Cultura Japonesa Vol. 8 – Torazô Okamoto – Chá no Império do Café

O imigrante japonês que deu início à cultura de chá preto no Brasil

Torazô Okamoto

e a “cidade do chá” no império do café


Texto original em japonês de Masayuki Fukazawa
Referência: extraído da obra “Hitotsubu no Kome Moshi Shinazuba” (Se o grão de arroz não morre) – Mumeisha, 2014)

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 8, de Junho de 2018


 

 

            Torazo Okamoto e Hisae, sua esposa (“Flor de Chá”, 1974)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A maioria dos japoneses veio ao Brasil – império do café, atraída pelo Ouro Verde, mas houve entre eles alguém excepcional que nessa terra, construiu a “cidade do chá preto”.

O local: – Registro, próximo ao litoral sul do Estado de São Paulo. A primeira imigração japonesa se deu na Colônia Katsura (em 1913), seguida por Registro (1914) e Sete Barras (1920), nessa sequência. Essas três colônias eram então conhecidas por Colônia Iguape. Centrada em Registro, onde a Empresa Industrial Ultramarina (“Kaigai Kōgyō Kabushiki Kaisha”) mantinha escritório central, toda essa área se desenvolveu, expandindo-se em direção à nascente do rio. Sua colonização foi empreendida por Ikutaro Aoyagi. O Sindicato de Tóquio que ele representava assinou, em março de 1912, um contrato de colonização com o governo do Estado de São Paulo, envolvendo cessão sem ônus de 50 mil hectares. Posteriormente, a partir de 1919, este Sindicato se transformaria na Empresa Industrial Ultramarina (“Kaigai Kōgyō Kabushiki Kaisha”) – Kaikyō.

Porém, no começo, o arroz, escolhido como produto básico, não vingou, deixando a administração da colônia a cargo do Kaikyō em dificuldades. Desvastada a floresta virgem existente, não se tinha ideia do que produzir senão arroz, cana de açúcar e mandioca, já produzidos.

A situação era essa em 1919 quando Torazo Okamoto (1893 ~ 1981, Prov. de Nara) veio ao Brasil, aos 26 anos de idade. Consta [“Senkusha Den” (História dos Pioneiros), pag. 544] que ele nasceu na Província de Nara, Distrito de Yamabe, serviu na 16ª Divisão de Artilharia, 3º Regimento, 3º Pelotão como soldado veterinário de primeira categoria, que deixou para se dedicar por 6 anos à fabricação do chá em Uji, quando adquiriu know-how de produção do Gyokurō, chá verde de alta qualidade,

“Saindo de Kobe, embarcou trazendo mudas de Aogiri (espécie de paulônia). Ele acreditava que, em dez anos, essas mudas cresceriam, e então, ele embarcaria de volta à terra natal enchendo o navio com a madeira da árvore, como se fosse um KI-no-kuniya Bunzaemon (nota: abastado comerciante de madeira do Período Edo).” (“Cha no Hana” (Flor de Chá) – Hisae Okamoto, 1974, pg. 187)

O texto acima foi escrito pela esposa de Okamoto.

A viagem ao Brasil percorrendo a metade do mundo foi longa. Okamoto seguiu depois pela ferrovia Juquiá e continuou por navio a vapor rumo a Registro. Porém, quase ao chegar à cidade,

“… quis molhar as mudas que viera transportando preciosamente. Com essa intenção, foi até a popa, mas nesse instante, as mudas escaparam de suas mãos e num instante, se perderam no fundo das águas. Sem encontrar palavras para exprimir a frustação, lançou olhos à terra da esperança que se descortinava adiante e chorou.” (“Flor de Chá” – pag. 188)

Se não tivesse perdido as mudas, quiçá fosse hoje conhecido por “Okamoto da paulônia”.
Começou plantando arroz e cana de açúcar em Registro. Entretanto,

“… a terra era magra e imprópria para produção. O esforço todo foi em vão, faltava dinheiro para comida e roupa. A pobreza era indescritível. A companhia (Kaikyô) sequer tomava conhecimento do sofrimento dos colonos, e continuava alardeando propagandas no Japão. Assim, não demorou para que mais de 600 famílias de imigrantes ingressassem na colônia, ludibriados pelo poder da propaganda dela, A despeito do clima festivo, o êxodo se iniciava a começar por aqueles que mais conheciam a situação. Em um ano, quase 60 por cento dos colonos se foram para outros sítios de café. Nessa época, feliz ou infelizmente meu marido tomava interesse por chá, embora nos sentíssemos inseguros,”(“Flor de Chá” – pg. 189)

