ENFRENTAMENTO À COVID-19: Médica infectologista do HJSC alerta para a importância de se completar o ciclo vacinal

Médica infectologista Jordana Machado alerta para a importância de se completar o ciclo da vacinação (Aldo Shiguti)

Com mais de 56 milhões de pessoas vacinadas com as duas doses – ou dose única – contra a Covid-19 – ou cerca de 26% da população – o país está diante de um novo desafio: como promover a tão aguardada flexibilização e, ao mesmo tempo, conter um possível avanço de novos casos relacionados à variante delta? De acordo com os especialistas, a nova cepa é mais transmissível que o Sars-Cov-2 original e os sintomas são mais parecidos com os de uma gripe. Para a médica infectologista Jordana Machado, que trabalha no Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Japonês Santa Cruz, “alguns estudos mostraram que ela pode levar a uma taxa maior de hospitalização, principalmente pacientes idosos”.
“A gente sabe que os idosos tem um fenômeno imunológico que a gente chama de imunossenescência, isto é, com o passar do tempo, a imunidade deles com as vacinas diminuem, não só em relação à proteção contra a covid-19, mas com todas. Pode acometer os já vacinados com as duas doses levando a um quadro um pouco mais grave em questão de hospitalização e, às vezes, até a necessidade de UTI”, disse a médica, que considera “interessante” a aplicação da terceira dose – ou dose de reforço – “para pessoas do grupo de risco, principalmente os idosos ou aqueles com comprometimento de imunidade”.
Entrevistada pelo Jornal Nippak, Jordana Machado também considera preocupante uma flexibilização mais radical nesse momento. Segundo ela, estender o horário de funcionamento de estabelecimentos comerciais é até “aceitável”. “O que não pode ser flexibilizado são algumas medidas de barreiras básicas, por exemplo, não liberar o uso de máscara mesmo em ambiente aberto e continuar mantendo o distanciamento”. Quanto ao uso de máscara, aliás, a médica afirma que o acessório é, ao lado do ciclo completo da vacinação, item indispensável para frear um eventual avanço de novos casos.
Confira os principais trechos da entrevista que a médica concedeu ao Jornal Nippak ao lado do diretor técnico do HJSC, Luiz Koiti Kimura:

Jornal Nippak: Alguns estudos apontam que em setembro a cidade de São Paulo, a exemplo do que já ocorre no Rio de Janeiro, poderá ter uma explosão de novos casos de Covid-19 por conta da variante delta. Como a senhora vê essa possibilidade?
Jordana Machado: Vimos que em algumas cidades já vem aumentando o número de casos. No Rio de Janeiro, por exemplo, tivemos momentos decorrentes da variante delta. Os estudos em relação a isso sugerem que é uma variante que tem um potencial de transmissibilidade maior e por conta disso, se continuar disseminando como disseminou nos 43 países em que ela foi encontrada, pode ser que realmente a gente tenha um aumento do número de casos nos próximos meses, principalmente se a vacinação não avançar. Isto é, se a gente não conseguir acelerar o processo de imunização é provável que aumente o número de casos como aumentou no Rio de Janeiro, por exemplo.

Jornal Nippak: O que invalidaria a tese de imunidade de rebanho…
Jordana Machado: Em geral, é comum ocorrer mutações em vírus, ou seja, faz parte do processo adaptativo do vírus. Mas nem todas as mutações são ruins ou deixam o vírus mais virulento. Essa mutação da delta, que é especificamente na proteína spike do vírus, que é a proteína que o vírus usa para entrar nas células humanas. Essa mutação deixa essa variante mais fácil de entrar na célula humana e aumenta a carga viral, por isso dizemos que ela é mais transmissível. Mais transmissível porque acomete as células humanas com mais facilidade, o que pode levar a uma maior carga viral. Isso aumenta a capacidade de transmissibilidade dela e o que fica em pauta ainda é o quanto as vacinas protegem em relação a essa variante. Têm alguns estudos em relação à Pfizer e a Astrazeneca – não temos dados concretos em relação à Coronavac quanto à proteção da variante delta – mas o que se sabe até agora é que uma dose só da vacina não é suficientes para proteger. Um recente estudo em relação à Pfizer e a Astrazeneca mostrou que com uma dose, em torno de 40% ficam imunizados. Com as duas doses isso aumenta para em torno de 80%. Se a gente não conseguir completar o esquema vacinal da população, o risco de transmissão é bem maior.

Jornal Nippak: Então, é completar o ciclo de vacinação com as duas doses e continuar tomando os cuidados que a gente já vem tomando….
Jordana Machado: Exato. Essa variante é duas vezes mais transmissível que o Sars-Cov-2 ancestral, então a vacinação em conjunto com as medidas de barreiras é o que vai ser mais importante para gente tentar frear essa variante no Estado de São Paulo.

Jornal Nippak: Essas medidas por si só já seriam suficientes…
Jordana Machado: A medida de barreira e a testagem, independente de a pessoa ter tomado as duas doses, mas se ela apresentar sintomas tem que ser testada também.

