Cultura Japonesa Vol. 6 – Depoimento – A guerra na minha infância – de Chusei Takara – imigrante de Oroku, cidade de Naha, Okinawa

GUERRA E MIGRAÇÃO – A diáspora de Okinawa

A guerra na minha infância

Depoimento de Chusei Takara

 


Chusei Takara – nasceu em janeiro de 1935 em Oroku, cidade de Naha; Ex-Presidente da Associação Oroku-Tabaru Azajin do Brasil

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6, de Setembro de 2017

 

Chusei Takara

 

Senhor Chusei Takara. 82 anos – nasceu em janeiro de 1935 em Oroku, cidade de Naha. Sétimo filho de sua família. Três irmãos maiores emigraram para o Brasil até 1936. Depois da guerra, se juntou a eles a convite. Oroku tinha em seus arredores o porto de Naha, o Aeroporto de Naha e o abrigo subterrâneo que sediava o centro de comando da Marinha. Assim, ocupava ponto estratégico na rede de trânsito. Tornou-se por isso o primeiro alvo do bombardeio dos canhões da frota americana e se transformou em campo de intensa batalha. Em 1955, toda sua família veio para o Brasil. Dedicaram-se inicialmente à agricultura, mas foram posteriormente para São Paulo, onde abriram uma loja de materiais de construção. Veio a ocupar o cargo de presidente da Associação Oroku-Tabaru Azajin do Brasil. (A redação – Jornal Nikkey Shimbun)

 

 

Nasci como sétimo filho da Casa Miufuya, em Asa Oroku, cidade de Naha, Okinawa. Em 1936, foram para o Brasil desde o primogênito até o terceiro filho. O quarto filho teve morte prematura. Restamos o quinto, sexto filhos e eu, que com a terceira filha, vivíamos com os nossos pais.

 

Iminência da guerra

 

Quando eu completei 10 anos, numerosas tropas japonesas começaram a chegar em Okinawa continuamente. Diziam que a segunda grande guerra estava para se iniciar também em Okinawa. Entretanto, não haviam preparado casernas para abrigar os soldados. Por isso, escolas e edifícios públicos foram utilizados, e até residências populares passaram a abrigar pequenos grupos de soldados.

Sem outro recurso, os alunos se juntavam no pátio das escolas para terem aulas a céu aberto, mas houve muitos dias sem aulas. Diziam nesse período que, em comparação a Okinawa, onde a guerra estava prestes a iniciar, Hondo (as quatro ilhas principais do Japão) era ainda seguro, e se iniciava o movimento de evacuação dos alunos, acompanhados por professores e moças jovens para lá.

Mas um navio que transportava os alunos em retirada foi afundado por submarino inimigo. Todos morreram. Dois navios de carga que transportavam armas e munições foram também torpedeados, e por isso, o exército japonês em Okinawa viria a sofrer a escassez desses itens. O mar era vigiado por submarinos inimigos, impedindo o acesso a Okinawa.

Por ordem do exército, meu pai começou a escavar um abrigo antiaéreo. Seu quinto filho, de 17 anos, foi convocado para a defesa e foi ajudar os soldados. Meu outro irmão, sexto filho de 15 anos, foi para Kunigami conduzido por seus professores, para trabalhar como soldado lavrador.

 

Então a guerra

 

Em 10 de outubro de 1944, às 7 horas da manhã, aproximadamente, se iniciou o primeiro grande bombardeio. Tantos eram os aviões que o céu chegou até a escurecer.

O aeroporto de Oroku se achava a uns 5 quilômetros atrás da nossa casa, e o cais de Naha ficava a cerca de 1 quilômetro, e eram alvos dos bombardeios. Os aviões lançavam bombas sobre eles, e metralhavam. Tudo ao redor se transformou em mar de chamas, mas ao que parece, os soldados japoneses acreditaram a princípio que se tratava de exercício.

Contudo, ao perceberem a chuva de cápsulas que caiam do céu, gritaram: “ – Inimigo! ” dando início a uma grande confusão. Carregaram para fora as três metralhadoras que haviam sido instaladas na nossa casa, mas ficaram apenas observando o inimigo atacar imperturbado e se retirar, pois não receberam ordem para atirar.

Depois, em meio à guerra que prosseguia por meses seguidos, a população iniciou a evacuação buscando áreas seguras da ilha. O norte da ilha em particular era uma região de montanhas subaquáticas, e com certeza, devia ser mais segura. Assim, muitos procuraram essa área, entre eles o cunhado de meu pai e sua família.

Mas a área era pobre de terras cultiváveis, e muitos saíram para dekassegui. Os que permaneceram procuraram ganhar vida transformando as árvores das montanhas em lenha e vendendo-as em Naha. Não havia caminhões na época, e o transporte era feito em navios. A região era também pobre em produtos agrícolas, e muitas famílias tiveram de regressar, por falta de alimentos.

Nosso pai conhecia bem o extenso território de Okinawa. Imaginava que as praias arenosas de Kunigami eram propícias ao desembarque do inimigo, e que essa possibilidade era menor na região rochosa de Shimajiri, ao sul da ilha. Assim, nunca ia para Kunigami.

Mas em pouco tempo, a guerra se tornava cada vez mais intensa e trágica.

Os esquadrões inimigos sobrevoavam sem cessar cobrindo os céus de Okinawa, disparando suas metralhadoras de ambas as asas e lançando bombas o dia inteiro.

 

Aeronave de reconhecimento americana Stinson L-5 Sentinel também popularmente conhecida como tombo (libélula) pelo exército japonês e habitante local, sobrevoa sobre as ruínas da cidade de Naha, capital de Okinawa, em maio de 1945 (Foto ilustrativa – Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

 

Entretanto, não surgia sequer um caça japonês para lhes dar combate. O inimigo atacava livremente todos os dias e se retirava ao entardecer. Canhões antiaéreos eram disparados às vezes contra os enormes B29 que sobrevoavam os céus de Okinawa e se dirigiam a Hondo, mas não alcançavam a altitude do voo deles.

Enquanto isso, a minha família levava a vida recolhida em abrigo antiaéreo. Ao cair da tarde, quando os bombardeios cessavam, a mãe se via em apuros para preparar o jantar. Não podíamos produzir fumaça durante o dia. Ela esperava escurecer para começar.

Num dia, o inimigo atacou nossa aldeia. Em um instante o mar de fogo cobriu tudo e as casas foram queimadas. Os adultos que trabalhavam duro para treinamento de combate a incêndio antes da guerra, não conseguiram fazer nada. O fogo consumiu quase tudo e a nossa aldeia se tornou num dia só um monte de ruínas completamente pretos deixando apenas duas casas que escaparam do fogo.