Okamoto pesquisava a possibilidade de abrir uma indústria do chá, sua especialidade. Por apresentação de Katsuki Fujita, funcionário local do Kaikyō, procurou Takashi Watanabe no escritório central da companhia em São Paulo, para pedir-lhe que arranjasse mudas de chá. Foi procurá-lo por cinco vezes em São Paulo, mas nunca foi atendido. Era despachado de volta com frieza, porque “estava ocupado, volte outro dia.” Gastara inutilmente em despesas de viagem 800 mil réis economizados com a ajuda da esposa, para voltar de mãos vazias. Entretanto, na noite anterior ao regresso, encontrou-se por acaso com Mōtoku Yabiku, funcionário do Kaikyō, intérprete no alojamento dos migrantes.

“Sei de uma chácara onde existem sementes de chá. Deixe comigo” – ofereceu-se cavalheirescamente. Obteve assim no dia seguinte 25 sementes de chá, que plantou em Registro, seguro de que iam crescer. Okamoto jamais esqueceu a gratidão. Por 30 anos desde então, passou a enviar sem falta chá a Yabiku, sempre à chegada do mês de junho, e com frequência, falava desse incidente a qualquer pessoa, descrevendo Yabiku como seu benfeitor.

Em 1924, completados cinco anos desde a chegada ao Brasil, Okamoto conseguiu finalmente produzir o sonhado chá verde.

“Levou a pequena produção à cidade para vender, mas o chá verde não era ainda apropriado à vida dos colonos daquela época.” (“Flor de Chá”, pag. 192)

 

Chá preto Okamoto,
nascido da revolução

 

O mercado do chá verde, consumido apenas por japoneses, era pequeno demais. Precisava produzir chá preto, para atingir o mercado de consumo dos brasileiros. Isso exigia mecanizar a produção.

“Estourou a revolução de 1932 com a vitória do exército revolucionário que cruzou a fronteira com o Estado de Minas e se estacionou na área metropolitana de Registro. Não se tratava de uma área cafeeira, e assim, faltou café. Meu marido ouviu falar que o exército sentia falta do café, e resolveu doar chá preto, embora não estivesse totalmente pronto. Havia muitos militares de origem alemã entre eles, que gostavam do chá preto e por isso, se alegraram muito. Mais de trezentos militares se enfileiraram na praça para prestar continência a meu marido. O comandante tirou o capacete de aço que usava, escreveu seu nome nele para presenteá-lo, em recordação a esse dia. Essa cena fornece ainda hoje assunto para conversa.” (“Flor de Chá”, pag. 193)

Cabe aqui uma observação: a vitória do exército revolucionário foi na Revolução de Vargas, em 1930. Na Revolução Constitucionalista de 1932, o exército paulista foi derrotado. Trata-se, portanto, de uma falha de memória da sra. Hisae Okamoto. Sendo assim, o exército não deve ter cruzado a fronteira de Minas, mas sim, vindo de Rio Grande do Sul subindo para o norte. Esse exército sul-riograndense que apoiava Vargas, devia possuir provavelmente muitos militares de origem alemã.

Procurei também a sra. Nice Helena Oliveira, guia do Museu Municipal de Iguape. De fato, diz ela que “… tanto em 1930 como em 1932, tropas do Estado de Rio Grande do Sul passaram por aqui.”

Igualmente, a sra. Hatsuko Yoshioka, nascida na terra em 1932 (81 anos, nissei), afirma: “… em 1932, tropas do Rio Grande do Sul passaram em direção ao norte, em apoio ao presidente Vargas”, e nos mostrou fotos da época, que possuía. Diz ela ter ouvido falar que “… eles requisitaram cavalos e alimentos, provocando alguns prejuízos, mas não maltrataram colonos.”

 

Exército Sul-rio-grandense subindo para o norte na Revolução Constitucionalista de 1932 (propriedade da Sra. Hatsuko Yoshioka)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Das autoridades brasileiras, a primeira a visitar Registro foi Washington Luiz em 1921, quando governador de São Paulo. Posteriormente, foi presidente (1926 ~1930).

