Cultura Japonesa Vol. 6 – A Batalha de Okinawa – Os dois guardiões da ilha

GUERRA E MIGRAÇÃO – A diáspora de Okinawa

 

Os dois guardiões da ilha
que salvaram 20 mil provincianos em Okinawa

 

Dois oficiais do governo se empenharam em evacuar o povo para o norte da ilha e armazenar provisões, ante a iminência da invasão do exército americano.

 


Texto de Masaomi Ise 

Referência: (1) “Okinawa no Shimamori – Naimu Kanryo Kaku Tatakaeri” (Os guardiões da Ilha – Assim lutaram os Funcionários do Governo) Yozo Tamura, Chukobunko, 2006.
Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6, de Setembro de 2017

 

 

Taizo Arai (esquerda) e Akira Shimada

 

 

“Os dois guardiões da ilha que salvaram duzentos mil provincianos” revela japoneses de Hondo empenhados em reduzir os danos causados aos okinawanos. A descrição dos esforços desenvolvidos por eles é de certa forma realizada do ponto de vista do continente, mas põe em relevo a realidade que, do ponto de vista de Okinawa, “exceto os 200 mil, os demais foram sacrificados.” (Redação Japonesa do Jornal Nikkey Shimbun)

 

 

Os dois guardiões da ilha
que salvaram 20 mil habitantes

 

Em Okinawa, transformado em palco de batalha no período final da Guerra do Pacifico, dois oficiais do governo foram louvados como guardiões da ilha pelos habitantes pelos ingentes esforços que desenvolveram para tentar salvar o máximo de pessoas. Foram eles Akira Shimada, governador da Província de Okinawa, e Taizo Arai, chefe de Polícia.

Os dois trabalharam para evacuar 20 mil okinawanos para fora da província ou para áreas seguras ao norte da ilha. Pode-se dizer que um em cada três dos 600 mil habitantes da ilha na época, tiveram as suas vidas salvas por essa providência.

Enquanto havia outros colegas policiais que fugiam para o Japão nas vésperas da batalha, Arai permaneceu para comandar a operação de retirada na qualidade de chefe de polícia. Shimada, então, entrou em Okinawa apenas dois meses antes do ataque do exército americano, disposto a morrer na ilha. Rememoramos aqui como foi a vida deles.

 

Convocação da reunião
de emergência do gabinete
para tratar da evacuação
dos provincianos de Okinawa

 

Em julho de 1943, Arai tomava posse do cargo de chefe de polícia de Okinawa aos 42 anos de idade. Ele, que havia trabalhado como policial no Japão e também em diversas localidades da Manchúria ocupada, estava particularmente satisfeito com esta nomeação, que lhe permitia contato com o ambiente de clima aberto do sul.
Entretanto, a situação na frente de batalha se deteriorava: o exército japonês sofria derrota em Guadalcanal, e aniquilação na Ilha Attu de Ilhas Aleutas. Ao chegar em Okinawa, Arai revelou sua decisão: “Okinawa é a base avançada de defesa do Japão. Por isso, quero antes de tudo, dedicar todo meu esforço para cuidar da defesa aérea.”

Um ano depois, em 7 de julho de 1944, o governo japonês decidia, em reunião de gabinete, evacuar para o Japão e Taiwan todos os residentes de Okinawa acima de 60 anos e menores de 15 anos: mulheres, crianças e idosos. Nesse dia, Saipan havia caído levando à aniquilação completa o exército de defesa de 31 mil homens e vitimando doze mil residentes japoneses. Havia o temor que essa situação se repetisse em Okinawa.

Fora o Estado Maior do Quartel Geral quem dera a sugestão da evacuação. A existência de grande número de civis em campo de batalha não apenas contribuía para o aumento das baixas, como também desviava uma parcela considerável do esforço de guerra para a defesa dessa gente. A lógica militar corrente recomendava a evacuação dos não combatentes da área de guerra.

E também, na época, Okinawa importava 2/3 das 57 mil toneladas do arroz consumido anualmente de Taiwan e outras províncias japonesas. Por isso, caso essa importação por via marítima fosse interrompida pela guerra, a alimentação do povo se faria difícil.

