Cultura Japonesa Vol. 4 – Ryo Mizuno – pioneiro, visionário – pai da imigração japonesa no Brasil

A história da imigração japonesa no Brasil

Ryo Mizuno

Depois da “Abertura do País”, a “Emigração” 

 


Texto original em japonês de Massayuki Fukasawa

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 4, de Dezembro de 2016


 


Ryo Mizuno

 

Ryo Mizuno (1859 ~ 1951), natural da Província de Kochi – homem que deu início à emigração de japoneses para o Brasil. Seu filho Ryusaburo (85 anos, nissei) relata emocionado:
“– O Mizuno morreu desiludido, porque para ele, ‘a emigração foi um fracasso‘. Na oportunidade da comemoração dos Cem Anos da Imigração Japonesa (2008), quando recebemos da sociedade brasileira manifestações efusivas de reconhecimento, eu fui em primeiro lugar ao túmulo de meus pais para lhes transmitir que, após um século, o sacrifício deles estava sendo finalmente recompensado.”
Essas palavras descrevem uma imagem do “pioneiro da imigração japonesa” conhecida apenas por seus familiares. Em 1951, quando Mizuno faleceu, as sequelas dos confrontos no seio da colônia japonesa entre partidários da vitória e da derrota do Japão na guerra ainda se faziam bem visíveis, enquanto a sociedade brasileira mantinha uma postura de profunda aversão contra japoneses. Assim, era compreensível que Mizuno considerasse a emigração um “fracasso”. Mas a situação já era completamente outra em 2008. Atualmente, a emigração japonesa ao Brasil é considerada pela sociedade brasileira fator importante do desenvolvimento do País, tendo merecido reconhecimento público até na oportunidade da abertura das Olimpíadas de Rio de Janeiro em agosto deste ano.
Mizuno nasceu samurai da suserania de Tosa no período dramático do término do xogunato. Lutou pelo direito do povo à liberdade participando com outros extremistas desse movimento. Tornou-se mais tarde diretor presidente de uma companhia promotora de emigração, introduziu no Japão o café brasileiro, e acabou emigrando ele próprio para o Brasil levando a família. Pioneiro da emigração, não foi, entretanto, bem apreciado durante muitos anos por ter problemas de dinheiro que os emigrantes do Kasato Maru lhe deixaram sob sua guarda. Por essa única falta, foi condenado ao descrédito, quando mesmo os grandes heróis da restauração Meiji não foram todos eles uns santos. Fato é que a emigração ao Brasil não teria ocorrido sem Mizuno. Recordamos aqui a sua trágica existência, trágica até demais para um “grande homem”. (A redação – Jornal Nikkey Shimbun)

 

 

 


Ryo Mizuno (no centro), que organizou a primeira viagem de imigrantes japoneses para o Brasil


 

Na noite de 13 de julho de 2011, quando visitamos pela primeira vez Ryusaburo Mizuno em sua residência em Curitiba, Paraná, dizia-nos ele recordando um pouco envergonhado a sua infância:

“– Como todos os adultos ao meu redor falavam mal de Mizuno, eu pensava que meu pai era mesmo um mau caráter até crescer e chegar à fase adulta.”

O filho de Mizuno não compreendia o pai excepcional que possuía.

“– E não é para menos, pois quando atingi a idade da razão, meu pai estava no Japão. Os japoneses ao nosso redor ameaçavam minha mãe. Diziam: ‘Nós fomos trazidos ao Brasil ludibriados por Mizuno. Naturalmente, vocês têm que cuidar de nós!’ E nos arrebatavam dinheiro e comida.” O que acontecia na família Mizuno, nessa época?

 


Ryusaburo Mizuno, na entrevista em novembro de 2015 em São Paulo


 

Ryusaburo Mizuno nascera em fevereiro de 1931, e, portanto, atingira a puberdade na época em que a guerra do Pacífico se iniciava. Em 1936, Ryo Mizuno iniciara em Ponta Grossa, no Paraná, a construção da Vila Tosa (Akebono Shokumin-chi ou Colônia Alvorada), que pretendia transformar em uma terra utópica. Porém, faltou dinheiro, e foi ao Japão em junho de 1941 para arrumar capital para o empreendimento. Conseguiu arrumá-lo, e se aprontava para retornar ao Brasil quando ocorreu o ataque japonês a Pearl Harbor, que o prendeu no Japão por mais 10 anos. A narrativa de Ryusaburo se refere a essa fase.

“– Mamãe não tinha argumentos para rebater esses japoneses. Repetia apenas: ‘Me desculpe’, e entregava a eles tudo que possuía no momento, fosse dinheiro ou comida, dizendo a eles: ‘Só temos isso agora’. Ela sofreu demais naqueles dias. Eu cresci assistindo cenas como essas a todo momento.”

