Cultura Japonesa Vol. 7 – O que foi a Era Meiji – Introdução

A ERA MEIJI – os valores que dão forma às raízes do Japão atual

 

O que foi a Era Meiji

 

A percebida necessidade de fortalecer a pátria, até então isolada do convívio mundial, e de afastar o risco da colonização pelas potências ocidentais, o poder, nas mãos dos samurais por 680 anos – desde a Era Kamakura, no final do século 12 – voltava às mãos do Imperador por iniciativa espontânea do próprio xogum.

 


Texto de Masayuki Fukasawa – Redação Japonesa do Jornal Nikkey Shimbun 

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6, de Setembro de 2017

 

 

Chegada dos navios negros em Yokohama – Ano 7 da Era Kaei (1854)

 

 

Ryotaro Shiba, famoso escritor, diz simbolicamente o que foi para ele o Japão da Era Meiji: “– Um país verdadeiramente minúsculo prestes a florir.”

 


Ryotaro Shiba (Foto: Revista semanal Gendai – edição de 1 de outubro de 1964, Editora Kodansha)


 

A Restauração, ou seja, a devolução pelo xogum do governo ao Imperador se tratou de um histórico ato político, mediante o qual o poder, nas mãos dos samurais por 680 anos desde a Era Kamakura, no final do século 12, voltava às mãos do Imperador por iniciativa espontânea e revolucionária do próprio xogum. Pretendia-se assim evitar a eclosão de distúrbios internos, para a segurança da pátria. Teria havido em toda a história mundial, algum outro país onde o detentor absoluto do poder se dispusesse a um ato como esse?

Mais ainda, as suseranias em que o Japão se dividia – quase países dentro do país, estavam sendo extintas. E os próprios samurais, a classe social mais elevada da população, abriam espontaneamente a mão de seus privilégios extinguindo a classe. Revolviam desde a base toda a estrutura política do país – enfim, uma autêntica revolução.

Sobre isso, explica ainda Ryotaro Shiba:

 

“Da noite para o dia, 270 suseranos, senhores absolutos em suas terras, se viam apeados do poder. A população dos samurais e suas famílias somavam 1,9 milhões, na época em que o país devia possuir cerca de 30 milhões de habitantes. Eles representavam 0,63% do povo. De repente, todos eles perdiam emprego. Foi, portanto, um ato cirúrgico, uma ação revolucionária”. (“Meiji to yuu kokka” – Uma nação denominada Meiji – NHK, 1989, pág. 106)

 

Personagens fascinantes se contam entre os jovens líderes da época.

A percebida necessidade de fortalecer a pátria, até então isolada do convívio mundial, e de afastar o risco da colonização pelas potências ocidentais os conduziu a isso. A primeira ameaça, o primeiro abalo se concretizou com a aparição intempestiva da esquadra americana. Viera pressionar o Japão a abrir seus portos e fazer uma entrega intimidante, de bandeiras brancas.

Dois navios negros foram suficientes para decretar o fim do período de isolação de mais de 200 anos, fato esse que fez soar o alarme entre as suseranias de Satsuma, Chōshū, Tosa e Hizen, sem muito acesso às informações sobre o mundo exterior. Todas elas se achavam em regiões remotas como Shikoku e o ocidente japonês, longe de Edo, mais próximas à Ásia. E foram os samurais dessas suseranias que assumiram papel central nessa verdadeira revolução – a Restauração de Meiji.

Eles, e não os samurais de Edo no centro do Japão, construíram o governo Meiji em um esforço congregado. As bases de um novo Japão não foram fundamentadas por debates e discussões entre célebres intelectuais e políticos, mas por um documento redigido às pressas a bordo de um navio, durante uma viagem, por Ryōma Sakamoto, samurai criado entre mulheres, mimado pelas irmãs. Nesse documento, Ryōma expõe um plano de ação de oito medidas necessárias para ombrear o Japão às potências ocidentais, plano esse concebido ao longo do seu convívio com ilustres figuras da fase terminal do xogunato.

