Cultura Japonesa Vol. 8 – Noboru Seshimo – liderança da Colônia Aliança, um romântico japonês de um espírito desbravador indômito, emigrou primeiro aos Estados Unidos e preferiu trocar a posição e o patrimônio pela paixão, realizando o seu sonho no Brasil

Os pioneiros da história da imigração

Noboru Seshimo

A história de um romântico japonês que preferiu trocar a posição e o patrimônio pela paixão e realizar o seu sonho no Brasil


Texto original em japonês de Koichi Kishimoto
Referência: Extraído da obra “Banchi no Ue ni Nichirin Meguru” (O Sol Circula sobre Terras Selvagens) – Koichi Kishimoto, Kôyasha, 1958

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 8, de Junho de 2018


 

Noboru Seshimo

 

Este capítulo é muito instrutivo. Versa sobre a vida de Noboru Seshimo, sua experiência nos Estados Unidos para onde emigrou pela primeira vez, e os motivos que o levaram a escolher o Brasil como destino final. Um decasségui da raça amarela nos Estados Unidos, procurou ganhar a vida trabalhando como operário ferroviário, atividade arriscada, porém bem remunerada. Em Salt Lake, os mórmons lhe ensinaram o que é o pioneirismo americano. Com as economias, abriu um restaurante. Mas vendo que jovens japoneses se perdiam nos antros de jogatina dominada por chineses, decidiu uni-los em uma associação de japoneses. Um romance nasceu. Retornando uma vez à terra natal em Nagano, acabou por escolher as terras brasileiras para viver o resto da sua vida. (Redação do Jornal Nikkey Shimbun)

 

 

Se da Colônia Aliança, pobre aldeia rural, surgem continuamente jovens nisseis de talento, é porque, ainda hoje, arde no fundo d’alma dos isseis um nobre ideal. É uma corrente velada, latente entre os pioneiros, que sem se deixarem levar pela ganância materialista, perseguem obstinadamente o sonho único da construção de uma pátria ideal.

A fonte principal dessa corrente é Seshimo, homem prático dado ao cultivo da terra calado. Não se presta à demagogia. Porém, defende obstinadamente suas convicções, sempre racionais, e não cede jamais.
A dura experiência adquirida nos árduos dias da juventude passada nos Estados Unidos moldou-lhe o caráter.

 

Desfeito o sonho de se tornar
oficial do exército,
Seshimo busca os Estados Unidos

 

Concluídos os 4 anos de estudo na Escola Secundária de Nozawa, distrito de Minami Saku, Nagano, Seshimo prestou concurso de admissão ao Colégio Militar de formação de oficiais do Exército, sonhada carreira dos jovens da época. Mas a notificação de aprovação não chegou. Sem ter para onde dirigir sua frustração, Seshimo decidiu expandir seu vigor juvenil nos Estados Unidos, e em 1907, adquiriu uma passagem de navio para o país a pretexto de realizar “pesquisas acadêmicas”. Embarcou no transatlântico Dakota, de bandeira americana, e seguiu rumo oeste sobre ondas do Pacífico, levando consigo sonhos juvenis, sua negra cabeleira agitada pelos ventos do mar.

 


Imigrantes japoneses no navio rumo aos Estados Unidos (Shashin Kaiga Syuusei Nihonjin Imin 1 Hawai Hokubei tairiku – Coleção de Fotos e Pinturas – Imigrantes Japoneses 1 – Havaí e Estados Unidos)


 

Desembarcou em Seattle. Sua primeira preocupação foi a comida. Para comer era preciso trabalhar. Não passava de um jovem secundarista recém-formado sem qualquer experiência de trabalho, mas pretendente que fora a oficial do exército, desprezava a morte, seja em terra, seja no mar. Tinha plena confiança em suas energias, que nada deixavam a desejar comparadas às de qualquer trabalhador americano.

Seguramente, não se prestava a trabalhar como “school boy”, em pequenos serviços domésticos como lavar pratos ou limpar jardins, apoquentado dia e noite pela patroa e pela gritaria da filharada mimada. Portanto, juntou-se de vez a um grupo de candidatos ao duro trabalho de operário de ferrovia. E deu início em Montana, para onde foi levado, à vida de peregrinação pelos Estados Unidos. Não passava de um novato no ramo, mas lhe pagavam uma diária de 1 dólar e 55 centavos. Dava para economizar 25 dólares por mês.

Na época, a grande depressão mundial atingia o país. Empreendimentos emperravam, e desempregados se multiplicavam por toda a parte. O setor ferroviário, também atingido, cortava empregados alimentando a crise. Mas japonês que se preze não fraquejava por coisas como essas. Enfrentava o que viesse. Nessa época, novas ferrovias estavam sendo estendidas a regiões montanhosas de difícil acesso, e muitos japoneses correram para lá. O trabalho era espinhoso. Tratava-se de abrir caminho entre montanhas inóspitas, explodindo rochedo com dinamite para estender trilhos. Mas era bem remunerado. Pagava 2 dólares e 25 centavos a diária. Aos jovens japoneses, não lhes interessavam o trabalho seguro e mal remunerado. Não pestanejavam em aceitar trabalho perigoso, exposto a acidentes como ter os braços e os pés arrancados por explosão de dinamite, desde que pagassem bem.

Eles lutavam heroicamente para alcançar um objetivo – ganhar dinheiro. Preferiam trabalhar 1 ano para economizar mil dólares a trabalhar 2 anos para obter a mesma economia. Para isso, lançavam-se à aventura e se arriscavam. Em lugar de economizar mil dólares, poderiam perder um braço em uma explosão e perder não apenas dinheiro, mas quiçá a vida inteira. Não importava.

Notava-se essa peculiaridade entre os jovens japoneses, e Seshimo era um deles. Não perdia de ninguém em interesse pela aventura, e assim, optou por trabalhar na nova ferrovia no meio das montanhas pela diária de 2 dólares e 20 centavos.

 


Os imigrantes do Japão e os que se tranferiram de Hawaii trabalharam como operários de ferrovias em várias regiões dos Estados Unidos como Idaho, Utah, Wyoming, Nevada, Colorado (Shashin Kaiga Syuusei Nihonjin Imin 1 Hawai Hokubei tairiku – Coleção de Fotos e Pinturas – Imigrantes Japoneses 1 – Havaí e Estados Unidos)


 

Em certa oportunidade, realizou-se uma gincana de confraternização entre japoneses em comemoração ao Dia da Independência. Quase 600 japoneses se juntaram nesse dia, vinham de tão longe quanto 50 milhas (aprox. 80 km) ou 60 milhas de distância.