Para o filho, o pai, que abandonava a mãe Maki nessas condições não podia ser homem de respeito. Observando as costas trêmulas da mãe, ele se angustiava: “Por que ela não reage?”

Terminada a guerra, os amigos de Mizuno que o admiravam formaram uma associação para arrecadar os 50 contos de réis necessários para a compra da passagem de volta e remeteram o dinheiro a Ryo. Graças a essa providência, Mizuno desembarcava no aeroporto da saudosa cidade de São Paulo em 19 de maio de 1950. Eram 11 horas. Mizuno contava então 91 anos de idade.

 


Graças a providências da Associação Ryoou, Mizuno, já com idade avançada voltava ao Brasil, desembarcando do avião em 19 de maio de 1950 (Foto/Família Mizuno)


 

Seu outro filho Ryujiro trabalhava nessa época na Cooperativa Agrícola de Cotia, e assim, foi viver com ele em Caxinguí, na casa destinada a empregados dessa Cooperativa. Ryusaburo relata como era a vida de Mizuno nesses dias:

“– Acordava todos os dias exatamente às 7 horas e rezava mantras em memória dos falecidos. Mencionava nessa hora o nome de centenas de pessoas de cor. Agradecia aos benfeitores que o ajudaram no empreendimento da emigração, aos emigrantes do Kasato Maru, aos parentes e amigos, e rezava até às 9:30h sem parar”. A lista das pessoas a quem devia favores e às quais havia prejudicado devia ser muito grande.

Mal retornara, Mizuno insistia aos parentes que o levassem quanto antes à Colônia Alvorada. Maki, sua mulher, relutava em contar-lhe que a Colônia havia sido vendida, mas não encontrou outra saída a não ser explicar-lhe finalmente o acontecido. Mizuno se estarreceu, e morreu em menos de seis meses. Fora ao Japão juntar verbas para a construção da Colônia Alvorada, mas com o início da guerra, ficara confinado no Japão por 10 anos. Todo sofrimento por que passara se tornara inútil, e não pôde, quem sabe, resistir a essa realidade. A Colônia era sem qualquer dúvida o amparo espiritual de Mizuno.

Em 14 de agosto, o pioneiro da emigração japonesa ao Brasil era sepultado no Terreno 121, Quadra 36 do Cemitério São Paulo. A Associação Amigos de Ryo lhe ergueu um belo túmulo, editou e publicou sua biografia.

Segundo “Ryo-Ou Den” (Literalmente, Biografia do Venerável Ryo), Ryo Mizuno nasceu em 11 de novembro de 1859, na Era Edo, segundo filho de Kamesu, samurai a serviço da família Fukao, de administradores gerais que serviam ao lorde Yamauchi, suserano de Tosa. Nasceu na cidade de Sakawa, em Takaoka, região de Tosa. O assassinato de Ryoma Sakamoto, herói de Tosa responsável pela formação da coligação das suseranias de Satsuma e Choshu e personagem eminente da Restauração de Meiji ocorreu em 1867, quando Mizuno já tinha 8 anos de idade.

Consta que a suserania de Sakawa estimulava a educação. Assim, “Mizuno se matriculou na escola Meikokan administrada pela suserania onde estudou história com os mestres Ranrin Ito e Kaizan Ibaragi, e praticou sojutsu (arte marcial da lança) com Hachirouemon Taneda” (“Burajiru Imin no Soushisha Mizuno Ryo” [Ryo Mizuno, Pioneiro da Emigração ao Brasil] – Editora Nikkei Shinbun, 2008, pag.6)

Há um episódio famoso envolvendo Ranrin Ito, seu mestre: na expedição punitiva à suserania de Matsuyama, realizada em janeiro de 1868, consta que ele saiu de Sakawa metido em armadura para lutar na batalha. Enfiava-se em armadura aos 53 anos, idade em que muitos homens já estavam há muito tempo aposentados, nessa época em que a idade média não passava de 45 anos! Pode-se dizer que ele era um exemplo da “garra” dos samurais de Tosa daqueles tempos.

Essa expedição punitiva a Matsuyama se tratava de uma ação ordenada pelo Imperador para castigar as suseranias de Matsuyama e Takamatsu, que no conflito de Toba-Fushimi, se aliaram ao xogum e lutaram contra o exército imperial. Coube à suserania de Tosa executar essa ação. Incidentalmente, Mizuno, na época com apenas 9 anos, participara dessa expedição marchando à frente da tropa tocando tambor. E voltou dormindo, segundo dizem, carregado nas costas de um soldado. Tal mestre, tal discípulo.