As três cabras de nossa criação morreram queimadas sem ter para onde fugir. Nosso pai levou os restos assados ao abrigo e ofereceu a todos que lá se encontravam. Lembro-me que me alegrei pelo repentino quitute, sem ter consciência de seu sofrimento, inocente como ainda era.

A guerra se fazia cada vez mais intensa. A frota inimiga começava a disparar seus canhões. Granadas cruzavam os ares dia e noite. Elas vinham assoviando, com um rastro de fogo vermelho contra o céu escuro da noite, e caíam indiscriminadamente em toda parte. Explodiam, arremessando fragmentos, feito fogo de artifício.

Aquelas que caíam perto do abrigo assoviavam e explodiam em seguida. O abrigo dispunha de proteção contra o ar deslocado pela explosão, mas mesmo assim, um pouco da onda de choque penetrava nele.

Saindo do abrigo ao entardecer, quando o bombardeio havia cessado, vi que uma bomba caíra bem no meio da estrada abrindo uma enorme cratera e impedindo o tráfego.

Por sinal, impedir uma estrada nada significava para o exército japonês. Porque nenhum veículo militar estava em movimento devido à falta da gasolina.

Alguns dias depois, à noite, acompanhei com a vista uma coluna formada por cerca de 20 soldados, a metade deles armada com fuzis e a outra metade com lanças de bambu, que se dirigiam à frente para combater o inimigo que desembarcara em Shuri.

A situação se agravava cada vez mais com o passar do tempo. Mesmo assim, uma notícia alvissareira nos chegou um dia. Dizia que no Dia da Marinha, aviões amigos viriam em grande quantidade e exterminariam por completo o inimigo. Todos se alegraram e a esperança renasceu.

Entretanto, nenhum aparelho do exército japonês apareceu nesse dia. Quando a tarde caiu, um pequeno avião americano surgiu e se pôs a voar em círculos em atividade de reconhecimento, como, aliás, fazia todos os dias. Ele não atacava civis. Mas se fôssemos apanhados em companhia de soldados, teríamos graves complicações. Os navios eram notificados, e imediatamente, granadas viriam voando.

Certa vez, um canhão antiaéreo disparou de algum lugar contra esse avião de reconhecimento. A granada explodiu entre as suas asas, e ele fugiu rapidamente. Mas ao que parece, o avião achou que o disparo partira das proximidades do abrigo da nossa casa, e fomos expostos logo depois a intenso ataque por morteiros.

As granadas explodiam por toda parte estremecendo o abrigo da nossa casa quase ao ponto de desmoroná-lo. Os morteiros, assim como os canhões, disparavam dos navios da frota americana. As granadas dos morteiros vinham de dez em dez e caíam por todo o arredor. Os obuses dos canhões eram disparados um a um, mas explodiam com grande ruído e abriam crateras enormes no chão.

 

Fugindo do fogo

 

O alvo parecia estar nas proximidades, e tivemos assim de fugir do abrigo dois dias depois.

Os nossos avós nos disseram: “– Nós já somos velhos, queremos morrer aqui. Fujam vocês todos!” Fugimos todos juntos, nossos pais, minha irmã, eu, e também minha tia, cunhado e cunhada. Um quilômetro adiante, ouvimos uma série de explosões de morteiros. Pareciam ter caído nas proximidades do abrigo, mas continuamos fugindo sem parar.

Dois dias depois, alguém nos trouxe a notícia de que, de fato, as explosões que ouvimos naquele dia ocorreram bem próximas ao abrigo da nossa casa, e que outros abrigos próximos se desmoronaram soterrando vivas duas famílias.

Ao ouvir esta notícia, disse minha tia no dia seguinte: “– Não posso fugir deixando atrás meus sogros, que para mim são iguais aos meus pais”. E regressou à vila levando seus filhos, de 5 e 3 anos de idade, com aviões inimigos atacando por toda parte. Eu tinha muito medo, mas a tia foi verdadeiramente corajosa. Ao escrever esta história da minha vida, penso em como ela foi maravilhosa.

Hoje, sou também pai e tenho uma nora. Acho que meus avós foram felizes por possuírem uma nora como aquela. Ela regressara porque não podia abandonar os sogros envelhecidos, enquanto meu pai, que era filho deles, deixou-os e fugiu.

Os belos sentimentos daquela tia só me sensibilizam. Peço aos leitores desta minha história: como pais, ou como noras, o que acharam da conduta dela? A região para onde nos refugiamos era plana e segura.

Três ou quatro dias depois, vieram nos avisar que haviam sacrificado um cavalo, e sua carne estava à disposição para quem quisesse comprá-lo. Meu pai saiu imediatamente para adquiri-lo. Mas enquanto cozinhávamos a carne, vieram alguns soldados gritando: “– Fujam logo, o inimigo desembarcou em Minatogawa!”. Nós corremos, carregando o caldo de carne de cavalo.

Na entrada de um vilarejo, encontramos um conterrâneo e sua família. “– Para onde vocês estão fugindo?” – perguntou meu pai. Eles responderam que não tinham um destino e que nem haviam jantado ainda. Em vista disso, meu pai convidou-os para compartilharem o caldo de carne de cavalo que tínhamos trazido. Jantamos ali mesmo, de pé, e entramos no vilarejo. Meu pai disse que o vilarejo se chamava Arakachimeda, e que conhecia ali um residente.

Quando chegamos diante de uma casa, o pai nos disse: “É aqui que ele mora, vamos entrar”. Lá dentro, encontramos alguns moradores e soldados que procuravam se esconder. Passamos três ou quatro dias ali. Por todo lado, os bombardeios, do mar pelos canhões dos navios e do ar por aviões eram incessantes.

 

Kiku Higa (então com 17 anos de idade) e Zenkichi Higa (então com 25 anos) de Ozato que conseguiram sobreviver ao intenso bombardeio, caminham pelo recife de corais ao longo da costa em direção à área de encontro (Foto ilustrativa – Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

 

E em um desses dias, os arredores do nosso esconderijo se tornaram alvo dos ataques aéreos. Quadrilhas de aviões inimigos atacavam em sucessivos voos rasantes. Projéteis disparados pelas metralhadoras em ambas as asas destroçavam o telhado em rajadas horizontais. Lançavam três bombas de cada e ganhavam altura.

Todos, moradores e soldados, colavam-se nas paredes. Um projétil atingiu o ventre do menino a meu lado, que foi ao chão espalhando os órgãos internos. Meus pais se assustaram e fugiram para fora. Eu os segui e fomos nos esconder sob uma árvore imensa que havia no outro lado da rua.

Meu pai quis fugir dali, mas minha mãe apontou um avião que vinha em voo rasante, e hesitou um segundo, achando melhor sair depois que ele passasse.