Uma competição curiosa dessa gincana atraia entusiasmo: a do “pau de sebo”, para agarrar notas de dinheiro presas no topo de postes ensebados. O poste, todo ensebado, escorregava. Os competidores conseguiam subir quando muito até a metade. Essa competição era meio grotesca, quem sabe bem ao gosto dos operários ferroviários.

Seshimo vivera a infância nas montanhas de Shinshu correndo entre árvores de caqui e castanha, subindo por elas tronco acima em busca de frutos. Estava, pois, acostumado a subir em troncos, tanto que ganhara até o apelido de “macaco”, e não temia desmerecê-lo. Fora também o melhor ginasta da escola em exercícios em barra, tinha confiança de que poderia entrar no rol dos vencedores em uma competição como essa. Mas não se interessou, preferiu ser expectador. Nisso, ouviu que seu patrão o chamava: – “Cadê Seshimo? Seshimo! Seshimo!” – gritava ele. Assim, foi correndo até ele, para ver do que se tratava.

“Ei, Seshimo! Decidimos competir entre equipes, com equipes de trabalhadores de outros trechos da linha, no ‘pau de sebo’. Você vai representar o nosso Trecho 1. Vai, por favor!”

“Mas patrão, eu nunca participei de competições como essa. Se perder, fico em dívida com o senhor e a turma do Trecho 1…”

“Rapaz, você não vai perder, eu não me engano. Vai firme!”

Embora não soubesse por quê, o patrão tinha plena confiança nele. Seshimo resolveu obedecê-lo. Mas já que iria participar, não queria perder. Os representantes dos cinco trechos foram escolhidos. Quando se apresentaram, a multidão se ergueu para incentivar aos gritos os seus representantes. O ambiente se aqueceu. Até mesmo gente de fora tomou parte da balbúrdia. Ao som do tiro de partida, Seshimo correu para o poste e começou a subir. Escorregou e caiu uma ou duas vezes, mas aprendeu. Atingiu a metade do poste quando a fadiga chegou ao extremo. Não conseguia avançar. Também não podia descansar as pernas ou os braços nem por um instante, se não quisesse escorregar e cair. Mas até aí, todos estavam na mesma situação.

“Merda, não vou fracassar!” – o ânimo retornava, incendiando sua alma. A força do espirito sobrepujava a força física. Quanto maior a dificuldade, seu espírito combativo mais se fortalecia. A nota de dinheiro fixada no topo do poste era de 100 dólares. Seshimo prendeu-a entre os lábios, deslizou direto poste abaixo e correu para a linha de chegada. Quanto aos outros, viu que estavam, todos eles, ainda agarrados ao nível de 80% da altura dos postes.

Ao comando do patrão, a equipe toda do Trecho 1 carregou Seshimo festejando a conquista do primeiro lugar.

– Eu sabia que você ia vencer, dizia ele. – Você é um rapaz educado, recém-formado. É um herói, trouxe glória à nossa equipe. Vamos lá, beba! Chioko, encha o copo do Seshimo!

Chioko era uma linda jovem nissei de 18 anos, filha única do patrão. Ela estendeu a mão para Seshimo, e lhe agradeceu: – “Thank you, mr. Seshimo!”, disse ela apertando-lhe a mão ruborizada, enchendo de uísque o seu copo.

A multidão presente consagrou Seshimo como herói. Em particular, o sorriso da Chioko seguido do “thank you” e do aperto de mão pareciam esconder mil sentimentos de uma garota recatada. O patrão, iletrado, tinha em alta conta o futuro de Seshimo, um recém-formado. O moço, entretanto, alimentava sonhos ainda mais elevados que o alvo pico das Montanhas Rochosas. E a brisa primaveril que começava a lhe soprar não chegou a desabrochar o romance que se iniciava. Seshimo partia em busca de outras paragens.

 

A luta dos mórmons
pela construção de um país

 

Para obter sucesso na América – terra dourada, era necessário, em primeiro lugar, ter capital, e também, passar por experiências diversas. Por esse motivo, Seshimo se deslocou a Billings (Estado de Montana) para trabalhar com afinco durante um ano em produção de açúcar e nabo. Mas com a recessão, os lucros não vieram. Assim, retornou ao trabalho de operário ferroviário, aventurando-se desde Yellowstone até Idaho, e por fim até Salt Lake no Estado de Utah.

Salt Lake é internacionalmente conhecida como reduto de mórmons nos Estados Unidos. A região é prestigiada como exemplo do espírito americano de construção da pátria. A cidade de Salt Lake exerceu particular atração ao jovem Seshimo, que ali passou 10 dos 18 anos de permanência no país. Ela abrigava a melhor universidade, as pessoas mais ricas, e a mais poderosa organização do mundo estava ali. Um clima de bravura e de idealismo elevado predominava entre os cidadãos, e isso o prendeu por 10 anos.

É preciso falar aqui um pouco dessa região. Em 1846, um grupo de 2000 mórmons tendo à frente Brigham Young partia de Illinois carregando alimentos em pequena quantidade e parcos pertences em suas carroças, em meio ao frio rigoroso de fevereiro. Esses homens partiam rumo oeste através de campinas inóspitas, cruzando rios sem pontes e pradaria sem caminho. Atormentados pelo frio intenso, enfrentaram tempestades de neve levando consigo idosos e crianças, caminhando a pé em extensa fila. Venciam quando muito duas milhas (7,8 km aproximadamente) por dia.

Houve de tudo durante a viagem: neve, chuva, lamaçal, fome, ataque de índios, de feras e cobras venenosas, revolta entre os crentes, perseguição ferrenha movida por habitantes de povoados à margem das estradas por onde seguiam. Sofreram por um ano e meio de viagem, até alcançar Salt Lake – uma planície árida sem uma árvore sequer, sem mesmo um hectare de campo verdejante. O desespero escureceu o semblante dos 2000 crentes.

“Passamos um ano e meio de atribulações, para chegar a este deserto?” – alguns murmuravam. Mas o líder Young proclamava em altos brados: “Esta é a terra onde os mórmons deverão construir seu paraíso terrestre!”.

Essa terra era a mais pobre de toda a América. Ela nada produzia, o que quer que se plantasse. Os mórmons começaram a vida desbravando juntos essa terra improdutiva e selvagem, vivendo em barracas e educando seus filhos, lutando contra o frio e a fome. Mas em 30 anos, os 2000 colonos construíram uma cidade de 120 mil habitantes. Os americanos têm em seu sangue essa visão da vida, esse instinto destemido, quase selvagem, de investir às cegas, mesmo arriscando suas vidas. Essa constatação nos leva a refletir.

