Cultura Japonesa Vol. 6 – A Batalha de Okinawa e os imigrantes okinawanos

GUERRA E MIGRAÇÃO – A diáspora de Okinawa

A Batalha de Okinawa
e os imigrantes okinawanos


Texto de Akira Miyagi – Representante do Centro de Pesquisas da Imigração Okinawana no Brasil
Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6, de Setembro de 2017

 

Cidade de Naha em chamas, em maio de 1945 (Okinawasen Kiroku Shashinshuu – Nihon Saigo no Tatakai – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – A última batalha do Japão (Tradução Literal) – Publicação Gekkan Okinawa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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É complicado abordar a história da imigração okinawana no Brasil do pós-guerra sem passar pela trágica Batalha de Okinawa e pelo caos social causado pela força de ocupação norte-americana em seu território. A ilha foi palco do único conflito armado dentro do território japonês durante a Guerra do Pacífico. O confronto resultou na morte de 120 mil civis (140 mil, segundo a «Pedra Angular da Paz»). Quando a Guerra da Coreia estourou, os Estados Unidos se apossaram compulsoriamente das terras dos okinawanos para seus propósitos militares.Os cidadãos passaram a viver na insegurança, temendo serem envolvidos em mais outra guerra, e partiram em busca de paz e esperança nas distantes terras da Bolívia e do Brasil. 

 

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A Catástrofe
da Batalha de Okinawa

 

Os Ventos Violentos de Aço

Em 1 de abril de 1945, o exército dos Estados Unidos cercou Okinawa, a ilha principal do arquipélago de Ryukyu, com 1.500 navios de guerra e 550 mil soldados. As forças desembarcaram simultaneamente a partir das aldeias de Yomitan, Kadena e Chatan. A região norte foi rapidamente isolada das regiões central e sul e os aliados avançaram para conquistar o quartel-general em Shuri. A artilharia pesada que vinha do céu, do mar e da terra fazia jus ao nome como esta operação ficou conhecida entre os okinawanos: “ventos violentos de aço”. O exército japonês desistiu da defesa à beira-mar, abriu caminho para o desembarque sem resistência do inimigo, mas concentrou os esforços para resistir nas cumeeiras de Kakazu (Ginowan) e na região de Maeda (Urasoe), a linha de defesa do quartel-general de Shuri.

No entanto, os americanos que tinham superioridade material suplantaram os cem mil soldados do Exército de Defesa Japonês (embora um terço fosse composto por milícias e corpos estudantis alistados localmente) e tomaram o quartel-general de Shuri no final de maio. Os soldados japoneses começaram a bater em retirada em direção sul para onde os habitantes locais também haviam se refugiado.

 

Evitando as ruas onde poderiam ser alveados pelos atiradores do exército japonês, corpo de fuzileiros da marinha americana avança de casa em casa, em maio (Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A região sul se tornou em campo de combate, a partir desse momento, misturando militares e civis, mas nem por isso os norte-americanos suavizaram os ataques que aniquilavam soldados e cidadãos comuns indistintamente. A região sul era caracterizada por ter cavernas naturais e túmulos antigos dos antepassados que serviam de abrigo antiaéreo. Por isso, mais de cem mil moradores estavam escondidos nesses redutos.

Foi esse o cenário que os soldados japoneses encontraram ao fugirem. Os esconderijos passaram a abrigar militares e civis e se transformaram em alvos da artilharia naval americana. Alguns soldados japoneses, desesperados, expulsaram os civis dos abrigos, chegando a apontar as baionetas contra mães agarradas às crianças de colo que choravam. As pessoas arrancadas de seus esconderijos se tornaram alvos fáceis do fogo inimigo.

A falta de mantimentos agravava e não faltaram soldados japoneses roubando alimento dos civis. Tomado pela apreensão e desconfiança, a falta de conhecimento do dialeto okinawano gerou casos de chacina por suspeita de espionagem em pleno campo de batalha. O povo de Okinawa que nunca cogitara uma derrota japonesa nem nunca duvidara da camaradagem do exército imperial ficaram subitamente expostos a um campo de guerra mortal tendo que se esconder, não somente do ataque americano, mas também das ações imprudentes dos soldados japoneses.

