Cultura Japonesa Vol. 2 – Despejo de Santos – o “êxodo” dos imigrantes japoneses no Brasil

A história da imigração japonesa no Brasil

Despejo de Santos
o “êxodo” dos imigrantes japoneses no Brasil


Extraído da obra “Isolados no campo de batalha da América do Sul” (Nanbei no Senno ni Koritsu Shite) de Kyuyo Kishimoto – 1962, 3ª Edição, Editora KOYA)
Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 2, de Setembro de 2017

 

 

Trem levando imigrantes japoneses partindo de Santos para a cidade de São Paulo (1935) [Wikimedia Commons]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A rua Conde de Sarzedas
e a ordem de despejo

 

 

Os japoneses residentes atualmente na cidade de São Paulo ultrapassam já mais de mil famílias. Participam em múltiplos setores de atividade da Grande Metrópole, e a diversificação é motivo de espanto. Espalham-se por extensa área da cidade, por bairros como Pinheiros, Vila Mariana, Ipiranga e região do Mercado Central, áreas essas que auxiliaram a desenvolver, cada uma com suas características peculiares. Contudo, digam o que disserem, a fonte original da cultura japonesa no Brasil está na rua Conde de Sarzedas, ou a rua Conde, como eles a conhecem.

Só nas proximidades da rua Conde residem aproximadamente 350 famílias. A influência dos japoneses nessa região se estende até o Largo da Sé, centro político e econômico e coração de São Paulo repleto de bancos, empresas, lojas, escritórios diversos, hotéis, bares e restaurantes, onde os arranha-céus se aglomeram. Claramente, os japoneses estabeleceram sólidas raízes.

Essa área ao redor da rua Conde de onde os japoneses começaram a se desenvolver se localiza geograficamente nas proximidades da Rua Quinze de Novembro, centro nevrálgico das finanças da terceira maior metrópole de toda a América do Sul, com um milhão e meio de habitantes: São Paulo. Situa-se também vizinha ao Largo da Sé – distante 50 a 300 metros, que se abre como asa para ruas apinhadas de instituições públicas diversas, tais como a sede do Governo Estadual, a Câmara Legislativa Estadual, o Ministério da Justiça, o Tribunal da Justiça, o Corpo de Bombeiros, o Quartel do Exército, e outras mais. É uma área de extrema importância para a metrópole. Os japoneses, considerados até ontem imigrantes rurais de baixo nível, estavam se estabelecendo no seio do centro comercial e industrial de primeira classe de São Paulo e adquirindo poder econômico não desprezível. E se iniciavam até na área industrial. Os japoneses passavam assim a serem considerados elementos essenciais na construção de uma nova sociedade no Brasil. Contudo, tudo isso veio abaixo com o rompimento das relações diplomáticas entre Brasil e Japão em 5 de setembro de 1942. Em um golpe brutal e surpreendente, as autoridades brasileiras decretavam expulsão dos japoneses da rua Conde.

Quarenta anos haviam passado desde que os japoneses começaram a se estabelecer nessa área. Quarenta anos de história dessa rua famosa, de sofrimento desde a fase de vida nos porões, de sangue e suor vertidos até a conquista da prosperidade atual! A rua Conde, nosso saudoso berço, se dispersava como se varrida por um sopro de vento.

A pergunta: “Para onde vais? ” não diz respeito apenas a cristãos que pretendiam sair de Roma para fugir da perseguição. Hoje, quando os países se dividem entre amigos e inimigos, o machado da destruição é agitado contra nós, japoneses, por motivos raciais. Sorrindo, as 350 famílias, nossas conterrâneas, deixaram atrás o berço da Rua Conde levando com elas o orgulho da raça.