Ito era defensor fervoroso da lealdade ao Imperador. Entre seus discípulos constam extraordinários talentos, tais como Tomitaro Makino, autoridade em botânica, Mitsuaki Tanaka, patriota devotado ao movimento Kinnô (lealdade ao imperador), e também Shigeru Furuzawa, político de renome. Furuzawa fez parte do Movimento da Liberdade e Direitos do Povo. Participou inclusive da redação da minuta da petição ao governo para a constituição de um parlamento popular a pedido de Taisuke Itagaki, líder do Movimento. Furuzawa era 10 anos mais idoso que Mizuno, e Makino tinha sua mesma idade. Consta que Mizuno foi amigo de infância de ambos.

Mitsuaki Tanaka se fez posteriormente simpatizante fervoroso do Movimento Sonnô – Jô-i (Movimento pela derrubada do xogunato e expulsão de estrangeiros) em Kochi. Integrou-se ao Partido Kinnô de Tosa. Seu tio Shingo Nasu foi o executor do assassinato de Toyo Yoshida, político eminente de Tosa favorável ao xogum. Pesa sobre o próprio Mitsuaki a suspeita de ter participado desse assassinato.

Cercado como estava de mestres e amigos como esses, nada mais natural que Mizuno tenha alimentado ideais de lealdade ao imperador e se lançado de corpo e alma no Movimento da Liberdade e Direitos do Povo.

 


Goshinei (retratos e imagens oficiais da família imperial) pertencentes a Ryo Mizuno decorando a residência do Ryusaburo Mizuno. Percebe-se a profunda devoção à família imperial


 

Ryusaburo repetia sempre que “o pai lhe falava muito a respeito de Ryoma Sakamoto”. Não existem evidências desse relacionamento como, por exemplo, cartas trocadas, mas sem dúvida, Mizuno sofreu forte influência dos companheiros contemporâneos de Tosa, colegas de estudos da escola Meikoukan dessa suserania.

 

Ativista do Movimento da Liberdade e Direitos do Povo, é preso aos 19 anos por discurso extremista

 

Em 1878, aos 19 anos de idade, Mizuno proferiu um discurso extremista em pregação dos ideais do Movimento da Liberdade e dos Direitos do Povo para uma multidão aglomerada diante do famoso Templo Jodaiji em Sakawa, Província de Kochi. Foi preso e encarcerado por 40 dias. Esse incidente levou o jovem Mizuno a mudar de vida. O Jodaiji é um templo cuja construção data de 600 anos atrás, antes mesmo da descoberta do Brasil. Encontramos, com a colaboração da Biblioteca Histórica Seizan, cidade de Sakawa, o texto seguinte na revista “Sakawacho-shi” (literalmente Revida da Cidade de Sakawa) publicada em 1919. O original está redigido em japonês antigo, e foi convertido ao japonês moderno.

“Em 22 de dezembro, realizou-se em Jodaiji um comício político. O orador Ryo Mizuno foi ordenado a interromper seu discurso, considerado nocivo à segurança pública, conduzido nessa mesma noite à Delegacia Policial de Yasumachi e encarcerado. Recebeu pena de prisão por 40 dias. Atrás das grades, recitou poemas.”

Um jovem de 19 anos faz um discurso considerado risco à segurança, é interrompido pela polícia, preso e encarcerado por 40 dias, e deixa seu nome nos registros da história da cidade. Deve ter sido um discurso bem violento.

Mas será impossível formar ideia de como teria sido esse discurso sem levar em conta o Movimento da Liberdade e dos Direitos do Povo, cujas atividades alcançavam o máximo de intensidade na adolescência de Ryo Mizuno, fase de formação da sua personalidade. Além disso, a Província de Kochi era base de operação do Movimento, onde líderes como Taisuke Itagaki e Shojiro Goto exerciam forte influência. E no ano anterior, o país havia passado pelo Conflito de Shonan (rebelião de Satsuma), a última e maior conflagração interna da história do Japão promovida por samurais.

Taisuke Itagaki havia constituído juntamente com Shojiro Goto, Shinpei Eto, Taneomi Soejima e outros um partido político, o Aikoku Koto (Partido Patriótico). Apresentara em 1874 ao governo a “Petição para a Constituição de um Parlamento Popular”, em que solicitava a elaboração da Constituição e abertura do Congresso entre outras medidas. O Movimento da Liberdade e Direitos do Povo se iniciara nessa oportunidade. Para Mizuno, aos 15 anos de idade nessa época, as intensas atividades promovidas no centro do poder por compatriotas ilustres como Taisuke Itagaki e Shojiro Goto foram com certeza motivo de empolgação que deram alimento às suas ambições e o transformaram em ativista do Movimento.