O povo de Okinawa, entretanto, embora sentisse a proximidade da guerra, não se animava à evacuação, pois havia ainda um clima de paz na ilha. E idosos, mulheres e crianças se afligiam ante a ideia de se deslocar, eles apenas, a lugares onde não poderiam contar com parentes. Mas Arai fora nomeado responsável pela operação da evacuação, e assim, ordenava à polícia inteira que pregasse ao povo a necessidade da evacuação realizando conferências e visitas domésticas.

 

“Adeus, papai!”

 

Além disso, Arai procurou dar início ao processo e evacuação fazendo partir os familiares dos policiais e funcionários da polícia em primeiro lugar, mesmo para permitir que eles trabalhassem sem se preocupar com a segurança da família, quando a guerra se iniciasse.

E em 21 de julho, finalmente, o Amakusa Maru, primeiro navio de evacuação, partia do porto de Naha transportando 752 retirantes, membros de família de funcionários públicos e dos policiais. Entre eles se achavam a esposa, cinco filhos e duas filhas do superintendente Toshitake Kumazaki, chefe do departamento de transportes da polícia, nessa época com 42 anos de idade. Katsuya, seu quarto filho com 6 anos de idade, que cursava então o primeiro ano do primário em escola pública, lembra-se ainda dos acontecimentos do dia com muita clareza:

“Embora fosse criança ainda, recordo-me que a partida foi muito apressada, como se estivéssemos sendo enxotados. Me haviam posto em roupa que usava só em ocasiões especiais, com um chapéu novo na cabeça, sapatos novos e uma mochila às costas.
Mamãe carregava o bebê e levava minha irmã de 3 anos, meus irmãos mais velhos carregavam tudo que podiam levar e fomos assim para o porto de Naha. O cais se enchia de parentes dos retirantes que vieram para a despedida. Papai também tinha vindo”.

Eles subiram no navio passando pela rampa, e quando a embarcação se pôs em movimento, o ar se encheu de gritos: “Adeus, papai”, “Adeus Okinawa!” – gritavam acenando as mãos sem cessar. As crianças pequenas não se deram conta, provavelmente, de que a despedida do pai poderia lhes ser para sempre.

 

A tragédia do Tsushima Maru

 

O navio parava com frequência, para evitar o ataque de submarinos inimigos, e assim, levaram duas horas até Kagoshima.

Certo dia, um vulto escuro e alongado passou rente ao casco do navio, erguendo espumas quase à superfície das águas. “Uau! Que peixe enorme!” – excitado, gritou o menino Katsuya, mas foi contido pelo tio que viajava com ele, que o agarrou com força e ralhou: “- Fique quieto!” O objeto era um torpedo lançado contra o navio por um submarino inimigo. O Amakusa Maru se salvara por um triz!

Os tripulantes que se achavam nas proximidades estavam todos pálidos, mas guardaram segredo para não alarmar os passageiros.

Entretanto, não demorou para que o fato viesse a público. Em 5 de agosto, o Tsushima Maru, que transportava 825 estudantes e 836 retirantes, era atingido por um torpedo disparado por um submarino americano e submergia em alto mar, a 260 quilômetros a sudeste de Kagoshima. Somente 117 pessoas se salvaram. Torpedear navios carregados de civis não combatentes constitui crime de guerra.

 


Tsushima Maru – navio de evacuação do exército japonês


 

Entre as vítimas, constavam a esposa e seis filhos do inspetor-assistente Shinsei Kuniyoshi, da polícia da cidade de Nago. O incidente, entretanto, foi tratado como segredo de guerra e abafado. Kuniyoshi, que perdera a família, teve assim que prosseguir trabalhando na operação de evacuação dos civis escondendo no peito toda a tristeza que sentia.

O acidente deixou Arai pesaroso, mas era necessário superar a tragédia e executar a evacuação planejada, para poder salvar o maior número possível do povo de Okinawa. Como resultado, 187 navios ao todo partiram de Okinawa entre julho de 1944 e março do ano seguinte transportando aproximadamente 73 mil retirantes. Não se registraram ataques, com a exceção apenas do caso Tsushima Maru.

