Cultura Japonesa Vol. 5 – A Casa Imperial Japonesa (2) – “Que a Casa Imperial seja em si uma prece”

HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO JAPONESA

Prece de uma dinastia inteira
pelo bem-estar do povo


Se soubéssemos que o imperador
reza todos os dias por nossa felicidade…


Texto original em japonês de Masaomi Ise

Referência: (1) “Nihon wa Tennô no Inori ni Mamorareteiru“ (Trad. Literal: “O Japão é protegido pelas preces do Imperador”) – Mitsunobu Matsuura – Editora Chichi, 2013

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 5, de Abril de 2017

 

Imperador Akihito e imperatriz Michiko fazem um minuto de silêncio em visita à região de Haragama-Obama, Porto de Soma, Província de Fukushima, Japão, área afetada pelo terremoto (Foto: Província de Fukushima)

 

“Que a Casa Imperial seja em si uma prece” – são palavras da Imperatriz. Possuem, na verdade, sentido profundo. Com o Imperador atual, a Casa se acha na 125ª geração, procedente de uma só linhagem. Mas a tradição da prece foi iniciada no século 7 a.C. pelo Imperador Jinmu, o primeiro imperador do Japão, e conservada desde então. Verdadeira coluna vertebral da história japonesa, ela é em essência, prece à Natureza. O Imperador, mesmo quando não se acha presente em cerimoniais e programas de visitas, à vista do público, costuma estar presente em rituais de prece realizados quase 30 vezes ao ano nas dependências do Palácio Imperial. O Imperador reza silenciosamente pela paz social longe da vista do público.
O Brasil passa hoje pelo período mais longo em regime democrático 32 anos após a democratização. Antes, porém, o País enfrentou instabilidade política, quando passou alternadamente por regimes militares e governos ditatoriais. Agora, a corrupção do petrolão instabiliza novamente o ambiente político. Quem sabe os brasileiros não encontram algum segredo no comportamento do monarca japonês, que lhes sirva de proveito para alcançar uma estabilidade de governo tranquilizadora. (Redação Japonesa – Jornal Nikkey Shimbun)

 

“Que a Casa Imperial
seja em si uma prece”

 

São palavras da Imperatriz. Nós mesmos temos visto diversas vezes o casal imperial em postura curvada, em profunda reverência.

Bem recentemente, em 1º de outubro, o imperador e a imperatriz estiveram em visita às áreas do Leste Japonês assoladas por forte temporal que rompeu o aterro do Rio Kinu. Fechando o guarda-chuva debaixo da chuva fria que caía, eles se voltaram em direção ao ponto onde o corpo de um homem arrastado pelas enxurradas foi encontrado e se curvaram profundamente. A cena do casal imperial curvado em respeitoso silêncio pode também ser vista em ocasiões como a do grande terremoto do Leste Japonês e de Kobe-Awaji.

Na Ilha de Peleliu, palco de ferrenha batalha durante a guerra passada visitada em abril deste ano, o Imperador e a Imperatriz ofertaram flores e rezaram em silêncio defronte à lápide memorial das vítimas de guerra do Pacífico Ocidental e ao cenotáfio do Exército Americano. Dirigiram-se depois à Ilha de Angaur do outro lado do mar e se curvaram em ângulo reto para rezar pelos quase 1200 oficiais e soldados do exército japonês, mortos em combate. As preces erguidas em palcos de combate e áreas devastadas pela guerra prosseguiram por Hiroshima, Nagasaki, Okinawa, Iōjima e Saipan.

Entretanto, as preces do Imperador não se resumem apenas a essas realizadas em público, haja vista os rituais internos ao Palácio em que comparece pessoalmente, quase 30 vezes por ano. Distante do público, o Imperador reza silenciosamente pela paz da nação e do povo.

 

Os ritos do Niinamesai
costumam avançar noite adentro

 

Certos rituais em que o Imperador eleva preces em paramento de sacerdote xintoísta costumam avançar noite adentro e às vezes até a madrugada. Um exemplo é o ritual do Niinamesai (ritual em que o Imperador oferece o trigo colhido em primeira safra aos deuses), realizado anualmente em 23 de novembro. Nesse ritual, o Imperador oferece cinco espécies de cereais recém colhidos aos deuses do céu e da terra, servindo-se ele mesmo desses cerais para expressar-lhes gratidão.