 

A Tragédia dos Campos de Morte de Okinawa

A unidade da marinha comandada pelo almirante Minoru Ota foi dizimada por uma ofensiva violenta dos fuzileiros norte-americanos. Do abrigo que servia de quartel-general de Tomigusuku, o almirante Minoru enviou um telegrama, em 13 de junho, ao Quartel-General Imperial com a mensagem: “Os okinawanos lutaram bravamente. Rogo para que demonstre consideração especial para a posteridade”, e se suicidou. O 32º Exército que havia se posicionado numa área montanhosa de Yaesedake, na região sul, também foi derrotado em 19 de junho.

Em 11 de junho, as forças americanas se posicionaram no extremo sul da ilha, nas aldeias de Mabuni, Komesu e Kiyan. Fizeram um cessar fogo e propuseram a rendição imediata ao general Mitsuru Ushijima, comandante geral das Forças de Defesa de Okinawa.

 

Soldado americano prestes a invadir uma caverna natural que servia como esconderijo para os moradores e militares japoneses, em 4 de maio (Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O general, no entanto, ignorou a proposta e deu continuidade aos combates. Nas primeiras horas da manhã de 23 de junho, o comandante geral de Okinawa, general Mitsuru Ushijima, se suicidou no quartel-general do abrigo em Mabuni junto com Isamu Cho, o chefe do estado-maior, mas não antes de emitir uma ordem às forças posicionadas pela região, para que os soldados mais graduados comandassem os sobreviventes a lutarem bravamente até o último momento em nome da causa eterna. Foi assim que findou o contra-ataque organizado do Comando de Defesa de Okinawa.

No entanto, os japoneses não pararam de resistir e as operações de limpeza do exército americano passaram a ser ainda mais cruéis. Havia também vingança na motivação dos americanos, porque, em 18 de junho, o comandante-geral da Força de Invasão de Okinawa, o tenente-general Buckner, foi morto por fogo de artilharia enquanto inspecionava as posições avançadas de suas tropas em Kiyan. A morte ocorrera depois da proposta de rendição incondicional proferida em 11 de junho e isso acirrou ainda mais a fúria dos soldados norte-americanos. As forças americanas passaram um pente fino para localizar todos os abrigos japoneses que depois recebiam uma saraivada de balas ou ataques de lança-chamas.

Os esconderijos continuavam a abrigar militares e civis misturados, o que resultou em centenas a milhares de civis a terem de compartilhar o mesmo fim dos combatentes oficiais. Quando civis saíam de suas guaridas para se renderem aos americanos, recebiam balas pelas costas sob os gritos de “traidor”. Os militares impunham aos civis o seu código de guerra “Senjinkun” que ensinava a “não passar pela vergonha de ser um prisioneiro de guerra”. Famílias resignadas com a morte inevitável se suicidavam em conjunto. Pessoas encharcadas com o sangue de outras vítimas gritavam pedindo uma granada de mão. As cenas que se repetiam dentro dos abrigos eram a reconstituição do inferno.

Grande número de civis tombou durante as três semanas que se desenrolaram desde a proposta de rendição do dia 11 de junho, passando pelo suicídio do general Ushijima até a declaração de fim de batalha no dia 2 de julho. Foi uma sucessão interminável de mortes lamentáveis e sem sentido. Tragédias se repetiram, como no caso da “Unidade Himeyuri” – composta por estudantes femininas e professores que acompanhavam as tropas japonesas como enfermeiras militares. Após a ordem de dissolução do corpo estudantil, muitas delas tombaram por causa do ataque americano e o desalento chegou ao cúmulo de um grupo de garotas optar pelo suicídio coletivo; o Tekketsu Kinnotai (Esquadrão Imperial de Ferro e Sangue) composto por estudantes masculinos de 14 a 16 anos; e o fim dos funcionários do governo provincial.

A Batalha de Okinawa durou mais de três meses e foi considerado um dos conflitos mais cruéis da história mundial, caracterizada pelas baixas de civis desarmados em um campo confuso onde civis e militares se misturavam, além de ter reduzido a cinzas muito da natureza local. Até mesmo o exército americano descreveu o conflito como sendo um “campo de batalha que concentrou o inferno”.

