ERIKA TAMURA: Abertura das Olimpíadas de Tóquio

E, enfim, temos Olimpíadas. Está aí, para quem duvidou, para quem foi/é contra, para quem esperou ansiosamente, os jogos estão acontecendo, não da forma convencional, mas de um jeito especial, afinal, o governo japonês já nomeou o evento como as “Olimpíadas da Superação”.
Por todo o momento que estamos vivendo, a realização desses jogos já possui uma característica única, tanto é que para quase tudo, é a primeira vez que estamos vendo.
A abertura oficial dos jogos, foi um espetáculo mais emblemático do que surpreendente. À mim, não me surpreendeu em nada, a não ser os drones que foram um show à parte. Tudo muito tradicional e muito simbólico. Um dos pontos que me chamou a atenção e vale uma explicação por aqui foi a entrada das delegações dos atletas, que seguiu o alfabeto japonês, portanto, isso justifica o fato da Zâmbia ter entrado antes do Brasil, por exemplo.
Falando em delegação olímpica, eu vi muitas pessoas criticando o Brasil por se apresentar com apenas quatro atletas. E a explicação é muito coerente e consciente: preocupação com o covid. Simples assim, os técnicos das modalidades brasileiras, mostraram-se preocupados com a cerimônia de abertura, já que isso significa grande concentração de pessoas num mesmo lugar. E, um fato surpreendente é que os atletas brasileiros, na sua maioria, mostrou-se muito preocupados com a propagação do vírus, por isso falam que o momento não é de reclamação e sim, de foco para o campeonato.
Agora, prestem atenção no que eu vou escrever, pois aconteceu um fato histórico, além de tudo isso que já vimos e ouvimos. Vou falar do Japão!
Viram quem foi o porta-bandeiras do Japão? E quem acendeu a pira olímpica? Pois é… Ruy e Naomi Osaka, respectivamente! Dois atletas mestiços, negros, e de grande destaque no cenário esportivo mundial.
E por que isso chama a atenção?
O Japão é um país que tem a discriminação racial enraizadamente muito forte no seu povo. Ainda, infelizmente! Mas a abertura das olimpíadas mostra que isso vem mudando. O que já é uma grande revolução (ou será evolução?) quando se trata de Japão.
Entendam que não estou criticando os japoneses, amo esse país que me acolheu, mas preciso relatar o que acontece de verdade no dia a dia! Muitas vezes os japoneses podem estar sendo racistas, sem saber, não de forma intencional, mas de forma cultural, isso é algo que está dentro do país de forma milenar, a desconstrução leva tempo…
Mesmo sem falar nada explicitamente, o Japão demonstrou a realidade, colocando o Ruy e a Naomi à frente da delegação japonesa.
A Naomi Osaka é tão politicamente engajada em causas sociais que, vez ou outra causa algum desconforto entre os japoneses. Para mim ela é espetacular! Não fala japonês, somente inglês, e sempre diz em alto e bom som que o Japão só a respeita porque ela é a melhor do mundo, pois já passou por tantos bullyings no Japão, que achava que nunca seria possível, ter o respeito dos japoneses.
Aqui no Japão, os japoneses usam a palavra “ha-fu” para se referirem aos mestiços de japoneses (que vem do inglês “half”- metade). Naomi Osaka, mais uma vez, com poucas palavras disse que ela não é “ha-fu” e sim “daburu” (double, em inglês, ou seja duplo). Só por isso, já dá para se ter a ideia da dimensão do significado de se ter dois mestiços à frente da delegação olímpica japonesa. Os japoneses mais tradicionais, torceram o nariz para isso, mas o que importa é que o mundo amou!

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