 

Interferências à evacuação

 

Os trabalhos de Arai foram, porém, perturbados pela oposição do governador à evacuação. O governador deixava vazar à imprensa seu discurso contrário à evacuação, dando motivo a boatos de que “o governador se opunha à evacuação, que estava sendo executada à revelia pelo chefe de polícia”. Esse boato começou a se espalhar entre o alto escalão do governo da província. Arai foi convocado à câmara provincial e submetido a questionamento dos membros.

O governador alegava como motivo da oposição que “dava pena enviar velhos, mulheres e crianças ao Japão, onde a língua e os costumes são diferentes”, mas esses argumentos não eram convincentes em face da situação vigente na época.

Mas isso deu lugar à maledicências. Pessoas sussurravam que, na verdade, o governador queria fugir de Okinawa para outra província, mas não conseguia por causa da confusão gerada pela evacuação, e por isso, se opunha a ela.

Enquanto Arai procurava desesperadamente evacuar o povo para fora da província, o governador se dirigiu a Tóquio, a serviço, e lá permaneceu por quase um mês, provocando novo boato. O povo começava a sussurrar que o governador estava se movimentando para ser transferido para outra província. Tomando conhecimento desse boato, o governador registrou em seu diário: – “Querem me boicotar? Que ótimo, eu aceito com alegria! Povo idiota! Estou farto de Okinawa!”

O vice-governador, chefe do departamento de Política Interna, foi outro a sabotar o trabalho de Arai. Declarou em transmissão radiofônica da sucursal de Okinawa da NHK, dirigida ao povo da província: – “Estamos convictos de que o inimigo jamais desembarcará em Okinawa”. Essa transmissão causou enorme repercussão entre o povo, e lançou água fria sobre o movimento de evacuação, que começava a ganhar ímpeto.

Na verdade, o vice-governador também pensava em fugir o quanto antes de Okinawa, raciocinava que seria difícil solicitar transferência se não pudesse manter um clima pacífico em Okinawa por mais algum tempo. E por isso, torpedeava o movimento de evacuação de Arai.

Esse vice-governador, posteriormente, enquanto esteve em Tóquio a serviço, fugiu e foi se esconder em uma estância térmica nas montanhas do interior da Província de Ohita, onde nem telefone havia, alegando “tratamento de doença gástrica”.

Arai, entretanto, prosseguiu lutando para evacuar ao máximo o povo de Okinawa, mesmo sabotado por dois altos funcionários do governo da Província: o próprio governador e o seu vice.

 

O primeiro grande bombardeio

 

O primeiro grande bombardeio por aviões americanos ocorreu em 10 de outubro, levantando chamas e fumaça escura em diversos pontos da cidade de Naha. O governador se escondeu em pijamas no abrigo antiaéreo da sede do governo e nem procurou se inteirar da situação na cidade. E o vice-governador se achava ausente, “a serviço”, como dissemos atrás. Assim, Arai assumia sozinho, na sede do governo, a tarefa de comandar as operações de socorro à população e combate ao fogo.

Nos intervalos do bombardeio, percorria de carro a cidade para inspecionar as atividades das companhias de guarda e dos bombeiros, despachados para áreas diversas. No caminho, foi perseguido por caças inimigos e metralhado, mas conseguiu desvencilhar-se deles de alguma forma. Encorajados pela determinação do chefe de polícia, as companhias de guarda e os bombeiros inspecionados se animaram e se esforçaram no combate ao incêndio, mas nada puderam fazer diante das intensas labaredas que varriam a cidade.

A sede do governo foi poupada, mas o governador fugia para o escritório regional de Futenma distante 12 quilômetros, obrigando os funcionários a se deslocarem até lá carregando pesados volumes de documentação.
A população se revoltava: “- É inadmissível que o chefe fuja, numa situação como essa!” Dias depois, o governador compareceu à sede do governo, mas bastava soar o alarme antiaéreo para fugir imediatamente a Futenma. Por isso, sua autoridade caiu por terra.

Arai, entretanto, dizia: “- Eu não vou a Futenma, de forma alguma!” e permanecia firme na sede do governo. A residência oficial fora consumida pelo fogo. Assim, ele passara a dormir em uma trincheira próxima, de onde vinha todos os dias.

Até o 32º Exército sediado em Okinawa deixava de dar atenção ao governador ou o seu vice, e recorria a Arai para tudo: reforço dos túneis horizontais para defesa antiaérea, aumento da produção de alimentos, fornecimento de insumos militares, suporte ao trabalho, garantia da capacidade de transporte, tudo pesava sobre os ombros de Arai.

