Cultura Japonesa Vol. 7 – Era Meiji – “O povo vivia feliz na Era Edo” – ótica dos estrangeiros residentes no Japão na época

A ERA MEIJI – os valores que dão forma às raízes do Japão atual

 

O povo vivia feliz
durante a Era Edo

 

Embora pobres, as pessoas viviam felizes tratando-se com compaixão e ajuda mútua.

 


Texto de Masaomi Ise

Referência: (1) “Yukishi Yo no Omokage” (Imagens de um Mundo Passado) – Kyoji Watanabe, Heibon-sha, 2015

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7, de Fevereiro de 2018


 

 

O cotidiano na Era Edo

 

Este Capítulo – O povo vivia feliz durante a Era Edo – descreve o modo de vida dos japoneses pela ótica dos estrangeiros residentes no Japão entre o período final do xogunato e a fase inicial de Meiji. Após os anos de liberdade religiosa, em que o padre Francisco Xavier da Companhia de Jesus e outros exerceram livremente atividades missionárias, o país ingressara em um longo período de isolamento internacional iniciado nos primórdios da Era Edo, com a proibição do proselitismo religioso cristão, seguido da proibição de navegação de navios portugueses em águas japonesas, em 1639. Depois disso, o Japão manteve apenas parco relacionamento comercial com alguns países como a China, o Império Coreano, o reinado de Ryukyu (atual Okinawa) e Holanda. Essa situação se prolongou por mais de 200 anos.
Na prática, a nação vinha mantendo um estado de rompimento de relações comerciais com o mundo ocidental. Contudo, foi nesta fase de estabilidade que as bases da atual cultura japonesa ganharam forma. Por exemplo, o Sadô (Chadô) – Cerimônia do Chá, é uma das manifestações culturais representativas do Japão consolidada durante esse período.
A ordem mundial hoje prevalecente, estabelecida na Europa nos fins do século 16, retrata um sistema econômico baseado na especialização de produtos comerciais. Portugal e Espanha, potências marítimas hegemônicas sustentadas pela força do poderio militar e do cristianismo, controlavam economicamente o mundo inteiro pela prática do comércio de escravos, de condimentos alimentares e de matérias primas industriais. O extremo oriental desse controle atingia o Zippangu – Japão, onde os portugueses chegaram em 1543, na ilha de Tanegashima, em plena Era das Grandes Navegações. (Redação japonesa – Jornal Nikkey Shimbun)

 

“Eles estão bem nutridos, bem vestidos, e aparentam felicidade”

 

Townsend Harris foi o primeiro cônsul enviado ao Japão pelos Estados Unidos, após terem imposto a abertura ao país mediante a ameaça dos navios negros. Em novembro de 1857, Harris partiu do Consulado de Shimoda para entrar em Edo pela primeira vez. Após passar pela pousada de Kanagawa, subindo pela estrada de Tokaidō, a multidão de curiosos começou a crescer. Ele escreveu em seu diário, nesse dia:

“Eles estão bem nutridos, bem vestidos, e aparentam felicidade. À primeira vista, não se distinguem pobres e ricos…. Ao que parece, esta é a verdadeira aparência do povo. Sou às vezes levado a duvidar se a abertura do Japão, que irá submetê-lo à influência das nações estrangeiras, fará de fato aumentar a felicidade onipresente dessas pessoas.
Eu descubro sinais do período dourado de simplicidade e honestidade com mais frequência no Japão que em qualquer outro país. Acho que a segurança da vida e da propriedade, a simplicidade e a satisfação reinante entre as pessoas em geral, são imagens marcantes do Japão de hoje.” [1, pg. 121]


Townsend Harris


No dia do ingresso em Edo, entre Shinagawa e o Instituto de Estudo de Livros Estrangeiros existente no sopé da Ladeira de Kudan, que daria hospedagem a Harris, uma multidão de 185 mil curiosos, segundo estimativa do próprio Harris, se juntou para vê-lo. Ele também escreveu nesse dia:

“As pessoas estavam todas bem vestidas, e pareciam também bem nutridas. Na verdade, não tenho visto pobres maltrapilhos sequer uma vez desde que cheguei ao Japão.”