Entretanto, uma classe de samurais descontentes com o governo aderiu ao Movimento, como é, por exemplo, o caso de Shinpei Eto. Logo após a apresentação da Petição, Eto comandou uma revolta promovida por samurais de Saga. Derrotado e preso, foi condenado à morte e executado. Mas a turbulência prosseguiu até o Conflito de Shonan ocorrido em 1877, em que Takamori Saigo se envolveu. Assim, o Movimento esteve a um passo de se enredar nessa série de conflitos.

Por ocasião do Conflito de Shonan, Mizuno, aos 18 anos, se achava em plena fase sensível da adolescência. Era professor da escola primária de Kitamura, uma vila pacata da cidade de Takaoka. Presume-se que o episódio do seu encarceramento o tenha levado a procurar a capital do país para progredir por novos caminhos em sua vida.

 

Atentado fracassado contra Shigenobu Okuma

 

A passagem mais espantosa da biografia de Mizuno é, sem dúvida, aquela que se refere ao atentado perpetrado contra Shigenobu Okuma, que presidia o partido Rikken Kaishin (Partido da Reforma Constitucional). Relata-se que Mizuno teria confessado com simplicidade: “Com a ajuda de um companheiro, construi uma bomba destinada a Shigenobu Okuma e a testei no cemitério de Aoyama, mas não consegui atingir meu objetivo” (pag. 7). Mais de cinquenta anos depois, quando Shungoro Wako o visitou em Ponta Grossa, no Paraná, em junho de 1940, ouviu dele a seguinte confidência, que se acha incluída no “Bukko Senkusha Retsuden” (Coletânea de Biografias dos Pioneiros Falecidos) pag. 61, editada pela Comissão do Cinquentenário da Imigração Japonesa em 1958:

“Mizuno se via um samurai idealista dos meados da Era Meiji e assim realizava intensas atividades. Cometeu, entretanto, um engano: considerou Shigenobu Okuma elemento perigoso, e planejou assassiná-lo com a ajuda de um companheiro. Enviariam a Okuma pelo correio um pacote contendo pólvora, que explodiria quando Okuma o abrisse. Mizuno me disse forçando um sorriso: ‘Mas inexperiência não tem remédio. Quando testei secretamente essa coisa em sua terra, Shinshu, ela até funcionou bem, mas a madeira da nova caixa que mandamos fazer não estava perfeitamente seca, e umedeceu a pólvora. O conde Okuma chegou a abrir a caixa, mas nada aconteceu. Não sabendo que objeto era aquele, enviou-o para a polícia. Descobriram então que se tratava de uma bomba perigosa, e a confusão se iniciou”

Em suma, o atentado foi perpetrado, mas redundou em fracasso. De qualquer forma, planejar um ato terrorista contra Shigenobu Okuma, que viria a ser futuramente Ministro das Relações Exteriores e primeiro-ministro do Japão, foi sem dúvida um ato por demais extremista, indesculpável mesmo que se leve em conta o calor da juventude. Não se sabe exatamente quando ocorreu esse episódio. Fato é que atos de terrorismo contra o governo começaram a ocorrer por todo Japão a partir do incidente de Akita, de 1881, e ficaram conhecidos na história japonesa como “Incidentes de Agravamento”. Possivelmente, o atentado de Mizuno fez parte dessa série de atos terroristas.

Tivesse Mizuno obtido sucesso, teria passado à posteridade como terrorista perigoso. Teria sido condenado à morte, e quem sabe, a emigração ao Brasil não teria começado.

Ao que parece, Mizuno se manteve calado, naturalmente, a respeito desse incidente até a velhice. Temia que se isso viesse a público, o Ministério das Relações Exteriores e outras instituições públicas não o levariam a sério quando fosse tratar dos assuntos da emigração com eles.

 

A viagem forçada do Kasato Maru

 

Diz Itsuro Ariso (Gennosuke Yokoyama) em sua obra “Waga Imingaisha” (Minha Empresa de Emigração), (“Shoko Sekai Taiheiyo” Vol.5 Nº 23, 11/1906), que a fundação de “Kokoku Shokumingaisha” (Empresa Japonesa de Emigração) do qual Mizuno se tornaria mais tarde presidente se deu em novembro de1903.