O avião vinha descendo, disparando suas metralhadoras. Nesse momento, um projétil atingiu o joelho do meu pai, que ralhou: “– Você não me obedece, e por isso, fui atingido!”. Mas acho que se tivéssemos saído, toda a família poderia ter sido morta. Foi o destino. Nos escondemos em baixo da árvore, mas cometemos um erro. Estávamos voltados em direção do ataque.

O inimigo se retirara até o cair da tarde. Meu pai abandonava o fardo que levava às costas, e amparando o corpo com um galho de árvore, caminhava com dificuldade, fugindo junto com os outros também desse vilarejo.

Quando chegamos à encruzilhada nos limites do povoado, cinco ou seis pessoas, povo da vila e também três soldados, gemiam estendidos ao solo. Contudo, ninguém procurou socorrê-los, passando por eles fingindo não os ver. Todos estavam apavorados, não sabiam o que seria das suas vidas amanhã.

Cerca de cem metros adiante, do topo de uma colina onde subimos, era possível avistar o mar. Uma quantidade espantosa de navios de guerra inimigos se enfileirava no alto mar. De repente, nos demos conta de que, se fôssemos avistados por binóculos, seríamos liquidados. Engatinhando, abandonamos o local às pressas, e chegamos ao entardecer à entrada do povoado seguinte, onde havia escombros de uma refinaria incendiada.

Era improvável que o inimigo surgisse naquelas horas, mas por alguma razão, um avião surgiu não se sabe de onde, atacou os retirantes que seguiam pela estrada e sumiu.

Entramos nesse vilarejo e passamos outra vez alguns dias ali. Novamente, projéteis começaram a chover do mar e do céu. Assim, meus pais resolveram fugir também dessa vila.

Diante de uma casa, minha mãe disse à minha irmã mais velha que aguardasse ali tomando conta da nossa bagagem, e começou a caminhar carregando meu pai ferido nas costas. Eu a segui, carregando a bagagem que ela levava. Andamos cinquenta ou sessenta metros apenas, quando granadas de morteiro começaram a cair. Corremos para dentro de uma casa próxima. Uma granada caiu no jardim da casa e explodiu, cobrindo-nos de terra.

Minha mãe voltou sem se incomodar com a chuva de granadas que caia para buscar minha irmã. Eu me sentei, e nesse instante, um fragmento atingiu meu calcanhar. Meu pai me passou apressadamente sua toalha, e eu a amarrei com firmeza no meu pé. Pouco depois, minha mãe voltou, sem encontrar minha irmã. Achava que ela fora, com certeza, atingida por alguma granada e, abatida, começou a chorar.

Abateu-se ainda mais ao me ver ferido. Como louca, foi para a rua parando um por um os transeuntes, para perguntar-lhes se não haviam visto sua filha. A preocupação dela se estendeu por três dias e três noites, até que surgiu uma pessoa que disse ter visto minha irmã em outro lugar. Ela pulou de alegria e se dirigiu imediatamente ao encontro dela.

Ela havia sido socorrida e acolhida por uma família. Ao que parece, se seus pais não fossem encontrados, a família pretendia, terminada a guerra, recebê-la como nora da casa. Mamãe, segundo dizem, foi procurar a família levando de presente meio litro de querosene, em sinal de agradecimento.

 

A morte diante dos olhos

 

Tínhamos chegado até Shimajiri no sul de Okinawa, de fuga em fuga – uma região rochosa e com pouca água. Para viver, os habitantes da aldeia se aproveitavam do único poço existente.

O inimigo sabia que havia água ali, e lançava ataques sucessivos. Todos os dias, quando ia ao poço, minha mãe contava que via algumas pessoas mortas no local.

Mas a maior pena que sentiu foi quando viu um bebê chorando, sugando o seio da mãe morta. Diz ela, sem poder conter as lágrimas: “Gostaria de salvar a criança, mas o que fazer, se eu mesmo poderia morrer a qualquer momento, nem comida tínhamos, e com o marido e filho feridos! Assim não dava para criar um bebê. Foi com o coração partido de dor que o abandonei ali, como estava!”

 

Corpo de Fuzileiros da Marinha dos Estados Unidos que entrou na Cidade de Naha, podendo ser alvejado pelos soldados japoneses, avança apressadamente de uma casa a outra sem poder parar, em 13 de maio (Foto ilustrativa – Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

 

Aquela aldeia estava sendo submetida também a ataques violentos, não havia outro jeito senão fugir para a aldeia vizinha. Minha mãe seguiu até lá carregando às costas meu pai, que desnutrido, não conseguia mais andar. Depois, retornava para carregar nossa bagagem, e na terceira viagem, me levava às costas. Quando penso no sofrimento que lhe causamos, meus olhos se enchem de lágrimas mesmo hoje.

Havia um estábulo na entrada da aldeia de Fukuji. Quando entramos nele, encontramos também ali, escondidos, muitos aldeões e soldados, e juntamo-nos a eles. Passaram-se mais alguns dias, quando por acaso, meu irmão mais velho apareceu de repente em companhia de quatro ou cinco soldados. Veio com um saco de arroz, para distribui-lo entre o exército sediado na área.

Meu irmão pediu permissão ao seu superior para separar uma pequena porção do arroz para a sua família, e assim, recebemos dele um punhado. Depois, ele se despediu e partiu. Pessoas entravam e saíam desse estábulo todos os dias. Certo dia à tarde, uma jovem de seus vinte anos chegou carregada com ferimento no rosto. Ela adormeceu sentada.

Enquanto ela dormia, uma granada de canhão explodiu sobre o teto, e um fragmento feriu a base do polegar da minha mão esquerda. O sangue caía entre as minhas pernas. O corte aberto chegava até a ponta do dedo. Com a mão direita, abri o ferimento para ver se não havia restos de fragmento, mas nada havia. Mesmo nessa confusão, os homens repararam na jovem ainda adormecida, e foram acordá-la. Já estava morta.

Não se podia deixá-la ali, e por isso, alguns homens ainda fortes carregaram o corpo dela e o deixaram dentro de uma cratera aberta por uma granada. Dois ou três dias depois, uma outra granada explodiu sobre o cadáver entumecido, despedaçando o corpo da jovem. Nada restou dele.

 

Tanques expelem fogo

 

No dia seguinte, meus pais e minha irmã mais velha saíram à procura de outro abrigo, me deixando sozinho. Pouco depois, comecei a ouvir um ruído estranho. Ele se aproximava e se intensificava. Olhei em direção ao lado de onde ele vinha, e vi quatro enormes tanques inimigos passando em frente ao estábulo. Seguiram por cerca de 200 m e estacionaram adiante. Soldados inimigos que vinham atrás rodearam os tanques.

