ENFRENTAMENTO À COVID-19: No 13º FIB, médicos reforçam cuidados sanitários para a retomada dos eventos presenciais na comunidade

13ª edição contou com a participação de mais de 200 pessoas (reprodução)

Realizado nos dias 18 e 19 de setembro pelo Bunkyo – Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social – e pelo segundo ano em formato online por conta da pandemia do novo coronavírus, a 13ª edição do FIB – Fórum de Integração Bunkyo – trouxe a opinião de dois médicos sobre os cuidados sanitários para a retomada dos eventos presenciais na comunidade nikkei. Emílio Hideyuki Moriguchi, médico geriatra, voluntário em diversas ações e diretor da área da saúde da Associação de Assistência Nipo Brasileira do Sul; e Keniti Mizuno, médico ortopedista, presidente da Liga Nikkei da Alta Paulita, presidente do Conselho Deliberativo do Nikkey Clube de Marília e presidente da Japan Fest 2020 e 2021, que participaram do segundo dia do FIB, foram unânimes em afirmar que a pandemia não acabou. “O vírus existe, é uma realidade e temos que continuar seguindo os protocolos”, repetiram em várias ocasiões.
Formado em Medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul com pós-doutorado pela Wake Forest University de Winston, nos Estados Unidos; e especialização em metodologia de pesquisa e doenças crônicas pela World Health Organization, na Suíça, e doutorado pela Tokai University School of Medicine, no Japão, Moriguchi assegurou que “vamos conseguir retomar nossas atividades”.

Armas – “Para isso nós temos as armas suficientes, que são a vacinação e as medidas sanitárias, como o uso correto da máscara e o distanciamento social”, disse Moriguchi, que é professor visitante de medicina e enfermagem na cidade de Yokohama, Japão.

Keniti Mizuno (reprodução)

Como um dos organizadores do Japan Fest de Marília, que teve as edições de 2020 e deste ano adiadas por conta da pandemia, Keniti Mizuno destacou que “a gente não vai conseguir fazer grandes eventos agora”, mas que o Nikkey Clube de Marília pretende realizar, em novembro, um evento menor, “tomando todos os cuidados e, principalmente, consultando todos os departamentos”.
Segundo ele, departamentos como o Fujinkai, estão “amedrontados”. “A gente vai respeitar e eles não vão participar, vão apenas frequentar o evento. A gente não vai forçar a participação de ninguém”, frisou Mizuno, antecipando que a festa – caso ocorra – “vai depender mais de alguns departamentos como o Seinen e o de Esportes.
“Mas eventos fechados, como vínhamos realizando nas edições passadas, como ikebana – que é em local fechado – não vamos fazer. Só vamos fazer eventos de palco e em local aberto, inclusive, aquelas tendas que nós tínhamos, vamos alterná-las para que o local possa receber mais ventilação, embora já seja realizado em local aberto”, disse Mizuno, reforçando que o evento terá apenas apresentações de palco e barracas de gastronomia.

Complicado e delicado – “Ou seja, nada de atividades culturais fechadas e também nada de parque porque o problema do parque é controlar as crianças de máscara, além de fazer a assepsia. Enfim, estamos planejando tirar o parque e a programação cultural, com a tradicional exposição de ikebana, e fazer um evento basicamente com palco para shows e gastronomia”, exemplificou o médico, acrescentando que a retomada é um assunto “bastante delicado” porque depende da situação de momento de cada cidade.

Gradual – Para ele, antes de falar em reabertura de eventos, “o mais importante é a segurança do cidadão e da população”. “Pela Organização Mundial da Saúde, a definição de saúde é o bem estar psicológico, físico, mental e social e nós até consideramos também a saúde espiritual”, disse Mizuno, afirmando que, “às vezes, a gente fica preocupado com a pandemia, de saber se está com a doença ou não”. “Mas isso é só um dos itens. Acho que a preocupação deve ser com a saúde como um todo, a mental a física e a psicológica”, salientou.

Ao ar livre – Para Moriguchi, o isolamento social está afetando a todos e levando a um quadro de depressão. “Com a vacinação nós estamos começando a ter um pouco mais de segurança para a retomada, mas sempre lembrando que a vacinação por si só não nos isenta das medidas sanitárias importantes como o uso de máscara, o distanciamento social e a higienização de superfícies”, explicou Moriguchi, para quem o ideal é que essa retomada aconteça de forma gradual e, de preferência, ao ar livre ou ambientes bem ventilados.
Falando sobre vacinação, Mizuno lembrou que o sarampo é “dez vezes mais contagioso que o coronavírus” mas que hoje a doença está sob controle porque “temos a vacina”. “O importante é salientar o que é o virus para gente não ficar em pânico. No início da pandemia, as Prefeituras de algumas cidades até pulverizavam as ruas e as pessoas limpavam os sapatos, ou seja, criou-se um mito em cima disso. Hoje a gente sabe que tudo isso não é tão necessário. Então, o vírus, de uma forma geral, é uma partícula – não é viva – que leva as informações. E para ser transmitida precisa encaixar como se fosse uma fechadura, encaixar num local certo, numa célula certa, num hospedeiro certo. No ser humano ele tem preferência básica e exclusivamente no aparelho respiratório. Se você cortar um dedo e achar que ele vai entrar por lá, não entra”, explicou Mizuno, destacando que “por isso usamos máscaras de forma correta e lavamos as mãos, pois podemos ter contato com os olhos ou com a boca”.
“Mas a entrada é pelo aparelho respiratório”, disse, acrescentando que, se hoje nós estamos discutindo uma possível retomada é por conta de dois fatores: “o número de pessoas que já tiveram contato com o vírus e o avanço da vacinação”.