O documento trazia grandiosas propostas de construção de um país inteiramente renovado, antecipando de longe os movimentos das potências ocidentais. Nunca em toda a história do Japão se viu um período assim revolucionário. O período da Era Meiji reflete fortemente a escala de valores dos japoneses, longamente cultivada durante a Era Edo precedente, e dá forma às raízes do Japão atual.
|
Não há como falar do Japão sem conhecer o que foi a Era Meiji. Tal é a importância desse período.

 

❁  ❁

 

Às 5 horas da tarde do dia 3 de junho de 1853, uma frota americana composta de dois navios negros a vapor e dois veleiros, comandada pelo Comodoro Perry, surgiu nas águas da atual Baía de Uraga, Província de Kanagawa.

 


Comodoro Matthew Perry


 

O “Capítulo 1 – Navios negros e bandeiras brancas” descreve o impacto causado pela pressão intimidante do governo americano sobre o xogunato de Tokugawa, então vigente, e o povo japonês, para que o país se abrisse ao mundo, e fala do seu significado histórico. Nessa ocasião, o Comodoro fez a entrega de bandeiras brancas aos japoneses, símbolo da rendição nesse mundo selvagem de predomínio dos fortes sobre os fracos, convidando-os a usá-las. Isso despertou o país de seu longo e pacífico sono de dois séculos.

O “Capítulo 2 – O povo vivia feliz durante a Era Edo” descreve o modo de vida dos japoneses pela ótica dos estrangeiros residentes no Japão entre o período final do xogunato e a fase inicial de Meiji. Após os anos de liberdade religiosa, em que o padre Francisco Xavier da Companhia de Jesus e outros exerceram livremente atividades missionárias, o país ingressara em um longo período de isolamento internacional iniciado nos primórdios da Era Edo, com a proibição do proselitismo religioso cristão, seguido da proibição de navegação de navios portugueses em águas japonesas, em 1639. Depois disso, o Japão manteve apenas parco relacionamento comercial com alguns países como a China, o Império Coreano, o reinado de Ryukyu (atual Okinawa) e Holanda. Essa situação se prolongou por mais de 200 anos.

Na prática, a nação vinha mantendo um estado de rompimento de relações comerciais com o mundo ocidental. Contudo, foi nesta fase de estabilidade que as bases da atual cultura japonesa ganharam forma. Por exemplo, o Sadô (Chadô) – Cerimônia do Chá, descrito no “Capítulo 11 – O que é cerimônia do chá?”, que reproduz um artigo redigido por nossa solicitação por Madoka Hayashi, do Centro de Chadô Urasenke do Brasil, é uma das manifestações culturais representativas do Japão consolidada durante esse período.

A ordem mundial hoje prevalecente, estabelecida na Europa nos fins do século 16, retrata um sistema econômico baseado na especialização de produtos comerciais. Portugal e Espanha, potências marítimas hegemônicas sustentadas pela força do poderio militar e do cristianismo, controlavam economicamente o mundo inteiro pela prática do comércio de escravos, de condimentos alimentares e de matérias primas industriais. O extremo oriental desse controle atingia o Zippangu – Japão, onde os portugueses chegaram em 1543, na ilha de Tanegashima, em plena Era das Grandes Navegações.

O “Capítulo 3 – Guerra do Ópio – Por que Lin Zéxú foi derrotado” toma por cenário o período posterior, da colonização da Ásia pela Inglaterra e pelas potências ocidentais. A revolução industrial, que se espalhava da Inglaterra para a Europa Ocidental, deu asa à produção industrial em uma escala até então nunca vista na história da humanidade, e ao surto de desenvolvimento do capitalismo. Iniciava-se um novo arranjo – as colônias forneciam aos países desenvolvidos matéria prima para a industrialização, cujos produtos eram vendidos entre eles e para as colônias.

