Cultura Japonesa Vol. 7 – A Era Meiji – Yukichi Fukuzawa: “Incentivo ao Estudo” para o bem da independência e liberdade da pátria

Os construtores e protagonistas da Era Meiji

Yukichi Fukuzawa

“O céu não cria homem acima de homem,
e nem homem abaixo de homem.”


Texto original em japonês de Masaomi Ise

Referência: (1) Gendaigoyaku Gakumon no Sussume (Incentivo ao Estudo Versão Atualizada) – Yukichi Fukuzawa, versão de Takashi Saitō, Chikuma Shinsho (Edição Kindle), 2009.
Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7, de Fevereiro de 2018

 

Yukichi Fukuzawa

 

“O céu não cria homem acima de homem,
e nem homem abaixo de homem.”

 

Yukichi Fukuzawa inicia a sua obra “Incentivo ao Estudo” com a célebre frase: “O céu não cria homem acima de homem, e nem homem abaixo de homem.” Assim, muitos são levados a pensar que a obra trata da igualdade entre os seres humanos. No entanto, essa presunção é imediatamente desfeita pelo texto que vem a seguir:

“Contudo, ao lançar os olhos sobre esse mundo dos homens, percebe-se que existem pessoas sábias e insensatas. Existem pobres e ricos. E também, pessoas em posições sociais elevadas e baixas. Como surgem essas diferenças, dir-se-iam brutais?” [1, pág. 62]

 

Primeira edição da obra “Incentivo ao Estudo” de 1872

 

Deixando de lado a premissa da igualdade entre os homens, o que se levanta aqui é a questão do porquê da existência de sábios e insensatos, pobres e ricos, nobres e plebeus. Sobre isso, Yukichi responde:

“A causa é bem clara. No livro Jitsugokyō (Ensino da Verdade) está escrito que “Não há sabedoria sem estudo. Quem não tem sabedoria é um insensato.” Em outras palavras, a diferença entre sábios e insensatos surge entre aqueles que estudam e não estudam.” [1, pág. 62]

Ao ler até este ponto, muitos leitores talvez concluam apressadamente que o livro “Incentivo ao Estudo” prega a necessidade do estudo para que um indivíduo possa se tornar sábio, nobre e rico, mas esse entendimento é outra vez apenas parcial.

 

O objetivo do estudo é
“liberdade e independência”

 

Sobre o objetivo do estudo, Yukichi prega:

“Qual será o objetivo daqueles que estudam hoje?
Com certeza, eles procuram o propósito fundamental de ganhar a “independência por ninguém cerceada”, e recuperar o direito à liberdade e autonomia.
Pois bem, quando se fala em “livre independência”, é necessário que ela já venha imbuída da ideia do dever. Independência não se resume apenas em morar em uma casa e não depender de ninguém para se vestir ou alimentar. Se assim fosse, tratar-se-ia tão somente de “dever interno”. É necessário ainda dar um passo adiante, e pensar a respeito do “dever externo”.
Isto é, quando se vive no Japão sem envergonhar a honra dos japoneses, quando unimos os nossos esforços em conjunto com todo o povo da nação para conseguir que o Japão conquiste a posição de livre independência, então estamos cumprindo pela primeira vez o nosso dever, tanto interno como externo.” [1, pág. 1291]

Para os japoneses da Era Meiji, a “Livre Independência” não era apenas um conceito abstrato, mas um problema real. O Japão, que fora forçado a abrir o país por pressão dos navios negros americanos no final do xogunato, corria o risco de ser totalmente colonizado, a exemplo da Índia e dos países do sudeste asiático, ou ser semi-colonizado como a China. Yukichi viu diante dos próprios olhos esse risco em Hong Kong.
Yukichi, que se entregava ao trabalho da tradução no setor dos países estrangeiros do xogunato (equivalente ao Ministério do Exterior da atualidade) recebeu ordem de viajar à Europa, e em dezembro de 1861, partiu de Shinagawa a bordo de um navio de guerra enviado pela Inglaterra e chegou a Hong-Kong.

“Navios ingleses estavam ancorados por toda parte, e inúmeros vasos de guerra se achavam no oceano para lhes dar proteção.
Pequenos comerciantes chineses subiam a bordo, tentando vender sapatos a Yukichi e companheiros. Pretendendo comprar um par, Yukichi começou a negociar o preço. Para se distrair do tédio, complicava propositadamente a conversa, quando um inglês, ao ver a cena, veio correndo sem saber o que passava.
Acreditando, quem sabe, que se tratava de algum vendedor malandro, o inglês arrebatou os sapatos dele, pediu 2 dólares a Yukichi, atirou o dinheiro ao chinês e sem dizer palavra, agitou a bengala para expulsá-lo do navio. O vendedor chinês nem discutiu o valor recebido e saiu contrito do navio.
Ao presenciar a cena, Yukichi … constrangido, sentiu na pele o distanciamento entre o seu país e a Inglaterra em termos de poder, e não pôde deixar de invejar o prestígio dessa nação.”