Os mórmons são perseguidos em toda a América por suas convicções poligâmicas. Eles visavam aumentar a prole e expandir a população mórmon. Um único camponês construía casas para quatro ou cinco mulheres e circulava por elas. Assim, não era raro encontrar um pai de família com 20 filhos. Mas causava estranheza um homem andando de mãos dadas com duas mulheres, uma em cada lado.

Dedicavam-se à agricultura e à educação dos filhos, não bebiam álcool, café ou chá, não fumavam, evitavam consumir produtos refinados. Mas retornemos a Seshimo.

Para viver na América, era necessário conhecer, além dos usos e costumes da terra, os hábitos do lar. Por isso, Seshimo se empregou junto a Mr. John, um senador, para administrar suas plantações. Mr. John tratou Seshimo como membro da família. Fazia-o sentar-se à mesa com eles, e a filha lhe servia refeições. Participava algumas vezes de piqueniques ou de passeios de carro com eles. A filha, alegre como passarinho, colhia flores subindo em barrancos com a ajuda de Seshimo que lhe dava as mãos, e quando descia, apoiava-se nos ombros dele. Ela lhe tinha plena confiança, mas Seshimo limitava-se a tê-la como uma amiga, não permitindo que o relacionamento fosse além.

 

Estado de Wyoming
– Vida nas minas de carvão –

 

As montanhas de Wyoming são desertas e quase sem árvores, mas possuem minas de carvão por toda parte. A mineração era o caminho mais rápido para economizar dinheiro, embora envolvesse risco de vida. Seguramente, não era uma profissão saudável. O pó de carvão empretecia os olhos, o nariz, os ouvidos e até a saliva. Os mineiros se dividiam em dois grupos distintos.

Um deles se constituía de assassinos, assaltantes, estupradores e incendiários, ou seja, de gente que no mundo havia praticado crimes de toda natureza, e precisava se esconder na profundeza de trezentos metros abaixo da superfície. O outro, de gente que trabalhava duro para ganhar muito dinheiro em pouco tempo.

Mas uma vez no interior das cavernas escuras da mina, não havia mais gente boa ou ruim. Todos seguiam um mesmo destino cruel, arriscando as vidas e se ajudando mutuamente, de alma pura. Metiam-se em profundezas de quase 10 milhas (1 milha = 1.6 km), brandindo picaretas para receber uma diária de 4 dólares e 50 centavos. Nessa época, um trabalhador rural ganhava por dia 1 dólar e um operário ferroviário 2 dólares e 50 centavos. Portanto, a remuneração era melhor.

Mas descontentes mesmo assim, uma greve geral por aumento varreu todo os Estados Unidos. O panfleto da greve dizia: “O trabalho de um mineiro é extremamente insalubre e cheio de riscos. Para evitar arrependimento, os 400 mil mineiros de toda a América se unem para exigir uma diária de 9 dólares”.

A greve prosseguia bem controlada, sem distúrbios provocados quer por intervenção da polícia, quer por derramamento de sangue e demonstrações em vias públicas. A organização do sindicato era perfeita. Todos seguiam a ordem de não trabalhar até que a reivindicação fosse aceita. O sindicato proporcionava alimentação, e assim ninguém temia morrer de fome.

A greve chegou ao fim no décimo mês. Período assim longo é raramente visto na história dos conflitos trabalhistas no mundo. O país dependia ainda do carvão. As fábricas tinham a produtividade afetada, faltava carvão para o preparo das refeições nos lares e para a calefação. O povo começava a reclamar: “Aumentem logo o salário deles e nos mandem carvão!” O governo interveio para mediar e o acordo foi fechado. A diária acordada foi de 7 dólares e 50 centavos. Comprovava-se o poder da união.

O lazer do mineiro consistia em bebida, jogos e mulheres. Contudo, Seshimo, que buscava conquistar logo a independência e obter sucesso, não se juntava à farra. Bom conversador, adestrado em judô e kendô, era por isso mesmo chamado constantemente para intervir em brigas e apaziguar disputas.

A fama do japonês Seshimo crescia entre os mineiros. Dominava a língua inglesa sem dificuldades, não se intimidava diante dos administradores, protestava quando necessário, apartava brigas até de faca e tinha coragem e força muscular para conter os briguentos. De repente, todos o tinham como líder, por qualidades como essas. Um grupo de quase 100 mineiros japoneses se reuniu para trabalhar sob suas ordens. Passou então a trabalhar por empreitada, recebendo um aumento de diária, de 15 dólares para 20 dólares. O dinheiro economizado crescia a olhos vistos.

 

Início da Primeira Guerra na Europa
e abertura de restaurante

 

A crise mundial se aproximava, não era hora de permanecer no interior das montanhas entregue pacificamente ao trabalho da mineração. O capital amealhado por longos anos já era razoável. A hora chegara para realizar novo empreendimento. Seshimo foi então à cidade de Yakima, em Washington, para observar a situação mundial, atento às chances do mercado.

Os Estados Unidos entravam em guerra. Com isso, todas as cidades americanas passavam a efervescer com a economia de guerra. Seshimo abriu um restaurante em um ponto movimentado da cidade. Cuidou para deixar o salão bem decorado, os filés de carne bem espessos. Escolheu ingredientes de primeira qualidade e preparou um bom cardápio. A clientela reagiu. Pessoas se juntavam em grande quantidade onde o ambiente fosse agradável, a comida farta e gostosa. Um mês após a abertura, o restaurante de 50 mesas ficava lotado e os clientes se sucediam. Não sobrava lugar durante 3 horas, e a azáfama era estonteante.

Certa noite, quando estava para fechar após o expediente, três japoneses invadiram ruidosamente o restaurante.

– Ei, quero comer, e vê também uma garrafa de uísque!

– O restaurante fecha à meia-noite. O cozinheiro já foi embora, os garçons também foram. Voltem amanhã, está bem?

– Paciência. Então me traz sanduíches e uísque. Estamos quase desmaiando de fome. Vai, anda logo!

– Mas o que há com vocês? Meia-noite e meia, e ainda não jantaram?

– A gente está voltando do cassino chinês, perdemos todo o dinheiro lá. Tudo que ganhamos, nós três, trabalhando nas plantações. Quero voltar lá amanhã para tentar a sorte, ganhar o que a gente perdeu. A vida é isso mesmo, sorte, burrada e teimosia. Com sorte, o mendigo de hoje é amanhã milionário. É o que aconteceu hoje. Apostamos 200 dólares, e ganhamos 1000 dólares. A gente se entusiasmou, e aí, perdemos tudo. Você não quer emprestar 100 dólares para cada um? Em cinco horas, a gente devolve 200. Afinal, você é japonês também, não? Por favor, patrício!