Jornal Nippak: Quando as pessoas devem fazer o teste para saber se está infectada? Esses testes rápidos disponíveis em farmácias são indicados?
Jordana Machado: Deve-se fazer o teste quando tiver sintomas gripais. No início da pandemia tinham alguns sintomas diferentes, como, por exemplo, perda de olfato e perda de paladar, que nem sempre estão presentes nessa nova variante. Às vezes pode ser apenas um quadro de gripe e de resfriado o que acaba deixando o diagnóstico mais difícil. Então, é importante procurar fazer a testagem, sempre seguindo a regra de três dias após o início dos dos sintomas. Quanto aos testes de farmácia, eles podem ser feitos mas desde que seja respeitado o tempo correto do início dos sintomas. Não adianta fazer no primeiro dia de doença que pode ser que não dê positivo. Então, pode ser feito sim, apesar de que ainda não é possível afirmar quantos testes de farmácias detectam as variantes, mas a princípio ficam como opção de diagnóstico sim.

Jornal Nippak: A senhora poderia detalhar melhor os sintomas pela infecção da variante delta?
Jordana Machado: Os sintomas da variante delta são mais parecidos com os de uma gripe e além de ser mais transmissível, tem um potencial de gravidade maior, ou seja, pode levar a um quadro maior de hospitalização e necessidade de terapia intensiva, mas os sintomas iniciais são mais parecidos com o de uma gripe comum.

Jornal Nippak: E qual o risco se a pessoa achar que está com uma simples gripe e não procurar orientação adequada a tempo?
Jordana Machado: Ela vai transmitir mais. E uma outra diferença desta variante para as outras que a gente tem por – alfa, beta… – é que alguns estudos mostraram que se a pessoa estiver infectada com a variante delta pode estar transmitindo o vírus há mais tempo. Então, isso leva a gente a pensar naquele período de isolamento que a pessoa tem que ficar afastada. O CDC [Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos] recomenda, a princípio, dez dias para quadros leves para pessoas que não tenham nenhum problema de imunidade. Com a variante delta pode ser que esses dez dias não sejam adequados. Então, é uma coisa a se pensar . Talvez tenha que se estender um pouco mais esse período de isolamento porque a pessoa pode estar transmitindo o vírus há mais tempo. Se um indivíduo tem um sintoma gripal e não se testa, pode estar acometido com a variante delta e ficar transmitindo o vírus mais tempo e acometendo pessoas que entraram em contato com ele. Esse é o maior risco.

Jornal Nippak: Mas essa variante é mais letal?
Jordana Machado: Pode ser mais grave sim. Alguns estudos mostraram que ela pode levar a uma taxa maior de hospitalização. A gente vê um aumento agora no número de casos em pacientes idosos. A gente sabe que os idosos tem um fenômeno imunológico que a gente chama de imunossenescência, ou seja, com o passar do tempo, a imunidade dele com as vacinas – e aí não não só em relação à covid-19, mas com todas – diminuem. Pode acometer os idosos já vacinados levando a um quadro um pouco mais grave em questão de hospitalização e, às vezes até necessidade de UTI.

Jornal Nippak: Mesmo com os idosos vacinados com as duas doses…
Jordana Machado: A vacina não é 100% para impedir a infecção. A ideia da vacina é frear os casos graves, mas com a variante a gente vê que mesmo com as duas doses eles acabam tendo também um quadro grave.

Jornal Nippak: E até por isso já se discute a necessidade da terceira dose ou dose de reforço…
Jordana Machado: Terceira dose ou dose de reforço é praticamente a mesma coisa. As vacinas foram estabelecidas inicialmente para duas doses mas o que está em discussão agora é a necessidade da terceira dose ou dose de reforço. A Anvisa teve reuniões com a Pfizer para ver justamente a necessidade da terceira dose. Nos Estados Unidos, o CDC recomenda a terceira dose para pacientes que tenham algum comprometimento de imunidade e aqui uma estratégia, que na minha opinião é extremamente interessante a ser considerada, é a terceira dose ou dose de reforço para pessoas do grupo de risco, principalmente idosos ou aqueles com comprometimento de imunidade. Justamente por essa questão de os idosos, com o passar do tempo, diminuírem a proteção vacinal só com duas doses. Neste contexto eu acho interessante uma terceira dose para esses grupos.

Jornal Nippak: E isso teria um prazo?
Jordana Machado: O CDC coloca quatro semanas a partir da segunda dose para fazer essa dose de reforço. Como aqui ainda têm muitas pessoas que sequer tomaram a segunda dose ainda, é preciso, primeiro, acelerar o processo de vacinação para que todos recebam a segunda dose para então começar a discutir a questão da dose de reforço. Mas como os idosos já foram imunizados logo no início do ano, já estariam em tempo hábil para receber essa dose de reforço agora.

