ENFRENTAMENTO À COVID: Para Leandro Karnal, ‘a resiliência vai nos tornar pessoas melhores’

Durante a palestra no auditório do HNB, Leandro Karnal falou sobre a importância das vacinas (divulgação)

Historiador, escritor e palestrante com mais de 8 milhões de seguidores em suas redes sociais, Leandro Karnal acredita que “a resiliência tornará as pessoas melhores”. “A humanidade comporta quem torce por um time ‘A’ ou ‘B’, a humanidade comporta quem tem genética ocidental, oriental, africana ou seja ela qual for. O que a humanidade não pode comportar é gente que compartilhe morte, racismo e violência. Ai é o paradoxo da tolerância de Popper, ou seja, eu tenho que ser tolerante com tudo, menos com a intolerância, porque a intolerância torna a vida humana impossível”, disse ele durante palestra realizada no último dia 11 no Auditório do Hospital Nipo-Brasileiro, no Parque Novo Mundo, na zona Norte de São Paulo, e transmitida no YouTube da instituição com tradução simultânea para o japonês.
Com o tema: “Um novo mundo chegou: estamos preparados?”, a palestra fez parte da campanha de prevenção da Covid-19 do governo japonês dentro do “Projeto de Fortalecimento de Infraestrutura de Negócios dos Japoneses Residentes no Exterior e Vida Cotidiana dos Nikkeis”.
Doutor em História Social pela USP (Universidade de São Paulo) e reconhecido em todo o país como formador de opinião e, mais recentemente, apresentador de TV e influenciador digital, destacou em sua palestra que em Hiroshima, “lugar onde se viveu a maior violência, a maior agressão” da humanidade, “ali surgiu uma cultura de paz”.
“Naquele lugar, até hoje as pessoas celebram a paz, especialmente ali, onde ela mais é necessária, onde foi mais foi violentada e onde há mais memória de morte. Por isso sempre acredito nessa resiliência, que após a pandemia a gente descubra uma cultura de paz, que após a pandemia a gente descubra que somos parte de um grupo, de uma comunidade”, afirmou ele, explicando que “entender que nenhum homem é uma ilha e cada um de nós conta e importa, pode começar aqui mesmo, no hospital, e se estender pela cidade de São Paulo, pode se estender para o Brasil, pode se estender para o mundo e para o Japão”.

Comunidade – Autor de diversos best sellers, entre os quais: “Crer ou Não Crer” e “O Dilema do Porco Espinho”, Leandro Karnal falou sobre como a pandemia mudou nossa visão de mundo. “Se há uma lição que eu gostaria que todos tivéssemos com a pandemia, no Brasil e no Japão, é que nós somos uma comunidade e que eu posso não gostar de você, que eu posso não gostar do seu jeito, mas que você é tão humano como eu, com os mesmos direitos e que a vida é um valor absoluto”, disse.

Leandro Karnal com o superintendente do HNB, Sergio Okamoto (divulgação)

Vacina 1 – Colunista do jornal O Estado de S. Paulo e presença constante no Café Filosófico CPFL e na imprensa nacional – suas frases e vídeos circulam pela internet com enorme popularidade – Leandro Karnal também revelou que tem uma “profunda raiva em negadores de vacina”. “Tenho uma raiva estrutural de gente que nega a seu filho a vacina para poliomielite, uma conquista de mais de 60 anos. [tenho raiva] de uma pessoa que nega a seu filho um avanço consagrado da ciência. Isto deveria ser causa de perda de poder sobre capacidade, aquilo que se chamava antes de pátrio poder na lei brasileira porque uma coisa é a crença em duendes outra coisa é condenar uma criança à paralisia porque você decidiu que a vacina não funciona”, comentou Leandro Karnal, explicando que “compartilha com a cultura japonesa a defesa de um suicídio de honra se você acha que sua vida não vale mais a pena”.

