Cultura Japonesa Vol. 7 – A Era Meiji – Shoin Yoshida: a abertura do Japão vista do Ocidente

Os construtores e protagonistas da Era Meiji

Shoin Yoshida

A abertura do Japão vista do Ocidente


Texto original em japonês de Masaomi Ise
Referência: (1) Yoshida Shōin – Meiji Ishin no Seishinteki Kigen (Shōin Yoshida – A origem espiritual da Restauração de Meiji) – Heinrich Dumoulin, tradução de Shūdō Higashinakano, Nansōsha, 1988; (2) Perry Nihon Enseiki, Hawks – (História da Expedição ao Japão de Perry, Hawks) Yoshida Shōin Zenshu, Volume à Parte, 1974; (3) Yoshida Torajirō, Stevenson (Torajirō Yoshida, Stevenson) Yoshida Shōin Zenshu, Volume à Parte, 1974
Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7, de Fevereiro de 2018

 

Shoin Yoshida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

As novas da abertura do Japão

 

“Isto aconteceu 12 anos antes da minha ida ao Japão. Na época, o Comodoro Perry viera a Kanagawa e despertara o xogum de seu sono tranquilo. E eu, por meu turno, vivia em Lion, 855, minha cidade Natal. Era um jovem despreocupado, aluno do quarto ano do colégio nacional. Na França e na Inglaterra, as novas do rompimento do isolacionismo pelo império japonês para abertura do país à Europa causavam alvoroço. Os jornais publicavam elogios calorosos. Mesmo porque essa nobre nação jamais foi relegada ao esquecimento na Europa, em particular Roma, desde o século 16, quando Francisco Xavier a apresentou de forma entusiástica em uma carta.” [1]

São reminiscências do padre Aimé Villion, primeiro missionário católico designado ao Japão após a abertura. Constata-se como a abertura do Japão dera motivo a noticiário intenso entre as nações ocidentais. Justo nessa hora, ocorria um incidente que deixaria os ocidentais impressionados com as peculiaridades dos japoneses.

 

Um jovem japonês
planeja viajar clandestino

 

“Aconteceu ao entardecer de um certo dia. Meu irmão mais velho, que trabalhava como promotor, havia regressado do tribunal da justiça e como sempre, lia o jornal Century. – ‘Oh!’ – Exclamou ele de súbito.

‘Temos aqui uma notícia muito interessante: – a fragata americana Mississipi chegou à baia de Edo. Nisto, certa tarde, um jovem japonês, de feições nobres e vestes impecáveis, veio remando um barco pequeno e subiu a bordo. Pedia cortesmente que o levassem naquele navio para os Estados Unidos, pois queria estudar no país, e declarava tratar-se de um pedido premente. Entretanto, o Comodoro rejeita o apelo desse jovem corajoso, e se recusa terminantemente a aceitá-lo. O jovem lhe explica que se for devolvido à terra, sofrerá perseguição do xogum onde quer que esteja, e a sua vida poderá ser posta em risco. Entretanto, o Comodoro americano, obstinadamente, recusa-se a aceitar um pedido tão nobre como esse. É uma lástima. Ao que parece, os jornais estão dizendo que a saída desse jovem do país não provocaria sequer um arranhão no governo autocrático e a sua severa política isolacionista.

Meu pai concordou e criticou a obstinação do Comodoro. ‘Essa burra fixação às normas é em si inaceitável. É coisa de americano.’ Eu acrescentei minha opinião, típica de um jovem: ‘Os oficiais americanos são uns idiotas. Tenho pena desse jovem japonês. Espero que não seja punido com severidade’ … O jornal não citava seu nome, mas ele era ninguém menos que Shōin Yoshida.” [1]

A ação de Shōin Yoshida e de Shigenosuke Kaneko que o acompanhou, nessa tentativa em que jogavam as próprias vidas para ir aos Estados Unidos e adquirir conhecimentos, subindo a bordo do navio de Perry, estava sendo fartamente noticiada também na Europa. Sigamos esse incidente, abordando-o do ponto de vista ocidental.

 

Simpatias de Perry

 

O Comodoro Perry e seus oficiais não eram tão obstinados como supunha o padre Villion. Não deixaram de simpatizar-se pela ação corajosa de Shōin, mas nada puderam fazer senão recusar com pesar o pedido dele, considerando o relacionamento diplomático com o Japão. Francis L. Hawks, autor da obra “Expedição de Perry ao Japão”, descreve o incidente da seguinte forma:

“As ondas eram altas no porto, e por isso, tiveram (o Shōin e o seu companheiro) grande trabalho em chegar até o navio. Mas assim que puseram os pés na escada de costado e subiram ao passadiço, o bote em que vieram se afastou flutuando para longe do navio, seja por acaso, seja por ação proposital deles.

Chegando ao convés, um oficial foi avisar o Comodoro da chegada de ambos. Ele então enviou um intérprete para conversar com eles, e soube assim do propósito dessa visita intempestiva. Os dois confessaram honestamente que desejavam ser levados aos Estados Unidos, viajar pelo país e ver o mundo. E foram reconhecidos como os mesmos dois homens que haviam feito contato na terra com os oficiais para entregar a um deles uma carta.

Estavam muito cansados, por terem vindo em um pequeno bote. Foi possível perceber que eram cavalheiros japoneses de alta posição, mas suas vestes se achavam bem surradas de viagens. Eram instruídos, e sabiam escrever fluentemente em chinês, em caligrafia bela pela aparência. Suas atitudes eram educadas, e bem refinadas.

