ENTREVISTA: RENATO ISHIKAWA: ‘Acredito que a palavra-chave para este ano, mais do que tudo, chama-se esperança’

Renato Ishikawa com membros da Diretoria Executiva e do Conselho Deliberativo (divulgação)

Para o presidente do Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social – Renato Ishikawa, 2020 foi um ano diferente de tudo que já vivemos. “Achei interessante o comentário do vice-presidente Goiji Okuhara na última reunião do Conselho Deliberativo: ‘Existem décadas que nada acontece e existe semana em que décadas acontecem’”, explica Ishikawa, para quem a palavra-chave para este ano, “mais do que tudo, chama-se esperança”. “Um sentimento que envolve otimismo, motivação e confiança em dias melhores”, disse o presidente do Bunkyo que, assim como todos nós, espera, confiante, pela vacina.
Nesta entrevista concedida no final do ano passado ao Jornal Nippak, Renato Ishikawa fala ainda sobre aprendizado, fortalecimento das organizações e, é claro, sobre as novas gerações. “Sempre devemos criar estímulos com novos desafios. É importante que eles se sintam que, de fato, são eles os nossos sucessores na entidade”, conta.

Jornal Nippak: Que aprendizado podemos tirar de 2020? Sairemos, realmente, melhores do que éramos ou isso é apenas um discurso pontual?

Renato Ishikawa: Realmente foi um ano diferente de tudo que já vivemos. Achei interessante o comentário do vice-presidente Goiji Okuhara na última reunião do Conselho Deliberativo: “Existem décadas que nada acontece e existe semana em que décadas acontecem”.
Sem dúvida, nos tornamos melhores. Foi um ano de inúmeros aprendizados. Ou melhor, aprendemos a aprender. Incluo nisso, os aprendizados em relacionamento social, familiar, trabalho, novos procedimentos na vida cotidiana, incluindo a tecnologia digital, entre outras coisas.
No âmbito do Bunkyo, entre outras medidas, buscamos dar maior eficiência na organização com redução dos custos fixos, incentivo ao trabalho à distância (home office). Acredito que parte de toda essa melhora irá permanecer, mesmo após a crise.
Sigo o ditado de que nas grandes crises surgem as grandes oportunidades. Agora não foi diferente. Para enfrentar a pandemia tivemos de aceitar uma carga diversificada de informações em nossa vida e, certamente, muito disso vai acabar sendo incorporado em novos aprendizados.

JN: Na comunidade, tivemos uma série de ações lideradas por pessoas, com destaque para o Movimento Água no Feijão da chef Telma Shiraishi – além de inúmeras lives e correntes do bem – com o intuito de amenizar um pouco as dificuldades, seja de outras pessoas em situação de vulnerabilidade seja de associações (principalmente, entidades assistenciais) nesse período de crise. Em sua opinião, o que deve ser feito para que esses gestos não se percam com uma eventual volta à normalidade?

“A pandemia despertou fortemente em nós o sentimento de empatia” (Jiro Mochizuki)

R.I.: A pandemia despertou fortemente em nós o sentimento de empatia, de generosidade com os mais vulneráveis. Acredito na necessidade de fortalecer nossas organizações para tornar essa assistência mais efetiva. Penso que isso também é válido para a comunidade nipo-brasileira. Acredito, por exemplo, que um caminho seria o de promover maior aproximação das ações das entidades assistenciais em busca de uma política unificada de atendimento bem como de captação de recursos. Vejo como belíssimo exemplo o Jantar Show Beneficente realizado pelas 4 entidades assistenciais – Kodomo-no-Sono, Kibo-no-Ie, Ikoi-no-Sono e Yasuragui Home. É um evento que vem sendo realizado há cerca de 15 anos, com grande sucesso de público e de arrecadação.

JN: No caso específico do Bunkyo, quais foram as principais dificuldades? Lembro que o Bunkyo lançou a Campanha Amigo do Pavilhão Japonês e do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil com o intuito de arrecadar recursos. Como foi a adaptação ao que se convencionou chamar de “novo normal”?

R.I.: Ao Bunkyo, como para a maioria de outras entidades, um dos importantes pilares de manutenção são os eventos presenciais promovidos pelos voluntários. Com o adiamento desses eventos, esses recursos financeiros cessaram, mas as despesas de manutenção de nossa estrutura e dos recursos humanos continuaram.
Foi uma difícil equação. No âmbito da diretoria foi importante a criação do Comitê de Crise para cuidar dessa emergência, constituída por membros da diretoria. Em diversas reuniões foram definidas as prioridades para a entidade, bem como a administração dos custos e despesas, prevendo inclusive a fase do pós-pandemia.
Em termos de recursos, durante a pandemia, foram decisivos dois aportes. O primeiro foi resultado da “Campanha Amigo” em prol do Museu Histórico da Imigração Japonesa e do Pavilhão Japonês que consistiu na venda antecipada de ingressos e da “Campanha Cerejeiras para o Futuro” no Kokushikan com o plantio de novos pés de cerejeiras adotadas pelos apoiadores. O segundo foram os valiosos recursos proporcionados pela Fundação Kunito Miyasaka.
Também, neste ano, dando continuidade às ações iniciadas em 2019, atuamos fortemente na área da comunicação, seja com mudanças em nosso site, publicação de boletim mensal e revista, e principalmente nas redes sociais. Por exemplo, no Youtube (Bunkyo Digital), em fevereiro de 2020 tínhamos 47 inscritos, no mês de novembro conseguimos aumentar em 100 vezes mais, ou seja, estávamos em 4.636 inscritos. Durante o ano, com a série de lives, foram cerca de 130 mil visualizações no Youtube.