“Foi o presidente mais simpático para os japoneses. Quando governador do estado, chegou até a visitar a Colônia de Registro, área pobre e remota. Era bondoso com os japoneses. – (trecho omitido) – Como governador, demonstrava grande interesse por estradas e infraestrutura de transporte em geral. Elogiou entusiasticamente uma estrada construída por colonos, não foi por mero cumprimento. O sr. Aoyagi foi às nuvens.” (“Omoide” – (Recordações) – Nomura, pg.55)

Washington Luiz, contudo, não seguiu a tradição “café com leite”, de revezar a presidência da República entre mineiros e paulistas, e indicou Júlio Prestes (paulista) candidato a sucessor. Por isso, o Estado de Minas manobrou por trás dos bastidores, formando a “Aliança Liberal” e suportando a candidatura de Vargas, do Rio Grande do Sul. Mas nas eleições de março de 1930, Vargas perdeu por grande margem de votos, dando lugar a insatisfação e revolta contra o controle político exercido pelos barões do café de São Paulo. Daí a revolução de 30.

Vargas se tornou presidente provisório da República e suspendeu a Constituição. Para desenvolver o produto nacional, impôs restrição às importações –

“… entre elas, a do chá preto Lipton. Com isso, nossa pequena empresa conseguiu ver a luz do sol e ganhar fôlego para comprar máquinas. A fábrica foi concluída.” (“Flor de Chá”, pag. 193)

Aí está um autêntico subproduto da Revolução, que veio a ajudar.

Os jovens oficiais que apoiavam Vargas almejavam reformar a nação. Suspenderam a Constituição e pretendiam elevar o espírito dos brasileiros fortalecendo o nacionalismo.O chá preto de Okamoto fazia parte disso. A Revolução Constitucionalista, iniciada em 1932 pelo povo de São Paulo, se opunha à suspensão da Constituição e apoiava um governo constitucional. O exército de Vargas estava aparentemente a caminho de Santos e Rio de Janeiro passando por Registro, contornando o grosso das forças estaduais agrupadas nos arredores de Itararé, junto à fronteira com o Estado do Paraná.

 

As sementes surrupiadas
do imponente império britânico

 

Em 1930, com a oferta de chá preto de Torazo Okamoto aos oficiais do exército revoltoso, seus comandantes, satisfeitos, divulgaram o chá entre a tropa.

“O consumo do chá preto se espalhou entre os soldados aquartelados no sul do estado e dali entre a população. Os pedidos se multiplicavam, vultosos salários extra foram pagos a ‘camaradas’ para fazê-los trabalhar noite e dia na produção, mas mesmo assim, não dava conta sequer da metade dos pedidos. ‘Chegou a oportunidade de levar o cultivo do chá ao povo de Registro!’ – pensou Okamoto, que começou a distribuir mudas de chá a torto e direito e a ensinar a todos a técnica de produção do chá preto, duramente aprendida em logos anos de pesquisa. A revolução de Getúlio não foi apenas uma revolução política. Ela foi também uma revolução industrial que incendiou Registro e arredores, uma grande revolução nos bastidores que salvou a pátria.” (“Kōya no Hoshi” (Estrela no Deserto) – 1954, Vol. 22, pg. 53)

Assim, com Vargas, estourava também a “revolução do chá preto”.

Torazo Okamoto não se limitou em se deixar levar pela expansão do mercado do chá preto. Procurou melhorar ativamente a qualidade do produto. Preocupado com a produção em massa de produtos de qualidade inferior, trouxe do Japão em 1932 máquinas de produção e dois engenheiros. Percebeu, além disso, que,

“… para produzir um chá que se assemelhe ao Chá Lipton, era necessário modificar a folha.” (“Flor de Chá”, pag. 195)

Uma dificuldade.

Ao visitar o Japão em 1934, passou de regresso pela Ilha de Ceilão, na Índia, onde permaneceu por dois dias. Imaginara no Japão que não haveria problemas em conseguir sementes de chá na ilha, mas ao chegar em Ceilão, viu que a situação era bem diferente da imaginada: a legislação local proibia terminantemente a saída da semente para o exterior, temendo que estrangeiros a levassem para fora.

Conforme o jornal Nippaku Mainichi de 8 de janeiro de 1071:

“O chá preto hindu estava nas mãos de apenas um inglês. A inspeção alfandegária se fazia extremamente rigorosa ao entrar ou deixar o país. A vigilância, tanto nas plantações como nas fábricas, era rigorosíssima. Sequer um único grão de semente, e nem mesmo um punhado de areia podia ser levado.