Em abril de 1905, Fukashi Sugimura assumia o cargo de ministro da legação japonesa no Brasil e emitia um relatório em que afirmava ser o Brasil a “terra da esperança”. Esse relatório foi divulgado pelo Ministério das Relações Externas do Japão. Mizuno leu o relatório e viajou em dezembro desse mesmo ano ao Brasil, para investigar com os próprios olhos a situação. Foi sua primeira viagem ao País. Essa primeira viagem teve por objetivo realizar um levantamento local e realizar preparativos, mas na segunda viagem em setembro de 1907, ele já vinha para assinar um contrato de imigração. Esse contrato foi assinado com Carlos Botelho, secretário da Agricultura do Estado de São Paulo em 6 de novembro de 1907, e previa a “introdução de três mil imigrantes japoneses num prazo de três anos”. Tinha por condição trazer uma primeira leva de mil imigrantes durante o mês de maio de 1908. Não lhe sobrava a essa altura mais que meio ano para cumpri-la. Nessas péssimas circunstâncias, Mizuno fretou o Kasato Maru e juntou 781 emigrantes contratados. Considerando um monge necessário para as ocasiões cerimoniais, convidou o Reverendo Nissui Ibaragi do Budismo Primordial (Honmon Butsuryûshû), escola cujo próprio era devoto, iniciando assim a primeira missão budista no Brasil.

Ele realizaria em sua vida ao todo 10 viagens ao Brasil, mas a viagem com o Kasato Maru já era a sua terceira viagem.

Uma pequena empresa de emigração, com capital insuficiente, se aventurava a enviar emigrantes ao país mais distante do mundo, uma tarefa de grande envergadura. Naturalmente, isso causou problemas. A obra “Burajiru Okinawakenjin Iminshi Kasatomaru Kara 90-nen” (História da Emigração da Província de Okinawa – 90 Anos desde o Kasato Maru) traz na página 134 um texto de página inteira contendo denúncia contra Ryo Mizuno e Shuhei Uetsuka. O texto tem por título: “A face verdadeira do pai e pioneiro da emigração – “passam a mão” no nosso dinheiro entregue para repatriação aos cuidados deles”.

Dizem que Shinjiro Shiroma, representante dos 325 emigrantes da Província de Okinawa – aproximadamente a metade dos emigrantes do Kasato Maru, vivia repetindo a toda hora como hábito que “os yamatonchu (japoneses da ilha principal japonesa) não merecem confiança”.

O Kasato Maru partiu do Japão em 21 de abril, com atraso de 10 dias da data prevista. Isso se deu porque a Empresa Japonesa de Emigração não conseguia depositar no Ministério do Exterior o seguro de 100 mil ienes necessários para a liberação da permissão de emigração. Conseguira juntar 50 mil ienes, mas estava impossível arrumar o restante. E o prazo de maio, para chegar a Santos conforme contrato assinado com o governo de São Paulo se aproximava do fim. Mizuno então tomou uma medida desesperada: “Recolheu sob guarda da empresa o dinheiro que os emigrantes levavam, particularmente aqueles de Okinawa e Kagoshima, mediante a desculpa de que era para proteger de extravios, se comprometendo a devolvê-lo no alojamento dos imigrantes quando chegassem em São Paulo. E fez uso desse dinheiro para pagar o seguro” (História da Emigração da Província de Okinawa, acima referenciada). Isso lhe foi fatal.

“Irritado com as desculpas esfarrapadas que Mizuno apresentava para negar a devolução do dinheiro dos emigrantes de Okinawa, Shinjiro Shiroma agarrou-o pelas golas da roupa. Mas Mizuno se livrou e fugiu” (História da Emigração da Província de Okinawa, acima referenciada). Muitos dos emigrantes de Okinawa haviam obtido financiamento a juros elevados da verba necessária para o pagamento da passagem e de outras despesas de viagem, hipotecando residências e terrenos de cultivo que a família possuía por diversas gerações, até mesmo túmulos, sob fiança de parentes. Tinham por premissa ganhar muito dinheiro em poucos anos e regressar à terra natal, sonho destruído logo no primeiro passo.

Sobre isso, diz Ryusaburo observando de início que “são minhas suposições, e não fatos ouvidos do pai”:

“– De início, o seguro era apenas de 50 mil ienes, mas o Ministério do Exterior o elevou de repente para 100 mil ienes. Suspeito que o Ministério veio a conhecer as críticas do meu pai ao governo e lhe aprontou uma maldade. O dinheiro que Mizuno emprestou dos imigrantes do Kasato Maru, após um ano, foi devolvido, em mãos, à 190 pessoas. Devido às fugas das fazendas, Mizuno não encontrou a maioria dos imigrantes. Mas, deixou aos cuidados dos seus acessores de confiança, todo o dinheiro e a lista dos nomes dos imigrantes que ainda não tinham recebido a devolução. Mizuno também deixou esses nomes no consulado japonês, para que caso os imigrantes entrassem em contato, por qualquer motivo com o consulado, fossem avisados sobre a disposição do dinheiro. Mizuno sempre se informava sobre a situação dessas devoluções, e sabia que estavam sendo feitas. Agora, se foram realmente devolvidas, ou se quem recebia eram os verdadeiros donos do dinheiro, Mizuno não tinha como ter certeza.”