Os soldados japoneses que estavam no interior do estábulo se lançaram ao ataque ao ver o inimigo, mas foram imediatamente abatidos. Os tanques passavam a queimar as casas com lança-chamas, Os habitantes foram com certeza queimados pelas intensas labaredas. Os tanques retornaram, e estacionaram diante da cabana em que eu me achava.

 

Tanque Sherman do 32º Regimento de Infantaria da Marinha dos Estados Unidos ataca a base do exército japonês pela colina ao nordeste de Makabe, em 22 de junho (Foto ilustrativa – Okinawasen Kiroku Shashinshuu – Nihon Saigo no Tatakai – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – A última batalha do Japão – Publicação Gekkan Okinawa)

 

Mesmo criança, percebi que chegara a minha vez, e me conformei. Um soldado desceu de um dos tanques e foi conversar com seus companheiros. Depois, os tanques se puseram novamente em movimento e se retiraram. Enfim, desapareceram. Eu me sosseguei.

Minha mãe veio me buscar ao entardecer e fugimos todos dali. Nós achávamos que já estávamos no extremo sul de Okinawa. Até porque não havia mais para onde ir. Foi quando encontramos algumas famílias de regresso. Diziam: “Se vamos morrer de qualquer maneira, prefiro morrer em casa (na minha aldeia)”. Lamentavam ao meu pai que queriam voltar a Naha, mas não sabiam como, de onde estavam.

Meu pai então lhes disse que conhecia o caminho. E lhes propôs que, se pudessem carregar nós dois, poderia ir com eles até Naha. Todos aceitaram a proposta. Dois homens carregaram o pai sobre duas estacas de madeira. A mim, me carregaram às costas, e fomos seguindo de dia pela estrada por onde os tanques se retiraram.

 

Salvos pelo inimigo

 

Ao chegarmos em Itoman, meu pai lhes disse: “– Aqui é Itoman”. Eles então responderam que conheciam o caminho dalí para frente, e nos abandonaram lá mesmo. Minha irmã, porém, seguiu com eles desobedecendo a mãe, que chegou até a bater nela. A mãe foi então atrás dela, para trazê-la de volta à força. Não regressou mais.

Disseram, quando terminou a guerra, que um nissei americano disfarçado de japonês de Okinawa apontou para eles a direção de onde havíamos vindo e disse que havia inimigos nessa direção, acenando para segui-lo. Todos foram atrás dele.

No ponto onde meu pai e eu fomos deixados, havia um abrigo subterrâneo. Fomos então passar a noite na entrada desse abrigo. Cedo de manhã, surgiu um soldado americano que abriu uma lata de conserva para o pai. Ele então me disse para sair, porque os soldados americanos estavam lá. Mas assustado, eu fiquei sentado onde me achava. Nem conseguia me mexer de pavor.

Então um deles me carregou para fora, apesar da minha resistência, e me abriu uma lata de conserva, com bondade. Meu pai me disse para comer sem medo, não estava envenenado. Depois de comer, fomos levados a um hospital de campanha.

 

Soldado americano oferecendo sopa às pequenas irmãs encontradas no abrigo (Foto ilustrativa – (Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

Médico do exército americano atendendo uma criança cujo braço foi severamente ferido em meio à batalha, em 21 de junho (Foto ilustrativa – (Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

 

Éramos, eu e o meu pai, os primeiros de uma longa fila de feridos. Um médico do exército americano rasgou a faixa que envolvia a perna do pai e viu que havia vermes ali. O ferimento fora tratado todos os dias com gordura de porco e sal, exceto aquele dia, quando utilizamos o dia inteiro medicamento embebido em gaze fornecido por soldados japoneses.

O médico militar americano e enfermeiras de Okinawa se desdobravam em atender os feridos um após outro. Vermes surgiam quando abriam ferimentos em braços, ou até no seio de uma senhora. Terminados os curativos, fomos internados eu e o meu pai em uma tenda de hospital de campanha, deitados em camas lado a lado.

Três dias após, disseram que o hospital seria movido, e diversos pacientes, eu inclusive, fomos levados para fora. Mas o deslocamento não se deu nesse dia. Enquanto isso, eu me arrastei engatinhando pouco a pouco para perto da tenda onde meu pai se achava, e vi que ele estava ainda ali.

Dois dias depois, disseram outra vez que o hospital seria deslocado, para onde não se sabia. E todos os pacientes foram postos em caminhão. Todas as vezes que ele passava por estradas esburacadas, os feridos gemiam, choravam, gritavam de dor. Alguns até apelavam chorando pela mãe. Quando o caminhão chegava a uma aldeia, os pacientes recebiam água. Os habitantes vinham com carinho nos dar água, para todos, um a um. Nunca a água me pareceu tão saborosa, não me esqueço até hoje.

Depois, partíamos novamente, gemendo por estradas acidentadas. Eu começava a ter convulsões. Sentia a espinha repuxar levando a cabeça para trás. O sol forte provocava calor e sede. O motorista do caminhão, um soldado americano, percebia a situação e nos levava até a próxima aldeia onde o povo era mantido em custódia. Os habitantes internados vinham nos atender com o mesmo carinho, trazendo-nos água. E o caminhão seguia adiante.

Eu urinava sentado, e até chegar ao hospital de campanha em Kushi, Kunigami, tive três convulsões. Estava com tétano, e os sintomas começavam a se manifestar, mas não havia como saber disso naquele momento. Três pessoas morreram antes de chegarmos ao nosso destino.

 

A morte do pai

 

Fui internado com meu pai nesse hospital de campanha, mas nem pude comer o bolinho de arroz distribuído pela enfermeira. Encontrava dificuldade até em abrir a boca, nem um grão de arroz descia pela minha garganta. Assim, o bolinho de arroz permaneceu sobre a cama. Um senhor de meia idade que estava na cama ao lado e dizia conhecer bem os sintomas de tétano, chamou a enfermeira para avisar que, sem dúvida alguma, o menino estava com tétano, e pediu encarecidamente que cuidasse de mim.

Assim, um médico militar me veio examinar. Ele me aplicou uma injeção imediatamente, e me preparou uma papa de arroz. Depois disso, o tétano começou a ceder aos poucos. Conseguia abrir a minha boca e comer.
Desde que me internei naquele hospital, nunca me deu vontade de defecar e nem me lembro de tê-lo feito. Mas quando comecei a andar livremente, fui pela primeira vez acometido de vontade de ir ao banheiro. Tudo graças àquele senhor, e me sinto profundamente grato a ele.