Por outro lado, o povo privado de suas moradias incendiadas e pobre de roupas e comidas, invadia a sede do governo para serem evacuados. Com o bombardeio, ficava evidente aos olhos de todos o quanto o empenho de Arai pela evacuação tinha sentido.

 

“Consultem o Shimada”

 

Prevendo o desembarque das forças inimigas, o comando do 32º Exército planejou ampliar a evacuação de idosos, mulheres e crianças para a região norte da ilha. Essa região era montanhosa e coberta de floresta, e era improvável que se tornasse palco de batalha.

O governador, contudo, objetou outra vez. “Enxotar o povo para essa região montanhosa, sem área para cultivo, fará com que eles morram de fome antes mesmo de a guerra iniciar” – dizia. Mas não oferecia qualquer outra alternativa para proteger o povo.

O comando do 32º Exército havia elaborado o plano de evacuação preocupado em evitar de alguma forma a tragédia de Saipan, quando civis japoneses residentes no local foram exterminados na guerra. Por isso, a negativa do governador provocou a ira dos militares: “Quanta bobagem diz o governador, trata-se de salvar a população!”

Consideraram então tomar ações drásticas: estabeleceriam em Okinawa uma lei marcial, o comando do exército tomaria o poder executivo, e o governador passaria a subordinar-se a ele. Isso alarmou o Ministério do Interior, que se veria desmoralizado se essa ideia fosse posta em prática. E afobadamente, resolveu destituir o governador.

O problema era agora, achar quem o substituísse. Claramente, Okinawa se tornaria palco de batalha. Três ou quatro candidatos foram consultados, todos aceitavam o cargo de governador, mas não em Okinawa.

Então, o general Ushijima, no comando do 32º Exército, sugeriu: “– Consultem o Shimada.” Akira Shimada, de 43 anos, era na época chefe do Departamento de Política Interna de Osaka, mas exercera anteriormente o cargo de chefe de polícia do Consulado Geral de Xangai, quando conhecera Ushijima e com ele estabelecera amizade.

 

“Está claro que aceitei!“

 

Ele recebeu a consulta na manhã de 11 de janeiro de 1945. Tomava o café da manhã sentado à mesa com a mulher e filho, quando o telefone tocou. O governador Kiyoshi Ikeda, que morava na residência oficial do governo, vizinha à sua casa, o convocava: “Dê um pulo até aqui agora, precisamos conversar.”

Shimada retornou após um tempo relativamente longo, e disse, em sotaque de Kobe que lhe era peculiar: “Fui indicado para ser governador de Okinawa”.

Mikiko, sua mulher, sentiu o sangue gelar em suas veias, e perguntou: “E então, o que respondeu?” Shimada respondeu calmamente: “– Está claro que aceitei!”

Assustada, Mikiko indagou em pânico: “– Mas vai ter guerra daqui a pouco em Okinawa! Por que você tem que ir a um lugar como esse?”

Shimada respondeu: (1, p. 140)

 

“Se alguém vai ter mesmo que ir, e me pedem, como é que eu posso recusar? Se fizer isso, alguma outra pessoa terá que ir. Eu não posso mandar alguém ir, eu não quero …
Se eu fosse jovem e recebesse um ‘papel vermelho’ (ordem de convocação) seria obrigado a ir para qualquer lugar, sem questionar. Mas se eu recusar porque posso, seria covardia da minha parte, e nem teria coragem de andar pelas ruas.”

 

Nem vida, nem fama

 

A nomeação de Shimada ao cargo de governador de Okinawa se deu no dia 12 seguinte, por decisão do gabinete e foi oficializado nesse mesmo dia.

Ele chegou a Okinawa para tomar posse do cargo em 31 de janeiro. Despediu-se da mulher e do filho na Estação de Osaka. Ele nunca mais voltaria a vê-los. Dentro da mala que carregava, levava junto com seus dois livros prediletos, o “Saigo Nanshu Ikun (Pensamentos Póstumos de Saigo)” e o “Hagakure”, uma espada japonesa, dois revólveres e cianeto de potássio para suicídio. Dissera à mulher: “– Não está certo que eu vá morrer”, mas viajava preparado para isso.