 


Juncos chineses sob bombardeio britânico na Segunda Batalha de Chuenpee, Guerra do Ópio, em 7 de janeiro de 1841


 

A moderna sociedade capitalista que persiste até hoje nasceu por volta dessa época. A Inglaterra e as nações da Europa Ocidental se apressavam em expandir o mercado desde a Índia para o sudeste da Ásia e para o continente chinês, pela necessidade que tinham de incrementar a exportação de seus produtos. Isso trouxe como consequência uma feroz disputa pela colonização, onde os Estados Unidos, que não possuíam bases na Índia e no sudeste asiático, chegavam atrasados.

Em 4 de julho de 1776, os Estados Unidos, que eram colônia da Inglaterra, declararam independência. E inspirados na tese do Manifest Destiny (Destino Manifesto), iniciaram a expansão territorial ao Oeste, concentrados que estavam até então na costa oriental do continente americano. O “Capítulo 10 – “Remember”: A trilha da marcha a oeste americana” descreve o padrão desse poderoso movimento de expansão territorial.

 


Progresso Americano, 1872, de John Gast. Esta pintura é uma representação alegórica do Destino Manifesto. Na cena, uma mulher angelical, algumas vezes identificada como Colúmbia (uma personificação dos Estados Unidos do século XIX), segurando um livro escolar, leva a civilização para o oeste, com colonos americanos, prendendo cabos telegráficos. Por outro lado, povos nativos e animais selvagens são afugentados. Ao fundo vê-se também a Ferrovia Transcontinental aberta em 1869


 

Algumas pessoas poderão estranhar quem sabe o fato de existirem em muitas localidades na costa oeste dos Estados Unidos, regiões identificadas por nomes evidentemente espanhóis, como por exemplo, Los Angeles, San Francisco, San Diego entre outros. Isso, porém é explicável, se entendermos que essa área pertencia à República do México até a primeira metade dos anos 1800. Os Estados Unidos conquistaram o extenso território abrangido pelos atuais estados de Texas, Califórnia, Nevada, Utah, Arizona e Novo México entre outros pela Guerra Estados Unidos – México.

Terminada a guerra em janeiro de 1848, minas de ouro foram eventualmente descobertas na Califórnia, dando início ao Golden Rush e ao surto de crescimento populacional da área costeira ocidental americana. O passo seguinte passou a ser “a conquista da Ásia, além do Pacífico”, e dois navios a vapor inteiramente negros da marinha americana surgiram nos mares de Urawa, no Japão, levando pânico ao país inteiro.

O “Capítulo 4 – Os bastidores da chegada dos navios negros” fala do expansionismo americano apesar da existência de certa oposição interna ao pressionamento do Japão para a abertura dos portos.

O “Capítulo 5 – A abertura do Japão do ponto de vista americano – Shōin Yoshida” é a história do jovem Shōin Yoshida que, não obstante ser adepto fervoroso do Jōi (movimento pela expulsão dos estrangeiros), concluíra que, para isso, seria indispensável conhecer bem o inimigo, e procurara embarcar, sozinho, em um dos navios de guerra de Perry.

O “Capítulo 6 – “Incentivo ao Estudo”, para o bem da independência e liberdade da pátria” expõe qual o sentido real da obra Gakumon no Sussume (Incentivo ao Estudo) de Yukichi Fukuzawa, que posteriormente, fundaria a Universidade Keiō Guijuku. A obra mostra claramente o espírito combativo da Era Meiji, ante a urgência da necessidade de levar a instrução a cada japonês para estudar o mundo.

O “Capítulo 7 – O reinado de Havaí, um paraíso roubado” descreve o processo da conquista gradual do Havaí pelos americanos, localizado em ponto estratégico ao comércio da região do Pacífico. Pelo mesmo processo, Cuba e as Filipinas passavam a integrar a área da hegemonia americana do Pacífico. Por pouco o Japão deixava de seguir idêntico destino.

O “Capítulo 8 – A vida de Ryōma Sakamoto” constitui o cerne deste Volume 7 da série sobre a Cultura Japonesa.

