ENTREVISTA/DIMAS COVAS: Para presidente do Instituto Butantan, medidas contra a Covid-19 ‘vão perdurar por alguns anos’

Dimas: “Não é possível prever um fim, mas sim medidas de cautela que irão perdurar por alguns anos” (divulgação)

Presidente do Instituto Butantan, Dimas Covas é categórico ao comentar sobre o fim da pandemia, que para muitos já parecia ser algo bem próximo. No entanto, para Dimas Covas, o avanço da variante delta do coronavírus coloca novamente um ponto de interrogação. “Por ser um vírus endêmico, assim como o vírus da gripe, ocorrem mutações constantemente e não é possível prever um fim, mas sim medidas de cautela que irão perdurar por alguns anos”, disse o presidente do Butantan em entrevista ao Jornal Nippak. O que parece claro, conta, é a necessidade de uma dose de reforço para os já vacinados com as duas doses. Com relação a essa dose de reforço, realmente, não há dúvidas que ela será necessária. O que se estuda é o tempo ideal para aplicar essa dose adicional, se seriam 6 meses ou 1 ano e, obviamente, deverá ser levado em consideração as variantes dominantes, principalmente porque algumas dessas vacinas tem um poder de neutralização menor com relação a certas variantes. Por isso falamos em dose de reforço, pois irá acontecer uma atualização de vacinas não só com a Coronavac, mas também com a ButanVac. Para esta última, a ideia é que ela seja uma vacina contra o vírus da gripe e contra o Covid-19”, destaca Covas, lembrando que o Butantan já iniciou os estudos clínicos em humanos e poderá solicitar a autorização para uso emergencial da Butanvac ainda este ano. “Assim, a Butanvac estará disponível para distribuição no Brasil e em outros países da América Latina a partir de 2022”, afirma.
Confira a entrevista que o presidente do Instituto Butanta concedeu ao Jornal Nippak:

Jornal Nippak: Quando o senhor acredita que a vacina Butanvac esteja disponível para uso prático?

Dimas Covas: Os estudos clínicos da vacina em humanos já foram iniciados e a autorização de uso emergencial poderá ser solicitada ainda em 2021. Assim, a Butanvac, estará disponível para distribuição no Brasil e em outros países da América Latina a partir de 2022.

Jornal Nippak: Qual será o diferencial da Butanvac para a Coronavac? Com a nova vacina, a Coronavac deixará de ser produzida pelo Butantan? Quantas doses do imunizante o Instituto pode produzir em 2022? A Butanvac será exportada para outros países?

Dimas Covas: A parceria do Brasil com a biofarmacêutica chinesa SinoVac permitiu transferência de tecnologia para fabricação da CoronaVac integralmente em solo nacional, ou seja, a partir do próximo ano (2022) não será necessária a importação do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA).
Para tal, o Instituto Butantan contará com uma fábrica construída exclusivamente para a produção da CoronaVac. As obras estão em fase final e devem ser concluídas até o fim deste ano e, após passar pela certificação de boas práticas pela Anvisa, poderá produzir a vacina contra Covid-19 a partir do meio de 2022.
A nova fábrica terá capacidade de produzir e fornecer 100 milhões de doses por ano.

Para Dimas Covas, “não há dúvidas que será necessária uma dose de reforço” (divulgação)

Jornal Nippak: Hoje, muitos países já estão falando em terceira dose como reforço contra a Covid-19. No caso das pessoas que foram vacinadas com a Coronavac, há algum estudo nesse sentido? O senhor acredita que será necessário uma dose de reforço, independente da vacina?

Dimas Covas: É preciso cautela ao falar em 3ª dose. Uma “3ª dose”, como alguns se referem, seria uma mudança no esquema vacinal, o que não é o caso. Por enquanto, o esquema vacinal continua sendo de 2 doses, para a maioria das vacinas, com a probabilidade de um booster, que seria a dose de reforço.
Com relação a essa dose de reforço, realmente, não há dúvidas que ela será necessária. O que se estuda é o tempo ideal para aplicar essa dose adicional, se seriam 6 meses ou 1 ano e, obviamente, deverá ser levado em consideração as variantes dominantes, principalmente porque algumas dessas vacinas tem um poder de neutralização menor com relação a certas variantes.
Por isso falamos em dose de reforço, pois irá acontecer uma atualização de vacinas não só com a Coronavac, mas também com a ButanVac. Para esta última, a ideia é que ela seja uma vacina contra o vírus da gripe e contra o Covid-19.

Jornal Nippak: Qual a avaliação que o senhor faz sobre o papel desempenhado pelo Instituto Butantan nesta pandemia?

Dimas Covas: Instituto Butantan trabalha, há 120 anos, a serviço da vida e da ciência. Nosso objetivo é realizar ações efetivas de combate a pandemia contra o Covid-19, por meio da imunização de toda a população do Brasil e de outros países.
O Projeto S, realizado em Serrana, interior do estado de São Paulo, foi pensado para medir o impacto da CoronaVac em um ambiente monitorado. Os resultados finais dos ensaios clínicos de fase 3 da CoronaVac apontam uma eficácia global de 50,7% com o intervalo de 14 dias entre as duas doses, e de 62,3% com o intervalo de 21 dias ou mais, conforme estudo publicado na plataforma de preprints da revista The Lancet. A CoronaVac foi a primeira vacina a ser testada em uma população inteira e comprovou sua efetividade também no mundo real, além dos ensaios clínicos de eficácia.

Jornal Nippak: De alguma forma, o governo federal acabou prejudicando a imagem da Coronavac?

Dimas Covas: A condução do Governo Federal durante toda a pandemia, desde o negativismo do vírus, passando pela imprudência na aquisição de vacinas e de questões de higiene e isolamento, prejudicaram todo o povo brasileiro, não só a Coronavac.

Jornal Nippak: É correto fazer exercícios em grupos – como a prática de ginástica rádio taissô (a ginástica rítmica japonesa) – em locais abertos como parques, usando máscaras e mantendo distância de 2 metros, ou fazer uma sessão de escrita de haiku (poesia japonesa) em parques usando máscaras na forma de piquenique, adotando as medidas de segurança? Com que devemos tomar cuidado, nesses casos?

Dimas Covas: Consideramos as orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde), para todas as situações descritas, sendo necessário que a população complete o esquema vacinal e mantenha as medidas sanitárias (limpeza das mãos, uso de álcool em gel e máscara), além do distanciamento social.

Jornal Nippak: O senhor vê um fim da pandemia? Se sim, ela está ligada à imunização completa da população? Até quando o senhor acredita que as vacinas contra a Covid-19 serão necessárias?

Dimas Covas: Por ser um vírus endêmico, assim como o vírus da gripe, ocorrem mutações constantemente e não é possível prever um fim, mas sim medidas de cautela que irão perdurar por alguns anos.

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