Planos de vingança contra ingleses que haviam surrupiado espertamente sementes da borracha, produto brasileiro único na época, se tornavam praticamente inviáveis, mesmo por causa das distâncias envolvidas.

Realmente, os ingleses dominavam o mercado mundial do chá preto. Estratagemas engendradas por outros países para destruir essa fortaleza do chá falhavam diante da espessa muralha do secretismo, que impedia um olhar sequer ao interior.

Outra coisa não restava aos imigrantes de Registro dessa época senão suspirar. Mas um viajante japonês, alto e magro, desembarcava no porto de Ceilão nessa hora.

Os ingleses, orgulhosos da sólida muralha que construíram, nem em sonhos teriam imaginado que um japonês residente no interior do Brasil havia cruzado os mares para atacar a extensa plantação protegida pelo Union Jack, e roubar um punhado de sementes.

Pedido feito a um motorista negro para visitar a fábrica Lipton.

“Como não conhecia a língua, tirei do bolso uma cédula de 20 ienes, desenhei em um papel grãos de sementes de chá e mostrei os dez dedos da mão, para pedir que me arrumasse dez grãos. O motorista fez que não com a cabeça, e com a mão um gesto indicando que lhe cortariam a cabeça se me atendesse, como um japonês.” (“Flor de Chá”, pag. 196)

Okamoto perdeu a fala impressionado com a enorme fábrica eletrificada.

“Sementes estavam sendo postas para secar no pátio da fábrica. Pensei até em surrupiar um grão, mas desisti ao pensar no problema que causaria ao capitão do navio, por ter infringido uma lei do país. Assim, agradeci profusamente o cavalheiro que me serviu de guia, e tomei o mesmo carro, de volta pelo caminho que vim. No carro, olhei por acaso a beira do assento em que me achava sentado, e vi ali um pequeno embrulho de jornal. Toquei nele, meio temeroso. Continha sementes de chá! Gritei ao meu sobrinho ao meu lado: ‘São sementes!’ – e bati por trás as costas do motorista, diversas vezes, para expressar minha gratidão.” (“Flor de Chá”, pag. 197)

Okamoto conseguiu assim obter secretamente cerca de 100 grãos de semente.

 

A cidade do chá preto
se torna dourada

 

Okamoto comprou pães redondos no porto de Ceilão, introduziu neles as sementes em pacotes de 10 grãos, e pediu para o guia da excursão que os entregasse em sua cabine, no navio. Depois, encheu uma caixa com a areia utilizada para lavar o convés e enterrou nela as sementes. E assim conseguiu levá-las até Registro e plantá-las. As sementes renderam cerca de 60 mudas, que replantadas um ano depois em cortes, permitiram a colheita de mais sementes.

Iniciava-se a primeira produção do autêntico chá da Índia na América do Sul.

O Kaikyō começou então a se mexer, finalmente.

“Com o intuito de promover a indústria local, o Kaikyô convidou ao Brasil em 1937 o engenheiro Yamataro Senchi de Shizuoka. Assim, o aspecto técnico da produção registrou melhora substancial. A companhia convidou também o senhor Yagi, do Japão, e com ele, as deficiências do processo produtivo foram enfim eliminadas.” (“A Estrela do Deserto” – Vol. 22, pg. 54)

Os especialistas em produção foram convocados por três vezes até completar o processo produtivo. Esse investimento inicial rendeu frutos posteriores.

Em 1939, a Grande Guerra Mundial se iniciava na Europa.

“O mundo passava por um período anormal de prosperidade, a venda do chá criava asas com o surto da exportação e do consumo interno. As vendas de três, quatro meses já estavam reservadas antes mesmo da produção. O preço do quilo do chá saltava de 15 mil réis para 45 mil réis, transformando em novos ricos com mais de 500 contos todos os comerciantes de chá em Registro.” (Idem, pag. 54)

Com o envolvimento da Inglaterra na guerra, o chá da Índia desaparecia do mercado, substituído pelo chá de Registro.

“A colônia empobrecida, que nunca vira cor do dinheiro durante longos anos, se inundava agora de dinheiro. Plantações de chá eram ampliadas e fábricas construídas. Lares se equipavam com bens culturais, mulheres e crianças se vestiam de seda para visitarem São Paulo. Iniciava-se um período de bonança, dando término ao longo período de estresse e sofrimento. Com isso, uma multidão de pessoas de diversas outras regiões afluía a Registro. ‘A Registro! À terra dourada!’ – as vozes clamavam. Essa bonança durou 3 anos, e a cidade se transformou em um paraíso de prosperidade, que não conhecia pobreza.” (“Estrela do Deserto”, vol. 22, pag. 54)

Registro ganhava produto básico e renascia, superando a fase da fuga descontrolada de colonos.