Medo – “Mas combato o homicídio de qualquer forma, ou seja, se você quer morrer pode até ter motivos, mas matar alguém de forma direta ou indireta é um horror. Este mundo é um mundo onde necessariamente as pessoas começam emitir opiniões sem cessar e essas opiniões, às vezes, são muito negativas, muito danosas e muito agressivas”, comentou, acrescentando que “este é um mundo onde não existe mais autoridade porque a autoridade é dada por sua popularidade e quantidade de acessos a sua rede”.
Para o palestrante, no entanto, “o número de seguidores mostra várias coisas, mas não necessariamente qualidade”. E, segundo ele, a popularidade não vem, necessariamente, acompanhada de qualidade. “O melhor médico não é, necessariamente, aquele que tem mais gente no Instagram. O melhor hospital não é, necessariamente, aquele que tem mais gente assistindo lives. O apelo da Internet não é, necessariamente, o definidor de uma qualidade de saúde”, comentou o professor, para quem “ter medo, mesmo no final da pandemia, não é errado”. “O medo é sinal que você tem algo a perder e Aristóteles ensina que a pessoa que não tem medo é péssima na guerra porque vai virar alguém que não tem limites e vai estragar a estratégia. A pessoa que não tem medo, a pessoa que não sente dor e sofre de alguma analgesia crônica, é uma pessoa que não sobrevive mito porque ela não sabe que quebrou um osso, que tem apendicite. A dor é um indicativo revolucionário sobre a nossa prudência e a nossa sobrevivência. A dor é pedagógica e graças a isso a pessoa que tem medo sobrevive mais”, garantiu Leandro Karnal, que tem seu próprio canal no Youtube: “O prazer Karnal” e é âncora do programa Universo Karnal na CNN Brasil.

Influenciador digital tem mais de 8 milhões de seguidores (divulgação)

Vacina 2 – Para ele, a humanidade nunca enfrentou um problema tão grave como a Covid-19 e, ao mesmo tempo, nunca teve tantos recursos tecnológicos para enfrentá-lo. “Comparemos com a vacina de caxumba, que foi relativamente rápida, se considerarmos as gerações anteriores, e ainda assim, entre o processo de fazer os primeiros estudos e implementá-la, nós tivemos quatro anos. As atuais vacinas – porque há vários modelos e tipos – foram feitas em um prazo muito mais curto, com uma grande pressão midiática e grandes volumes de capitais aplicados em pesquisas”, disse o palestrante, afirmando que “aprendemos mais sobre vacinas de dois para cá do que provavelmente nos 20 anos anteriores”.
“Vacinas que apelam para o RNA, vacinas de modelo clássico, vacinas de todos os tipos que nós aprendemos rapidamente porque havia pressão e revela uma coisa muito positiva. A humanidade, quando não se dedica a matar, a humanidade, quando concentra esforços na boa ciência e na Medicina, a humanidade dá saltos. E isto é uma lição muito positiva e muito cheia de esperança. Nós, humanos, que somos ótimos para matar – temos uma experiência comprovada nisso – nós, humanos, que nos envolvemos com guerras destrutivas, temos uma capacidade de reagir e produzir uma cultura de progresso, de ciência e assim por diante”, explicou Leandro Karnal.
Para ele, no caso específico do Brasil, de dois anos para cá “passamos a perceber a importância de uma saúde sólida e nunca, que eu possa me lembrar nos meus 58 anos, nunca discutimos publicamente remédios e vacinas [como discutimos agora]”. “Nunca discutimos na imprensa, nas casas e como tema político do Congresso, qual o melhor remédio, qual o melhor tratamento, quais os riscos de cada opção”, conta, explicando que discutir publicamente esses temas também é um aspecto positivo”.
“Quando a pandemia começou, passamos a utilizar uma sigla, nascida na Califórnia, em abril do ano passado, que disse que o mundo da pandemia era um mundo bani, essa sigla em que o “b” deriva do inglês brittle de frágil, o “a” deriva de ansiedade, de ansioso, e naturalmente o “n” de não linear e o “i”, de incompreensível. Ou seja, um mundo frágil, ansioso, não linear e incompreensível”