O ritual se inicia à tarde e se estende até a uma hora da madrugada. Relata a Sra. Masako Kawatsuji, que exerceu a função de ama da Princesa Imperial Nori (atual Sayako Kuroda) em sua infância:

“Durante o ritual de Niinamesai, a Imperatriz aguarda reverentemente junto ao Imperador a conclusão da cerimônia, envergando austeros paramentos tradicionais. Esse costume é conhecido no Palácio como oyofukashi (noite da vigília). Após certa idade, os príncipes passaram também a aguardar a conclusão desta cerimônia em cada canto com naturalidade.”

O 23 de novembro, Dia da Gratidão pelo Trabalho, não passa para nós de um feriado entre outros, mas o Imperador nesse dia reza até altas horas da noite aos deuses em agradecimento pela dádiva dos cinco cereais que alimentam a população.

O Imperador presta culto aos deuses mesmo na madrugada do Ano Novo, antes do primeiro nascer do sol. Dois rituais são realizados, a saber, o Shihousai, com início às 5:30 horas, seguido logo após pelo Saitansai. No Saitansai de 2005, o Imperador compôs o seguinte tanka:

“No jardim do Santuário à primeira luz do dia, o rubor das chamas do kagaribi* em meio à neve acumulada.” (N. do T. – tradução literal aproximada)
*kagaribi: fogueira de lenha acesa dentro de armações de ferro sobre tripés

O verso descreve um cenário surreal criado por reflexos avermelhados das chamas do kagaribi sobre as neves acumuladas no jardim, no gélido amanhecer do primeiro dia do ano. O Imperador que o compôs tem elevado preces aos deuses pela paz da nação e do povo, e em agradecimento pela fartura da colheita em três santuários palaciais desprovidos de qualquer calefação. Isso, mesmo com a idade avançada completando 82 anos neste ano. Nós japoneses nos dirigimos também aos templos no dia do Ano Novo para rezar, mas as preces do Imperador são para ele um fardo pesado, em nada comparável às nossas.

 

As preces pela felicidade do povo

 

As preces do Imperador diferem das nossas em mais outro aspecto. Escreve o Prof. Mitsunobu Matsuura, da Universidade Kogakkan:

“Pessoas comuns como nós costumamos frequentemente rezar por nós, por nossas famílias, por locais ou organizações onde trabalhamos, ou seja, rezamos por nós mesmos. Essas preces que erguemos são em suma para buscar benefícios neste mundo para nós mesmos ou para aqueles que nos cercam, mas as preces do Imperador são de natureza completamente diversa dessas. São preces pungentes pela felicidade desse povo que convive com a Casa Imperial desde a época remota do primeiro Imperador Jinmu, e também, da humanidade inteira. Infinitamente abrangentes, interligam o mundo invisível dos deuses e o mundo visível dos povos.” (1, pág. 55)

Sucessivos imperadores vieram rezando pela felicidade do povo. A Casa Imperial, pertencente a linhagem única que tem no Imperador reinante o 125º sucessor, vem conservando a tradição da prece através dos tempos. Vejamos como essa tradição foi conservada pelos diversos imperadores da Casa Imperial.

 

A prece do Imperador Jinmu

 

As preces dos imperadores se iniciaram já desde o primeiro imperador Jinmu. Ao ocupar o trono, o Imperador Jinmu desejara “conviver em harmonia com todo o povo residente nos quatro cantos do mundo sob o mesmo céu como se todos eles constituíssem uma só grande família debaixo de um teto”. Quatro anos depois, ele agradecia aos deuses pela formação de uma nação segundo essa concepção.

“Os deuses, meus ancestrais que desceram dos céus, vieram zelando por mim e me auxiliando continuamente. Com os conflitos apaziguados a nação vive hoje em paz, sem incidentes. Por isso, pretendo construir um templo para os deuses do céu para demonstrar devoção filial aos deuses meus ancestrais.”

 

Pintura representando o Imperador Jinmu (Dainihonmeisyokagami – Yoshitoshi Tsukioka)

 

Construiu assim um altar no Monte Torimi, país de Yamato, onde cultuou os deuses seus ancestrais. Segundo dizem, a origem do Kōshitsu Saishi (Ritual da Casa Imperial) teria sido essa.