Mário Ikeda, neto de emigrante do Kasato Maru e estudioso da história da emigração, analisa com objetividade:

“– O pagamento do seguro estipulado pelo Ministério do Exterior foi a causa do atraso da partida do Kasato Maru do porto de Kobe. Com isso, os imigrantes não puderam chegar no período de colheita do café em maio. Como os imigrantes japoneses não atenderam à importante safra do café, o governo estadual se negou a pagar os subsídios às despesas de emigração. E Ryo Mizuno, que contava com esse dinheiro, ficou sem poder devolver o dinheiro emprestado dos imigrantes. Em suma, não pôde pagar porque o Ministério do Exterior o atrapalhou. Meu avô sem dúvida se irritou com Mizuno, mas eu não penso assim. Mizuno quis devolver, mas não conseguiu. A verdade deve ter sido essa.”

 

A emigração ao Brasil como consequência
do grande terremoto de Kanto

 

Mizuno veio ao Brasil pela sétima vez em maio de 1923. Nisso, veio a saber do grande terremoto de Kanto ocorrido em 1 de setembro, e regressou imediatamente. Diz Ryusaburo que Maki, esposa de Mizuno, que passara pelo terremoto em Tóquio, suplicara ao marido: “Não quero mais passar por um medo tão horrível como este. Quero que me leve para um lugar onde não haja terremotos”. Isso levou Mizuno à decisão de emigrar ao Brasil com toda família.

Shin-ichi, filho de Mizuno nascido no Japão, teria dito a Ryusaburo:

“– A nossa mansão em Tóquio era maravilhosa. O terreno, perto do palácio imperial, ocupava quase um quarteirão inteiro. A mobília era toda ocidental, tínhamos até telefone e automóvel, coisas raras nessa época. Eu conheço essa vida, e tenho pena de vocês que só conhecem a pobreza da vida no Brasil.”

Ryo Mizuno se demitiu do cargo de diretor da Kaigai Kogyo Kaisha (literalmente Companhia Promotora de Empreendimentos no Exterior) e viajou com a família para o Brasil em 1924, ano seguinte ao do grande terremoto de Kanto, à idade de 65 anos. Fixou residência em Curitiba, Paraná, onde iniciou cultivo de frutas, chá e verduras em uma chácara situada no bairro de Mercês, hoje residência do deputado estadual Rui Hara. Mizuno plantou diversas mudas trazidas do Japão e utilizava o local para realizar experiências diversas.

Segundo Ryusaburo, “ele perdeu o filho Tatsuo um pouco antes de completar vinte anos, levado pela tuberculose. Temendo que o caso se repetisse, ele escolheu Curitiba para morar, que possuía nessa época fama de ter bom clima.”

A proposta de Manuel Ribas, governador do Paraná, de introduzir trabalhadores japoneses no estado oferecendo-lhes terras para a lavoura para incentivar a agricultura local ressuscitou em Mizuno o espírito estadista. Um sonho tomou conta da sua alma: construiria uma colônia ideal com imigrantes da Província de Kochi. Com essa ideia, regressou ao Japão em janeiro de 1936, organizou a Cooperativa dos Emigrantes da Província de Kochi, montou a estrutura necessária para angariar doações e voltou ao Brasil. Em agosto de 1937, ganhou terras em Ponta Grossa, Estado do Paraná, e construiu ali a Colônia Alvorada.

Entretanto, com a eclosão da guerra entre o Japão e a China, as doações se reduziram, e sobreveio a crise econômica. Precisava encontrar uma saída. Para tanto, retornou ao Japão em 6 de junho de 1941 a bordo do Santos Maru. Solucionou a custo o problema do levantamento de fundos e se preparava para embarcar no navio de volta quando ocorreu o ataque a Pearl Harbour, que o reteve no Japão por 10 anos.

Diz Ryusaburo:

“– Meu pai havia finalmente conseguido os fundos necessários para a Colônia Alvorada e reservara passagem no navio de volta, com partida ao redor de 18 de dezembro. Entretanto, o ataque a Pearl Harbour acabou acontecendo justo antes, o que impediu o embarque nesse navio. Foi o que eu ouvi dele. A guerra estourou, e o levantamento de fundos deu em nada.”