 

Um fuzileiro americano prestes a jogar uma granada de mão na caverna onde supostamente escondem militares japoneses, em 12 de junho (Okinawasen Kiroku Shashinshuu – Nihon Saigo no Tatakai – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – A última batalha do Japão (Tradução Literal) – Publicação Gekkan Okinawa)
Um fuzileiro americano ataca uma caverna que servia de esconderijo dos militares japoneses com lança-chamas, enquanto à direita outro aguarda com seu rifle a saída dos soldados japoneses (Okinawasen Kiroku Shashinshuu – Nihon Saigo no Tatakai – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – A última batalha do Japão (Tradução Literal) – Publicação Gekkan Okinawa)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O número exato de mortos durante o conflito é incerto porque novos corpos são desenterrados nos antigos campos de batalha até hoje. Segundo pesquisa da Divisão de Apoio à Paz da Província de Okinawa de março de 1976, baixas do exército oficial japonês: 65.908; habitantes de Okinawa que somam civis: 94.000 e militares (milicianos e corpos estudantis): 28.220, totalizando 122.228; soldados americanos: 12.520, totalizando 200.656 (V. tab. 1). Segundo o número de nomes gravados na “Pedra Angular da Paz” até junho de 2015 (V. tab. 2).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Batalha de Okinawa – operação de luta prolongada ou de sacrifício em nome da defesa da ilha principal

A dúvida que fica é: por que quando o general Ushijima foi encurralado em Mabuni, sem condições de escapar, certo da derrota, preparando-se para se suicidar e a renunciar da sua responsabilidade como comandante geral ele rejeitou a proposta de rendição e ainda emitiu a ordem de lutarem bravamente até o último momento em nome da causa eterna? E a resposta é: para dar continuidade ao plano do Quartel-General Imperial de prolongar a batalha em Okinawa de modo a atrasar ao máximo a invasão à ilha principal.

As instalações militares da capital da província, Naha, foram destruídas na mesma ocasião em que diversas cidades foram incendiadas e destruídas pelo bombardeio aéreo americano de 10 de outubro de 1944. O Quartel-General Imperial não tinha condições de reorganizar e mudou a estratégia inicial de “batalha decisiva em Okinawa” para a “defesa da ilha principal”.

Ordenou que o “Exército de Defesa de Okinawa utilizasse todas as forças disponíveis para deter o inimigo ao máximo em troca da própria vida e cumprir sua missão como soldado do Exército Imperial”. Como se isso não bastasse, uma das três divisões que faziam parte do Exército de Defesa de Okinawa, a 9ª Divisão, foi deslocada para defender o front de Taiwan. A lacuna foi preenchida pelo alistamento de civis locais que compunham as milícias de defesa ou os corpos estudantis, como o Tekketsu Kinnotai ou Unidade Himeyuri, compostas por professores e estudantes acima do ginasial. Essas forças foram ao front mediante a orientação de que, tanto os cidadãos comuns quanto os oficiais de governo e os militares da ativa, deviam unir as forças para defender o país arriscando a vida, o “Gunkanmin Kyosei Kyoshi”. Isso é claramente representado pelas palavras do chefe do estado-maior, Isamu Cho: “Todos os provincianos serão soldados. Ou seja, destruiremos o inimigo com um espírito combativo de dez inimigos tombados para cada combatente nosso”.

Foi dessa forma, às custas de militares, milicianos e cidadãos desarmados que se submeteram em nome da “causa eterna” ao chumbo grosso e às chamas dos lança-chamas que o general Ushijima sustentou uma batalha longa e sangrenta da forma como era exigida pelo Quartel-General Imperial. E essa a causa da batalha infernal, lastimável e cruel.

 

O Controle Militar Norte-Americano
e A Construção das Bases Militares

 

Campos de prisioneiros e o início do sofrimento no pós-guerra

Os civis que sobreviveram aos campos de batalha foram enviados aos campos de prisioneiros civis do Exército Americano separados dos soldados, que se tornaram prisioneiros de guerra. O número de prisioneiros foi estimado em mais de 300 mil. O número superou as estimativas dos norte-americanos que só tinham preparado mantimentos para 70 mil prisioneiros. Os cidadãos tinham de se virar com o pouco alimento que era distribuído pelos norte-americanos. Isto levou 6.400 pessoas a morrerem por desnutrição e malária. Os campos de prisioneiros eram compostos de tendas de lona montadas sobre o piso de terra batida forrada com palha. O ambiente não era muito diferente da vida nos abrigos antiaéreos. Aos poucos, as pessoas ganhavam o direito de voltar a suas terras natais.