Ao saber do motivo da visita, o Comodoro lhes transmitiu que não obstante a sua vontade de levá-los aos Estados Unidos, sentia não encontrar meios para isso. E disse-lhes que estava obrigado a rejeitá-los até que obtivessem a permissão do xogunato – a esquadra permaneceria ancorada no porto de Shimoda por certo tempo ainda, e assim, haveria oportunidade suficiente para obtê-la.”

 

Ukiyoe retratando Shoin Yoshida dirigindo-se para os Navios Negros

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reconduzido à terra, Shōin se apresentou galantemente às autoridades e foi levado à prisão. Perry “se esforçou cuidadosamente em fazer ver aos oficiais japoneses como o crime era irrisório, e pediu para que o castigo fosse reduzido.”

 

Um povo heroico

 

Hawks relata a impressão que obteve dos japoneses nesse incidente da seguinte maneira:

“Este incidente atrai interesse, por revelar a intensa sede por conhecimentos de dois japoneses instruídos, que empenharam até a vida para obtê-los. Os japoneses são certamente um povo ético e investigativo, que não perde oportunidade para elevar sua capacidade intelectual. É de se crer que a ação infeliz dos dois seja peculiar dos japoneses. Nenhuma outra revela melhor a intensa curiosidade deles. …

Essa natureza dos japoneses nos leva a pensar no interessante futuro de seu país. Quanta planície repleta de sonhos, e mais ainda, quanta expectativa cheia de esperança se abrem adiante!” [2]

Ele expressa dessa forma sua sincera admiração pelo povo que produziu personagens como Shōin Yoshida. A mesma admiração se pode perceber nas palavras do famoso escritor Robert Louis Stevenson, autor de “A Ilha do Tesouro”.

 

Robert Louis Stevenson

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Stevenson ficou profundamente impressionado ao ouvir sobre Shōin de Taizō Masaki, (disciplinado pelo Shōin aos 13 anos), que entre 1878 e 1879, estava a serviço na Inglaterra. E deixou um texto intitulado “Yoshida Trajiro”, por acreditar que se tratava de um personagem que os ingleses deviam conhecer. O texto termina:

“Devo acrescentar mais uma palavra. É porque desejo que não se perca de vista que esta história fala não apenas de um único personagem heroico, mas ao mesmo tempo, de um povo heroico. Não é suficiente gravar no fundo da memória a história de Yoshida. Não se deve esquecer aquele samurai raso, de Hikabe, e também, do jovem Nomura (Wasaku Nomura) de 18 anos, natural de Chōshū, que no auge do entusiasmo, não se conteve e deixou vazar o plano. É uma satisfação poder viver na mesma época destas pessoas que alimentam grande idealismo.” [3]

 

O objetivo da viagem
clandestina mortal

 

Entretanto, não é correto o conceito que Hawks formou sobre a causa da ação de Shōin Yoshida, de que se devia a intensa sede por conhecimentos. Heinrich Dumoulin, professor emérito da Universidade de Jōchi, diz o seguinte sobre a causa:

“Exatamente nessa época, a expedição americana comandada por Perry forçava a abertura do Japão ao mundo, e batia nas portas do isolacionismo japonês pela primeira vez. Dessa forma, a luta dos samurais idealistas pela proteção do território pátrio adquiria novo sentido, nada tendo a ver com a obscura incerteza do futuro, transformada que estava agora em um problema atual urgente. Shōin viu pela primeira vez em Uraga a frota americana bem diante dos seus olhos e renovou completamente sua consciência da superioridade militar dos estrangeiros.

Imediatamente, pareceu a Shōin que o estudo do sistema militar estrangeiro se tornava missão urgente e imprescindível. A oportunidade do plano de viagem ao exterior já amadurecia. Shōzan (Zōsan) Sakuma, famoso estrategista de Edo, o incentivou também. Do ponto de vista da premente missão a serviço da pátria, a simples proibição da viagem ao exterior imposta pelo xogunato se afigurava fato desprezível.

As informações sobre a Guerra do Ópio na China haviam sido imediatamente transmitidas ao Japão, que tomava suficiente consciência do imperialismo das potências ocidentais. Shōin, ele próprio um estrategista, concluía que para manter a independência da nação, era necessário antes de tudo alcançar o poderio militar dos ocidentais. A viagem clandestina mortal servia a esse propósito.” [1, pág. 24]

 

O espírito criador
do Japão de Meiji

 

Shōin Yoshida se apresentou ao xogunato, e foi remetido preso à sua terra natal Hagi. Mas embora submetido à prisão domiciliar, não tardou em começar a educar seus alunos das redondezas. Surgia a famosa escola privada Shōka SonJuku.

 

Escola privada Shōka SonJuku

 

 

Lá se formaram aqueles que literalmente, construíram o Japão de Meiji, entre eles Kogorō Katsura (posteriormente Takayoshi Kido, personagem notável da renovação de Meiji, ministro da Educação, Ministro dos Assuntos Internos e Conselheiro do Estado), Shinsaku Takasugi (supremo comandante da milícia), Kyōsuke Yamagata (Aritomo, Supremo Comandante do Estado Maior na época da Guerra Russo-Japonesa, General do Exército e posteriormente Marechal), Toshiaki Itō (Hirobumi, Primeiro-Ministro, contribuiu para a elaboração da Constituição).

O incidente da viagem clandestina de Shōin Yoshida, ocorrido imediatamente ao despontar do Japão nas páginas da história moderna, impressionou Stevenson levando-o a considerar o povo japonês “um povo heroico”. Essa impressão se fez real, e produziu o súbito progresso do Japão de Meiji, que se tornou conhecido como o milagre da história mundial. ❁

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 7

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 7
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo, de Fevereiro de 2018
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Yoshiyasu Irimajiri, Madoka (Sôen) Hayashi
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão de tradução Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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