Jordana Machado com o diretor técnico do HJSC, Luiz Kimura (Aldo Shiguti)

Jornal Nippak: E quanto à população em geral, também terão que tomar essa terceira dose ou dose de reforço?
Jordana Machado: Fazendo uma analogia com a influenza, anualmente a gente precisa tomar a vacina da gripe. Essa proteção de duas doses que a população está recebendo não será duradoura. Então, uma vacina de reforço é algo que precisará ser feito ao longo do tempo, como ocorre com a vacina da gripe…

Jornal Nippak: Ou seja, será preciso imunizar a população todos os anos…
Jordana Machado: Todos os anos porque o vírus é mutante e ano a ano vai adquirindo algumas diferenças que a vacina precisa estar acompanhando também essas mutações virais para manter a proteção. Com o surgimento desta variante, quem já tem alguns meses de vacina e é do grupo de risco, é extremamente importante considerar esta dose de reforço.

Jornal Nippak: Isso se tratando dos grupos considerados de risco…
Jordana Machado: Sim, para a população em geral, em longo prazo isso também terá que ser visto por conta desta mutações.

Jornal Nippak: E quanto aos adolescentes que estão sendo vacinados agora?
Jordana Machado: Os adolescentes são mais complicados porque não são todas vacinas que eles podem tomar. Até o momento, a Anvisa autorizou apenas a vacina da Pfizer para ser aplicada em adolescentes entre 12 e 17 anos. A Jansen foi autorizada a começar os testes. Mas para essa população, por enquanto, é mais difícil porque a gente não tem muitas vacinas disponíveis, mas a principio, é uma população que também transmite o vírus e precisa estar imunizada pois são eles que poderão pegar o vírus e levar para dentro de casa e transmitir para as famílias.

Jornal Nippak: Mesmo com tudo isso, ainda existem pessoas que ainda sequer tomaram a primeira dose preocupadas com eventuais reações adversas. O que poderia dizer para estas pessoas?
Jordana Machado: Cada vacina tem sua particularidade. As vacinas são feitas de técnicas diferentes. Têm aquelas feitas do material genético do vírus, que é o RNA mensageiro, no caso da Pfizer; tem a de vírus inativado, que é a Coronavac e a Astrazeneca, que é carreada pelo adenovírus. São tecnologias diferentes que, por consequência, podem acabar gerando um ou outro efeito colateral diferente. Ao longo do tempo, desde que começou o processo de vacinação, a gente vê algumas questões, como por exemplo, casos de gestantes em que o melhor seria usar a Coronavac ou a Pfizer. Efeitos adversos muito graves são raros. Em contrapartida, o benefício é muito maior que o risco. Pode ter efeito colateral? Pode, assim como ocorrer em relação a todas as vacinas. Mas os benefícios suplantam em muito os riscos e foram poucos os casos de eventos adversos graves.

Jornal Nippak: E quanto ao uso de máscaras? Para a senhora acha que o seu uso deve ser obrigatório?
Jordana Machado: É difícil prever a questão da obrigatoriedade do uso da máscara. No inicio foi difícil para as pessoas aderirem bem a isso. Em ambientes fechados e de trabalho acho que ainda é uma medida que vai durar algum tempo. Talvez, quando a situação estiver um pouco mais controlada, quando a população estiver melhor imunizada, vai dar para flexibilizar um pouco. Agora não acho que seja o momento. É difícil falar em quanto tempo porque a gente precisa ver como vai se comportar o surgimento dessas novas variantes.

Jornal Nippak: E como a senhora vê essa flexibilização que está ocorrendo?
Jordana Machado: Acho que, enquanto a gente não acelerar o processo de imunização mais ainda, enquanto não for discutido a questão da terceira dose, a flexibilização é arriscada. Uma coisa é estender o horário de funcionamento dos estabelecimentos comerciais até mais tarde. Acho que quanto a isso é aceitável. O que não pode ser flexibilizado são algumas medidas de barreiras básicas, por exemplo, não liberar o uso de máscara mesmo em ambiente aberto e manter o distanciamento. Teve um artigo recentemente mostrando um surto em Massachusetts mesmo em ambiente aberto, onde 90% dos casos foram pela variante delta. Então, no momento não acho que seja adequado tirar essas medidas de barreiras. Flexibilizar os horários, tudo bem, desde que mantenham, alguns cuidados, mas não é hora de querer mudar.

Jornal Nippaki: Para os japoneses, o uso de máscaras e a higiene das mãos já fazem parte da cultura da população. Para a senhora, mesmo aqui no Brasil, esses detalhes contribuíram para que o número de óbitos entre os orientais não fosse tão elevado?
Jordana Machado: Pode ser. Lá no início da pandemia, quando começou o caso em Wuhan, na China, e mesmo no Japão, países que já enfrentaram outros surtos, o uso de máscara é mais difundido enquanto para nós não fazia parte do nosso cotidiano. Em Wuhan, logo no início, as medidas de barreira, como a proibição de entrada e saída de pessoas, foram muito intensas. Essas medidas, adotadas logo no início da pandemia, são muito importantes para conter a disseminação do vírus. E, principalmente, o uso de máscara, que aqui no Brasil a gente demorou um pouco mais para aderir. Foi preciso alguns casos para que o uso fosse obrigatório enquanto que em países como o Japão e a China isso é uma prática mais comum.

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