 

“É difícil lidar com pessoas que não querem a vida, nem a fama, nem cargos ou dinheiro. Entretanto, apenas pessoas como essas são companheiros confiáveis para repartir as agruras e sofrimentos, sem os quais não se consegue realizar obras de valor para o país.“

 

São palavras de Takamori Saigo, que se aplicam inteiramente a Shimada, que desembarcava ousadamente em Okinawa, com o desembarque do exército americano já próximo, a apenas 2 meses.

 

“Este chefe não vai nos abandonar”

 

Shimada tomou posse como 27º governador da Província de Okinawa em 31 de janeiro de 1945. Em seu discurso de posse, após agradecer os funcionários pelas dificuldades que passaram debaixo dos bombardeios incessantes, disse:

 

“Os olhos e ouvidos da nação inteira se voltam nesse instante à Província de Okinawa. Ela foi a primeira a ser bombardeada e experimentar a guerra. A Província servirá de exemplo. Nós iremos erguer o ânimo do povo do país inteiro. Sei que é difícil, mas comecem mostrando disposição! Vamos com alegria!“ (1, p. 157)

 

Os funcionários sentiram que o novo chefe não os abandonaria, e que poderiam segui-lo até o fim.

Poucos dias após a posse, certa personalidade influente da ilha veio visitá-lo, e disse: “– O governador anterior fugiu, é imperdoável. O senhor terá trabalho.”

Shimada respondeu:

 

“Paciência, qualquer pessoa preza a vida. Eu também tenho medo de morrer. Mas meu medo maior é ser chamado de covarde. Se eu não viesse, alguém teria de vir… Cada homem depende disso que se chama sorte…” (1, p.160)

 

Incidentalmente, o governador anterior, enquanto em Tóquio onde fora a pretexto de “discutir a evacuação dentro da província solicitada pelo exército de Okinawa”, era transferido como governador para a Província de Kagawa. Faleceu em 1984 aos 86 anos, sem nunca voltar a pisar o solo de Okinawa. Viveu quem sabe o resto de sua longa vida com receio de ser chamado de covarde.

 

Plano de evacuação
de 90 mil pessoas em dois meses

 

No oitavo dia após a posse, Isamu Chō, chefe do Estado Maior do 32º Exército procurou Shimada na sede do governo. Fora apresentar seus cumprimentos a Shimada, que por solicitação do comandante, general Ushijima, assumira ousadamente o governo de Okinawa – cordialidade jamais demonstrada ao ex-governador.

Nessa oportunidade, Shimada recebia de Cho duas solicitações: apressar a evacuação de idosos, mulheres e crianças à região montanhosa ao norte da ilha, ante a iminência do desembarque americano, e garantir provisões para seis meses para eles.

Eram medidas de extrema urgência, para poder salvar o máximo de vidas, e Shimada trabalhou com rapidez. Na tarde desse mesmo dia convocou uma reunião de emergência, de gerentes e chefes de departamento, para discutir o plano de ação. E interrompeu todas as atividades normais relativas à política interna e economia, para que todos se concentrassem apenas nos trabalhos de evacuação e armazenamento de alimentos.

Com respeito à evacuação, planejou evacuar 40 mil pessoas em fevereiro, em 8 vilas da região metropolitana de Kunigami, ao norte, e abrigá-los em escolas, escritórios regionais e outras construções existentes. E também construir novos abrigos e evacuar um pouco mais de 50 mil pessoas em março.

Para isso, mobilizou todo o Departamento de Obras Civis da província e deslocou parte da equipe de educação, aqueles que se relacionavam melhor com o povo, à primeira linha de evacuação. O planejamento foi cuidadoso. Contando os já evacuados até aquela data, o total de evacuados chegaria a 150 mil pessoas. Shin-ichi Odo, secretário na época, recorda: (1, p. 166)

 

“Outra coisa não se pode dizer da habilidade administrativa (de Shimada) se não que ela foi brilhante. ..
Ele próprio dirigia as reuniões, cortava de pronto os excessos de conversa e opiniões verbosas, e conseguia extrair opiniões em escala ampla. Assim que se chegava a uma conclusão, passava imediatamente ao assunto seguinte. Ocorriam situações críticas, e assim, tratava o tempo com preciosidade.
Acredito que quem mais se alegrou com a chegada do chefe foi o senhor Arai, chefe de polícia. Até então, ele arcava com tudo e sofria sozinho. Ao ver os dois juntando as cabeças e confabulando amigavelmente no meio da reunião, todos nós achávamos: ‘Ah, que bom!’, e nos alegrávamos do fundo d’alma.”