Poucos dias depois de ter sido levado ao hospital, pessoas da vizinhança e conterrâneos começam a aparecer à procura de parentes desaparecidos. Pude conversar bastante com eles.

Certo dia, a enfermeira me avisou que estavam transferindo meu pai para outro lugar. Eu lhe pedi então que me levasse junto, mas só meu pai foi transferido. Acreditei que as condições de saúde dele tivessem decaído. Fiquei observando para onde eles o levavam. Vi que ele foi posto em uma tenda próxima, que eu podia ver de onde me achava.

Alguns dias depois, minha tia veio me ver, e me perguntou como estava meu pai. Eu lhe disse que ele havia sido transferido para a tenda que se enxergava dali. Ela foi imediatamente para lá, mas regressou sem poder encontrá-lo. Ele havia falecido.

Disse-me a tia que naquele dia, enquanto preparava a refeição da manhã, havia ouvido meu pai dizer, quem sabe em sonho ou em ilusão, que “não dava mais, estava no fim”. E por isso, viera correndo. Foram essas as últimas palavras do meu pai para a sua cunhada, transmitidas quem sabe por telepatia.

 

Fim da guerra

 

Quando me recuperei e já conseguia andar sem problemas, chegou uma notícia maravilhosa.

O Japão fora derrotado e a guerra terminara em 15 de agosto de 1945. Ao ouvirem a notícia, todos se alegraram, soldados americanos e enfermeiras. Eu também fui tomado de grande alegria, porque compreendi, embora criança, que podia, agora, me tranquilizar.

 

Em 2 de setembro de 1945, Mamoru Shigemitsu, Ministro das Relações Exteriores do Japão, acompanhado à direita por Shun’ichi Kase, assina a ata de rendição do Japão, sob o olhar atento do General Richard K. Sutherland

 

Dias depois, meu irmão mais velho soube que eu estava internado em um hospital em Kushi e veio me ver. Estive nesse hospital por quase três semanas. Enquanto isso, certo dia, meu irmão me trouxe carne, que cozinhou numa lata pois não havia panelas. Nunca havia comido carne tão saborosa. Nessa noite, eu me empanturrei.

Soube depois por ele que a carne fora conseguida dos restos da cozinha dos soldados americanos. Eu já estava saudável. A enfermeira me deu alta, e me trouxe uma farda grande, de soldado americano.

Quando ela me disse para vesti-la e deixar o hospital, todos caíram em gargalhada. A farda dava e sobrava para dois de mim, pois eu era franzino. Meu irmão então me disse: “Deixe que eu visto isso. Você vai vestir minha roupa”. Acabei deixando o hospital com a roupa dele no corpo.

Como nós éramos menores de idade, nos orientaram para que procurássemos um orfanato, mas meu irmão replicou que não, que regressaríamos para a nossa aldeia, e voltamos a Kushi.

Em Kushi, recebemos pela primeira vez a nossa ração de arroz, ou seja, dois copos por pessoa, mas o problema era como cozinhar esse arroz. Naquela época, quase ninguém possuía utensílios de mesa ou panelas, substituídos por latas. Pusemos em uma lata duas pequenas porções de arroz apanhadas com a ponta de três dedos, e com duas tigelas de água, cozinhamos papa de arroz que comemos.

Na praia, havia grande quantidade de pequenos moluscos, podíamos colhê-los à vontade. Todos aproveitavam para preparar caldos com eles. Vivia nas proximidades um menino, na época com de 12 anos, com a mãe. Chamava-se Koei Teruya, A mãe sofrera graves queimaduras, causadas por uma granada atirada dentro do abrigo antiaéreo em que se achava, mas já estava aparentemente recuperada.

Meu irmão, que não suportava mais a escassez de alimentos, disse que sabia onde encontrar comida, e foi procurá-la. Ao sair, convidou o menino Teruya a ir com ele, já que não conseguiria carregar a comida deles, e ademais, ele estava suficientemente crescido. Dois dias depois, eles retornaram trazendo grande quantidade de provisões. Certo dia, soldados japoneses apareceram, e perguntaram se não podíamos vender-lhes essas provisões. Nós recusamos, pois dinheiro não tinha valia naquelas circunstâncias.

Mas fomos roubados, durante a noite. Por isso, passamos desde então a dormir em cima das provisões. Meu irmão continuava procurando por comida, levando uma turma de rapazes das redondezas.

Certa tarde, fomos receber uma turma de Naha levando a irmã de um rapaz, membro dessa turma. Entretanto, havia um policial postado na saída da aldeia, e fomos barrados. Mas essa irmã conhecia o policial, e conversou com ele para nos deixar passar. Seguimos adiante até encontrar a turma, e no retorno, demos três ovos de presente ao policial, em sinal de agradecimento, e voltamos à aldeia.

O ferimento do meu pé estava completamente curado, graças ao tratamento diário na enfermaria da aldeia. O acesso a muitas aldeias estava bloqueado logo após o fim da guerra. As pessoas não conseguiam regressar livremente para suas aldeias.

Nessas circunstâncias, um nissei americano cujo nome não me recordo, descendente de emigrantes de um certo vilarejo, pediu permissão ao governo para desbravar uma área a dois quilômetros do vilarejo, e convidou os aldeões a viverem com ele nesse local. Tivemos admiráveis nisseis americanos, como ele.

Por outro lado, quando três parentes nossos andavam nessa época pela área de acesso proibido à procura de alimentos, um nissei, que falava japonês chegou em um jipe e lhes perguntou para onde estavam indo. Prontificou-se a levá-los em seu jipe. Mas acabou conduzindo-os à delegacia onde foram encarcerados. Se fosse um nissei japonês, deveria alimentar quem sabe um profundo rancor contra o povo de Okinawa.

 

À procura da minha mãe

 

Uma tia residente em Ginoza nos avisou que a minha mãe se achava em Ishikawa, embora não soubesse precisamente onde. Para ir até Ishikawa à procura dela, devíamos passar cá e lá por áreas de acesso proibido. Meu irmão foi pedir passaporte do governo.

 

Residentes secam a roupa no campo de Ishikawa, então uma aldeia deserta, que se via de repente com a população de milhares de habitantes, em 4 de julho (Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

 

Mas não lhe deram passaporte até Ishikawa. Podiam expedir passaportes até Ginoza. Nós então resolvemos aceitar provisoriamente e partir para Ishikawa.

Koei Teruya e o rapaz de Naha quiseram vir conosco, porque tinham também parentes em Ishikawa. Koei juntou-se a nós deixando sozinha a mãe. A tarde caiu antes de chegarmos a Ishikawa. Decidimos descansar em um depósito de lixo do exército americano.