 

“Todos parecem alegres e excitados”

 

Os estrangeiros que visitaram o Japão entre o final do Xogunato e a Era Meiji quase todos relatam invariavelmente que os japoneses se mostravam muito felizes.

Eliza Scidmore, viajante americana que visitou Japão com frequência a partir de 1884, descreve a seguinte cena, presenciada no litoral de Kamakura. Harris deveria ter visto cenas semelhantes durante a viagem de Shimoda a Edo:

“Na manhã de primavera com sol brilhante, homens e mulheres, até as crianças estavam juntos na praia para secar as algas marítimas colhidas.
…. Com as pernas inteiramente desnudadas, filhas de pescadores percorrem o litoral. Cobrem a cabeça com um pano azul índigo e carregam cesta às costas. Crianças brincam de encontro às pequenas ondas esbranquiçadas pela espuma, bebês rolam alegremente sobre a areia.
…. As senhoras separam as algas amontoadas, e levam de vez em quando festa aos maridos, molhados como pintos. Chá quente e arroz, servido com peixe destrinchado em pequenos pedaços. Tudo nesse cenário transpira jovialidade e beleza. Todos parecem alegres e animados.” [1, pg. 130]


Eliza Scidmore


Até chá quente e arroz acompanhado de peixe picado é descrito como festa, atestando que essa gente não aparentava opulência material, mas constituía uma sociedade onde todos podiam viver alegres e animados.

 

Comparação com o modo de vida
da classe pobre das nações ocidentais

 

O espanto dos ocidentais em visita ao Japão, ao deparar com a vida feliz dos japoneses, terá sido causado talvez pela comparação com a sociedade ocidental da época. Friedrich Engels, por exemplo, descreve o aspecto de uma favela inglesa:

“Os favelados recebem moradias úmidas, tais como porões onde a água sobe do assoalho, ou sótãos em que a chuva vaza do teto.
…. Os favelados ganham roupas ruins, esfarrapadas, ou malfeitas, e comida misturada de má qualidade e de má digestão.
…. Os favelados são acossados como animais, e não se permite que tenham descanso ou que desfrutem dos lazeres da vida.” [1, pag. 133]
“Existem relatos de que os donos de fábrica começavam a empregar crianças, em casos raros desde os cinco anos, muitas vezes desde os seis anos, com muita frequência desde os 7 anos e em geral, desde os oito ou nove anos. O horário de trabalho diário também chegava muitas vezes a atingir 14 ou 16 horas (excluindo o tempo de descanso para a refeição). Os donos de fábrica não apenas permitiam que os supervisores de trabalho agredissem ou maltratassem as crianças, como também, as agrediam, eles próprios.” [1, pg. 133]


Mulheres que trabalham em mina de carvão – Inglaterra, Século 18


Os ocidentais que visitavam o Japão nessa época deviam ter, com certeza, conhecimento dessa triste vida reservada à população de classe baixa. É de se supor que, em comparação à cena de vida do povo comum, de adultos e crianças juntos, entretidos, na azáfama da colheita de algas marítimas, deve lhes ter parecido verdadeiramente feliz.

 

Pessoas que viviam felizes, embora pobres

 

Edward Morse, zoólogo, professor contratado pela Universidade de Tóquio por volta de 1877, comparou a classe pobre americana e japonesa e escreveu:

“Na verdade, a classe pobre japonesa não possui aqueles hábitos e costumes irremediavelmente rudes da americana.” Casebres que mal davam para servir de abrigo às intempéries também se aglomeravam uns ao lado de outros no Japão. Entretanto, “as pessoas que viviam nesses casebres, quase cabanas, embora aparentassem extrema pobreza, pareciam animadas, e até pareciam desfrutar a vida com prazer.”


Edward Sylvester Morse


Nas nações ocidentais, os pobres viviam encurralados em favelas, sem ter como se livrarem da miséria e do desespero, mas no Japão, havia pessoas que, embora pobres, viviam felizes, e isso causava espanto aos ocidentais. Como era possível?