Um roteiro bem conhecido, seguido por noventa por cento dos jovens japoneses solteiros que chegavam aos Estados Unidos. Os chineses lhes surrupiavam toda a economia amealhada durante meio ano trabalhando sob sol ardente.

“Vou ver o que está acontecendo”, resolveu Seshimo.

– Está bem, eu lhes empresto 100 dólares a cada um. Mas vocês me levam junto amanhã a esse cassino chinês onde vocês vão.

Os três gritaram de alegria.

 

O cassino no bairro chinês

 

Na tarde do dia seguinte, os três voltaram ao bairro chinês decididos a ganhar de qualquer forma, acompanhados por Seshimo. O ambiente ali era caracteristicamente chinês, nem parecia que estavam nos Estados Unidos. Os transeuntes vestiam roupas tipicamente chinesas e andavam conversando em chinês. As lojas ostentavam cartazes dourados escritos em caracteres chineses, e se ouviam músicas melancólicas tocadas por instrumentos de arco, vindas de restaurantes chineses.

Causava espanto a forte individualidade, a aderência obstinada deles aos próprios usos e costumes, que demonstravam em qualquer parte do mundo. Como capim, criavam raízes e cresciam lá mesmo onde eram jogados, em qualquer lugar.

Os quatro japoneses entraram em uma casa de jogos que na entrada exibia uma placa onde se lia Sanghai Low. Era casa de apostas e também antro de heroína. A sala no subterrâneo estava profusamente iluminada. Trinta ou quarenta pessoas divididas em cinco ou seis grupos se amontoavam ao redor das mesas de apostas. Tabletas de madeira eram ruidosamente misturadas; alguns apostavam nas cartas, jogando 21 ou pôquer. Gente contando os grãos no jogo do shiko, gritos de alegria de quem ganhou, a sala era barulhenta. Em outras salas adjacentes, chineses viciados em heroína e prostitutas brancas se estiravam em silêncio.

Os três se sentaram ao redor de uma mesa para tentar a sorte. Apostaram 20 dólares. Seshimo postou-se ao lado deles para observá-los. Chineses, com prática de mais de dez anos, embaralhavam as cartas com espantosa destreza. Eram muito rápidos, nem deixavam perceber o que faziam. Perdendo ou ganhando, zombavam dos clientes e por fim, arrebatavam tudo que eles possuíam.

Em um instante os três perderam 80 dólares e lhes restavam apenas os últimos 20 dólares. Seshimo resolveu intervir:

– Turma, vocês estão com má sorte hoje. É bom sair e repensar.

– Droga, esse chinês vem com golpe sujo!

– Irritação não adianta. Saiam, tomem fôlego e decidam depois com calma o que fazer.

E convidou os três para uma área onde havia um ajuntamento.

Ali se iniciava uma grande aposta. Um japonês, que pela aparência, devia ser alguém das plantações, estava apostando 1000 dólares contra um chinês. Ganhou quem sabe duas vezes, mas depois perdeu continuamente até ficar sem um tostão. Ele murmurou qualquer coisa, e com os olhos injetados, foi saindo. Ao que parece, iria arranjar mais dinheiro.

Seshimo seguiu atrás do camponês até lá fora.

– Ei você! Você aí, para onde vai? Desculpe interrompê-lo, mas por acaso, está querendo pedir dinheiro emprestado, para voltar a apostar? Ou não está?

O lavrador fuzilou Seshimo com olhos brilhantes e vermelhos:

– Estou sim. Vou pedir dinheiro emprestado para apostar de novo. Eu hoje apostei 500 dólares, ganhei 1000, e perdi. Preciso de qualquer forma recuperar os 1000 dólares daquele chinês, senão eu não me sossego.

Os jovens japoneses, solteiros, estavam perdendo para os chineses todo o suado dinheiro que ganhavam trabalhando duro. Seshimo tomava conhecimento dessa rotina seguida inevitavelmente pelos jovens, e não se conteve.

A jogatina estava presente onde quer que os jovens se juntassem, na ferrovia ou nas minas. Os chineses estavam levando tudo, chupando até seus ossos. Assim, não podiam se casar e nem retornar à terra natal. Permaneciam solteiros mesmo aos 40, 45 anos. Morreriam só, em terra estrangeira. O que fazer para salvá-los? Pensou nisso por três dias e três noites sem dormir. Mas chegou a uma conclusão. “Unam-se, japoneses!” – era esta a conclusão. Seria necessário fundar uma associação de japoneses.

Nessa época, os japoneses, assim como negros e chineses, eram discriminados nos cinemas, e sentavam-se em assentos separados dos brancos. Os hotéis de primeira linha detestavam receber japoneses junto com brancos, e só albergues miseráveis os aceitavam como hóspedes. Os japoneses sentiam-se humilhados com essa discriminação. Mas eram aceitos sem restrições nos bares chineses, que lhes serviam boas bebidas. E aí se tornavam prisioneiros da jogatina e da prostituição.

Aos poucos, eles se tornavam iguais a chineses. Mas ainda assim, algo os distinguia, quem sabe a educação recebida. Japoneses não participavam do grupo dos enganadores, mas dos enganados. Perdiam tudo, lhes chupavam os ossos, envelheciam e morriam – esse o trágico destino dos japoneses pioneiros na América.

“Unam-se, japoneses!” – isolados, nada podiam, era necessário uni-los. Pelo sangue e pela terra natal, deviam encorajar-se uns aos outros, consolar-se, ajudar-se reciprocamente, e estabelecer uma base de apoio para japoneses. A união lhes serviria de preventivo. Indivíduos podiam ser fortes, mas sem pátria, acabariam escravos. Os japoneses, desunidos, se tornavam miseráveis.

Seshimo tomou coragem. Construiria um abrigo espiritual para os conterrâneos. Organizaria uma associação, onde todos pudessem se reunir à vontade, ler jornais e revistas japoneses e se divertir. Com recursos próprios, Seshimo fundou um clube de japoneses. Porém, todos vinham ali apenas para sentar um pouco. Logo saíam, para voltar aos cassinos chineses. Não havia outro recurso senão abrir jogos de apostas também no clube. Seshimo se viu finalmente transformado em bookmaker.

É cômico falar em jogatina conscienciosa, mas como bookmaker, Seshimo tratou de zelar para que os jogadores não perdessem toda a fortuna. Dava dinheiro aos que estavam em situação desesperada, e lhes arranjava emprego. Instava-os a economizar e voltar à pátria. Por isso, se tornou conhecido: era o “chefão de Yakima”, e atraiu gente de toda espécie de todos os lugares.

Entre eles, havia um jovem instruído. Chamava-se Tajima. Era intelectual, e além disso, conhecia bem tanto o lado bom como o ruim dos Estados Unidos, através da experiência adquirida em andanças pela terra. Respeitava Seshimo como a um irmão mais velho, possuía boas qualidades. Seshimo fez dele seu subordinado.