Encontramos um estrado que sustentava uns dez tambores. Havia debaixo dele espaço suficiente para podermos dormir, e resolvemos passar a noite ali. Mas vieram depois sete ou oito rapazes que procuravam comida e se juntaram a nós para dormir. Estava escuro, e alguém acendeu uma vela. Ela foi derrubada enquanto dormíamos, e o fogo se alastrou pelas redondezas.

Ninguém se atrasou em fugir, mas essa noite, tivemos que esperar a madrugada chegar debaixo das estrelas. Partimos de manhã para Ishikawa, onde chegamos por volta das três horas da tarde.

Na entrada do vilarejo, um policial nos pediu o passaporte. Mostramos então o que nós tínhamos trazido. Quando o policial observou que ele só valia até Ginoza, meu irmão apresentou uma explicação: “– Temos uma tia em Ginoza, mas nossa mãe vive em Ishikawa. O passaporte saiu errado, indicando Ginoza em lugar de Ishikawa, mas o menino (eu) não percebeu quando foi buscá-lo. Mas nós estamos à procura da nossa mãe em Ishikawa”. O policial foi compreensivo. Deixou-nos passar.

Encontramos por acaso nossa mãe, cujo endereço nem sabíamos. Tamanha foi sua alegria, que ela se pôs a dançar, chorando. Não estava bem de saúde, mas mesmo assim, ia trabalhar todos os dias.

Na época, o pagamento era feito não em dinheiro, mas em cupons que davam direito à troca por comida. Tanto Koei como o rapaz de Naha, que como nós, ignoravam o endereço dos parentes – pais e irmãos – puderam por felicidade encontrá-los surpreendentemente em pouco tempo. Penso que Deus nos proporcionou o encontro.

Okinawa era um deserto calcinado onde quer que se voltasse a vista. Áreas de acesso restrito se espalhavam por toda parte. A população impedida de retornar às suas aldeias era agrupada e abrigada em aldeias externas às áreas proibidas. O governo construía apressadamente abrigos provisórios para acomodá-los.

Eu mesmo, em Kunigami, Kushi, habitava um desses abrigos recém-construídos. Era um barracão sem portas, semelhante a um estábulo, onde vivíamos juntamente com outras duas ou três famílias.

Não era diferente em Ishikawa. Em um espaço de 9 metros quadrados viviam 12 pessoas, inclusive um rapaz de mesma idade do meu irmão. Ambos saiam frequentemente à procura de alimentos, e retornavam quase sempre carregado de víveres e até roupas, tanto que nossa mãe deixou de trabalhar.

Naquela época, todos viviam com a roupa do corpo. Quase sempre, não havia sequer um cobertor para mitigar o frio da noite, mas nos quartéis do exército americano, havia muita sobra de farda e cobertores deixados por soldados que retornaram à pátria, que podíamos receber. E assim, pudemos de alguma forma dormir as noites frias aquecidos.

 

Muraokushi

 

Não sei dizer com certeza quanto tempo passamos em Ishikawa, mas lá pelas tantas, a vila de Oroku foi liberada. Nós podíamos regressar à nossa aldeia. Doze aldeias integram a Vila de Oroku: Oroku, Tabaru, Kanagusuku, Uebaru, Takara, Gima, Gushi, Akamine, Ashimine, Toma, Miyagusuku e Omine. No entanto, foram liberadas apenas as aldeias de Takara e Uebaru, que acolheram a população de todas as doze aldeias.

Para moradia, haviam casas construídas pelo exército americano, e também tendas de campanha onde viveram durante certo tempo 4 famílias, em harmonia, ajudando uns aos outros.

Oroku e Tabaru foram também liberadas, mas não restava uma única casa para morar. Organizou-se um “muraokushi”, que mobilizou jovens e idosos para reconstruir a aldeia. É um procedimento antigo adotado em épocas de crise, que reúne as pessoas em grupos de cinco ou seis, que se dedicam à reconstrução da aldeia unidos pelo espírito de mútua cooperação.

Na época, dava-se preferência à reconstrução coletiva da aldeia a reconstruir individualmente a vida, ganhando cada um dinheiro. As aldeias não dispunham de muita água. Ela devia ser buscada a um quilômetro de distância pela estrada da aldeia.

A administração de Okinawa esteve a cargo do governo americano de 1945 a 1972. O regime de racionamento foi interrompido a partir do momento em que a população alcançou autossuficiência. À medida que a aldeia se recuperava, surgia a necessidade de resolver o problema da educação das crianças. Não havia ainda salas de aula para elas. Estudavam sob o céu aberto. Kanagusuku, vizinha a Tabaru, se tornara base militar americana e seus habitantes não podiam regressar a ela. Estavam sendo recolhidos em Tabaru.

Nessas circunstâncias, o povo das aldeias de Oroku, Tabaru e Kanagusuku uniram esforços para construir uma escola. Ela foi construída com cobertura de palha, e paredes feitas de toldos de tendas do exército americano. Possuía 12 salas de aula e uma sala para professores. Meus colegas, tanto de classes mais avançadas como de classes inferiores, estavam mais atarefados em construir a escola do que em estudar. Mas enfim, todos puderam estudar ao abrigo de ventos e chuvas.

 

Mougakko

 

Cinco colegas de Koei Teruya: Masahiro Takara, Shin-ichi Teruya, Saburo Teruya, Koei Takara e Yoshio Uehara vieram de manhã cedo chamá-lo para irem à escola. Mas a mãe de Koei lhes disse para irem sem ele para a escola, porque Koei precisava trabalhar nesse dia na roça. E não permitiu que o filho fosse.

Os meninos, porém, cabulavam as aulas e iam para o “mougakko” (literalmente, escola da floresta), ou seja, iam brincar na floresta. Logo após o término da guerra, restavam por toda parte ainda muitas granadas de canhões não explodidas. Os meninos retiravam delas cápsulas de pólvora que enfiavam nos bolsos e iam brincar.

Ateavam fogo nessas cápsulas e as atiravam para o ar para vê-las disparar soltando faíscas. Enquanto se divertiam dessa forma, uma cápsula inflamada saltou para dentro do bolso de um dos meninos.

Tentaram apagar o fogo, o que era difícil. Houve gritaria, e nisso, o fogo se propagou também para dentro do bolso de um outro menino. A confusão aumentou.

Por acaso, havia nas proximidades uma enorme cratera cheia de água. Todos pularam para dentro dela. Um rapaz que trabalhava na roça próxima percebeu a confusão e veio correndo. Retirou da poça d’água os meninos feridos e os levou para o hospital. Infelizmente, Koei Takara e Saburo Teruya morreram.

Meninos que sobreviveram à guerra perdiam as vidas preciosas vitimados por granadas espalhadas por todos os lados. Triste história.