“A trágica colônia encerrada em horizontes sombrios, de onde as pessoas se dispersavam, estava à beira da derrocada completa. Mas graças ao esforço do pioneiro Torazo Okamoto, que perseguiu obstinadamente por 40 anos um único objetivo, luzes começaram a brilhar na colônia escurecida. Vozes maviosas das colhedeiras de chá passaram a flutuar pelos ares através dos campos e morros outrora silenciosos. Motores roncavam nas fábricas despertando os caboclos do sono prolongado. O longo caminho de desenvolvimento percorrido pela colônia, que a levou a se transformar em preciosa área exportadora, atraindo a moeda estrangeira ao Brasil, compõe uma página orgulhosa da história da imigração japonesa. Disso não devemos nos esquecer.” (“Estrela do Deserto” – vol. 22, pag. 63)

Grato pelo cavalheirismo de Mofou Yabiku que foi o primeiro a lhe conseguir sementes de chá, Okamoto nunca esqueceu de lhe enviar chá por 30 anos.

 

Exportação como
“Chá Brasileiro”

 

Reporta o jornal Nichimai, em edição especial de 8 de janeiro de 1971 dedicada a Registro:

“Durante a Segunda Grande Guerra, a Índia deixou de exportar chá preto. As mudas do Lipton Okamoto original foram plantadas por toda a colônia, e a produção do chá atingiu, apenas na colônia de Registro, 280 t em 1946, 765 t em 1957, e em 1966, 8000 t, das quais, 2500 t foram exportadas. (Trecho omitido). Em 1954, o governo francês concedeu a Okamoto a Medalha Mundial de Mérito Industrial, 126ª no mundo inteiro e a 3ª no Brasil”.

O “Chá Ribeira” de Torazo Okamoto, em 55 anos de existência, passou a ter

“450 áreas plantadas, das quais 40 de plantação de chá (60.000 pés). Dispõe também de instalações como sala de secagem, máquinas para esmagar folhas de chá, salas de fermentação, secadoras, seletoras de precisão, salas de armazenamento, e sala de confecção de caixas, além de outras. Emprega 60 famílias de trabalhadores. A fábrica recebeu visitas dos governadores Fernando Costa e Adhemar de Barros, que incentivou Okamoto a contribuir mais ainda para a indústria nacional.” (“Senkushaden” – (História dos Pioneiros) – Jornal Paulista, pg. 544)

 

Uma grande plantação de chá de 100 alqueires foi desenvolvida em Pariquera Açú por Shusaku Yamamoto no período áureo do chá preto. Mas dizem que quem a desenvolveu de fato, por ordem de Yamamoto, foi Jin Matsuo, formado pelo Colégio Agrícola Provincial de Kamo, Niigata. Matsuo levou 28 anos para completar o trabalho. (Fonte: foto de Jin Matsuo, de 1986)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em julho de 1955, registrou-se como companhia limitada, com capital de 2 mil contos de réis. Noventa por cento da produção se destinava à exportação. O consumo interno era baixo. Por essa razão, as flutuações do câmbio constituíam o calcanhar de Aquiles da Indústria do chá preto.

A esposa Hisae escreve em obra publicada em 1972:

“Hoje, o período é dos nisseis e o palco se transferiu para as Américas Central e do Sul. O chá de Registro passou a ser conhecido por chá do Brasil. O chá começou a florir na bacia do Ribeira, desprezada como área infértil e a antiga imagem do Sul de São Paulo se apagou. O vilarejo se transformou em cidade e metrópole, ganhou fama até no exterior como o único produtor de chá do Brasil.” (“Flor de Chá”, pag. 202)

Torazo Okamoto não se cansava de contar o episódio da obtenção das sementes do chá Assam em Ceilão.