Mary Crawford Fraser, esposa do cônsul inglês Hugh Fraser, assim descreve a cena presenciada no litoral de Kamakura em 1890:

“É uma bela paisagem. … Homens bronzeados, trazendo amarrado em volta do quadril tecido de algodão azulado retorcido, estão no mar estendendo redes cheias de peixes prateados pululantes. Atrás deles, o mar e o sol poente, e diante deles, a praia aveludada enquanto cai a tarde vagarosamente.
Chegou a hora da colheita para as crianças. E não apenas crianças, mas também pobres viúvas, sem quem vá à pesca por elas, gente idosa que perdeu o filho, todos eles se aglomeram ao redor dos pescadores estendendo pequenas panelas ou cestas para levar o que eles lhes oferecem. Assim, os peixes de pouca qualidade para se levar ao mercado, mas suficientemente adequados à alimentação, passam todos eles às mãos daquelas pessoas.
…. Nenhuma palavra áspera é proferida aos pedintes, e isso é agradável de se ver. Os pedintes, também, embora pobres como capim cinzento da praia, não aparentam desespero, miséria ou infelicidade.” [1, pg. 131]

Tanto as “pobres viúvas” como a “gente idosa que perdeu o filho” podiam viver seguramente protegidos nessa comunidade caridosa, participando dela como membro em igualdade de condições. É de se supor que essa caridade, essa ajuda recíproca fossem a causa da felicidade que embora pobres sentiam nessa vida comunitária.

 

“Nós vamos trabalhar por ele também”

 

Os pescadores que vivem à beira mar podiam com certeza repartir os frutos do mar que compartilhavam com todos. E quanto aos que viviam na cidade?

Isabella Bird, viajante inglesa que em 1878 percorreu da região Tōhoku até Hokkaido, e depois, a região de Kansai acompanhada de um intérprete, foi abordada em Mitsuwa, Província de Nara, por três condutores de riquixá que lhe pediram para contratá-los para a viagem a Ise.


Isabella Bird


Ela recusou, pois não possuíam referências e também por não saber que tipo de gente eles eram. Então o mais idoso entre eles fez um apelo: “Nós queríamos também peregrinar a Ise”. Comovida, Isabella se dispôs a contratá-los com a exceção de um deles, que lhe pareceu mais fraco. Eles lhe fizeram novo apelo: disseram que aquele homem tinha uma família numerosa e era pobre, e se dispunham a trabalhar por ele também. Finalmente, ela concordou em contratar os três.

“Os condutores de riquixá se mostraram gentis e corretos, tanto a mim como entre eles, e isso foi para mim uma fonte inesgotável de alegria”, escreveu ela.

A caridade e o auxílio recíprocos protegiam os mais fracos, mesmo na cidade. Assim, teria sido com certeza possível, mesmo em situação de pobreza material, levar a vida sem conhecer a infelicidade do desespero e da solidão experimentada pelos favelados das nações ocidentais.

 

“Nunca vi japoneses discutindo”

 

Em uma sociedade como essa não há brigas ou discussões. W. G. Dickson, que visitou o Japão por duas vezes, antes e depois da Restauração de Meiji, relata:

“Em todas as viagens que realizei ao Japão, não me recordo ter visto dois homens realmente irritados, discutindo em altas vozes. E também, duas mulheres discutindo, atirando palavras indecentes entre si, cena notória e cotidiana na China.” [1, pg. 168]


William Gray Dixon


Lef Ilwich Méchiknikov, que lecionou língua russa na Escola de Línguas Estrangeiras de Tóquio, de 1874 ao ano seguinte, descreve também igual experiência:

“Neste país, até mesmo um trabalhador braçal pobre e fatigado jamais deixa de seguir as regras da cortesia. …, Não obstante ter vivido por dois anos em um bairro popular de maior densidade de Edo, nunca vi cenas de discussão entre japoneses.
Muito menos brigas, que nesta terra, são fenômenos raramente vistos. Espantoso, a língua japonesa nem possui palavrões. Baka (idiota) e chikushō (animal) são o limite das ofensas que um japonês se permite lançar ao adversário.” [1, pg. 167]

Brigas e discussões nascem do confronto de interesses. Em comunidades cheias de bondade e mútua ajuda, cada um procura controlar os desejos próprios, e assim, são raros os confrontos de interesses. E por isso, as pessoas não discutem entre si.