Em Kochi, como a família havia emigrado para Hokkaido, Mizuno se hospedou na residência da irmã mais velha de sua esposa, família Taneda.

 

Homem que plantou raízes japonesas
em terra roxa do Brasil

 

Um verso de tanka (poesia de 31 sílabas, da literatura japonesa) produzido por Mizuno nos últimos anos de sua vida e escrito de próprio punho pelo autor se acha preservado em moldura, na residência de Fumio Oura, em Fukuhaku Mura, Suzano. Foi-lhe deixado de presente pela sra. Maki, esposa de Mizuno.

Em tradução livre, o verso diz:

 

“Erva velha e feia, corto suas raízes e replanto (no Brasil) para que renasça como yamatonadeshiko”.

 

Yamatonadeshiko, pertence à família do cravo, é considerado símbolo da nação japonesa.

O verso diz muito dos sentimentos de Mizuno. Ele compara o Japão a uma erva feia e velha com um misto de saudade, aversão e ternura pela terra natal, pelo que ela possui seja do bom, seja do ruim. Mizuno cortará as raízes dessa erva, revelando quem sabe, sua intenção de cortar suas próprias raízes, mas trazendo ao Brasil o que existe de bom da sua terra para fazê-lo florir em terras brasileiras, onde o yamatonadeshiko haveria de criar novas raízes em terra roxa.

Mas o que teria passado na alma desse homem?

A visita a Ryusaburo, em julho de 2011, em sua residência em Curitiba, Paraná, nos revelou um fato. Ryusaburo vive modestamente, vendendo lanches de yakissoba que produz. O filho de Mizuno se queixa: “– Quando a venda não é boa, nem consigo pagar a conta de luz, e me desligam a energia”. Depreende-se que Mizuno faleceu sem deixar patrimônios de herança aos filhos. Certamente, não conquistou fortunas empreendendo a emigração.

“– O Mizuno morreu desiludido, porque para ele, ‘a emigração foi um fracasso’. Na comemoração dos Cem Anos, queria contar em primeiro lugar à minha mãe e depois ao meu pai que recebemos da sociedade brasileira e da japonesa, todas aquelas manifestações de reconhecimento.” Essas palavras de Ryusaburo nos deixaram atônitos.

Pensando bem, no ano de 1951, em que Mizuno morreu, as sequelas do conflito entre partidários da vitória e da derrota do Japão na guerra ainda se faziam notar de forma muito clara. Os japoneses que ele próprio trouxera, o “Japão de Meiji” que ele implantara estavam sendo repudiados no país que os recebera.

Pode-se, porém, dizer a favor de Mizuno que ele jamais procurara dar desculpas de qualquer natureza à família, quanto ao dinheiro emprestado dos emigrantes de Kasato Maru. Provavelmente por isso, até o seu filho Ryusaburo acreditou que “o pai era um mau caráter” por muito tempo. Mas Mizuno rezava desesperadamente diante do butsudan (oratório budista) por duas horas seguidas, todas as manhãs, pelos benfeitores e por aqueles a quem havia prejudicado. Há algo nesse comportamento que faz lembrar Saneyuki Akiyama, oficial do Estado Maior da Marinha Japonesa, que com sua tática destruiu a esquadra russa do Báltico na célebre batalha naval de Tsushima, durante a guerra russo-japonesa. Deixando a farda, Saneyuki se fez monge. Todas as manhãs, ele rezava mantras em memória dos companheiros mortos na guerra, citando um por um o nome de todos eles.

 

O espírito desbravador de Ryoma
revelado em Ezo sucedido por Mizuno

 

Ezo é o nome dado pelos japoneses da Era Meiji às terras do Norte, inclusive Hokkaido, habitadas na época por ainus. Ryoma Sakamoto sonhava desbravar e desenvolver essas terras.

Mas por que falar de Ryoma, agora? Essa pergunta foi tema de uma conferência realizada em 20 de outubro de 2010 em São Paulo. O conferencista, professor Izumi Haraguchi, nessa época docente da Universidade de Kagoshima, revela seu ponto de vista:

“– Se Ryoma estivesse vivo, é de se supor que tivesse dedicado sua vida à emigração e colonização. Seu ímpeto em se projetar ao além-mar teria provavelmente encontrado ressonância em Ryo Mizuno.”

Diz ainda o professor que Ryoma, se vivo, estaria com 73 anos na época do Kasato Maru. A idade não lhe permitiria emigrar, mas teria, com certeza, contribuído de alguma forma com o empreendimento da emigração.

