Cultura Japonesa Vol. 7 – Era Meiji – Navios negros e bandeiras brancas

A ERA MEIJI – os valores que dão forma às raízes do Japão atual

 

Navios negros e bandeiras brancas

 

O impacto causado pela pressão intimidante do governo americano sobre o xogunato de Tokugawa.

 


Texto de Masaomi Ise

Referência: 1. Kinsei Nihon Kokuminshi Kakoku Nihon (2) (História Moderna do Povo Japonês – Abertura do País (2)), Sohō Tokutomi, Kodansha Gakujutsu Bunko, S54.4; 2. Shirahata Densetsu (Episódio da Bandeira Branca), Ken-ichi Matsumoto, Kodansha Gakujutsu Bunko, H10.5; 3. Kinsei Nihon Kokuminshi Kakoku Nihon (3) (História Moderna do Povo Japonês – Abertura do País (3)), Sohō Tokutomi, Kodansha Gakujutsu Bunko, S54.5. Foto: chegada dos navios negros em Yokohama – Ano 7 da Era Kaei (1854) 

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7, de Fevereiro de 2018

 

 

Chegada dos navios negros em Yokohama – Ano 7 da Era Kaei (1854)

 

 

Surgem os navios negros

 

Em 3 de junho de 1853, surgiu em Uraga a frota americana do Comodoro Perry composta de dois navios negros a vapor e dois veleiros. Eram 5 horas da tarde. Antes mesmo que eles lançassem âncoras, uma flotilha japonesa de pequenos barcos da guarda cercou a frota americana, e um deles se aproximou da nave capitânea Susquehanna e solicitou permissão para abordagem.

 


Comodoro Matthew Perry


 

Após questionamentos, Saburosuke Nakajima, assistente do magistrado de Uraga e o intérprete de língua holandesa, Tatsunosuke Hori, receberam permissão para subir a bordo. Entretanto, Perry não foi encontrá-los pessoalmente, deixando ao capitão Contee a tarefa de atendê-los em seu lugar. Nakajima, então, pediu ao capitão Contee que se dirigisse a Nagasaki, uma vez que tratativas diplomáticas deviam ser inteiramente realizadas nessa localidade. Entretanto, Contee respondeu em tom intimidador:

“O Comodoro jamais se dirigirá a Nagasaki. Venham vocês receber a mensagem soberana (do presidente americano) com devida cortesia aqui mesmo. A intenção do Comodoro é amistosa, mas não toleraremos nenhum ultraje. Estamos indignados com este cerco dos barcos de vigilância em torno dos nossos navios. Se não se retirarem de imediato, o Comodoro irá afugentá-los com suas armas.” [1, pag. 63]

Diante disso, os barcos da guarda se afastaram de imediato dos navios americanos. Para Perry, isso foi a primeira vitória.

 

Desembarque à frente dos soldados

 

Nakajima retornou a Susquehanna no dia 4 seguinte pela manhã em companhia de Eizaemon Kayama, seu superior, para reiterar a solicitação aos americanos de se dirigirem a Nagasaki. Mas os americanos responderam: “Caso o governo japonês se recuse a enviar alguém devidamente nomeado para atender a nossa requisição (de receber ali mesmo a mensagem presidencial) o Comodoro desembarcará à frente de seus soldados, quaisquer que sejam as graves consequências resultantes, e irá entregá-lo diretamente às mãos do imperador.”

Kayama solicitou então um prazo de 4 dias para conferir com o governo em Edo, mas foi notificado que os americanos esperariam apenas 3 dias. Barcos de cada navio americano estavam iniciando o levantamento da baía de Uraga. Kayama protestou, reclamando que essa ação contrariava as leis japonesas e dificilmente seria aprovada. Os americanos retrucaram: “O levantamento da Baía de Uraga foi ordenada segundo as leis americanas. Os americanos respeitam as leis do seu país da mesma forma como os japoneses respeitam suas leis nacionais.” Para Perry, isso foi a segunda vitória.

 

“Se quiserem render-se,
hasteiem estas bandeiras brancas.”