Variante delta – Moriguchi reforçou que a principal via de transmissão é por aerossol, quando falamos. “Por isso é muito importante o uso de máscara, manter o distanciamento social e, principalmente, a ventilação dos ambientes”. A questão da superfície, foi muito debatida no começo mas hoje em dia já sabemos que a maior forma de transmissão, principalmente desta variante, a delta, é via aerossol. Então, vamos continuar tomando cuidado e continuar com essa educação de usar a máscara prestar atenção na ventilação do ambiente que, talvez, dos elementos que temos hoje sobre a retomada seja um dos principais fatores”.

Praça de alimentação – Respondendo a uma pergunta sobre como deve ser a higienização da praça de alimentação e sanitários em matsuris, Mizuno disse que, “de forma geral, a regra é sempre seguir os protocolos”. Na praça de alimentação, conta, ele recomenda o uso de gorro (para quem estiver na cozinha) e o uso de máscara.
Quanto ao uso de luvas, ele afirmou que, durante um tempo é bom, mas depois de umas duas horas seu uso acaba se tornando inconveniente por causa da transpiração, que acaba favorecendo o surgimento de bactérias. “Então, o uso de luvas acaba se tornando mais perigoso”, disse, explicando que é preferível que, quem esteja lidando com comida, tenha sempre um local por perto para lavar as mãos.
“E também não é recomendável o uso de álcool gel na cozinha por causa do risco de incêndio. Na cozinha é água e sabão, assim como nos banheiros, que deve ter também um lugar para enxugar as mãos e, por último, álcool gel, que deve ser a última coisa que a pessoa deve fazer depois de sair do banheiro. Quando você entra em contato com a torneira ou pega o papel, você está levando a contaminação”, destacou Mizuno, alertando também para os cuidados com os trincos dos banheiros. “Hoje, a porta recomendada é aquela que você não precisa ter contato com os trincos”, explicou.

Hideyuki Moriguchi (reprodução)

Olimpíadas – Para Moriguchi, “devemos sempre tomar muito cuidado”. “O vírus ainda está por ai. A pandemia ainda existe e essa variante delta é altamente transmissível via aérea. É fundamental nessa retomada a manutenção das medidas sanitárias, que são comprovadamente eficazes e, é claro, a vacinação sem sombra de dúvida, mas continuar usando a máscara de forma adequada e, de preferência, para quem, vai lidar diretamente com a comida, as máscaras mais eficientes como essas N95 ou PFF2, que evitam a disseminação de gotículas de forma mais eficiente e, volto a frisar, a aeração de ambientes, que é fundamental”, disse Moriguchi, lembrando que em julho esteve no Japão durante a realização dos Jogos Olímpicos e, durante sua estada como professor visitante da Universidade de Yokohama, fez um workshop sobre quais são as formas de transmissão que estavam atrapalhando a realização dos Jogos e chegou-se a conclusão que a maior fonte de contaminação foi exatamente as refeições em ambientes fechados.
“A gente tem que tomar muito cuidado com esses aerossóis que ficam retidos nos ambientes. E no Japão tem um cálculo bem interessante que mostra que, enquanto no vírus originário uma pessoa contaminada contaminava em média mais quatro pessoas, nessa variante delta, em ambiente fechado, uma pessoa contaminada pode transmitir para 8 a 10 pessoas, ou seja, é altamente contagioso. Então, volto a frisar que a mudança constante de ar é sempre muito importante, e, mais uma vez, o ideal é que o evento seja sempre ao ar livre. “Além da vacinação, mantendo todos os cuidados, aos poucos a gente vai poder retomar as atividades”, disse Moriguchi, que destacou ainda a importância da terceira dose – ou dose de reforço.

Terceira dose – Para ele, a terceira dose é fundamental. “O grande exemplo vem de Israel, que estava com quase 90% de sua população vacinada e estava com um ou dois casos por dia e, de repente, com essa variante delta e a retomada das atividades presenciais, teve um novo pico e começaram com a terceira dose, que mostrou claramente que diminuiu de forma tremenda o número de novos casos”, disse Moriguchi, afirmando que “devemos manter esse sinal de alerta por um bom tempo”.