 

Os funcionários do governo se uniam em um só grupo ao redor do governador Shimada e do chefe de polícia Arai. Iniciava-se a luta para salvar o povo, mesmo que fosse uma pessoa a mais.

 

Convencer o povo relutante

 

Para incentivar a evacuação, Shimada se dirigia ele próprio às regiões onde o povo não demonstrava interesse, nos intervalos de suas atividades intensas, para esclarecer em auditório das escolas públicas quanto à necessidade da evacuação. O secretário Odo relata sobre isso: (1, p187)

 

“Nessa época, o sentimento de respeito às autoridades era forte em Okinawa. Um governador nomeado pelo Imperador era o mesmo que o Imperador em pessoa. A chegada de uma autoridade como essa à vila era motivo para todos comparecerem ao auditório. E por cima, sua linguagem era fácil e acessível. Conquistava de uma vez a simpatia de todos.”

 

Terminada a palestra, iniciava-se o levantamento da situação local por meio de visitas aos lares. As casas a serem visitadas já estavam previamente determinadas, mas o governador sempre incluía algumas outras de improviso, dizendo: “– Espere um pouco, senhor Odo, vamos dar uma chegada naquela casa”, e se punha a conversar com seus habitantes. Muitas vezes, as pessoas relutavam porque se preocupavam com a plantação e a criação. Shimada as ouvia com atenção, e depois tentava convencê-las: “– Mesmo assim, é melhor evacuar, porque ficar é perigoso.”

A sua maneira descontraída e acessível levava muitas das famílias visitadas assim de improviso a não imaginar que estivessem na presença do governador, e tomavam um susto muito grande quando vinham a saber, mais tarde, que se tratava dele mesmo.

Mas todo esse esforço surtiu efeito. A extraordinária realização, de evacuar 90 mil pessoas em apenas dois meses, se concretizava. A cena da evacuação é descrita da seguinte forma pelo seu responsável, na época:

 

“A multidão formada por idosos, mulheres e crianças que se deslocava das regiões do centro e do Sul fugindo da guerra em direção ao norte, ocupava inteiramente a estrada de Nago, na costa oeste, e a estrada de Kin, na costa leste. A fila extensa de pessoas se movia em direção Norte noite e dia sem cessar.
Certamente, nenhuma página dos mil anos de história de Okinawa, registram cenas tão tristes como essas.”

 

“Por favor, salve o povo de Okinawa!”

 

“Assegurar provisões suficientes para 6 meses” foi outro problema sério. O arroz produzido na época em Okinawa dava quando muito para garantir por 3 meses a comida de seu povo. Um emissário foi despachado a Taiwan, para negociar a importação de arroz.

Entretanto, Taiwan previa também a invasão de tropas americanas e não possuía reservas de arroz para enviar a Okinawa. As negociações se faziam difíceis. Ao receber relatório do emissário dando conta da situação, Shimada voou para Taiwan para participar também ele das negociações. Foi uma viagem arriscada, uma vez que o inimigo havia tomado a supremacia tanto no ar como no mar.

Mas Shimada possuía admiradores também no governo colonial japonês de Taiwan, cujo apoio foi essencial para obter a remessa de 3 mil koku (450 toneladas) de arroz.

Não havia, entretanto, navios para o transporte. Shimada procurou o Departamento de Transporte do governo colonial para resolver o problema. Disseram-lhe então que o Departamento acabara de providenciar no dia anterior transporte marítimo de arroz para o porto de Karen, na região leste de Taiwan, que enfrentava também escassez de alimentos. Sugeriam que solicitasse a cessão desse arroz.

A pessoa a contatar era Sadakichi Eguchi, funcionário do Departamento de Polícia da administração portuária de Karen. Shimada conversou diretamente com Eguchi, por telefone. Eguchi, simples funcionário, deve ter se assustado ao saber que falava com um governador. Mas Shimada punha de lado a hierarquia e relatava a Eguchi a situação crítica em que Okinawa se encontrava, e terminava apelando: – “Senhor Eguchi, por favor, salve Okinawa!”