 

O colapso de Naha (Foto ilustrativa – Kiroku Shashin Shuu Okinawasen Taiheiyou Sensou Saigo no Shitou 90 Nichi – Coletânea de Registros da Batalha de Okinawa – Os últimos 90 dias mais sangrentos da Guerra do Pacífico (Tradução Literal) – Editora Naha)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No entanto, muitos moradores libertos foram surpreendidos com as cercas de arame farpado cercando as propriedades com a proibição de entrar nas terras que lhes pertenciam por direito em Oogimi, Iejima, Yomitan, Kadena, Misato, Chatan, Ginowan, Urazoe e Naha, etc. Sem qualquer aviso, as propriedades foram confiscadas pelo exército norte-americano em nome da construção de bases militares. A ação injusta do exército americano fez com que essas pessoas perdessem suas moradias e lavouras e ficassem imobilizadas sem saber para onde ir.

As pessoas começaram a reconstruir o que restou da sua terra natal, começando por arar os campos dizimados, construir casas de teto de palha pelo tradicional sistema de yuimaaru (mutirão) e contavam também com o que a natureza pudesse fornecer por mar ou por terra porque a distribuição de alimentos pelo exército norte-americano era insuficiente para a subsistência de todos. Rapidamente puseram-se a reedificar as prefeituras, a recuperar os livros de registro familiar, a criar listas de sobreviventes e mortos, além de regularizar os terrenos.

As três aldeias que foram palco dos combates mais violentos, Makabeson, Mabunison e Kiyanson, tiveram tantas baixas com famílias inteiras dizimadas que não havia condição de restabelecer a organização municipal. Assim nasceu Miwason por meio da fusão das três aldeias. Foi em janeiro de 1946. Diversas municipalidades se esforçaram para reconstruir a educação. Os habitantes fizeram mutirões para construírem escolas de cobertura de palha para voltar a dar educação para suas crianças. Os jovens se juntaram para organizar Associações de Jovens que trabalhariam para reerguer suas aldeias.

 

O Confisco dos Terrenos por Baionetas e Tratores

A Guerra da Coreia estourou em junho de 1950. O antagonismo leste-oeste entrou em chamas no extremo oriente. Bombardeios B-29 passaram a decolar diariamente em direção da Península Coreana, o que causou aflição na população que tinha medo que a ilha voltasse a ser palco de batalhas. O pesadelo de cinco anos atrás voltou com força para tirar o sossego da população.

O presidente norte-americano havia declarado em 1951 que os Estados Unidos tomariam posse de Okinawa eternamente. No artigo 3º do Tratado de Paz de São Francisco, promulgado em 28 de abril de 1952, Okinawa ficou sob o regime militar exclusivo dos Estados Unidos em troca da independência do Japão. Utilizando o artigo 3º como fundamento legal, o governo americano se apressou em instalar órgãos e a instituir leis que permitissem que o exército americano (= governo civil norte-americano) tivesse autoridade absoluta para governar Okinawa.

O “Decreto de desapropriação de terras”, a lei nº 109 foi publicada em março de 1953 e iniciaram a confiscar as terras à força. Soldados armados foram enviados a Mawashison (atual cidade de Naha), Meikaru, Aja, Ameku, Yomitanson, Toguchi em abril. Lá, apontaram fuzis contra os cidadãos, derrubaram casas com tratores, cercaram as terras tomadas com cercas de arame farpado e proibiram o acesso dos moradores. Em dezembro foi a vez de Orokuson (atual cidade de Naha), e Gushi. Em 1954, Iejimamaja, E em julho do mesmo ano foi a vez de Isahama de Futenmason (atual cidade de Ginowan).

O exército norte-americano havia usurpado despoticamente as terras herdadas dos ancestrais. O Exército que já havia tomado as terras indevidamente enquanto os okinawanos estavam presos em campos de prisioneiros, agora aproveitava a eclosão da Guerra de Coreia para se apoderar de novas terras pra transformar Okinawa em um grande forte militar, a “nave-mãe inafundável” do extremo oriente.