 

Vagabundos trazem perigo

 

Não há como realizar um verdadeiro trabalho sozinho, são necessários amigos e mão-de-obra de confiança. Tendo isso, tudo é possível.

A magnanimidade de Seshimo, que desembolsava dinheiro de boa vontade para ajudar pessoas, dando-lhes de vez em quando até roupas, atraía vagabundos desde longe para o Clube dos Japoneses. Por isso, se formava fila de japoneses diante do seu restaurante o tempo todo. Tajima chegou nessa hora para ajudar. Com isso, a empresa cresceu em ritmo acelerado. Seshimo aproveitou a oportunidade para abrir uma filial na cidade de Uabata.

Empresário de mão cheia como se tornara, dirigia agora um automóvel Hudson de classe, e com ele, viajava frequentemente até a cidade para supervisionar o restaurante e um hotel que lá abrira. Aos 28 anos de idade, mostrava uma exuberante mocidade.

Mas precisava de mãos femininas para cuidar dos serviços minuciosos do hotel. Foi então que Tajima resolveu casar-se com uma jovem japonesa de sua terra que conheceu por fotografias. Isso veio a calhar. Convidaram a jovem noiva, uma linda mulher de 21 anos chamada Heiko para os Estados Unidos. Onde então havia apenas empregadas estrangeiras e homens, surgia uma jovem bela e delicada. O ambiente da casa se tornava mais harmônico e alegre.

O surgimento dessa linda japonesa, nesse ambiente destituído de feminilidade, como se um lírio brotasse em pleno agreste, estimulava muitos homens a vir até de 40, 50 milhas distante para pernoitar sábados e domingos no hotel só para vê-la. Com isso, o hotel se enchia de hóspedes todos os dias.

Certa tarde quente de verão, três japoneses vagabundos mal-encarados chegaram ruidosamente e começaram a tomar cerveja. O que parecia ser o chefe deles era um sujeito corpulento, de 1,75 m de altura, que tinha no rosto duas ou três cicatrizes de faca. Intimidava a todos com o seu olhar parado, de serpente.

Disse ele a Tajima, que veio lhes servir cerveja:

– Então, você é o gerente deste lugar! Ouvi dizer que você mandou chamar uma belezoca do Japão. Vai, apresenta para a gente. Quero que ela fale com a gente das coisas do Japão.

– Ela não é servente, é minha mulher.

– E daí? Não pode mostrar porque é sua mulher? Mas ela não trabalha todos os dias no hotel? A gente não quer abraçá-la ou levá-la para cama. É só para bater um papo sobre coisas do Japão. Você é japonês e não quer que a mulher fale do Japão com a gente?

A conversa ia ficando provocadora e maldosa. Tajima procurou mudar de assunto.

– Ela está agora muito ocupada e não tem tempo para conversar. Vocês não querem, por favor, ir beber em outro lugar? – disse, e tirou do bolso 20 dólares para lhes dar.

O chefão fuzilou Tajima com um olhar raivoso.

– Olha aqui, moleque, vê com quem está falando. Quer enxotar a gente com uma esmola dessa? Eu não me mexo nem que você empilhe aí mil dólares na minha frente. Tá fazendo a gente de bobo? Vai buscar tua mulher, faz ela pedir perdão, ou quer briga comigo? É você que escolhe. Como é, moleque?

Não era situação que Tajima, um intelectual, soubesse resolver. O chefe lançou um olhar para um dos capangas, que se levantou e foi para dentro. Voltou logo em seguida, arrastando Heiko. Tajima empalidecia e não abria a boca.

O chefe do bando dizia então para Heiko:

– Olá, você acabou de vir Japão, certo? Mas que belezoca! Conta pra gente as coisas do Japão. Começa servindo cerveja, vai! – e empurrava o copo. Heiko olhou de relance para Tajima em busca de socorro, mas como não via sinal disso, permaneceu feito pedra, de pé. A multidão observava tensa, sem saber o que iria acontecer.

Nessa hora, Seshimo veio entrando pela porta dos fundos. Percebeu logo a situação.

– O que está acontecendo? Se querem reclamar, é comigo que devem falar.

– Não se meta, palhaço, senão vai chorar!

– O que está havendo, Tajima?

– Eles querem que minha mulher lhes sirva cerveja.

Em um instante, a ira subiu ao rosto de Seshimo.

– Vocês aí, vagabundos da América, vocês têm cara de japonês e por isso, têm também espírito japonês. Querem que a mulher de um outro lhes sirva bebida? O que é isso? A senhora aqui é de família. Não vou permitir nunca que ela faça isso – declarou bem claro.

Mal disse, o chefe ordenou:

– Acabem com ele primeiro!

Imediatamente, os dois capangas investiram contra Seshimo. Um deles foi ao chão com um seoinage, e o outro, arremessado com um koshiguruma. Seshimo investiu contra o chefe, que se preparava para sacar o revólver da cintura. Um golpe de mão levou-o a derrubar a arma.

Uma feroz luta de mãos limpas se iniciava. Um dos hóspedes do hotel apanhou rapidamente o revólver caído, apontou-o contra os capangas e lhes ordenou que erguessem as mãos. Eles foram amarrados em cordas. Enquanto isso, Seshimo e o adversário se agarravam. Seshimo fora mordido no braço e sangrava, manchando de sangue a camisa e as calças.

O chefe perdera a arma de fogo, mas era dotado de vigor excepcional. Entretanto, Seshimo praticara judô quando estudante. Aplicou-lhe uma chave de braço, travando e torcendo o braço do adversário. O chefão procurava livrar-se, mas a torção se agravava quanto mais se debatia. Com o braço já prestes a estourar, o chefe cerrava os dentes e gritava: – Vai, me mata! Me mata!

O hóspede que apanhara o revólver veio em auxílio, e amarrou rapidamente os pés e as mãos do valentão. Os três jaziam agora estendidos na areia feito peixe.

Tajima permanecia agarrado à mesa observando a situação, mas Heiko veio correndo aplicar atadura no ferimento de Seshimo.

– Muito obrigada! – disse ela com um sorriso de admiração.

 

Nasce um novo amor

 

Com os três malfeitores a seus pés, Seshimo lhes disse:

– Agora escutem aqui. Vocês são japoneses e vêm maltratar japoneses, o que é isso? Um passo fora da nossa pátria e somos todos irmãos. Maltratar irmãos para arrancar dinheiro deles, mexer com suas mulheres com intenções vergonhosas, o que é isso? Até turcos e chineses, fora de suas terras, se ajudam mutuamente e protegem os mais fracos! E nós, que somos poucos no exterior, estamos nos agredindo! Onde vamos chegar com isso? Em lugar de machucar um japonês, que tal morrer para salvar um japonês? Quando um japonês morre na América, pela justiça e pela humanidade, ele se torna japonês do mundo! Eu posso entregar vocês todos à polícia agora, mas vou libertá-los, porque nada se ganha com isso. Nunca mais façam besteiras!