Eguchi foi tomado por uma profunda frustração, pois a custo, conseguira o transporte. Mas ponderou que a situação de Karen era ainda melhor que a de Okinawa, e respondeu: – “Se não há outro jeito, então paciência. Por favor, leve a carga com cuidado. Meus respeitos, imagino quanto sofrimento passou!”

Graças à atitude sincera de Shimada e a bondade de Eguchi, 3 mil koku de arroz foram entregues com segurança no porto de Naha. Os policiais trabalharam a noite toda para efetuar o desembarque da carga, transportando-a para o recinto do centro de treinamento de artes marciais existente na sede do governo de Okinawa.

Era um dojô espaçoso, de 100 tsubo. O arroz empilhado chegava até o teto. Posteriormente, caminhões militares o transportaram para as regiões diversas. Esse arroz salvou grande parte do povo de Okinawa da morte por inanição.

 

“O inimigo trabalha bem!”

 

O bombardeio antecedente ao desembarque das forças americanas se iniciou desde a manhã de 23 de março. Um ataque maciço de mil e centenas de aviões provenientes de porta-aviões cobriu a ilha toda. A agradável ilha do sul se transformou imediatamente em um inferno.

Os policiais que vieram apressadamente à sede do governo se equiparam e se puseram de prontidão no abrigo de emergência à frente da sede. Pedaços dos obuses antiaéreos disparados pelo exército japonês caiam sibilando do céu. Informações de bombardeios chegavam continuamente, de diversas regiões de Okinawa.
– “Olá, estão todos bem? O inimigo está ativo, não?” – Dizia Shimada, que surgia com um capacete na cabeça. Os policiais se descontraíam, ao ver o governador imperturbável.

No dia 24 seguinte, 30 navios da força tarefa da marinha americana, couraçados inclusive, surgiram no oceano ao sul de Okinawa desde a manhã e deram início a um violento bombardeio com os canhões da esquadra. E durante a semana seguinte que antecedeu o desembarque das tropas, 5100 toneladas de granadas foram disparadas de 219 navios contra a bela ilha, uma verdadeira tempestade de aço.

Shimada distribuiu os funcionários dispersando-os em abrigos distantes alguns quilômetros, e de lá passou a comandar a evacuação, a distribuição de víveres e a construção e manutenção de abrigos.

 

A vida nos abrigos

 

O abrigo onde Shimada se achava tinha o formato de um túnel mineiro de 150 metros, e abrigava uma centena e algumas dezenas de pessoas. A umidade interna era elevada, provocando suor intenso a qualquer movimento.

Era necessário alargar o túnel. A terra escavada era colocada em cestos e transportada de mão em mão pela multidão enfileirada. “– Vamos lá, me deixe ajudar!” – Shimada se enfiava sujo de terra no meio deles, passando os cestos de terra. E acrescentava para não constranger as pessoas: “– Isto é bom para a saúde, pois sofremos falta de exercício físico dentro do abrigo”.

As refeições, preparadas em conjunto, constavam de “nigirimeshi” (bolas de arroz) e sopa, mas algumas pessoas, tanto funcionários como gente da aldeia, se preocupavam em enriquecer a refeição do governador acrescentando algumas enguias e carpas colhidas em campos alagados de arroz das proximidades. Shimada aceitava agradecido apenas uma pequena parte das oferendas, e pedia para distribuir o restante aos que se achavam feridos. Eram mensageiros que se feriram ao sair, muitos deles sofrendo, espalhados pelo interior do abrigo.

 

Salvem os retirantes

 

As tropas americanas que desembarcaram em 1 de abril iniciavam aos poucos a incursão ao sul da ilha em meio à ferrenha oposição do exército japonês. E no dia 24, expedia-se uma ordem de evacuação ao sudeste a todos os não combatentes residentes na capital Naha e em Shuri.