Entretanto, essa perseguição e destruição são para nós uma provação. Estamos arriscando nossas vidas para encarar novos rumos em busca da construção de um amanhã ainda mais grandioso. Envolvidos como estamos no turbilhão da guerra, sentimos, porém, as pulsações de uma nova vida que se desponta para uma nova história. Mas o sentimento que nos assalta ao observar à distância, entre as sombras da tarde, os arredores solitários da rua Conde, campo de batalhas passadas, faz-me recordar os versos da canção “Kojo no Tsuki” (Luar sobre o castelo em ruína) que costumava cantar na minha infância:

 

“Sob as luzes perenes do firmamento,
Vicissitudes assolam a face da Terra;
É o que queres mostrar ainda agora,
Ó luar da meia-noite, sobre este castelo em ruína?”

 

A tristeza dessa melodia não cessa de ferir nossa alma pelas ruas de um país estrangeiro, esse campo de batalha desconhecido.

Ó rua Conde, flor da história da imigração!
Um novo Gênesis haverá de nascer em futuro próximo, da multidão de filhos dessa história!

 

 

Ordem de expulsão
a seis mil e quinhentos japoneses
da área litorânea

 

 

Os japoneses somem do porto de Santos

Trinta e seis anos se passaram entre a chegada do primeiro navio japonês ao país do eterno verão – Brasil, através de milhas de oceano bravio, e o rompimento das relações diplomáticas entre os dois países. Nesse período, 300 navios imigrantes atracaram no porto de Santos. A cidade de Santos é de saudosa memória para os japoneses que para lá se dirigiam para receber novos imigrantes cada vez que chegavam. Os japoneses se estabeleceram solidamente na cidade com companhias de navegação comercial, bancos, empresas comerciais e de pesca, produtores de frutas e verdura, entre outros empreendimentos. Haviam até iniciado atividades no setor de obras civis recentemente. Chegaram a construir o mercado público, a maior construção da cidade, e empreitar o projeto e construção do cais do porto. Demostravam dessa forma o valor do povo japonês na própria porta de entrada ao Brasil, a cidade de Santos. Mesmo assim, japoneses e alemães residentes na faixa litorânea de Santos receberam ordem de expulsão em 8 de julho de 1943.

Japoneses e alemães dessa área são vigorosos como árvore gigantesca com fortes raízes cravadas no solo. Não obstante, foram surpreendidos com essa ordem de expulsão intempestiva totalmente inesperada a ser cumprida em prazo de 24 horas. Toda cidade entrou em ebulição. Um turbilhão varreu a calma cidade portuária: barulho das baionetas dos soldados, vozes de lamento, chiado de rodas de carroça.

 

Por que apenas os japoneses de Santos estavam sendo expulsos?

À medida que a guerra se intensificava, submarinos alemães começavam a aparecer no litoral do Brasil para afundar navios mercantes e assim obstruir o comércio com os americanos. A quantidade deles se tornava cada vez maior, e já se fazia incontável.

Por isso, os Estados Unidos despachavam navios de guerra em grande número aos maiores portos e fortalezas do Brasil para cuidar da defesa. Os navios de guerra americanos chegavam também ao porto de Santos em exibição de poder, para sossegar o povo.

No início do mês de julho, dois navios mercantes americanos da classe de 10 mil toneladas acompanhados por três outros brasileiros da classe de 6 mil toneladas adentravam ligeiros o porto de Santos. Estivadores brasileiros rigorosamente identificados trabalharam noite e dia para carregá-los com mantimentos e matérias primas bélicas. E em 7 de julho, quando a tarde caía tingindo as nuvens sobre o horizonte a oeste, os cinco navios saíram em fila do porto rumo aos Estados Unidos.

Já fora do porto, quando atingiam a linha do horizonte e as águas bravias do Oceano Atlântico fustigavam a proa dos navios, surgiu das águas repentinamente qual monstro marinho um submarino que disparou torpedos sem perda de tempo. Altas labaredas subiram aos céus. As caldeiras explodiram com estrondo. Com a detonação de explosivos, dezenas de barris de combustível se derramaram espalhando fogo por toda parte. A cena se tornava dantesca.

Em um instante, os navios se afundavam ao fundo do mar um após outro lançando seus últimos estertores.

Um navio remanescente girou a proa em direção sul e procurou fugir a toda velocidade, mas em 10 minutos, o submarino partiu como falcão em sua perseguição e o afundou.