O homem que pretendiam matar os libertava em lugar de se vingar deles. A gangue americana composta pelos três japoneses não tinha palavras ante essa magnanimidade desassombrada e destemida. O chefe da gangue tinha os olhos cheios de lágrimas, quando disse:

– Perdão, irmão, eu estava errado. Andei fazendo até hoje coisas ruins, indignas para um japonês. Mas hoje abri os olhos, ouvindo o que me disse. Meu irmão podia me matar, mas me solta em vez disso…. Você vai ver, eu vou a partir de agora trabalhar como louco e me tornar bom japonês. E vou voltar um dia, para recompensar sua bondade …

Com suas mãos enormes como pata de urso apertou as mãos de Seshimo e foi embora.

A multidão formada de membros do clube e hóspedes do hotel se agitou manifestando respeito e emoção pela atitude de Seshimo. Heiko, particularmente, presenciara a virilidade daquele homem, que arriscara a vida em sua defesa. Ouvira também o seu discurso eloquente, que ponto a ponto, fora convencendo os delinquentes. Tomada de afeição e admiração ilimitadas, queria dedicar todo seu amor a um homem como ele. Estava fora de si, completamente atraída por ele.

Entretanto, como se comportara seu marido? A mulher fora arrastada à força e envergonhada diante de malfeitores, que a forçavam a lhes servir bebida, mas não emitira uma única palavra de protesto. Essa inutilidade transformava em castelo de areia todos os seus ideais, e os protestos de amor que ele diariamente lhe devotava. Amar significava lutar até a morte pela pessoa amada. A mulher daria a vida para amar um homem que, mesmo impotente, enfrentaria o adversário mesmo derrubado e derrotado, para proteger sua amada corajosamente até o fim.

Heiko sentira no fundo d’alma que um homem não se fazia apenas de instrução e conhecimento, que além disso, era indispensável possuir a enérgica determinação para enfrentar qualquer situação de peito aberto. Recém-casada, ela experimentava uma profunda desilusão pelo marido, e não conseguia mais amá-lo.

Ao mesmo tempo, sentia-se cada vez mais atraída pela postura e comportamento másculos de Seshimo, e via o respeito que lhe devotava transformar-se, aos poucos, em amor. Os casamentos contratados, sem base em amor nascido do profundo conhecimento recíproco, costumam acabar em rompimento, tanto agora como no passado, seja nos Estados Unidos como na América do Sul ou outro lugar qualquer.

Heiko conhecera cedo a desilusão do casamento, e por outro lado, sofria sentindo o coração arder por outra pessoa. Até certo ponto, Seshimo adivinhava o que ia pela sua alma, mas nada revelava, quer por palavras, quer por atitude. Limitava-se a agradecê-la por seu trabalho com bondade e a confortava.

Mas a paixão é algo que não se pode reprimir por muito tempo. Mesmo uma mulher delicada é capaz de mostrar a força de uma cascata que rompe a barreira, desafiando a morte por amor. Heiko tomou uma decisão.

– Senhor Seshimo, eu fui convidada a esta terra para ser esposa de Tajima, mas não aguento mais. Queria deixar este lugar e ir trabalhar consigo em Yakima.

– Mas e Tajima, o que ele diz? Se ele concorda, eu não me importo.

– Diga ele o que disser, eu não suporto esse casamento sem amor nem mais um dia. Voltar ao Japão agora, é impossível. Eu vou trabalhar consigo – disse Heiko. Havia rubor em seu rosto.

– Veja, eu sou um jovem solteiro de 28 anos, de carne e osso, não posso me manter eternamente insensível como pedra. Para ser honesto, você me atraiu à primeira vista. Desde que se juntou a nós no trabalho, eu ficava satisfeito com cada coisa que você fazia. Algumas vezes, eu tinha a impressão de que você era minha esposa. E se agora, você quer vir trabalhar comigo em Yakima. Sinceramente, não sei o que poderá acontecer. Ha, ha, …

– Senhor Seshimo, não sabe quanta alegria me provocou o que me disse agora! Você é meu benfeitor, me salvou! É meu único arrimo neste mundo, pode me trazer a felicidade na vida. Se me acolher sob suas asas, eu não me importo em morrer neste momento!

– Obrigado, Heiko! – Ela chorava de alegria. Ambos permaneceram por longo tempo de mãos apertadas.

 

Os dois iniciam a viagem sem um tostão

 

O destino de um homem é imprevisível e incerto, qual nuvem solta no céu.

Ontem poderoso e afortunado, hoje afundado em negra miséria, a vida de um homem é indefinida. Seshimo se achava agora preso entre duas paredes. Heiko o amava. Ele também a amava, e muito.

Entretanto, Heiko era esposa de Tajima. O amor lhe dava alegria, mas causava tristeza a seu subordinado. Perdendo a mulher, ele o deixaria com certeza. Partiria sem um tostão. Nunca mais veria a primavera retornar em sua vida. Não era bom, não devia permitir que a felicidade de Tajima fosse destruída. Para isso, seria necessário abrir-lhe uma empresa e estabilizar sua vida; levá-lo a desistir do casamento sem amor e proporcionar caminho para um novo casamento. Era o melhor que podia fazer por ele. Tendo isso em mente, Seshimo foi consultá-lo.

Tajima lhe disse então:

– Senhor Seshimo, eu a chamei do Japão para se casar comigo por intermédio de uma fotografia. De fato, ela é minha esposa, pública e oficialmente. Mas infelizmente, as nossas almas não se conectaram. Honestamente, eu gosto dela. Mas nunca senti, da parte dela, calor algum. Era o mesmo que abraçar uma bela boneca, por assim dizer. Uma esposa boneca, sem alma, um casamento em que ela não me dava sequer um pedaço de amor. Dizem que “o casamento é o cemitério da vida”. Sinto que essas palavras foram feitas para mim. Nada é mais triste, nada me faz sofrer mais que isso. Penso que devo desistir, para resguardar a pureza das minhas intenções.

