Para quem quer realmente homenagear o Japão, ou pelo menos a imigração japonesa no Brasil, eu sugiro que conheça a Japan House. Muito mais que o bairro da Liberdade, a Japan House tem a alma do Japão contemporâneo! O arquiteto responsável pelo projeto é o Kengo Kuma, um dos arquitetos mais requisitados e famosos no Japão e no mundo, é dele também o projeto do estádio olímpico em Tóquio.
Se não podem conhecer a Japan House de forma presencial, não tem problema, a internet está aí para isso, ainda mais agora, em tempos de pandemia, onde até um tempo atrás, a Japan House estava fechada para visitação pública, mas aberta para visitação de forma online, no site.
Aliás, em tempos de internet, eu acho um absurdo ainda ter que vir escrever sobre isso. Basta pesquisar para poder falar com propriedade e consistência. A ignorância consumida, para mim, é imperdoável.
O conhecimento não pode ser um luxo, desfrutado somente por uma minoria. Está tudo tão acessível, que não admito que haja ainda esse tipo de comportamento e atitudes equivocadas.
Vamos então comemorar a imigração japonesa, cozinhando um prato típico japonês, ok! Mas falo aqui que guiozá é chinês, ramen é chinês, rolinho primavera, chinês também.
Não posso ser convalescente com tudo isso e ficar quieta, meus avós japoneses não me perdoariam se eu me calasse.
Moro no Japão há 23 anos, e posso falar que, cada dia é um aprendizado. Não sei tudo da cultura e dos costumes japoneses, mas não me precipito em falar o que não sei, pode ter certeza que, se aqui escrevo é porque pesquisei mil vezes antes de trazer isso para os meus leitores, e ainda uso somente fontes confiáveis. Se eu, Erika, uma simples residente no Japão, que não sou ninguém, posso perfeitamente ter acesso a essas informações, por que os jornalistas, apresentadores, editores, profissionais bambambam, não o podem também? Tendo ainda mais recursos…
Uma coisa eu lhes digo, a falta de conhecimento podemos perdoar, a ignorância não. Pois as informações estão saltando em nossa frente, e ignorar isso, para mim, não tem perdão.
Depois de todo o meu desabafo, aliviada, porém ainda indignada, deixo aqui os meus parabéns à toda comunidade japonesa no Brasil! Comunidade essa que é a maior do mundo fora do Japão! Merecedora de todo o respeito e admiração!

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