 

Aumento Populacional, Falta de Alimentos e Falta de Emprego

A ilha de Okinawa do início da década de 1950 foi coberta pelas nuvens ameaçadoras da guerra e cambaleava sem estabilidade devido à falta de alimentos e de emprego causada pelo aumento populacional. A ausência de indústrias, a falta de opções de trabalho e por ter tido as terras roubadas para ampliar as bases militares americanas, as pessoas buscavam trabalho dentro das próprias bases militares ou nos distritos de diversão noturna no entorno delas. Dizem que 30 a 40 mil pessoas trabalhavam nesses lugares. No entanto, nos escritórios dentro das bases havia uma ordem de prioridade racial: soldados brancos, soldados negros, japoneses, filipinos e okinawanos. A remuneração dos okinawanos também era sempre mais baixa.

Os empregos disponíveis nesses locais eram principalmente de faxina, lavanderia, pintura de parede e lavagem de pratos. As pessoas tiveram de engolir a humilhação enquanto a insegurança do futuro massacrava seus ânimos. Os Centros de Busca de Emprego do governo estavam cheios de candidatos em todas as regiões.

Além disso, veteranos de guerra e famílias regressadas vinham em massa das ilhas do sul e da Manchúria. O número estimado é de 170 mil pessoas que constituía nada menos que 24% da população total de okinawanos em 1950 que contava com 700 mil habitantes. Eles eram os segundos e terceiros filhos das famílias que cruzaram o mar como emigrantes decasséguis e que agora retornavam só com a roupa do corpo. Não tinham propriedades na cidade natal e, mesmo quem possuía estava na miséria porque seus bens foram confiscados pelas bases militares.

As pessoas tinham dificuldades de garantir o alimento diário em meio ao aumento repentino da população e à falta de empregos. O programa norte-americano GARIOA (Ajuda Governamental em Socorro das Áreas Ocupadas) que se iniciou em 1947 fornecia bens racionados gratuitamente, mas os mesmos bens passaram a ser pagos no ano seguinte, apertando ainda mais a escassez de mantimentos e agravando os problemas sociais.

Quem estendeu a mão para auxiliar Okinawa neste momento foram os uchinanchus (okinawanos) que migraram para o exterior, tais como Havaí, Brasil, Peru e Argentina. Eles promoveram uma campanha em auxílio aos danos causados pela guerra e enviaram porcos, roupas e materiais escolares à terra natal. O ato deu coragem às pessoas que enfrentavam as dificuldades da reconstrução do pós-guerra.

 

Política de Migração
do Governo Militar

 

O Plano de Emigração para A Bolívia

A Administração de Ryukyu (Executivo Chefe Shuhei Higa) que foi incorporada à estrutura de governo do Exército Norte-Americano começou a estudar a migração ao exterior como uma forma de encontrar a saída. Quando o Exército Norte-Americano (= Administração Civil Norte-Americana) lançou o plano de emigração, a Administração de Ryukyu se esforçou em avaliar as soluções concretas para a questão. Em 1948 foi fundada a Associação Ultramarina de Okinawa que, além de executar as atividades comissionadas pela Administração de Ryukyu, também se esforçaram em promover atividades de esclarecimento sobre a emigração ultramarina.

O Plano de Emigração da Administração de Ryukyu tinha como motivação, o acordo pré-aprovado de venda de terras estatais em Santa Cruz, Bolívia, graças à negociação empreendida pelos emigrantes okinawanos com o Governo Boliviano em nome da Assistência à Tragédia de Guerra de Okinawa. A Administração de Ryukyu atendeu aos esforços dos emigrantes pioneiros, apresentou a proposta à Administração Civil Norte-Americana, foi incumbida pelo Dr. J. Tigner da Universidade de Stanford a missão de busca de assentamentos para colonização na América Latina e escolheram a Bolívia.

O Governo de Ryukyu promulgou a lei de crédito à emigração para oferecer empréstimos a quem precisasse de verbas de migração e enviou Ichiro Inamine, presidente da Associação Ultramarina de Okinawa, e Hiroshi Senaga, chefe do Escritório de Planejamento Econômico da Administração de Ryukyu, para inspecionar o terreno na Bolívia. No entanto, a Administração de Ryukyu não realizou nenhuma inspeção da área. Mais tarde, este fato provocaria uma situação gravíssima.