– Que confusão, Tajima! Heiko quer vir trabalhar comigo, mas sei lá o que poderá acontecer, pois sou solteiro. Para ser honesto, parece que ela sente algo por mim. Eu também não a detesto. Nem por isso devemos nos juntar diante dos seus olhos, seria causar-lhe sofrimento. Também, não seria agradável para Heiko. Pois então eu decidi: eu lhe entrego inteiramente esta minha empresa, à qual dediquei toda a paixão, e deixo este lugar com Heiko, sem um tostão, tal como o dia em que eu cheguei até aqui. Você voltará uma vez ao Japão e se casará, desta vez com amor … Faça isso, eu lhe peço!

Tajima chorava. Não era culpa de ninguém, destino era isso. Pensando melhor, a culpa cabia à sua inexperiência, fora uma triste vítima do casamento por fotografia. Tudo vai bem quando as aspirações tanto materiais como espirituais se harmonizam. Mas em uma situação crítica quando se precisa escolher entre dar a vida a um empreendimento ou ao amor, Seshimo escolhia viver para o amor abandonando tudo que lhe pertencia.

Tendo transmitido sua intenção a Tajima, Seshimo retornou ao lar para desta vez explicar a Heiko que deveriam agora recomeçar suas vidas a partir do nada, literalmente nus, e solicitar sua decisão.

– Heiko-san, para que nós possamos nos unir, teremos que desistir da nossa posição social e de todo o patrimônio conquistado até hoje, e recomeçarmos a vida do nada, literalmente nus. Na encruzilhada entre viver para o amor e viver para o meu empreendimento, eu sofri. Alguém já me disse que um empreendimento dura para sempre enquanto o amor é fogo em palha – apaga em um instante. Eu não penso assim. Penso que esse amor aparentemente momentâneo, esconde na realidade a eternidade, para onde se pode dirigir toda a impulsividade sem arrependimento. Heiko-san, teremos que enfrentar uma áspera caminhada, você estaria preparada para isso?

– Seshimo-san, para mim é mais precioso batalhar com alguém que eu respeito, confio e amo para juntos construirmos um novo mundo só nosso, do que fama, fortuna ou prestígio social.

Com a alma aliviada, os dois partiram levando só uma mala rumo a plagas distantes. Balançando na carroça coberta que os levava, Seshimo cantava em voz alta, como fizera no período distante de perambulação:

 

“Quero viver na primavera, em San Jose florido,
No verão à beira de um rio fresco,
E do outono para o inverno,
entre as laranjas de Los Angeles”

 

Sorridentes, partiam em busca do país da felicidade.

 

Para as minas,
em busca de nova vida

 

O jogo de dados da vida os havia feito retornar ao ponto de partida, de mãos vazias. Perderam seus bens, mas a experiência de toda natureza acumulada ao longo de dez anos constituía agora sua fortuna imaterial. Para ganhar dinheiro rapidamente, o caminho mais curto era o trabalho arriscado das minas nas montanhas de Wyoming, e para lá se dirigiu Seshimo conduzindo sua esposa amada.

Valentões de todas as nacionalidades trabalhavam nas minas, mas os mais numerosos eram italianos e gregos. Os brancos evitavam lugares perigosos, mas os japoneses eram os primeiros a buscá-los nas montanhas, e produziam muitas vezes mais que os brancos. Os japoneses trabalhavam feito desesperados. Havia quem recebesse 40 dólares de diária. Ao economizarem tanto quanto 1000 dólares, entregavam-se à bebida, jogatina e mulheres em busca dos prazeres da vida, para esquecerem as agruras vividas no inferno a 300 metros sob a terra. Não era raro encontrar solteiros de 40 anos de idade. Alguns chegavam a juntar 10 mil dólares e voltavam ao Japão.

Seshimo se tornara chefe de turma de 100 japoneses e ao mesmo tempo, deixara que os mineiros organizassem por conta própria pousada e cozinha, conseguindo dessa forma livrá-los da extorsão dos administradores brancos. Só três entre os 150 japoneses possuíam família. Em outras palavras, havia somente três senhoras japonesas. A falta de mulheres provocava brigas incessantes. Tendo juntado dinheiro razoável nas minas de Wyoming, Seshimo se voltou outra vez à administração de empresas. Tirando proveito da experiência do período em que era solteiro, administrou uma produção de açúcar e nabos de 40 acres, ganhando muito dinheiro nessa atividade.

O homem vive buscando sonhos. Tendo conseguido realizar um capital com o trabalho nas minas de carvão e ganhando uma fortuna na administração da produção de açúcar e nabo, novas ambições se despertavam. Havia três opções:

 

– Permanecer nos Estados Unidos e partir para uma nova empresa;
– Trabalhar no Japão;
– Procurar em uma nova terra um recanto pacífico e construir sua pátria ideal.

 

Os Estados Unidos, a primeira opção, era uma boa terra para se ganhar dinheiro, mas não representava para um japonês um local acolhedor. Será necessário expor o ambiente da época de forma nua e crua para se poder entender a razão da guinada da vida de Seshimo para o sul.

 

O preconceito contra
os japoneses na Califórnia

 

Não será exagero afirmar que o desenvolvimento da agricultura na Califórnia foi obra de japoneses. Desde que Kin’ya Ushijima se tornou rei da batata na Califórnia, vegetais de toda espécie passaram a ser produzidos por mãos japonesas.

 


Descendente de japoneses colhendo morangos (Shashin Kaiga Syuusei Nihonjin Imin 1 Hawai Hokubei tairiku – Coleção de Fotos e Pinturas – Imigrantes Japoneses 1 – Havaí e Estados Unidos)

Japoneses trabalhando na agricultura junto com os operários brancos (Shashin Kaiga Syuusei Nihonjin Imin 1 Hawai Hokubei tairiku – Coleção de Fotos e Pinturas – Imigrantes Japoneses 1 – Havaí e Estados Unidos)


 

Essa espantosa produção fora conseguida pelo esforço de inúmeros agricultores japoneses, que passaram sobre o cadáver de compatriotas para realizá-la. Trabalharam a terra estéril e desolada onde só cresciam juncos verde-escuros, adubaram a terra arenosa e magra transformando-a em terra fértil e nela produziram vegetais com sucesso, suplantando por fim os produtores brancos. Nada havia que desse causa ao ódio dos americanos aos japoneses. Muito pelo contrário, só tinham de agradecê-los pelos valiosos vegetais que produziam e vendiam a preços reduzidos. Mas os japoneses foram considerados “usurpadores que vinham roubar a posição dos brancos”, e assim se iniciou o preconceito contra eles.

Havia uma outra causa: a perseguição à raça amarela provocado pelo sentimento de superioridade dos brancos. Para eles, “as feições da raça colorida são repulsivas, denotam ignorância e baixa classe”, e “eles devem limitar-se a trabalhar subordinados aos brancos” – preconceitos obstinadamente arrogantes que humilhavam japoneses e chineses.

