Cultura Japonesa Vol. 6 – A identidade uchinanchu entre as novas gerações

GUERRA E MIGRAÇÃO – A diáspora de Okinawa

 

A identidade uchinanchu
entre as novas gerações


No Brasil, chamavam-na de “japonesa”, e no Japão, onde fora como dekassegui, chamavam-na de “brasileira”. Afinal, quem era? Mas nesse momento de crise de identidade foi para Okinawa, e lá foi recebida com um caloroso “okaerinasai” (feliz regresso, bem-vinda de volta). De repente, se deu conta de que era uma “uchinanchu” (natural de Okinawa, em dialeto próprio).

 


Texto de Vanessa Shiroma Tinem – Bacharel em Letras Português-Japonês pela USP e Diretora do Jornal Utiná Press – março de 2017 

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6, de Setembro de 2017

 

Vanessa Shiroma Tinem e Takeshi Onaga, governador da Província de Okinawa 

 

 

Prestes a completarmos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, já chegamos à sexta geração de nikkeis, sendo a maior comunidade japonesa fora do Japão.

Dentro da comunidade nikkei, os okinawanos (descendentes da província de Okinawa, localizada ao sul do Japão) merecem destaque por ser um grupo unido e solidário, tais como os primeiros imigrantes, que trouxeram consigo o espírito uchinanchu (como são chamados os okinawanos na língua de Okinawa) de “yuimaru” (solidariedade) e “chimugukuru” (generosidade), passando estes sentimentos aos seus descendentes.

Até o século XIX Okinawa era um reino independente chamado Ryukyu, com cultura e língua distintas do resto do Japão. Por conta de sua localização geográfica, o reino mantinha fortes relações comerciais com a China, Japão e demais países do Sudeste Asiático e a partir de 1879 seu território foi anexado ao Japão, tornando-se a sua 47ª província; porém muitos costumes e tradições ainda mantiveram-se intactos ao longo dos tempos.

 


Festival do Castelo Shuri (Okinawa Convention & Visitors Bureau – OCVB)


 

Apesar de mais um século de distância que separa os primeiros imigrantes que chegaram ao Brasil, podemos dizer que a comunidade okinawana ainda mantém fortes laços com a terra natal através de sua cultura, seus valores e tradições, que são passadas de geração em geração.

Muitos fatos históricos contribuíram para a formação da comunidade nikkei no Brasil, em especial a de Okinawa, que foi uma das províncias que mais enviou emigrantes para outros países (para se ter uma ideia, dos 781 imigrantes a bordo do navio Kasato Maru, em 1908 ao Brasil, 325 eram oriundos desta ilha).

Durante muitos anos o fluxo migratório de okinawanos ao Brasil foi grande e, apesar de ter sido interrompido por duas ocasiões pelo governo japonês, foi retomado graças ao empenho dos imigrantes veteranos que se mobilizaram e fundaram a antiga Kyūyō Kyōkai – precursora da Associação Okinawa Kenjin do Brasil, entidade que lutou para que mais conterrâneos pudessem imigrar para cá.

 

Yuimaru

 

O sentimento de solidariedade, expresso na palavra “yuimaru” (antigo sistema de mutirão que passou a ter sentido de solidariedade posteriormente) trazido pelos primeiros imigrantes continuava latente e foi primordial para que a imigração okinawana fosse retomada.

O espírito solidário se fez presente também no período da Segunda Guerra Mundial, pois em julho de 1943 havia sido decretada a evacuação de japoneses, italianos e alemães da área litorânea de Santos no prazo de 24 horas. Milhares de imigrantes foram expulsos de suas próprias casas levando consigo somente a roupa do corpo, sendo que muitos não tinham sequer um lugar para ficar.

Uns pediram abrigo em casas de familiares e amigos na capital e em outras cidades do interior; enquanto outros acabaram sendo recebidos por conhecidos, que os acolheram calorosamente em meio à medida restritiva imposta pelo governo a todos imigrantes e descendentes dos países do Eixo.

No período pós-guerra o “yuimaru” também se fez presente através de movimentos de doações em dinheiro, roupas e alimentos arrecadados entre a comunidade uchinanchu do Brasil em prol das vítimas da Batalha de Okinawa (abril de 1945), acontecimento que deixou a província totalmente devastada. Este gesto é relembrado até hoje não somente pelo governo como também pelo povo okinawano, que cultiva o espírito de gratidão aos emigrantes e seus descendentes do exterior.

 

Desconhecimento da língua japonesa
vs. preservação da cultura

 

Após mais de um século de imigração, a comunidade nikkei chega à sexta geração de descendentes, sendo que a maioria já não tem domínio do idioma japonês.

Alguns fatores contribuíram para isso: o fechamento e a proibição de funcionamento das escolas de língua japonesa no período durante e pós-guerra, a discriminação racial sofrida pelos imigrantes, a assimilação da cultura brasileira, a miscigenação, dentre outros. Tudo isso acabou fazendo com que os descendentes não aprendessem a língua falada pelos seus ancestrais.