 


Ryoma Sakamoto


 

Ao recordar em detalhe a vida de Ryōma Sakamoto, um samurai que desfruta ainda hoje de alta popularidade entre os japoneses, o capítulo põe em relevo a forma como o japonês comum da Era Meiji, completamente ignorante do mundo além-mar, entendia o clima de prevalência dos fortes sobre os fracos que imperava nesse mundo, e como ele conseguiu atravessar o período conturbado do fim do xogunato e da Restauração de Meiji. Sakamoto elaborou e construiu a Aliança Satsuma – Chōshū, uma aliança de duas influentes suseranias historicamente oponentes, de Satsuma e Chōshu, considerada por todos impossível, mas vital para a derrubada do xogunato; mais que isso, engenhou a devolução pacífica do governo pelo xogunato e legou para a posteridade o Plano de Oito Pontos, que se constituiu a espinha dorsal do novo governo imperial de Meiji. E morreu assassinado em plena mocidade aos 33 anos de idade. Sem ele, a história de Meiji teria sido certamente bem diferente.

O “Capítulo 9 – O “testamento” de Shōin Yoshida” descreve a forma como os ideais de Shōin, de unificação da nação sob a égide do imperador tendo em vista defender a independência nacional ante a ameaça de invasão das nações ocidentais, refletidos na tese Sonnō Jōi (ideais de lealdade ao Imperador e expulsão dos estrangeiros), se concretizaram no decurso da Era Meiji. Os ensinamentos de Shōin foram absorvidos por Hirobumi Itō na Escola Particular Shōka Sonjuku fundada por Shōin. Hirobumi viria a ser mais tarde o primeiro-ministro inicial do governo Meiji. A ele se deve a promulgação da Constituição de Meiji. Aritomo Yamagata, outro discípulo de Shōin nessa Escola, consolidou as bases do exército japonês e se tornou o “Patrono do Exército Nacional”.

O ano de 1980 foi um ano comemorativo, de celebração do aniversário de 150 anos da Restauração de Meiji. E é bom lembrar a imigração ao Brasil se iniciou nesse período Meiji, marco zero da história do Japão moderno. Esse aspecto da imigração mereceria ser reconsiderado.

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

……………………………..

CULTURA JAPONESA 7
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo, de Fevereiro de 2018
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Yoshiyasu Irimajiri, Madoka (Sôen) Hayashi
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão de tradução Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti

Todos os textos em português e japonês com furigana.

……………………………..

 

Solicitamos aos interessados contatarem a livraria abaixo. Efetuamos também remessa pelo correio.

Livraria Sol
www.livrariasol.com.br

www.facebook.com/sollivraria/
Praça da Liberdade, 153 – São Paulo
livrariasol@gmail.com
Tel.:  (11) 3208-6588

Livraria Fonomag
www.fonomag.com.br

www.facebook.com/fonomag/
Rua da Glória, 242 – Liberdade, 01510-000, São Paulo
fonomag@uol.com.br
(11) 3104-3329

Livraria Takano
Rua Conselheiro Furtado, 759

01510-001 São Paulo – SP
Fones: (11) 3209-3313

 

Compre com segurança na Amazon Brasil!
http://amzn.to/2Ah2Daq

 

Livraria Sol
www.livrariasol.com.br

www.facebook.com/sollivraria/
Praça da Liberdade, 153 – São Paulo
livrariasol@gmail.com
Tel.:  (11) 3208-6588

Livraria Fonomag
www.fonomag.com.br

www.facebook.com/fonomag/
Rua da Glória, 242 – Liberdade, 01510-000, São Paulo
fonomag@uol.com.br
(11) 3104-3329

Livraria Takano
Rua Conselheiro Furtado, 759

01510-001 São Paulo – SP
Fones: (11) 3209-3313

 

Compre com segurança na Amazon Brasil!
http://amzn.to/2Ah2Daq

 

Comentários
Loading...