Quando fala sobre “…deuses que desceram dos céus …”, o Imperador se refere à ordem dada por Amaterasu Ōmikami, supremo deus do sol, a Ninigi-no-Mikoto, seu neto: “Vai, e governa a nação (Japão) ”, deixando-o partir de Takamagahara (paraíso mitológico xintoísta) para a terra. O Imperador Jinmu seria seu bisneto.

É de se observar, porém, que o termo original do japonês antigo “Shirasu” (知らす ou 治らす), traduzido acima como “governar”, possui a rigor sentido diverso desse, dando a significar ação em que “o imperador, refletindo o pensamento do povo em sua alma desprovida de interesses próprios, límpida como espelho, reza pela paz do povo”.

Por conseguinte, “…demonstrar devoção filial aos deuses meus ancestrais” significa cumprir a missão que lhe foi dada pelos deuses ancestrais de construir “uma nação onde o povo possa viver em paz”.

 

O culto aos deuses precede a política

 

Consta no “Nihon Shoki” (um dos primeiros livros de história do Japão constituído de 30 volumes, escrito por autores diversos sob direção do príncipe Toneri. O livro foi concluído em 720 d.C.) que, no primeiro ano da Era Taika (645), quando se realizou a Reforma de Taika, Soga-no-Ishikawamaro, Ministro da Direita, teria dado o seguinte conselho ao Imperador Kōtoku, 36º sucessor do trono imperial:

“Sua Majestade deverá em primeiro lugar cultuar e tranquilizar os deuses do céu e da terra para depois se entregar à política. ”

Era necessário ter em mente a vontade dos deuses e concretizá-la dentro da realidade política. É por essa razão que em tempos antigos, os japoneses costumavam referir-se à “política” como “atos sagrados”.

A tradição do “Culto aos deuses em precedência à política” foi mantida desde então. O Imperador Uda (867 – 931), 59º sucessor do trono imperial e promotor de uma série de reformas políticas conhecidas por “Kampyō-no-chi” nos meados da Era Heian, escreve em seu diário:

“Meu país é divino. Por essa razão, realizo todas as manhãs culto aos deuses do céu e da terra que estão por todos os lados. Inicio hoje (esta prática) e não será negligenciada doravante sequer por um dia.” (1, pg. 42)

Por “País divino”, supõe-se que o Imperador quisesse dizer “país protegido por deuses”. Assim, a função do Imperador consiste em transmitir à política esse desejo dos deuses de proteger o povo da nação.

Na Era Heian, havia em uma área a leste do Pavilhão Residencial do Palácio Imperial uma plataforma de cal, erguida ao nível do piso de madeira dos recintos do Pavilhão. Nessa plataforma, construída de terra com a superfície endurecida por cal, o Imperador, após purificar-se em banho, erguia todas as manhãs suas preces.

A construção de uma plataforma de terra seguiu a tradição de “rezar sobre a Terra”, e a posição a sudeste do Pavilhão Residencial foi escolhida por estar na direção do Templo de Ise.

As preces matinais são mantidas até hoje.

Todas as manhãs um camareiro, representante do Imperador, percorre os três santuários do Palácio para prestar culto. Nesse período, o Imperador deve permanecer em atitude de recolhimento.

 

“Um imperador não deve jamais
negligenciar a reverência aos deuses,
desde manhã até noite”

 

O Imperador Juntoku (1197 – 1242), 84º sucessor do trono imperial, participou do “Jokyu-no-hen” (Incidente de Jokyu – 1221) que visava derrubar o xogunato na Era Kamakura e foi por isso desterrado à ilha de Sado. Antes do incidente, o Imperador, profundo estudioso de usos, costumes, legislação e hábitos do Período Dinástico, deixou uma obra a respeito dos mesmos, conhecida por “Kimpishō”. Consta dela o seguinte trecho:

“De todas as cerimônias realizadas no Palácio Imperial, o culto aos deuses vem em primeiro lugar. As outras deverão ser realizadas todas após ele. Um imperador não deve jamais negligenciar a reverência aos deuses, desde manhã até noite” (1, pág. 43)

É o mesmo que dizer: “Culto aos deuses em precedência à política”.

Em 1540, no período das guerras internas, uma epidemia assolou a população. Nessa ocasião, o 105º Imperador Go-Nara (1496 – 1557), embora empobrecido em consequência das guerras internas prolongadas, copiou secretamente, de próprio punho, o “Han-nya Shinkyō” (Sutra do Coração), depositando cópia no Templo Sanbō-in, nos recintos do templo budista Daigo-ji.