Japão – Para o historiador, o Brasil está em um momento muito específico. “Só para lembrar, nenhum de nós teve experiência de pandemia em sua existência, logo, é um fato inédito. A gripe de Hong Kong, em 1968, com mais de um milhão de mortos não atingiu o Brasil de forma devastadora. As gripes suínas e aviária e outras na transição do século 20 para o 21 foram recebidas aqui, mas sem todo o processo de lockdown, sem o processo de fechamentos, sem lotar as UTIs dos hospitais. A última pandemia que atingiu São Paulo foi a gripe espanhola em 1918 e nem a rainha Elizabeth II lembra disso porque ela nasceu em 1926”, observou Leandro Karnal, lembrando que na gripe espanhola São Paulo parou por três meses e depois retomou.
“Não tínhamos vacinas contra gripe, não tínhamos em 1918 antibióticos, não tínhamos em 1918 o conhecimento que temos hoje. Nunca havia sido visto um vírus ao microscópio em 1918. Temos um enfrentamento enorme com uma experiência muito importante mas com a maior tecnologia que nós já tivemos”, destacou Leandro, que revelou uma “profunda e antiga admiração pela cultura japonesa, que aumentou com algumas visitas ao Japão”. “Tenho uma relação muito intensa com a literatura japonesa, com o cinema japonês, até com artes como a a cerimônia do chá ou a cultura que produz ikebana e assim por diante”, disse.

Leandro Karnal, Michele Araújo, Sergio, Kendy e Fabio Souza (divulgação)

Desafios – Sobre o Japão, aliás, Leandro disse ser “muito curioso” o fato de o Brasil estar mais avançado na vacinação do que no Japão, “uma sociedade tão afeita as regras”. Para ele, é curioso também que depois de tantos debates nós, enfim, nos convencemos, de forma clara, que a ciência é o que resolve, que o pensamento mágico não resolve e é a ciência, a vacinação em massa, a testagem massiva que ajudam diminuir [o número de casos] porque a ciência se reconhece como falha, mas com a melhor resposta possível a ser dada”. “Ora, nós não temos condições de garantir cem por cento porque ciência não é teologia, ela não trabalha com verdades absolutas, ela trabalha com verdades dependentes de exames, exames que mudam”, afirmou Leandro Karnal, que encerrou sua palestra afirmando que vivemos em um mundo com “desafios novos”.
Mas salientou um dado positivo: “temos condições científicas de enfrentar, basta que a gente aprenda a conviver com a diferença e foque naquilo que interessa”.

Haicai – E finalizou com um haicai: “a borboleta pousa sobre o sino do templo adormecido”. E explicou que é um haicai que versa sobre a convivência de opostos e sobre funções e seus significados. “Não cabe a borboleta tocar assim como não cabe ao sino voar, e por isso eles podem conviver porque um não entra na área do outro. Para viver bem em um hospital, pensem que aqui há borboletas e sinos e vários outros animais e instrumentos espalhados como uma arca de Nóe. Cada hospital é uma arca de Noé e essa arca tem, como no mito bíblico, animais de toda espécie, mas se um único cupim furar o chão da arca, todos afundam”.

Arca de Nóe – Ou seja, “se um colaborador se torna sabotador, todos afundam. A principal, lição da arca é: estamos juntos nessa. Nenhum homem é uma ilha como disse o pregador inglês inglês John Donne, no século 17, e [Ernest] Hemingway no século 20 coloca o resto do verso “Por quem os sinos dobram?”. Os sinos dobram sempre por você, porque cada pessoa que morre torna a humanidade menor. Nenhum homem é uma ilha, cada pedaço retirado de solo torna o espaço menor. Somos responsáveis, somos uma comunidade somos uma humanidade. Aprendemos na pandemia que não é possível fazer um pais se isolar porque a contaminação vai voltar a este pais como se fosse uma insistente infecção coletiva. Ou nós aprendemos que somos uma humanidade ou nós vamos ter variantes Delta, Y, Beta, Ômega, Z. Ou nos aprendemos que temos que vacinar todo mundo com boas condições ou vamos voltar a essa ideia sistematicamente”, afirmou Leandro Karnal.

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