Entre os okinawanos houve também uma questão a mais: os primeiros imigrantes falavam o uchinaaguchi (língua de Okinawa) e muitos sequer conheciam o idioma japonês. Isto acabou criando outra barreira, além das questões culturais, fazendo com que os okinawanos se isolassem em grupos “fechados” dentro da própria comunidade japonesa.

Muitos falavam o uchinaaguchi em casa, enquanto outros por sentirem-se discriminados, acabaram por se afastar da própria comunidade okinawana.

Mesmo assim, a falta de domínio da língua japonesa e okinawana pelos descendentes não os impediu de continuar as tradições, artes e costumes.

 

Resgate da Identidade

 

Se no passado ser “okinawano” era motivo de discriminação, após a década de 1990, com o “Okinawa Boom”, esta condição passou a ser sinônimo de orgulho.

Isso se deve a popularização da música okinawana após o sucesso da banda japonesa “The Boom”, com a canção “Shima Uta”, além de outros artistas okinawanos que passaram a fazer sucesso na ilha principal, como Rinken Band, Nenes, Kiroro, Namie Amuro, (Hidekatsu) Kamei, Begin, Da Pump, dentre outros, além da novela da NHK, “Churasan” – ambientada em Okinawa, que aumentou ainda mais a fama da província como um dos destinos turísticos mais procurados.

A partir daí, houve um resgate da identidade okinawana, principalmente pelas novas gerações, que passaram a orgulhar-se de sua origem e a ter mais interesse pela cultura ancestral.

Percebemos aí que questões históricas, econômicas e sociais também favoreceram este resgate; pois se a geração de isseis trabalhou arduamente para se estabelecer no país, enquanto os nisseis precisavam se reafirmar dentro da sociedade brasileira, vencendo os preconceitos; os sanseis e yonseis já desfrutavam de uma posição privilegiada, com a completa integração à sociedade brasileira.

O advento da internet e o processo de globalização também facilitaram a busca de informações de forma mais rápida e completa, fazendo com que o interesse aumentasse entre os jovens, principalmente com outros movimentos culturais como o sōsaku eisā taikō, através do grupo Ryukyu Koku Matsuri Daiko e Requios Geinou Doukoukai Eisa Taiko; além de várias escolas de danças e de música folclórica de Okinawa. Sem falar do sistema de bolsas de estudos promovidos pelo Governo e prefeituras dos municípios okinawanos a seus descendentes de vários países do mundo.

Estas bolsas (kempi ryūgaku e kenshū ryūgaku) deram oportunidade aos jovens de conhecer um pouco mais sobre a terra natal de seus ancestrais e fortaleceram ainda mais o vínculo com a província-mãe, fomentando assim o interesse maior entre as novas gerações.

Além do resgate cultural, outro fator que elevou a autoestima dos okinawanos e seus descendentes no Brasil foi o fato de diversos uchinanchus passarem a ocupar cargos de destaque dentro e fora da comunidade japonesa, como por exemplo: o Professor Dr. Kokei Uehara – primeiro uchinanchu a receber o título de Professor Emérito da Universidade de São Paulo, além de também ser o primeiro uchinanchu a ocupar a presidência da Aliança Cultural Brasil-Japão e da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), presidindo as comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil (2008); o engenheiro Akeo Uehara Yogui, que foi o primeiro nissei a ocupar o cargo de presidente da Associação Okinawa Kenjin do Brasil e o primeiro uchinanchu a presidir a Federação das Associações de Províncias do Japão no Brasil (KENREN) e que atualmente está à frente da Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo (ENKYO); a engenheira Harumi Arashiro Goya, a primeira mulher a assumir a presidência do Bunkyo e segunda uchinanchu a ocupar o cargo; Dr. Yokio Oshiro, um dos primeiros nikkeis a ocupar a Superintendência da Polícia Federal de SP e também o segundo uchinanchu a assumir a presidência da Aliança Cultural Brasil-Japão; dentre outros.

 


Kokei Uehara, Akeo Uehara Yogui, Arashiro Goya e Yokio Oshiro


 

Todos estes exemplos citados acima tornaram-se motivo de orgulho para a comunidade, que acabaram fortalecendo ainda mais identidade okinawana.

 

“Ichariba Chōdē”

 

Mais que simples provérbios, a frase “Ichariba chōdē” (ao nos encontrarmos somos todos irmãos) sintetiza o espírito okinawano em qualquer lugar do mundo, dando a ele, oriundo ou descendente de Okinawa, a certeza de que, não importa a sua nacionalidade, ele é verdadeiramente uchinanchu (palavra da língua okinawana que significa ‘pessoas de Uchinā’ [Okinawa]).