Logo após o término da guerra, muitos lavradores também perderam suas vidas preciosas poupadas durante a guerra por granadas não explodidas disparadas pelo exército americano ou por minas enterradas pelo exército japonês, que explodiram em contato com suas enxadas.

O governo então ordenou ao povo das aldeias que recolhessem em um só lugar todas as granadas e explosivos de espécies diversas que encontrassem para lançá-los todos ao mar. Os mortos em combate foram também ajuntados e enterrados. Uma lápide memorial foi erguida. O povo, tendo à frente o alcaide, ergueram preces pela alma das vítimas da guerra. A tristeza e o sofrimento dos familiares dessas vítimas não terminavam com a guerra.

Viúvas de guerra, em particular, não tinham onde buscar sustento da vida. Desesperadas, carregando crianças que choravam famintas, muitas delas não tiveram outro recurso senão trocar por dinheiro a castidade que dedicaram ao marido. Não foram poucas as pobres mulheres que a isso foram obrigadas, maldizendo o marido falecido.

Naquela época, falava-se muito em “façanhas de guerra”. Esse termo era empregado em referência a atos de bravura como a destruição de navios ou aviões inimigos, Mas em Okinawa imediatamente após a guerra, isso valia também para roubo de propriedades do exército americano.

Em certa aldeia, os pais diziam que não dariam a filha em casamento a um homem incapaz de realizar “façanhas de guerra” como essas. A alma do povo, arruinada pelas dificuldades da vida em consequência da batalha sangrenta, levava a recorrer a tais façanhas. Quando o povo recuperou a tranquilidade, ninguém mais passou a se gabar dessas ações.

Na época em que eu frequentava o curso primário, nós éramos educados em regime militarista, e ensinados a morrer com bravura em nome do imperador. Devíamos regressar mortos à pátria. Mas ninguém queria de fato morrer quando chegasse a hora.

Tive uma parente, mulher com bebê, que se escondera com alguns combatentes civis em um abrigo antiaéreo. O bebê começou a chorar de fome quando o inimigo se aproximava. Então, um desses combatentes, temeroso que o choro do bebê atraísse o inimigo e fossem atacados, ordenou a ela que aquietasse o bebê. Mas por mais que a mãe desse o seio ao bebê para amamentá-lo, o leite não saía, porque ela estava desnutrida. O combatente então arrebatou o bebê da mãe, e afogou-o enfiando sua minúscula cabeça em água.

Ouvi história semelhante também de um amigo. Quando a mãe dele, gravemente ferida, gemia pedindo por água, um soldado, temeroso que o esconderijo onde se achavam fosse descoberto, ordenou-o que lhe desse logo água para beber. Os filhos sabiam que não deviam dar água à mãe, mas pressionados pelo soldado, fizeram a mãe tomar a água que o soldado lhes empurrava em um cantil. Logo depois, a hemorragia sobreveio e levou a mãe de Jintoku Uehara de 11 anos e seus 4 irmãos menores. O pai deles havia sido morto em combate, e eles foram deixados aos cuidados da avó, que teve de cuidar das 5 crianças, até ela mesmo falecer deixando órfãos as pobres crianças, que foram criadas em uma instituição governamental como órfãos de guerra até atingirem a fase adulta.

Vê-se assim que, embora educados para oferecerem nobremente a vida pela pátria, muitos preferiram sobreviver mesmo à custa do sacrifício dos mais fracos. Essa é a tragédia da guerra. Contudo, o Japão, país pobre de recursos, combateu nessa trágica guerra munido apenas de coragem. Perdoem-me as vítimas da guerra, mas eu acredito que foi bom o Japão ter sido derrotado.

Diz o ditado que a rã dentro do poço desconhece o oceano. Mas terminada a guerra, essa rã veio a conhecer o oceano. Desenvolveu-se através do intercâmbio com países estrangeiros, importando novas técnicas e cultura. Termos como pré-guerra e pós-guerra, em voga a partir de 1945, irão certamente desaparecer com o passar dos tempos.

 

Nossa mãe

 

Embora mulher sem instrução, não faltava à nossa mãe sabedoria proporcionada pela vida. Soube educar perfeitamente os seus filhos. Tudo que ganhava, guardava cuidadosamente para o dia de amanhã. Na época em que alguns soldados japoneses residiam na nossa casa, eles costumavam dar a ela o arroz cozido que lhes sobrara das refeições. Nossa mãe ressecava o arroz mais uma vez e o guardava. Quando, enfim, a guerra começou, esse arroz ressecado nos foi de muita serventia.

No período de escassez da comida, logo após o término da guerra, ela colhia diversas folhas de ervas e flores da montanha e algas que cresciam junto às pedras do mar, para ressecá-las e conservar para comer. Nós nem percebemos, mas parece que ela cozinhava com habilidade até ratos. Hoje, essas coisas serão certamente motivo de riso. Nossa mãe ressecava sempre sobras de alimento, por pouco que fossem, para compensar a falta de comida.

Levava para a cidade até vegetais cultivados em casa para consumo próprio para vendê-los. Juntava o dinheiro assim obtido, centavo por centavo, para qualquer eventualidade. Até o débito da bebida consumida fiado por meu irmão, que gostava de beber, ela às vezes chegava a pagar. Ou seja, ela nos ensinou muitas coisas.

Ainda me lembro de um ditado que ela nos ensinou em dialeto de Okinawa: “Douniru fushin ya aru”, dizia o ditado que Deus habita em nossos corpos. Com isso, ela nos ensinava repetidamente, que a nossa alma construía a nossa personalidade, sem necessidade de depender de outros. Com o decorrer da idade, passei a entender ensinamentos como esse, que quando jovem nem me atraíam atenção.

 

Mais o trabalho que a escola

 

A guerra havia terminado e o governo precisava exportar algum produto de Okinawa para conseguir dólares. Contudo, nem isso era possível, pois Okinawa não possuía indústria. Por felicidade, o exército americano proporcionou trabalho ao povo da província em forma de produção militar com salários pagos em dólares, que o governo convertia e guardava. O governo também instruía a população para não comprar produtos importados dando preferência a produtos nacionais, e o povo colaborava. A moeda da época era o tíquete militar que valia cerca de 120 yens. O tíquete militar era um cupom emitido pelo exército em sítios de guerra e de domínio. Era utilizado como moeda corrente.

A maioria dos meus colegas se matriculara em curso colegial depois de formados e prosseguiram estudando, mas eu decidi trabalhar aos 17 anos de idade, após concluir o curso ginasial. Eu me encontrava muitas vezes com meus ex-colegas agora colegiais no ponto de ônibus, quando me dirigia ao trabalho levando o lanche quente preparado pela minha mãe. Nessas horas, um misto de inveja e vergonha me assaltava. Eu recebera treinamento e certificado do exército para o serviço nas docas, e trabalhava carregado e descarregando navios.