 

Crença de que somos todos iguais

 

O que se acha na base da bondade e do auxílio mútuo entre as pessoas é sentimento de igualdade entre elas. Basil Hall Chamberlain, que chegou ao Japão em 1873 e se tornou professor estrangeiro da Universidade Imperial de Tóquio, aponta: “Neste país, todas as classes sociais são relativamente iguais, sob o aspecto social.” [1, pg. 129]

“Os ricos não são arrogantes e os pobres não se humilham… O verdadeiro sentimento de igualdade, de crença sincera de que somos todos iguais permeia a sociedade inteira.” [1, pg.129]


Basil Hall Chamberlain


Townsend Harris, primeiro cônsul americano já mencionado, escreve sobre sua audiência com o xogum Iyesada:

“As vestes do grão senhor eram de seda bordada um pouco com fios dourados. Mas estavam longe da ostentação de opulência esperada para um monarca. Não se viam pedras radiosas, nem elaborados ornamentos dourados, e nem espadas com diamantes incrustados no punho. Não seria exagero afirmar que as minhas vestes eram muito mais ricas que as dele.
Não vi ornamentos revestidos de ouro em nenhuma parte do castelo. As colunas de madeira eram todas de madeira natural aparente. Exceto o braseiro e a mesa e cadeira preparadas para mim, nenhuma espécie de mobília se via em qualquer recinto.” [1, pg.122]

As vestes da autoridade máxima do Japão eram até mais humildes que as de um simples cônsul americano. Em contraposição, não se viam favelados entre a população. O sentimento de igualdade se estendia do xogum até o povo.

 

A responsabilidade de herdar e ressuscitar a comunidade feliz

 

Seria essa comunidade feliz uma imagem do passado, que o Japão moderno perdeu por completo? Na verdade, os estrangeiros que visitam hoje o Japão relatam impressões idênticas a dos visitantes do período final do xogunato e de Meiji.

Por exemplo, relata o senhor You Nan, que veio da China e está há vinte anos no Japão, e hoje naturalizado, leciona chinês em universidade:

“Creio que se trate de uma diferença de característica racial, mas os japoneses são capazes de ceder um passo para evitar conflitos. Por exemplo, quando duas bicicletas se colidem, os chineses procuram logo responsabilizar um ao outro, mas no Japão, ambos pedem desculpas deixando de lado a questão da responsabilidade factual. É uma cena instrutiva, só de ver.
Certo dia, eu me achava em um vagão de trem superlotado. Eu estava de pé, perdi o equilíbrio em um solavanco e acabei pisando com o calcanhar a extremidade pontuda do sapato de uma mulher, que se achava atrás. Pedi desculpas imediatamente, mas a pessoa, sorridente, me disse: – “ Não se preocupe, a ponta do sapato está vazia.”

A essa peculiaridade dos japoneses o senhor You Nan se referiu como “característica racial”. A bondade e o auxílio mútuo, integrantes dessa “característica racial”, persistem ainda profundamente no Japão moderno, embora em processo de rarefação.

Entretanto, essas virtudes sociais não se criam naturalmente e nem persistem por si próprios. Resultam da educação que os pais dão às crianças, e do exemplo que os adultos dão na conduta em comunidade, que se constituem muda instrução transmitida aos jovens.

Sendo assim, diria que é responsabilidade dos japoneses de hoje herdar seguramente as características de uma comunidade feliz construída pelos antepassados, ressuscitá-las de forma adequada aos tempos modernos para construir um país de imensa harmonia. ❁

 

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 7
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo, de Fevereiro de 2018
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Yoshiyasu Irimajiri, Madoka (Sôen) Hayashi
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão de tradução Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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