JN: Teve algum departamento que sentiu mais com a falta de recursos?

R.I.: Especificamente sobre a falta de recursos, podemos dizer que se referiu às despesas de manutenção das nossas estruturas envolvendo as instalações da sede, Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil, Pavilhão Japonês e Centro Kokushikan Daigaku. Esses locais, mesmo fechados ao público, alguns serviços internos continuaram sendo realizados. Podemos citar, por exemplo, o caso do Pavilhão Japonês: os cuidados com os mais de 300 nishikigoi, as carpas coloridas, precisaram continuar, seja com a alimentação, filtragem da água, limpeza do lago, entre outros itens.

JN: De tudo que o Bunkyo fez durante esse período, na sua opinião, o que deve permanecer? As reuniões online, por exemplo, serão uma realidade daqui para frente? E quanto aos eventos, o ideal seria eventos híbridos?

R.I.: Quando falamos que esse tempo de pandemia foi de aprender a aprender, por exemplo, entre outros itens, de aprender um pouco sobre a tecnologia digital. Até então, nas reuniões da diretoria, nunca tínhamos falado em Zoom. Pois é, foi a plataforma que utilizamos para realizar as 30 reuniões da diretoria durante o ano, incluindo as 2 grandes reuniões com as regionais (ocasião em que tivemos a participação recorde de 30 dos 31 diretores regionais). Podemos falar que, de certa forma, indiretamente, a pandemia trouxe algum ponto positivo – conseguimos diminuir a distância geográfica e melhorar a nossa comunicação, apesar de ser por meio digital.
Aliás, esse formato digital nos permitiu ampliar a abrangência dessas realizações, tanto a nível nacional como internacional. Ao todo, foram cerca de 50 eventos virtuais, que dá uma média de um por semana. Acho que o cenário para este ano ainda não nos dá clareza de quando poderemos retomar os eventos presenciais. Acho mais viável a previsão de eventos híbridos.

JN: E em relação às entidades do interior e de outras localidades, como o Bunkyo procurou atuar para auxiliá-las?

R.I.: Em relação a essas entidades, baseado nas reuniões com as regionais, percebemos que a realidade de cada uma é bastante diversa. As menores, com uma estrutura mais enxuta, sofreram menos para sua manutenção. Uma das propostas feitas às regionais é a Câmara de Mentorias com a implementação de Programas Profissionais Estruturais com a participação de diretores, assessores e colaboradores do Bunkyo. A outra, chamamos de Rede Virtuosa de Colaboração que tem como um dos itens a promoção de FIB – Fórum de Integração Bunkyo em diferentes regionais, visando fortalecer a integração das entidades membros bem como a dos associados, em especial dos jovens.

JN: Para o senhor, a participação dos jovens nas entidades é algo que não tem mais volta? O que fazer para que eles continuem sendo acho que atuantes?

“É importante que os jovens sintam que são nossos sucessores” (CNL)

R.I.: Realmente, a atuação da geração mais nova foi de grande importância para adaptar ao “novo normal”. Acho que devemos fazer com que os jovens continuem exercendo as responsabilidades atribuídas e sempre devemos criar estímulos com novos desafios. É importante que eles se sintam que, de fato, são eles os nossos sucessores na entidade. Eles estão, ao nosso lado, fortalecendo esta entidade que, logo mais, será assumida por eles!

JN: Apesar de ter se adaptado a esse “novo normal”, fica um pouquinho de frustração por não ter podido comemorar os 65 anos do Bunkyo como planejado inicialmente?

R.I.: Pessoalmente, eu que gosto de agitação, queria organizar uma grande comemoração. Mas, não posso falar que fiquei frustrado. Acho que o objetivo dessa festa era demonstrar nossa gratidão às pessoas, entidades e empresas colaboradoras. E, ao mesmo tempo, homenagear os nossos precursores. Assim, a nossa comemoração, dividida em dois atos, nos dias 12 e 17 de dezembro, por meio da live homenageou e agradeceu os protagonistas desta entidade. Acredito que foi uma bela comemoração do 65º aniversário!

JN: E para este ano que se inicia, quais as perspectivas? Quem mensagem o senhor gostaria de deixar para os leitores do Jornal Nippak?

R.I.: Acredito que a palavra-chave para este ano, mais do que tudo, chama-se esperança. Um sentimento que envolve otimismo, motivação e confiança em dias melhores. Espero sinceramente que as vacinas consigam erradicar a pandemia do coronavírus do mais rapidamente possível. Mas, para este ano, ainda continua valendo nosso recado: cuide de sua saúde, de sua família, daqueles que você ama.

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