Trabalhei com afinco para receber salário mensal de 3 mil ienes, que entregava à minha mãe. E fazia a felicidade dela, que dependia desse salário. O sonho dos jovens daquela época era ser motorista, que encontrava muito trabalho nas bases americanas e recebia bom salário.

Mas comecei a ouvir que o Brasil estava recebendo imigrantes de Okinawa. Não havia muito futuro em Okinawa, e, além disso, a população passou por um surto de crescimento. Por isso, resolvi emigrar ao Brasil a convite dos meus três irmãos que já viviam no país, vendendo todo o patrimônio legado por meus antepassados para o custeio da viagem.

Okinawa perdera mais de 140 mil habitantes vitimados pela guerra. Mas com a derrota, os dekasseguis de Okinawa que haviam deixado o país estavam regressando à terra natal, provocando o surto populacional.

A abertura do Brasil aos imigrantes de Okinawa se deu exatamente nesse momento em que o governo de Okinawa estava às voltas com esse crescimento da população. Assim, para tirar proveito dessa oportunidade, o governo resolveu financiar o custo da viagem, inicialmente por cinco anos, e depois começou a assumir o custo integral aos pretendentes à emigração ao Brasil. Por esse motivo, muitos emigrantes foram para este país.

 

Emigração

 

Parti do porto de Naha em 17 de julho de 1955. Depois de mais de 50 dias no mar, desembarquei no porto de Santos em 6 de setembro e dei o meu primeiro passo no Brasil. Permaneci temporariamente na casa de parentes em São Paulo, e depois viajei para o interior em trem noturno.

Cheguei à estação de Diamantina, na linha Paulista, às 9 horas da manhã, e fui depois de ônibus até a cidade de Dracena. Dali, fui de carroça para o sítio. Fiquei aos cuidados da família do meu irmão mais velho, e comecei a aprender o português com meus sobrinhos, que falavam um pouco o japonês. Eu tinha experiência de trabalho de roça em Okinawa, mas aqui a coisa era bem diferente.

No entanto, meu irmão que vivia em São Paulo me comunicou que comprara uma fábrica de doces e que não conseguia administrá-la sozinho. Pedia que eu fosse ajudá-lo, e assim, me transferi para São Paulo em 1957. Aqui, o trabalho começava às 7 horas da manhã e se estendia normalmente até 10, 11 horas da noite.

Casei-me em 1960, e ficamos, eu e minha mulher, sob os cuidados do meu irmão e sua família. Tivemos um filho e uma filha. Minha mulher era japonesa, mas viera aos dois anos de idade para o Brasil. Assim, dominava tanto o português como o japonês, como um nissei. Com ela, aprendi muito o português. Na fábrica, todos falavam em dialeto de Okinawa, mas eu procurava ao máximo utilizar o português.

Isso porque achava não ser bom permanecer muito tempo dependente de meu irmão. Pensava iniciar negócio próprio algum dia. Mas se passaram mais de 12 anos até me decidir finalmente a me tornar independente. Meu cunhado administrava uma loja de materiais de construção, e eu comprei um caminhão. Comecei a trabalhar no comércio de areia, pedregulho e tijolos.

Acordava todos os dias às 3, 4 horas da manhã. Com dois ajudantes, ia carregar areia, pedregulho e tijolos atendendo aos pedidos, para entregá-los diretamente na obra o carregamento de dois ou três caminhões. Depois de trabalhar dessa forma por mais de 10 anos, eu já conseguia falar razoavelmente o português. Meu filho havia crescido e estava com 14 anos. Comecei então a pensar em ter minha própria loja de materiais de construção, e fui consultar meu cunhado. Ele aprovou a ideia e me prometeu ajudar. Alugamos um terreno e construímos uma loja. Iniciei ajudado por 3 empregados, minha mulher e meu filho no intervalo das aulas.

O tempo passou. Meu filho cresceu, nosso comércio prosperou. Nisso, compramos um terreno que estava à venda à frente da loja, e construímos um edifício, tendo a loja no andar térreo e residência no andar superior. Mudamo-nos para lá. Tanto meu filho como a minha filha se casaram, considerei terminado o meu dever de pai. Vieram os netos. Entreguei a loja à responsabilidade do meu filho.

Descendente de Okinawa e integrante da sociedade nipo-brasileira que sou, nunca esqueci a minha terra natal. Queria legar para a posteridade a cultura e a tradição de Oroku. Assim, enquanto ocupei o cargo de presidente da Associação Oroku-Tabaru-azajin do Brasil, pude organizar em 2005, em colaboração com diversos conterrâneos, a comemoração tradicional do Kushukui.

Os naturais de Oroku se dedicaram desde tempos antigos principalmente à agricultura e ao comércio. Assim, os aldeões se reuniam uma vez ao ano para venerar o Miroku e agradecer pela colheita dos cinco cereais e prosperidade nos negócios no final da colheita. Passam um dia feliz, cantando e dançando o dia todo. Esse é o festival do Kushukui.

 


Em 14 de julho de 2005, foi realizado o tradicional Festival de Kosiyukui pela primeira vez na Associação Okinawa Kenjinkai de Vila Carrão, cidade de São Paulo. Organizado pela Associação Oroku-Tabaru-Azajin do Brasil, contou com a presença de mais de 500 pessoas onde foi possível confirmar fortes vínculos dos conterrâneos


 

Para finalizar, quando penso nos imigrantes pioneiros do período pré-guerra, no sofrimento que enfrentaram ao começarem a vida em um país estranho, sem conhecer uma palavra sequer do português e sem ninguém para ensinar, fico profundamente comovido. Educaram seus filhos em regime brasileiro, e quando finalmente eles se tornaram aptos a ajudar os pais, a guerra começou, foram hostilizados pelos brasileiros. Não posso deixar de me emocionar sempre que imagino o árduo caminho que tiveram de trilhar.

O Japão perdeu a guerra, e com isso, a esperança de retornar triunfante à pátria desvaneceu. O Brasil tornou-se nossa perpétua residência. Quero deixar aqui os meus respeitos aos imigrantes veteranos que com sangue e suor nos construíram as bases da sociedade nipo-brasileira de hoje. ❁

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cultura Japonesa – Vol. 6
Guerra e migração – a diáspora de Okinawa

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo – Setembro de 2017
Autores: Masaomi Ise, Akira Miyagi, Vanessa Shiroma Tinem, Ana Maria Tamashiro Higa, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi, Arnaldo Massato Oka (cap.5)
Revisão tradução: Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti
ISBN: 978-85-66358-03-2

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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