Navios mercantes e belonaves ingleses enchiam o porto e comerciantes chineses se dobravam aos ingleses até mesmo para vender sapatos. Se “o céu não cria homem acima de homem”, nada disso acontecia ali. Os ingleses se colocavam soberanamente acima dos chineses.

Yukichi Fukuzawa (à direita) e os Marinheiros do Kanrin Maru, membros da Embaixada japonesa nos Estados Unidos (1860)

 

O que é livre independência
de um país

 

Sobre livre independência de uma nação, Yukichi ensina:

“Conviver em conformidade com o princípio da liberdade e igualdade estabelecido pelo céu. Dar toda atenção a opiniões racionais, mesmo que venham de escravos negros africanos, e nem temer navios de guerra ingleses ou americanos em defesa da racionabilidade.
Se a nação for vilipendiada, os japoneses do país inteiro procuram defender o prestígio nacional, sacrificando, se preciso, as próprias vidas. Livre independência do país é isso.” [1, pág. 122]

No entendimento de Yukichi, dizer que “O céu não cria homem acima de homem, e nem homem abaixo de homem” era o mesmo que dizer “O céu não cria nação acima de nação, e nem nação abaixo de nação”. E isso constituía o seu “princípio da liberdade e igualdade estabelecido pelo céu”. Entretanto, o mundo real não era assim. Por que os chineses passaram a ser tratados como escravos pelos ingleses?

“Os chineses pensavam que a única nação do mundo era a sua; bastava ver um estrangeiro para apontá-lo como “bárbaro”, detestando-o, tratando-o como animal; tentaram expulsá-lo à força sem ao menos avaliar objetivamente o próprio poderio, para acabar sofrendo nas mãos desses bárbaros, haja vista a Guerra do Ópio. Essa realidade é produto da arrogância.” [1, pág. 126]

E por que a China chegou a esse ponto?

“Nada é tão triste e tão odioso neste mundo como um povo deseducado. A falta de inteligência, quando atinge o extremo, se transforma em falta de vergonha. Empobrece, é encurralado economicamente pela própria ignorância, e passa a culpar os ricos sem sequer refletir sobre a própria situação, e em casos extremos, recorrem algumas vezes à rebelião. “[1, pág. 160]

Os chineses haviam sido levados à pobreza, recorreram à violência contra os estrangeiros, foram derrotados na Guerra do Ópio, e acabaram finalmente na situação de escravos porque não se educaram.

 

A liberdade individual e da pátria
por intermédio da ciência prática

 

Mas existia já na China, desde os tempos antigos, ciências tradicionais como o Confucionismo. Seria a educação, referida por Yukichi, algo diferente dessas ciências?

“O estudo a que me refiro não diz respeito ao estudo que não possui aplicação prática no mundo, como conhecer ideogramas complicados e poder ler textos antigos de difícil compreensão, ou praticar o waka (composição de poemas curtos) e compor poemas. …
Desde os tempos antigos, são poucos os eruditos em clássicos chineses bem-sucedidos na vida social, e raros os bons poetas de waka ao mesmo tempo bons comerciantes. …
Sendo assim, esses estudos sem utilidade prática deveriam ser postergados neste momento, para se estudar com afinco as ciências práticas úteis à vida normal.” [1, pág. 83]

Yukichi cita como exemplos dessa ciência prática, iniciando por ler e escrever e o soroban, a geografia, a física, a história, a economia, a ética entre outros. A China desprezou a ciência prática, e funcionários que estudaram tão somente o Confucionismo passaram a governar o país. Em consequência, perderam a Guerra do Ópio e acabaram semi-colonizados.

“Essas matérias constituem a ciência prática que um homem deve naturalmente estudar, todos os homens, sem distinção de classes. E uma vez dominada, então será importante que camponeses, artífices e comerciantes cumpram cada qual o seu dever. Só assim será possível às famílias administrarem seus negócios, aos indivíduos e famílias adquirirem independência, levando essa independência às famílias e à pátria.” [1, pág. 100]

 

“Fervor de
independência do povo”

 

No Japão atual, o povo inteiro recebe essa ciência prática como parte do ensino obrigatório nos cursos básicos e secundários. A maioria prossegue depois às universidades para receber educação especializada. Assim, o ensino está sendo proporcionado em nível suficiente pelo menos em volume, sem mencionar a qualidade.
Entretanto, mesmo assim, não se pode afirmar que o “incentivo ao estudo” está sendo realizado na forma pregada por Yukichi.