O Japão, entretanto, vitorioso nas guerras sino-japonesa e russo-japonesa, surgia como uma das cinco potências mundiais. Os japoneses ganhavam autoconfiança, consideravam-se iguais aos brancos. De um lado, os brancos desprezavam os japoneses a quem julgavam gente de classe baixa, e de outro, os japoneses sustentavam serem iguais aos brancos e não cediam. Os atritos consequentes deram margem ao “problema dos meninos de escola”.

Filhos de japoneses foram proibidos de ingressar nas escolas primárias americanas. “Eles devem matricular-se nas escolas reservadas aos filhos de negros, antigos escravos. Os japoneses são trabalhadores de classe baixa. Permitir que estudem juntos com crianças brancas é ferir o orgulho dos brancos.” – era esse o motivo.

Os japoneses do Estado de Califórnia se uniram e levaram o caso à justiça. Assim se iniciou a discriminação.

Em seguida, aprovou-se a lei que proibia os japoneses de arrendarem terras para agricultura, atividade essa natural dos japoneses. A execução dessa nova lei da imigração do Estado de Califórnia entrou em vigor em julho de 1924. Os japoneses só podiam trabalhar como “camarada”, sendo vetado a eles exercerem a agricultura como produtor independente. Essa lei dura e cruel não lhes deixava outra opção. Os japoneses largaram a agricultura. Passaram a abrir tinturarias, barbearias e restaurantes.

Nos cinemas, não podiam sentar-se ao lado dos brancos, e eram levados aos assentos reservados a negros e chineses. Seshimo foi a um bar em Stacton, Califórnia. Veio o gerente para lhe dizer: – “Ei, jap, cai fora!”

– Se japoneses não podem entrar, por que não põe uma placa de aviso? Assim, eu podia ter outra ideia – reclamou ele. Mas nada adiantava discutir na Califórnia onde um clima maldoso imperava. Os japoneses cerravam os dentes e suportavam a humilhação e perseguição raciais.

Por mais que se conseguisse ganhar dinheiro, uma terra que humilhava, perseguia e não permitia um homem viver livre e resoluto nunca poderia se transformar em pátria espiritual. Não dava graça cultivar a terra para outros. Planejar a própria terra, enterrar nela os próprios ossos eram condições para fixar raízes nessa terra.

 

Regresso à terra natal
e a busca de novos horizontes
na América do Sul

 

Dezoito anos se foram nas andanças pelos Estados Unidos. Nesse tempo todo, Seshimo trabalhou com afinco a centenas de metros debaixo do solo. A pátria surgia em sonhos, o Japão das cerejeiras, das encostas coloridas de malva-rosa, do som das flautas e tambores ressoando entre o arvoredo dos templos, dos rios e montes da terra natal. Viera suportando duras provações, entretanto por um motivo: realizar um novo ideal. Seshimo voltava após 18 anos à saudosa terra natal com a intenção de elaborar próximo projeto.

Na sonhada terra natal que deixara havia 18 anos, os morros se cobriam de verde, e a água brotava límpida das fontes. Cercado da exuberante natureza, vivia um povo harmonioso, simples e puro. Contudo, depois de todo esse tempo, não restava mais sombra alguma dessa terra. As matas onde pássaros se juntavam para cantar haviam sido devastadas, os arvoredos dos templos onde cedros centenários cresciam não mais existiam. E os aldeões cobiçavam o bolso dos que voltavam de fora. Pediam-lhes dinheiro emprestado, contribuições, lançavam mão de artimanhas diversas para enganar. O que se via era um espetáculo vergonhoso de egoísmo e avareza, que lhe dava tristeza e desilusão.

A terra natal lhe despertava amor longe dela – cálida qual regaço carinhoso da velha mãe, refúgio ansiado de repouso e conforto à alma cansada e ferida, onde recobrar ânimo e coragem. Entretanto, constatava que o fluir dos tempos também a afetara. A terra natal não passava de belo sonho do passado.

O ímpeto desbravador de Seshimo o fez partir em busca de uma nova pátria do futuro. Partia para o paraíso do mundo, em um salto para as terras férteis do Brasil.

 

A construção de um povoado
dos sonhos no Brasil

 

Nessa época, na Associação Ultramarina de Shinano presidida por Shigeru Nagata, corria notícia de que terrenos estavam à venda na região da Aliança, no Brasil, destinados à colonização. Ao tomar conhecimento dela, Seshimo adquiriu ainda no Japão um terreno de 20 alqueires em Aliança pagando por ele 2600 ienes. E foi para o Brasil em 1924, com o sonho de construir ali a pátria dos seus sonhos. Ao chegar ao país depois da longa fase de vida nos Estados Unidos, ele se surpreendeu: não encontrava sinal algum de discriminação racial. Ali, brancos, pretos e amarelos, eram todos iguais.

Em nenhum lugar se notava a supremacia dos brancos, viam-se negros e brancos lado a lado quer em hotéis de primeira classe, quer em estádios municipais. Encontrara o paraíso da igualdade racial, não haveria outro país no mundo tão acolhedor como aquele. Extasiava-se em ver japoneses repreendendo severamente trabalhadores brancos, quer nas cidades, quer nos campos. No Brasil, chefiava, dava ordens quem podia, fosse ele branco, negro ou amarelo, não importava. Assim, as pessoas viviam em plena liberdade, tratava-se de um outro mundo.

Pouco depois de ter ingressado na Aliança, teve a oportunidade de almoçar com o senhor Miranda, um senador. Foi nesse almoço tratado como amigo, de igual para igual. Os japoneses ali podiam conversar amistosamente com autoridades, em pé de igualdade. Não se sentia o clima humilhante e depressivo que havia nos Estados Unidos. Um país maravilhoso, pensou.

Os 2200 alqueires da colônia de Aliança receberam 250 famílias de todas as raças. Nascia uma comunidade de nível cultural elevado. Entretanto, a situação econômica deixava muito a desejar. Para remediar, passaram a efetuar compras por intermédio de uma cooperativa, presidida por Seshimo. Ele a desenvolveu, transformando-a em uma cooperativa de produção agrícola, procurando com isso fortalecer a economia da colônia.

A imigração na Aliança possui assim certo vínculo histórico com a imigração nos Estados Unidos. ❁

 

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 8.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 8
Os pioneiros da história da imigração

Junho de 2018

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo

Biblioteca Jovem de São Paulo
Diretora: Lena Maki Kitahara
Colônia Pinhal, CxP 80- CEP 18230-000
São Miguel Arcanjo, SP

Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Koichi Kishimoto, Gota Tsutsumi, Masayuki Fukasawa, Shinji Tanaka
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão de tradução: Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti
ISBN: 978-85-66358-06-3

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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