Quando navios e aviões de guerra americanos acorreram apressados ao local, a vasta superfície azul do oceano envolta em sombras do anoitecer já recuperava a normalidade anterior. Nada mais havia além dos vagalhões com suas cristas esbranquiçadas. Do inimigo, nem sombra.

Esta cena de guerra se descortinou bem diante das fortificações do porto de Santos e sob as vistas da esquadra de defesa americana, orgulhosa da sua eficiência. Os navios mercantes haviam sido postos a pique sem que houvesse um único tiro de reação. Tanto o forte como as belonaves não haviam passado de decoração inútil. Assim, o ódio se inflamou.

Cedo na manhã seguinte, alguns pescadores japoneses arrastavam sua rede no alto mar, em São Vicente. Estava pesada, muito mais que em dias normais. A pesca naquela época do ano não poderia ser volumosa. Assim, era estranho que a rede pesasse tanto. Intrigados, eles levaram a rede até a praia. Ela trouxe três cadáveres. Eram de tripulantes graduados dos navios mercantes afundados, todos americanos.

À medida que o sol subia, as ondas traziam dezenas de cadáveres até as areias do aprazível balneário de Gonzaga.

O petróleo se esparramava a perder de vista sobre a superfície do mar por milhas a derredor. Toda tragédia horripilante, de se desviar os olhos, ocorrida diante dos olhos da nação, começava a se desvelar.

Navios de carga são afundados mesmo agora, mas nunca antes se vira cinco navios afundados ao mesmo tempo assim tão perto.

Sem qualquer dúvida, agentes inimigos vigiavam a área.

A espionagem alemã e japonesa estaria infiltrada em todos os órgãos.

Seria necessário varrer os japoneses e alemães da cidade de Santos para eliminar elementos perigosos de vez. Decisão tomada, a ordem de expulsão foi decretada imediatamente a todos os 5.000 alemães e japoneses (na realidade, eram mais de 6.500) em 8 de julho. Não houve aviso prévio nem prazo de alguns poucos dias. Atingidos pelo golpe fulminante e inesperado, nem houve tempo para salvar bens e fortuna, e nem para resgatar dinheiro depositado em banco, para agravar. Toda fortuna amealhada à custa e sangue e suor durante 20, 30 anos devia ser deixada. Estavam sendo cruelmente expulsos de suas casas apenas com a roupa do corpo. Não sabiam para onde estavam sendo enviados, as mulheres longe de seus maridos, os filhos separados dos pais. Certa mulher japonesa suplicou ao policial que viera com a ordem de expulsão: “Meu marido está fora de casa hoje, por motivo de trabalho. Por favor, espere só mais algumas horas até que ele volte, porque estou perdida só com as crianças”. O policial, porém, lhe respondeu: “Não se preocupe, todos vocês estão sendo enviados para um só lugar. É só uma questão de quem chega antes e quem chega depois”. E não lhe atendeu.

 

Jornal local “A Tribuna” de 10 de julho de 1943 cobrindo a história sobre a remoção forçada dos imigrantes japoneses e alemães de Santos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em outra família, a mulher, em estágio final de gravidez, estava com filho de 12 anos adoecido, recolhido ao leito. Ela rogou que a criança fosse pelo menos internada em algum hospital de caridade em companhia dela.

Mas o policial foi irredutível:

“A ordem é absoluta, não pode ser desobedecida. Você poderá internar a criança depois, lá onde você está sendo enviada”.

“Mas o menino está doente, não suportará uma longa viagem”.

“Então, você arranja um médico para acompanhá-lo”.

Casas, móveis, artigos de comércio, utensílios domésticos, tudo devia ser abandonado. Saíam com a roupa do corpo enxotados como bando de ovelhas. Mulheres carregavam pequenos volumes com pertences pessoais, crianças choravam, idosos gemiam, soldados berravam ordens, a extensa fila de desalojados serpeava arrastada rumo à estação ferroviária. Lá, eles eram embarcados feito carga em vagões e trancados a chave, para serem remetidos à Casa dos Imigrantes em São Paulo.