“Não se deve avaliar a cultura de uma nação com base em aspectos materiais. Escolas, indústrias, o exército, a marinha, constituem formas da cultura. Não é difícil construir essas formas. É possível comprá-las com dinheiro.
Mas em tudo isso, há um aspecto disforme.
Não é possível vê-lo, nem escutá-lo, nem comprá-lo ou alugá-lo. Mas se espalha inteiramente entre o povo, e seus efeitos são fortemente sentidos. Sem ele, as escolas e outros fatores visíveis se tornam inúteis. Dir-se-ia o “espírito da cultura”, e se trata de algo de máxima grandiosidade, e de máxima importância. O que seria? É o “fervor de independência” do povo.” [1,pág. 634]

Essas palavras de Yukichi foram pronunciadas em 1874. Cerca de 20 anos depois, durante a Guerra Sino-Japonesa, a marinha japonesa destruiu os encouraçados chineses Dingyuan e Zhenyuang, duas naves no estado-de-arte da época, então os maiores do mundo, encomendados e construídos na Alemanha pela marinha chinesa.

O Dingyuan veio uma vez ao Japão com propósitos intimidativos, mas ao ver que um marinheiro chinês pendurava roupas para secar em seu canhão principal, um oficial japonês teria comentado em tom de repreensão que, embora gigantesco, o navio não era digno de temor. O encouraçado mais moderno do mundo que a China obtivera a troco apenas de dinheiro, não passava de uma forma sem o “fervor de independência do povo”.

 

Se o povo se sente
apenas “convidado” …

 

Há lições que o povo japonês de hoje deveria colher da importância do “fervor de independência do povo” conforme o “Incentivo ao Estudo” de Yukichi.

“Suponhamos que haja aqui uma nação que tenha uma população de um milhão. Suponhamos ainda que mil dentre ela sejam pessoas sábias, e 990 mil ignorantes. Os sábios governam esse povo pela capacidade e personalidade que possuem.” [1, pág. 347]

Os sábios conduzem o povo como carneiros. O povo segue obedientemente os sábios, e o país é governado em paz. No entanto,

“… para começar, a população deste país se acha dividida em duas classes, a saber, dos anfitriões e dos convidados. Os mil sábios se transformam em “anfitriões” e dominam o país a bel prazer, e os outros, todos eles, são “convidados”, que nada sabem.” [1, pág. 348]

O que sucederá se um país como esse entrasse em guerra com uma nação estrangeira?

“… Com certeza, surgirão muitos que dirão: ‘Ora, nós somos apenas “convidados”. Dar até as nossas vidas? Mas que exagero!’ E se isso acontecer, restarão pouquíssimos para defender a pátria, e seria impossível conservar a independência de um país.” [1, pág. 348]

Quase todos os chineses se sentiam “convidados”, e esta é a razão porque a China, uma grande nação do mundo, perdeu a Guerra do Ópio para uma outra que ela desprezava como “‘paiseco’ do tamanho de um grão de Ópio”.

 

O estudo está sendo levado a sério,
com “fervor pela independência”?

 

Mesmo que um povo se dedique com todo afinco ao estudo, se ele o faz com o simples intuito de achar um trabalho rentável, sentindo-se apenas “convidado”, não se poderá dizer que é um povo livre, que sustenta a nação.

Quando cada indivíduo do povo se tornar, através do estudo, um ser humano útil, e procurar sustentar a pátria com as próprias forças imbuído do “fervor da liberdade”, só então a livre independência de uma nação poderá ser mantida.

Três milhões de exemplares do “Incentivo ao Estudo” foram vendidos, o que significa, pelas contas, que uma em cada dez pessoas da população da época, de 30 milhões, leu o livro. É grande a contribuição prestada por ele para tornar o Japão uma nação cheia até as bordas de “fervor pela independência”, bem diferente daquela da Era Edo.

Esse povo tomado de fervor se pôs a estudar diligentemente em suas respectivas áreas. E conseguiu assim defender a independência do seu país vencendo as guerras sino-japonesa e russo-japonesa.

 

Yukichi Fukuzawa na nota de 10 mil ienes

 

Entretanto, o Japão atual até se afastou do ideal pregado por Yukichi. Ao ver o estado dessa nação, ele haverá de perguntar das sombras do seu túmulo, quantos da sua população se dedicam aos estudos com o “fervor pela independência”. ❁

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 7
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo, de Fevereiro de 2018
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Yoshiyasu Irimajiri, Madoka (Sôen) Hayashi
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão de tradução Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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