“Ainda hoje me lembro da conversa que o meu marido teve com o capitão do navio e o primeiro piloto: ‘Se conseguir plantar com sucesso essas sementes em terras brasileiras, juro que hei de embarcar o chá brasileiro no porto de Santos e despachá-lo mundo afora alguns anos depois, da mesma forma como se embarca o chá Lipton no porto de Ceilão.’ Impressionados, os dois oficiais assentiram com a cabeça… – (trecho omitido) – Duzentas toneladas de chá preto eram produzidas por três fábricas. Um terço delas saía da fábrica de Chá Ribeira. Nas docas do porto de Santos, imensos guindastes erguiam as 3.500 caixas lá empilhadas, mostrando nitidamente a marca de produto nacional brasileiro, e as desciam pela escotilha do navio. Contemplando essa cena de longe, senti como se estivessem descarregando dos ombros de meu filho uma carga de esperança.” (“Flor de Chá”, pag. 203)

Os imigrantes japoneses construíram, sem dúvida, no interior do maior império mundial do café, uma nova capital do chá, na região de Registro.

 

A capital do chá no império do Café

 

No período de ouro do chá, nos anos 80, só havia plantações de chá nessa região. “Naquela época, a região inteira produzia um total de 12, 13 mil toneladas anuais”, se recorda Kuniei Kaneko, presidente da Associação Cultural Nipo-Brasileira de Registro (em 2013).

Diz ele ainda sobre a abrangência da indústria do chá: “A produção industrial pós-guerra estava centralizada no chá. Assim, ela envolvia muita mão-de-obra. No período de auge, supondo que as seis fábricas existentes empregassem em média 150 pessoas, um total de 900 famílias viviam às custas das fábricas. Os brotos verdes, matéria prima do chá, eram produzidos por 70 famílias por fábrica, em média. Calculando, eram 70 famílias x 6 fábricas = 420 famílias produtoras. Supondo que houvessem em média 5 colonos por família, a atividade envolvia 2100 famílias de trabalhadores agrícolas. Somando-se essas famílias às 420 empregadas nas fábricas, chega-se ao total de 2500 famílias. A 6 pessoas por família, conclui-se que 15000 pessoas viviam do chá, não é?”

A população da cidade agora é de mais de 50 mil habitantes. Visto como era ínfima a dos períodos anteriores, é de se perceber como o chá preto sustentou a economia da cidade ao se tornar indústria de base regional. Diz Kaneko: “O auge do chá se deu nos anos 1985 – 1986. O preço de mercado do quilo do chá não passava de 1 dólar e 20 centavos, mas por volta de 1985, chegou a ser vendido por 2 dólares e 80 centavos quase por um ano inteiro. Os produtores compravam geladeiras e carros.”

A exportação do chá nos anos 80, boa demais, agiu como espada de dois gumes. Kaneko, que trabalhou par 42 anos no Chabrás relata: “Depender da exportação pelo contrário, foi fatal. Na época do ministro da Fazenda Delfim Neto, nos anos 80, o câmbio era mantido baixo à força. Em compensação, o governo concedia um auxílio de 6% à exportação.”

Ele recorda ainda: “Não houve uma promoção a valer do produto no mercado interno nesse período de bonança. Pensava-se apenas em exportar. A longo prazo, se tivéssemos incrementado as vendas internas, penso que não teria sido necessário fechar fábricas de chá.” “Para exportar, era necessário competir com a Índia e o Ceilão. A mão de obra deles era muito barata. Mas entre nós, o salário mínimo e o preço da gasolina subiam sem cessar, mas o preço de venda, não. Assim, era impossível continuar. Nos anos 90, diziam: – não queremos mais comprar chá brasileiro, o chá de outras procedências é mais barato!” Na América do Sul, enfrentava-se a competição da Argentina. O Plano Collor foi o tiro de misericórdia. O câmbio sofreu brusca variação e aí não deu mais.”

 

Fábrica de chá Amaya – única que restou em todo o Brasil após a drástica redução das exportações dos anos 90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ryogo Amaya em frente aos sacos de 60 kg de chá para exportação, enquanto concede a entrevista

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ryogo Amaya (nissei, 58 anos em 12 de março de 2013, data da entrevista) diz: “De acordo com meu pai, havia nestas redondezas 42 fábricas de chá. Hoje, é só aqui.” – e se cala. Um vento impiedoso parece varrer as plantações de chá.❁

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 8.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 8
Os pioneiros da história da imigração

Junho de 2018

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo

Biblioteca Jovem de São Paulo
Diretora: Lena Maki Kitahara
Colônia Pinhal, CxP 80- CEP 18230-000
São Miguel Arcanjo, SP

Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Koichi Kishimoto, Gota Tsutsumi, Masayuki Fukasawa, Shinji Tanaka
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão de tradução: Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti
ISBN: 978-85-66358-06-3

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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