Uma vez ali, aqueles que dispunham de recursos receberam permissão para procurar hotéis ou procurar conhecidos. Os que não possuíam dinheiro ou conhecidos eram internados na Casa do Imigrante. Quase 2000 japoneses e 500 alemães se achavam nessas condições.

A Casa do Imigrante servia apenas uma refeição por dia. Não era fácil: Os primeiros recebiam a refeição em torno das nove horas da manhã, enquanto os últimos a recebiam quase às duas horas da tarde. Quem tinha algum dinheiro em mão podia ainda procurar o que comer em pensões, mas nem isso era possível a quem estava sem dinheiro algum. Muitas mulheres com crianças de colo padeciam com a escassez de leite, e crianças famintas choravam alto.

 

Hospedaria dos imigrantes de São Paulo, com beliches de ferro enfileirados num vasto dormitório (Nambei shashincho – Shigeshi Nagata, 1921)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Assistência Dom Gaspar, fundada por japoneses, tomou conhecimento dessa situação. Sanduíches foram produzidos por iniciativa de pessoas como o senhor Ishihara e Dona Margarida Watanabe para serem distribuídos a mil pessoas em ação de caridade. Pessoas de certa posse residentes na cidade ou nos subúrbios trataram na medida do possível de abrigar alguns dos necessitados em suas casas, mas o socorro era insuficiente, e só chegava a uma parcela mínima dos desalojados.

Colchões e cobertores, distribuídos à noite, não davam para todos. Certas famílias punham as crianças para dormir neles enquanto os pais passavam a noite inteira sentados ao lado delas a tremer de frio.

Algumas pessoas chegavam a dormir sobre sacos de carvão vazios e sujos que estendiam sobre o cimento do piso nessas noites frias em que geava.

As pessoas estampavam no rosto a debilidade provocada pelo frio, fome e fadiga, agravada pela incerteza do futuro.

Por volta do quarto dia, começaram a encher outra vez os vagões de carga com aqueles que não tinham para onde ir. Estavam sendo enviados ao interior com as portas dos vagões trancadas com cadeados, sem sequer um pedaço de pão ou um gole de água.

Essas pessoas nem sabiam para onde estavam indo.

Um grupo de mais de cem pessoas foi enviado para Marília, na extensão da Estrada de Ferro Paulista. Outro grupo foi enviado a Lins, na E.F. Noroeste, e outro a Paraguaçu, na E.F. Sorocabana. Eles foram desembarcados nessas estações principais do interior paulista e enviados para trabalhar em fazendas onde a mão de obra escasseava devido à guerra. Certa senhora enviada à Marília havia sido levada com três filhos à Casa do Imigrante enquanto o marido se achava ausente. Ali, ela aguardara inutilmente a chegada do marido durante quatro dias. E de repente, fora forçada a embarcar em trem de carga e deixada nessa cidade do interior. Ninguém sabia do paradeiro do seu marido. Com três filhos para criar, a vida era difícil. As crianças se agarravam a ela e choravam famintas, pedindo pão. Compadecida, ela escondia as lágrimas com um lenço, e lhes dizia:

– Papai vai chegar logo, logo para nos buscar. É só mais um pouco, tenham coragem. Vocês são fortes, não são?

O consolo incerto para enganar a fome das crianças ingênuas era o pai. Quanta tristeza, quanto sofrimento para essa mãe…

Para nossos conterrâneos no seio de um país inimigo, esse caminho de suor e lágrima era o único que lhes era dado seguir.

E por ele seguiram em fila silenciosa, enxotados do litoral onde viviam. Quatro mil pessoas nessa situação!

Mas não nos esqueçamos: suas pegadas marcam a primeira página gloriosa da nova história do nosso povo.

As primeiras páginas do nosso “Êxodo” escritas com lágrima e suor neste imenso continente sul-americano! ❀

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cultura Japonesa – Vol. 2
A história da Imigração Japonesa no Brasil

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo – Maio de 2016
Autores: Masaomi Ise, Koichi Kishimoto
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão português: Aldo Shiguti
ISBN: 978-85-66358-03-2

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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