Karaokê – Quanto ao karaokê, Keniti Mizuno disse que “o problema é o microfone que, às vezes, fica muito perto da boca e ninguém canta de máscara porque fica difícil”. A sugestão, segundo ele, é que cada um – seja ele um participante de taikai ou um cantor de final de semana – leve seu próprio microfone ou que cada cantor faça a assepsia antes de usá-lo.
Moriguchi também esclareceu se a terceira dose deve ser da mesma fabricante das duas doses anteriores. “Existem artigos que mostram claramente que a terceira dose não precisa ser da mesma fabricante, mas tem sido mais comum no Brasil a aplicação da Pfizer, que é uma vacina um pouco diferente – baseada no RNA mensageiro – e cuja respostas imunológica parece melhor e mais segura”.
O que está bastante claro, conta Moriguchi, “é que a gente tem que se vacinar”. “Nós temos que pensar em todos, não adianta pensar: ‘olha eu sou filosoficamente contra a vacina’. A gente tem que pensar no conjunto, nós temos vizinhos, temos família, a gente quer proteger a nossa comunidade e os nossos amigos. A gente tem que se vacinar, quanto a isso não tem dúvida e os dados são bem claros. A taxa de vacinação na população impacta diretamente na taxa de disseminação da doença”, disse.
Mizuno destaca que só existem duas formas de a pessoa adquirir imunidade: contraindo o vírus ou através da vacina. “Com certeza vamos ter que tomar essa vacina ainda por um bom tempo porque esse vírus muda muito rapidamente, mas é preciso se completar o ciclo vacinal. Às vezes, tomando as duas doses a imunidade é de 60%, uma dose então não serve para nada. Ou então, é ficar na torcida para que tenha contato com o vírus e não desenvolva a forma grave da doença”, diz Mizuno.

Festas de fim de ano – Sobre o impacto das festas de fim de ano e o carnaval sobre novos casos, Mizuno preferiu citar o exemplo do Nikkey Clube de Marília.
“Olhando a situação de momento, no Nikkey Clube de Marília podemos sim realizar um evento com segurança. Mas, o mais importante é ver a sua cidade”, conta Mizuno, que compara o vírus “a uma picada de abelha. “Por isso ele evoluiu para uma forma mais grave em alguns. O vírus basicamente é o mesmo, o que muda são as pessoas. Na minha opinião, o mais importante é trabalhar na parte da imunidade, do preparo fisico de cada um. Então, tem que trabalhar como um todo, não da para falar hoje o que fazer. Amanhã talvez seja outra cenário. Mas primeiro se preocupe em cuidar da sua saúde, que é o mais importante”.

Comportamento – Para Moriguchi, trata-se de uma questão comportamental”. “A gente pode estar até vacinado com as duas doses, como já vimos, mas, se a gente se comportar mal, o vírus acaba pegando. A pessoa pode até ter sintomas leves ou então ficar assintomática, mas o vírus pode acabar espalhando mais. Para responder essa pergunta, se vamos ou não ter festas de fim de ano, o mais importante é ver o comportamento das pessoas que estão conosco. É importante continuarmos mantendo todos os protocolos, como uso de máscara, mesmo vacinado, e tomar a terceira dose quando chegar a sua vez, continuar mantendo o distanciamento mesmo ao ar livre e, mesmo nessas ocasiões, apesar de as pessoas pensarem o contrário, continuar usando máscaras. Essa questão da retomada vai depender muito da consciência de cada um e, principalmente, do comportamento porque a parte cientifica já foi muito discutida. A parte de comportamento é complicada, mas temos que continuar nos cuidando”, concluiu Moriguchi.

Presidente Renato ishikawa (reprodução)

Balanço – Com apresentação do coordenador do evento, Oston Hirano e do presidente do Bunkyo, Renato Ishikawa, a décima terceira edição do FIB contou com mais de 200 participantes de diversas localidades brasileiras. Pela primeira vez, todos os cinco Consulados Gerais enviaram mensagens..

Embaixador Akira Yamada (reprodução)

No sábado, entre os convidados, destaque para a presença do embaixador do Japão Akira Yamada, e do ex-presidente da Sony do Brasil e atual diretor do Kaigai Nikkeijin Kyokai, Masayoshi Morimoto.

Masayoshi Morimoto (reprodução)

Na abertura. Oston Hirano lembrou que “o mundo mudou muito rápido e nos deparamos com novos desafios”. “Estamos procurando respostas às perguntas que são comuns a vários de nós: como atrair novos membros, como captar recursos, como retomar as atividades com segurança e como motivar as pessoas”, observou.

Oston Hirano (coordenador) (reprodução)

Segundo ele, o objetivo do FIB não é ter essas respostas, “mas é um bom local para escutarmos e discutirmos juntos essas questões”.
Ao Jornal Nippak, Oston Hirano fez um balanço positivo do evento. “Experimentamos fazer o evento virtual na plataforma Zoom, o que foi muito positivo. Dentre as principais vantagens, podemos citar o baixo custo de produção, maior interatividade entre os participantes e facilidade de manuseio”, destacou.

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