Assim que a delegação retornou ao Okinawa, o plano de emigração foi anunciado e iniciou-se o trabalho de convocação, com o anúncio de que cada família receberia 50 hectares de terra sem necessidade de qualquer encargo. O primeiro grupo partiu em junho de 1954 e o segundo em setembro, totalizando 400 emigrantes.

No entanto, em outubro de 1954, depois do assentamento dos dois primeiros grupos na Colônia Uruma, 15 imigrantes morrerem e mais de 80 ficaram doentes, vítimas do surto de uma doença desconhecida. Ainda por cima, em abril de 1955, o Rio Grande tansbordou e uma grande cheia inundou a região. Em agosto, todos se transferiram para um novo local mais seguro. Mas, menos de um ano depois eles se transferiram novamente e erguerem as bases da “Colônia Okinawa” depois de muito esforço.

Até a 14ª leva de emigrantes, em 1964, 3.200 japoneses se mudaram para a Bolívia, mas nunca houve qualquer investigação prévia do terreno, além de o planejamento e o preparo do assentamento, tais como obras de infraestrutura, saúde e educação ficaram tudo por conta dos emigrantes, o que exigiu uma dificuldade terrível. Será que a política só foi desenvolvida como uma válvula de escape das contradições sociais que pressionavam Okinawa no período do pós-guerra? A colonização da Bolívia acabou se mostrando uma política mais semelhante a um plano nacional de redução populacional, enviando pessoas para o meio da mata virgem da América Latina e assim facilitar a construção das bases norte-americanas em Okinawa.

O plano de emigração que ficou paralisado um tempo recomeçou em 1957, mas, o rio transbordou três vezes e a péssima colheita de arroz e a instabilidade do preço de mercado fez com que a Colônia de Okinawa quase fechasse as portas na segunda metade da década de 1960 devido à fuga dos japoneses para a Argentina e o Brasil.

Mas, os esforços dos emigrantes que permaneceram no local, frutificaram na forma de grandes plantações mecanizadas de soja e milho, depois da década de 1980, fazendo parte do cinturão de grãos da Bolívia. A vila de Okinawa se transformou em um município da Bolívia e a vontade de ajudar os companheiros que sofreram por causa da batalha de Okinawa cristalizou na forma do cinturão de grãos em um verde exuberante que se estende até o horizonte.

 

A Imigração ao Brasil

A imigração okinawana ao Brasil no período pós-guerra começou de forma mais intensa a partir de 22 de fevereiro de 1953. Foi a partir de uma empreitada organizada da Associação da Província de Okinawa, fundada como “Associação Brasileira Ultramarina de Okinawa”. Como o nome indica, o principal desafio estava em como criar e executar uma estrutura de recebimento de emigrantes de Okinawa.

Os líderes, como Seian Hanashiro, herdaram a Campanha de Auxílio aos Danos Causados pela Guerra e a promoveram mesmo se arriscando durante o conflito vitorista-derrotista (Obs.: São incidentes que envolvem até assassinatos motivados pela divergência de opinião dos imigrantes japoneses naqueles que acreditavam na vitória japonesa e nos outros que estavam conscientes de que o Japão havia sido derrotado na Guerra do Pacífico) que havia aterrorizado a comunidade nikkei. Evoluíram ainda mais a proposta alinhando a vontade dos imigrantes okinawanos e promoveram uma grande união para as “ações de recebimento dos imigrantes”.

Em janeiro de 1954, Ichiro Inamine, presidente da Associação Ultramarina de Ryukyu, e Nagahiro Sena, Secretário de Planejamento Econômico da Administração de Ryukyu, vieram ao Brasil como os emissários de imigração. Eles se encontraram com o presidente Getúlio Vargas no dia 29 e conversaram sobre os desafios da migração okinawana. O presidente elogiou a disciplina e a honestidade dos imigrantes japoneses e declarou que aceitaria os imigrantes okinawanos. E, assim, até o ano de 1955, 1.423 okinawanos que pagavam seus custos aportaram em Santos.