 

Nessa hora, Perry entregou aos japoneses duas bandeiras brancas e uma carta por ele mesmo redigida, em linhas gerais no seguinte teor:

“Por muitos anos, os países da Europa enviaram ao governo japonês (xogunato) petições de abertura comercial, que o governo não admitiu escudado em sua legislação nacional isolacionista. Isso contraria a “Ordem Natural”, e constitui crime extremamente grave. Por essa razão, se ainda continuarem não admitindo a abertura das relações comerciais, nós nos dispomos a corrigir essa contravenção à Ordem Natural pelas armas, e será melhor o Japão se defender lutando por suas leis. Caso a guerra seja declarada, nós seremos seguramente os vencedores. O Japão será derrotado, e se quiserem render-se, hasteiem as bandeiras brancas que lhes entregamos agora. Os Estados Unidos cessarão então o bombardeio e afastarão os seus navios de guerra para realizar o armistício. Este é o motivo porque lhes enviamos estas bandeiras brancas.”

A política de Perry, de “exigir a abertura do governo japonês como um direito e não como um favor”, que implicava, caso não fosse atendido, em resolver a questão pelo poder das armas, se conformava à lei da supremacia dos mais fortes, vigente entre as nações ocidentais.

 

A ambição de Perry

 

Em 1846, apenas 7 anos antes da chegada de Perry ao Japão, os Estados Unidos haviam arrebatado do México a Califórnia, abrindo uma nova rota comercial para a China cruzando o Pacífico desde esse ponto. Os navios a vapor recém inventados precisavam carregar carvão no Japão. A pesca da baleia no Pacífico se desenvolvia, e surgia a necessidade do acesso às baías japonesas. A exigência americana de abertura se devia a razões pacíficas como essas, mas Perry tinha outras ambições grandiosas.

Ele advertia que, “… considerando o avanço progressivo da conquista pela Inglaterra, nação rival dos americanos na disputa pela hegemonia marítima, de territórios orientais e da instalação permanente de defesa militar dos portos e baías conquistados, seria necessário que os Estados Unidos tomassem medidas urgentes em contraposição. Basta examinar o mapa mundial para verificar que a Inglaterra já domina os pontos estratégicos de maior importância tanto na Índia Oriental como, especialmente, no mar da China.
Mas por felicidade, esse governo descarado (governo inglês) não pôs as suas mãos ainda no Japão e nas ilhas do Pacífico. E algumas dessas ilhas se localizam em rotas que se farão muito importantes ao futuro grande comércio americano. Sendo assim, não se deve perder sequer um minuto na obtenção de baías e portos em quantidade suficiente para abrigo dos navios americanos.” [3, pg. 395]

Perry partira de Norfolk, na costa Leste dos Estados Unidos, cruzara o Atlântico, contornara o longínquo extremo sul da África, passara por Ceilão, Cingapura e Hong Kong para finalmente chegar ao Japão. Os pontos estratégicos dessa rota se achavam todos sob domínio dos ingleses.

Para os Estados Unidos avançarem na China, opondo-se à Inglaterra, seria necessário desbravar a rota cruzando diretamente o Pacífico a partir da costa Oeste. Para isso, Perry indicava o arquipélago de Ogasawara, Okinawa (Ryūkyū) e Taiwan para neles estabelecer bases americanas entre Havaí e China. E sugeria nas entrelinhas expandir o assentamento de centros comerciais, a partir dessas bases, à Tailândia, Camboja, Indochina, Bornéu e Sumatra.

O estabelecimento de um acordo com o Japão não passava de um passo inicial à concretização da hegemonia marítima americana desde o Pacifico até a China e o Sudeste Asiático em oposição à Inglaterra.

 

O domínio do arquipélago
de Ogasawara e de Okinawa

 

Antes de aparecer em Uraga, Perry havia na verdade invadido o porto de Naha e impingido ao governo de Okinawa (Ryūkyū) as mesmas fortes exigências apresentadas ao xogunato em Edo. Fora ainda mais longe – invadira também o palácio imperial de Okinawa.

Desse ponto, Perry se dirigira para Uraga, e fizera o xogunato prometer resposta até a primavera seguinte, recolhendo-se em seguida outra vez a Okinawa.