Sua obra “Ryoma no Koe ga kikoeru tegami” (literalmente, “Cartas de Ryoma que trazem sua voz”) – (Editora Mikasa Shobo, 2011) traz na página 162 uma carta de Ryoma, escrita em março do ano do seu assassinato, vertida em linguagem moderna. A carta diz de início: “Sobre o assunto referente à colonização de Hokkaido, que pretendia iniciar no ano passado, já fretei até um navio”. Ryoma acreditava que o desenvolvimento das terras do Ezo ditaria o futuro do Japão.

Segundo o professor Haraguchi, “Por época da fundação do Centro de Treinamento da Marinha em Kobe, Ryoma já estaria elaborando planos para despachar samurais ao Ezo, com o propósito de desenvolver e proteger essa área.” A partida teria ocorrido entre meados de março e abril do ano subsequente se não tivesse sido assassinado. Para isso, fretara até um navio. A transferência do próprio Ryoma a Hokkaido se daria em questão de tempo, se tivesse dado certo.

Em carta dirigida a Munemitsu Mutsu, samurai, político e diplomata, redigida 8 dias antes do seu assassinato, Ryoma diz (pág. 176 da obra supracitada) “Fala-se em sair pelo mundo. Não sei se isso dará certo, mas já ouvi essa conversa. Há muita conversa interessante hoje em dia.” Percebe-se o entusiasmo de Ryoma entre as linhas dessa carta. Adiante dessas teses sobre a colonização de Ezo e da abertura da nação, encontrava-se a proposta da emigração. Ryo Mizuno, samurai de Tosa, era um dos leões da Era Meiji.

O sonho da colonização de Ezo (Hokkaido) que Ryoma alimentava, contando com a com a colaboração entre outros de Kitsuma Kitazoe e de Kameyata Mochizuki, aluno do Centro de Treinamento da Marinha, em Kobe, havia começado por volta de 1864 e se transformado em preocupação permanente até a sua morte.

Mas em 15 de novembro de 1867, Ryoma era assassinado na hospedaria Oumi-ya em Quioto. O governo Meiji foi instaurado no ano seguinte. Iniciava-se então a emigração para o Havaí. Segundo o professor Haraguchi, “ir para Ezo, ou para Havaí ou para Guam significava a mesma coisa para as pessoas dessa época”. A família Sakamoto emigrou para Hokkaido em 1897, em sua quinta geração, quando o então chefe de família Naohiro se transferiu para essa terra levando toda a família. Dizem que ninguém da família ficou em Kochi.

Diz Kazumasa Tomio, repórter do jornal Kochi Shimbun em sua obra “Minami he (Kochi Kenjin Chunanbei Iju 100Nen)” (literalmente “Rumo ao Sul – Centenário da Emigração de Kochi às Américas Central e Sul”) (Editora Kochi Shimbunsha, 2009):

“– Naohiro Sakamoto, defensor dos direitos civis como Ryo Mizumoto, que foi viver em Hokkaido, era 6 anos mais idoso que Ryo. O Hokkosha Kaitakudan (Grupo Colonizador Hokkosha) de Sakamoto partiu da Baía de Urado antes da viagem de Mizuno ao Brasil, e passando pelo Mar do Japão, se fixou nas terras do Norte. Mizuno não faz referência a Sakamoto em sua autobiografia, mas devia com certeza conhecer o ousado empreendimento de Sakamoto.”

Naohiro Sakamoto pertencia à quinta geração de uma família de samurais da suserania de Tosa. Ryoma Sakamoto era seu tio. Como Mizuno, era ativista do Movimento da Liberdade e dos Direitos do Povo. O sonho da colonização de Ezo almejado por Ryoma se transmitiu inicialmente a Nao Sakamoto, sobrinho e sucessor, e dele para Naohiro, para concretizar-se em Hokkaido. Com certeza, a emigração viria depois, em seguida à “abertura do país” e à “colonização de Ezo”.

 


Ryo Mizuno em traje ocidental, no auge da sua vida (Foto/Família Mizuno)


 

A comunidade nikkei caminha a passos firmes para a integração, deixando, porém, o legado da cultura japonesa. A bela flor Yamatonadeshiko transplantada em novo continente haverá de se abrir em todos os setores da sociedade brasileira. Ryo Mizuno é um personagem por demais controvertido para ser considerado um “grande homem”. Porém, os samurais idealistas da Restauração de Meiji não foram também todos eles uns santos. Quem sabe Mizuno tenha conseguido iniciar a emigração ao Brasil, que ninguém antes fora capaz de realizar, por ter sido um “idealista sonhador”. ❀

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 4
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo de 15 de Dezembro de 2016
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão português: Aldo Shiguti

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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