Ele encerra a sua escrita com as seguintes palavras:

“Em virtude da epidemia deste ano, muitas pessoas estiveram à beira da morte. Não posso deixar de pensar que isso se deve às virtudes que me faltam como pai e mãe do povo, e isso me angustia. Assim, eu copio aqui em letras de ouro a Sutra do Coração e o deposito no Sanbō-in, Daigo-ji pelas mãos do supremo sacerdote Gijō. Rezo do fundo d’alma que isto se converta em remédio miraculoso para a cura da epidemia.” (1, pág. 47)

Ao se dizer “pai e mãe do povo”, o Imperador dá a entender que o imperador deve rezar pela felicidade do povo da mesma forma como os pais rezam pela felicidade dos filhos. A infelicidade dos filhos produz nos pais sentimento de culpa. A angústia do Imperador que atribui a infelicidade do povo às parcas virtudes que possui é da mesma natureza.

 

“Prioridade indiscutível
à agenda do ritual sagrado”

 

O ritual de preces dos imperadores sucessivos continua até a época moderna por tradição sem qualquer alteração.

Quando o Imperador Meiji entrou pela primeira vez na Mansão Imperial na província de Shizuoka, as primeiras perguntas que fez foram: “Em que direção se acha o Templo de Ise? ” e “E os Santuários, em que direção?”. Preocupava-se em não se posicionar de costas para o Templo de Ise e para os três santuários do Palácio Imperial. Ao se inteirar das direções, o Imperador alterara a posição de mesas e cadeiras, dizendo: “Então, arrumamos isto assim.” (1, pág. 44)

O senhor Osanaga Kanroji, que exerceu cargo de camareiro do Imperador Showa, escreveu:

“O atual Imperador (Imperador Showa), ao programar atividades diversas, costumava sempre dar prioridade à agenda do ritual sagrado, que separava para programar as demais atividades. Quando eventualmente algum projeto coincidia com o dia reservado a um ritual, procurava certificar-se de que o ritual não sofreria interferência, e aprovava o projeto apenas após isso. E cuidava até os mínimos detalhes para que seu trono ou sua posição não desse costas aos santuários do Palácio.” (1, pág. 45)

 

Se soubéssemos que
“O Imperador reza todos os dias
por nossa felicidade…”

 

Por tudo isso, podemos entender que as preces do Imperador pela felicidade do povo se constituem em si tradição da Casa Imperial. Diz o prof. Matsuura:

“‘O Imperador reza todos os dias pela nossa felicidade …’ – Penso que, se esta realidade fosse ensinada nas escolas do Japão inteiro, isso reergueria a alma das crianças, e luzes de esperança começariam a tingir o Japão imerso em caos.” (1, pág. 55)

As pessoas se alegram quando sabem que alguém reza por sua felicidade, e passam também a querer ser útil para outras pessoas. O altruísmo de uma pessoa desperta o altruísmo em muitas outras.

 

Imperador Akihito e impeatriz Mitiko visitando a Província de Ibaraki, uma das áreas atingidas pelo grande terremoto do leste do Japão, confortando as vítimas (Ginásio Público da cidade de Kitaibaraki, Província de Ibaraki) – Foto: Província de Ibaraki

 

Aqueles que tomarem conhecimento do espírito grandioso do Imperador que reza pela felicidade do povo, procurarão, se politicos, praticar uma política voltada ao benefício do povo; se empresários, irão iniciar empresas úteis para a nação. Isso se propagará feito onda, e cada pessoa do povo passará a se dedicar ao próximo.

Nosso país foi construído de forma dar realidade ao ideal da convivência do povo inteiro em família única e sob um só teto, cuidando-se e se ajudando mutuamente. Sucessivos imperadores herdaram e mantiveram esse ideal, e vieram por gerações erguendo preces abnegadas.

Nosso país possui uma Casa Imperial assim constituída que centraliza a união do povo e constitui seu símbolo.

 

Continua…

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 5.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Cultura Japonesa – Vol. 5
A casa imperial Japonesa

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo – Abril de 2017
Autores: Masaomi Ise, Masayuki Fukasawa, Kohei Osawa
Tradução: Shintaro Hayashi
Supervisão: Masato Ninomiya
Revisão português: Aldo Shiguti
ISBN: 978-85-66358-03-2

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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