“Se o governo japonês recusar a nossa proposta, ou se negar a permitir acesso a seus portos aos nossos navios mercantes e baleeiros, eu colocarei sob vigilância da bandeira americana o território de Okinawa, pertencente ao império japonês, como compensação pelo ultraje e danos infligidos ao povo norte-americano. E pretendo manter Okinawa assim dominada até que haja manifestação do meu governo quanto à aprovação ou não dessa minha conduta.” [3, pg. 396]

O texto acima foi extraído da carta enviada por Perry ao comando da marinha americana antes da sua segunda visita ao Japão em 25 de janeiro do ano seguinte. Em seguida, Perry estendeu sua incursão até o arquipélago de Ogasawara para declarar que incorporava o território ao domínio americano. A respeito, houve protesto imediato da Inglaterra de que o mesmo já pertencia à nação inglesa, e também, excursões da esquadra russa. Alarmados, os japoneses tomaram apressadamente medidas administrativas nas ilhas.

O arquipélago de Ogasawara e a Okinawa estão a meio caminho da rota marítima entre Havaí e Xangai. A tentativa de Perry de domínio desses territórios bem demonstra suas ambições.

 

Caso a situação resultasse
em guerra nipo-americana

 

Os japoneses já estavam informados sobre o ambiente mundial da época e tinham conhecimento do poderio tecnológico e militar das potências ocidentais. Por exemplo, quando Eizaemon Kayama visitou o navio americano e observou o motor a vapor, perguntou se esse motor não seria, guardadas as proporções, o mesmo de uma locomotiva a vapor, e também, se o canal de Panamá já havia sido concluído. Essas perguntas assombraram os americanos.

 


Masahiro Abe


 

Em face da vigorosa imposição americana, Masahiro Abe, supremo chefe do conselho do xogunato, foi consultar o lorde Nariaki, antigo suserano de Mito.

“Os americanos que vieram desta vez, invadem Uraga cientes da proibição imposta pela política isolacionista do nosso país, entregam-nos bandeiras brancas para sinalizarmos pedido de paz caso entremos em guerra. Forçam-nos com isso a acolher uma proposição de abertura comercial. Não apenas, invadem o nosso mar interno, disparam tiros de festim, e além disso realizam levantamento de águas territoriais de outra nação. Essa arrogância inqualificável faz deste incidente um ultraje jamais recebido por nosso país desde sua criação.” [2, pag. 55]

O lorde expressou sua indignação dessa forma. Entretanto, acrescentou prevenido:

“Se os rechaçarmos, haverá guerra, e mesmo que consigamos vencer e expulsá-los de Uraga, eles tomarão as ilhas de Izu e de Hachijō, além de outras ilhas nas circunvizinhanças a bel prazer. Isso está claro como imagem em espelho.” [1, pág. 133]

As ambições de Perry estavam sendo bem entendidas pelos japoneses. A partir dessas reflexões, o xogunato resolveu adotar uma medida cautelar: recebia a proposição americana como “medida provisória (medida de emergência)”.

Em contraposição à atitude dos americanos, que submetiam uma proposição intimatória para “sanar o crime de violação da Ordem Natural”, ameaçando com guerra caso ela não fosse aceita, os japoneses respondiam com a “medida provisória” de aceitação da proposta para superar a crise atual. Esse padrão de negociação persiste até hoje nas negociações comerciais nipo-americanas.

 


Nariaki Tokugawa


 

A abrangente estratégia de
“abertura da nação e expulsão
dos estrangeiros”, de Shōin Yoshida

 

Internamente, o procedimento imediatista do xogunato despertava críticas que se intensificavam dia a dia, ocasionando queda brutal do prestígio do governo. Shōin Yoshida, por exemplo, afirmava em “Uma Solução”:

“Para começar, navegação e comércio constituem diretrizes tradicionais legadas pelos nossos imperadores do passado, e óbvia necessidade em termos de estratégia nacional. O isolacionismo não passa de medida temporária do xogunato. Neste momento, contudo, aqueles que professam a abertura da nação o fazem por submissão à intimidação de Perry, por receio da guerra.
A intenção americana de subjugar o nosso país para proveito próprio, sob o pretexto de “beneficiar o Japão”, é evidente. Como devemos agir para realizar a abertura do país em conformidade com as diretrizes tradicionais dos nossos imperadores do passado, preservando, ao mesmo tempo, a nossa história de três mil anos de irrestrita independência?
Antes de tudo, construir navios de grande porte e selecionar material humano qualificado independentemente de linhagem ou posição social; exercitar o pessoal selecionado em navegação e exploração marítima, em frequentes viagens desde as Sakalinas até Okinawa. Depois, prosseguir até Coreia, China, Austrália, Cabo da Boa Esperança, e outras regiões; construir centros comerciais, coletar informações internacionais através do comércio. É possível realizar essas ações em aproximadamente três anos. Seguir depois para Califórnia, e estabelecer acordo de amizade em resposta à visita de Perry. Dessa forma, será possível fortalecer o poder nacional, produzir recursos humanos e preservar a história de três mil anos de independência do nosso país.”

 


Shōin Yoshida


 

Shōin Yoshida, realmente, quis infringir ele próprio a lei isolacionista do seu país. Subiu a bordo do navio de Perry e pediu que o levassem aos Estados Unidos. Quis com certeza realizar por iniciativa individual própria o plano que elaborara. Seu espírito aguerrido causou forte impressão entre os ocidentais da época. Os japoneses não podiam ser menosprezados.

 

A abertura, com vista à expulsão dos estrangeiros

 

Shōin Yoshida foi preso e executado. Antes de morrer, manifestou em verso seus sentimentos:

Antes de se compadecerem com minha execução, que louvassem o Senhor (imperador) e expulsassem os estrangeiros.

Esse “Senhor”, ou seja, o imperador Kōmei, compôs ele também um pequeno poema:

Naves estrangeiras sobrecarregavam seu espírito, preocupado noite e dia com o bem-estar do povo.
Afogar-me-ia em águas turvas que não conseguia limpar para conservar a pureza do meu povo.

Se falhasse um passo e o Japão provaria a extrema miséria sob domínio das potências ocidentais, assim como a Índia, pilhada pela Inglaterra, e a China, pisoteada durante a Guerra do Ópio. O Imperador Kōmei desejava do fundo da sua alma paz para o seu povo, não lhe importando o que lhe pudesse suceder.

O objetivo do movimento Jōi estava em livrar a nação das potências estrangeiras e defender a liberdade, em consonância com o desejo do Imperador. Para isso, seria necessário abrir o país – assim pensava Shōin. Assim, o seu Jōi não se fundamentava em delírios com motivações religiosas, que consideravam a pátria um país divino e menosprezavam como selvagens os outros países. A intenção era proteger a pátria, sua liberdade e a paz do seu povo das potências invasoras, no mundo então regrado pela lei das selvas, de sobrevivência dos mais fortes.

 

O sistema do mundo moderno

 

Por “sistema do mundo moderno” eu me refiro aqui ao domínio do mundo pelas potências ocidentais, domínio esse baseado em discriminação racial e colonização. No início do século 17, o Japão afugentara as forças de Espanha e Portugal afastando-se do “sistema do mundo moderno”. Conseguia assim que seu povo vivesse em paz e prosperidade durante duzentos e cinquenta anos.

A chegada dos navios negros de Perry significava que o “sistema do mundo moderno” estava por completar o domínio global e alcançava o último reduto da Ásia Oriental. A bandeira branca impingida por Perry se tratava de desafio à liberdade do Japão, de exigência de submissão ao “sistema”.

Entretanto, não tardou para que os idealistas seguidores do legado de Shōin derrubassem o xogunato, incapaz de outra coisa senão tomar “medidas provisórias”, para organizar o novo governo Meiji e construir uma nação rica e poderosa através do comércio internacional após a abertura do país. A estratégia abrangente proposta por Shōin em “Uma Solução” havia sido traduzida na prática. E assim o Japão enfrentou as águas tempestuosas do “sistema do mundo moderno”. ❁

 

 

 

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 7
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo, de Fevereiro de 2018
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Yoshiyasu Irimajiri, Madoka (Sôen) Hayashi
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão de tradução Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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