Este sentimento de identidade e pertencimento aconteceu comigo na primeira vez em que pisei em Okinawa, em 1995. Sou descendente de japoneses da terceira geração (sansei) por parte de pai e yonsei (quarta geração) por parte de mãe. Por possuir traços orientais, mesmo tendo nascido e ter sido criada no Brasil, os brasileiros sempre me chamavam de “japonesa”. Ao ir trabalhar como dekassegui no Japão, era considerada brasileira, ou gaikokujin (estrangeira) por ter nascido no Brasil; então, muitas vezes sentia um vazio e uma verdadeira crise de identidade por não saber realmente “o quê” eu era: no Brasil era japonesa, no Japão, era brasileira, mas de onde sou verdadeiramente?

Porém ao chegar a Okinawa pela primeira vez, fui recebida com a palavra “okaerinasai” (seja bem-vinda de volta para casa) por familiares, embora nunca tivesse estado lá anteriormente e nem tampouco tivesse tido contato antes com os mesmos; mas que eram tão próximos que era como se eu tivesse convivido a minha vida inteira ao lado deles. Um sentimento de estar de volta à terra natal sem ao menos ter pisado uma única vez na ilha invadiu o meu ser, conectando-me de volta às origens. Não fui a única a sentir esta identificação imediata e de pertencimento a um lugar que nem mesmo havia estado antes. A grande maioria de descendentes, independente de serem nisseis, sanseis, yonseis, também descrevem este mesmo sentimento, como se os antepassados estivessem à espera do retorno daqueles que um dia saíram em busca de um futuro melhor.

Durante um Fórum no qual participei como painelista em 2011, promovido pela Universidade de Ryukyu, durante a realização do 5º Sekai no Uchinanchu Taikai, relatei sobre este sentimento de encontro da minha identidade e um repórter japonês que cobria o evento veio me procurar após o término da apresentação para saber a minha opinião sobre o assunto, pois “há vinte anos – no primeiro Sekai no Uchinanchu Taikai – um nissei do Brasil havia dito durante o evento de jovens que ele não se considerava japonês, nem brasileiro e sim uchinanchu”, explicou o jornalista. Ele queria saber a razão pela qual os descendentes de okinawanos consideravam-se uchinanchus e não nativos de seu país de nascimento ou de origem, no caso o Japão. Expliquei-lhe que talvez este sentimento se deva à forma calorosa com que somos tratados em Okinawa, além do próprio sentimento de “voltar para casa” que todos relatam.

 


Fórum promovido pela Universidade de Ryukyu durante a realização do 5º Sekai no Uchinanchu Taikai, em 2011


 

Acredito que por isso, o “Sekai no Uchinanchu Taikai” (Festival Mundial dos okinawanos) – realizado pelo governo da Província de Okinawa a cada cinco anos desde 1990, têm tido grande êxito a cada edição, com o aumento contínuo de participantes estrangeiros a cada edição. Se os primeiros festivais tinham por intuito a volta dos emigrantes para a terra natal, a partir da quarta edição o objetivo passou a ser a continuidade do espírito okinawano entre as novas gerações e o fortalecimento do vínculo entre a província-mãe e os seus descendentes espalhados pelo mundo todo.

A palavra “Okaerinasai” era a mais utilizada e também a que dava maior sentido à emoção que todos sentiam por estar lá “de volta”, mesmo sem nunca ter ido antes.

 


Desfile da véspera da abertura do 5º Sekai no Uchinanchu Taikai


 

Prova disso foi o 6º Sekai no Uchinanchu Taikai, realizado em outubro de 2016, que contou com a participação recorde de quase 7.300 participantes estrangeiros de 28 países e regiões do mundo.

Pessoas de todas idades e dos mais variados países com o mesmo sentimento, irmanando-se ao longo da Kokusai Dori (principal avenida de Naha – capital okinawana), com acenos, abraços e muita emoção.

Esta cena acontece em todas as edições do evento durante o Desfile da Véspera da Abertura do Festival e é uma das mais emocionantes, pois vemos pessoas dos mais variados lugares do mundo unidas em um só coração; comprovando a veracidade da máxima: “Ichariba Chōdē” – Ao nos encontrarmos somos todos irmãos.

E para encerrar o evento com chave de ouro, durante a Cerimônia de Encerramento do 6º Festival foi instituído pelo Governador de Okinawa, Takeshi Onaga – o Dia Mundial do Uchinanchu, a ser comemorado no dia 30 de outubro, reafirmando o orgulho de ser uchinanchu. ❁

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cultura Japonesa – Vol. 6
Guerra e migração – a diáspora de Okinawa

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo – Setembro de 2017
Autores: Masaomi Ise, Akira Miyagi, Vanessa Shiroma Tinem, Ana Maria Tamashiro Higa, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi, Arnaldo Massato Oka (cap.5)
Revisão tradução: Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti
ISBN: 978-85-66358-03-2

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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