Para proporcionar meios de receber os retirantes, realizou-se no dia 27 uma reunião no salão de aproximadamente 70 tatamis, existente no interior do abrigo, em que foram convocados 17 prefeitos e alcaides de cidades e vilas da região sul, 4 chefes de polícia e outros agentes, totalizando quase 100 pessoas. Todos se achavam coberto de barro, pois tiveram de se arrastar pelo chão para fugir dos bombardeios.

Shimada disse: “– Estou bem ciente de que não temos provisões e abrigos em quantidade suficiente, mas peço-lhes que exercitem o companheirismo em relação a essas pessoas com quem compartilhamos os riscos da morte” – e curvou a cabeça diante deles.

E acrescentou: “– Não há vergonha maior para os que estão no governo que deixar o povo passar fome, mesmo que a guerra seja violenta ou que se prolongue “ – e os instruiu a realizar o plantio de batatas e a colheita de trigo e soja durante a noite, à luz do luar.

A reunião terminou por volta das 6 horas. Prefeitos e alcaides espreitaram os intervalos do bombardeio para regressarem às suas cidades e vilas. Eles arriscavam corajosamente suas próprias vidas para cumprir a pesada responsabilidade de proteger a população. Com os olhos úmidos, Shimada e Arai acompanharam o regresso deles.

As instruções de Shimada foram executadas nas vilas e cidades do sul. Os camponeses combinaram aumentar a produção de alimentos. Decidiram também em reuniões nas vilas que “os retirantes poderiam colher e comer livremente o que havia em qualquer plantação”. Presume-se que muitos retirantes foram salvos por essas medidas.

 

A torre dos guardiões da ilha

 

Em fins de maio, o 32º Exército se retirou da frente de Shuri deslocando-se para Mabuni, no extremo sul da ilha de Okinawa, o último reduto de resistência. Shimada decidia enfrentar o fim ao lado do comandante Ushijima. Em 8 de junho, dissolveu o governo e ordenou aos funcionários: “– Vivam, e trabalhem pela reconstrução de Okinawa”. E ordenava que escapassem.

Um repórter de um jornal, com quem mantinha amizade, veio despedir-se dele. E lhe disse, em voz baixa: “– Governador, o senhor já fez o suficiente para o povo desta província, desde que foi nomeado. O senhor é um oficial civil, poderia, em último caso, levantar as mãos e sair, porque não?”. Imediatamente, Shimada ergueu a cabeça e respondeu:

“– Meu senhor, você acha que eu, autoridade maior da Província, posso voltar vivo? Você sabe com certeza quantos naturais de Okinawa morreram, não? “

Derrotado, o comandante de um exército deve cometer suicídio assumindo a responsabilidade pela morte de seus subordinados. Da mesma forma, o oficial maior do governo da província deveria assumir a culpa pela morte de provincianos em grande número. Essa era a convicção de Shimada.

Em 23 de junho, o comandante Ushijima cometia suicídio no abrigo do comando do exército em Mabuni, e a resistência organizada de Okinawa cessava. Arai falecia vítima de disenteria amebiana dias depois. Acredita-se que Shimada tenha se suicidado com um revólver em um abrigo natural, em litoral das proximidades.

Talvez Shimada e Arai julguem não ter feito o suficiente para proteger a população da província, mas fato é que eles salvaram muitas pessoas, pela evacuação de 200 mil dentro e fora da província, pela importação de arroz de Taiwan e por outras providências.

Nos morros de Mabuni foram erigidas 50 lápides memoriais em homenagem aos falecidos. A primeira dentre eles a ser construída foi a “Lápide dos Guardiões da Ilha”, que homenageia Shimada, Arai, e outros 458 funcionários do governo mortos na guerra.

Ela foi erguida com as contribuições do povo em 1951, 6 anos após o término da batalha de Okinawa, quando os vestígios da guerra estavam ainda visíveis por toda parte. Expressam o sentimento de gratidão do povo da Província de Okinawa aos funcionários do governo provincial, a começar por Shimada e Arai. ❁

 

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cultura Japonesa – Vol. 6
Guerra e migração – a diáspora de Okinawa

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo – Setembro de 2017
Autores: Masaomi Ise, Akira Miyagi, Vanessa Shiroma Tinem, Ana Maria Tamashiro Higa, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi, Arnaldo Massato Oka (cap.5)
Revisão tradução: Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti
ISBN: 978-85-66358-03-2

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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Livraria Sol
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