No entanto, até 1956, somente os okinawanos tiveram que arcar com todos os custos de emigração. Para tentar dar um fim a esta discriminação, a Associação da Província de Okinawa solicitou continuamente ao Governo Japonês e ao Consulado para que o regime de empréstimo para financiar custos de viagem pudesse ser igualmente aplicável aos okinawanos. Finalmente em 1 de abril de 1957, o navio Luís aportou trazendo a primeira leva composta por 30 imigrantes jovens okinawanos que tiveram direito ao uso do regime de financiamento. A partir daí, imigrantes okinawanos não pararam mais de vir. O número total foi de 7.227 (V. tabela 3).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No entanto, os imigrantes que vieram ao Brasil também tiveram de fazer grandes esforços como os emigrados à Bolívia. O grupo de imigrantes jovens, por ser constituído por imigrantes individuais, sofria com os desentendimentos com os proprietários de terra. Os imigrantes de Kappen, Nambei Takushoku e de Brasília foram jogados no meio do solo ácido e da mata virgem acabando com o “sonho do cultivo fácil em solo fértil”.

Sobretudo os imigrantes de Kappen, que se assentaram com o sonho de “construir uma vila okinawana” no meio da Amazônia, tiveram de enfrentar um solo árido e ácido até que todos se retiraram depois que sete de sete integrantes adoeceram por causa do mal da malária (para mais detalhes, ver o número inaugural de “Muribushi”, livro do Centro de Pesquisas da Imigração Okinawana no Brasil).

Quem ofereceu uma mão salvadora a essas pessoas que não tinham para onde ir foram os imigrantes okinawanos do pré-guerra, parentes e conhecidos, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, etc. Eles gentilmente indicavam trabalhos ou faziam tanomoshi (um consórcio de dinheiro aplicado periodicamente por seus integrantes para que um do grupo possa receber uma determinada quantia mediante sorteio ou lance) para angariar verbas que permitissem recuperar as condições financeiras. Os espíritos do “yuimaaru”, a ajuda mútua dos okinawanos, e do “icharibachoodee”, de compartilhamento da vida e dos sofrimentos, deram a oportunidade de recomeço a muitos dos conterrâneos e eles começaram a tocar a vida.

Depois de algum tempo de tentativas e acertos, eles seguiram o caminho para a emancipação igual aos outros imigrantes japoneses, transferiram-se para a promissora cidade de São Paulo ou arredores para dar oportunidades de estudar aos seus filhos, que cresciam e foram construindo as bases da estrutura familiar como produtores de verduras, donos de fábrica ou feirantes.

Hoje, os okinawanos no Brasil constituem 170 mil dos 1,7 milhões de nikkeis do país, sendo que as novas gerações de nisseis, sanseis e yonseis estão avançando em diversos segmentos e profissões da sociedade brasileira anunciando a vinda de uma nova geração que certamente sustentará o século 21.

A Associação Okinawa Kenjin do Brasil (AOKB) e o Centro Cultural Okinawa do Brasil se tornaram uma só entidade, mantendo a posição de maior associação de província nikkei, ficando conhecida como a “kenjinkai mamute”. Além disso, a liderança de três das cinco associações representativas da sociedade nikkei – Bunkyo (Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social), presidida por Harumi Goya; Enkyo (Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo), presidida por Akeo Yogui, e Aliança Cultural Brasil-Japão, presidida por Yokio Oshiro, ganharam representantes com origem desta província anunciando a vinda de uma nova era.

Daqui em diante, os olhos se voltam para a Associação Okinawa Kenjin do Brasil e o Centro Cultural Okinawa do Brasil (presidente Eiki Shimabukuro) curiosos de ver o quão firmemente poderão desenvolver as atividades em colaboração com as outras associações de províncias do Kenren e organizações nikkeis na promessa de ajudar a promover ainda mais a sociedade okinawana e a sociedade nikkei como um todo. 

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 6

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cultura Japonesa – Vol. 6
Guerra e migração – a diáspora de Okinawa

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo – Setembro de 2017
Autores: Masaomi Ise, Akira Miyagi, Vanessa Shiroma Tinem, Ana Maria Tamashiro Higa, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi, Arnaldo Massato Oka (cap.5)
Revisão tradução: Mitiyo Suzuki
Revisão português: Aldo Shiguti
ISBN: 978-85-66358-03-2

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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