Cultura Japonesa Vol. 4 – Era Meiji – Os samurais de Shonai, através dos ensinamentos de Takamori Saigo, se uniram para construir um Japão novo

Os construtores e protagonistas da Era Meiji

Samurais da
suserania de Shonai

O respeito e amor do povo de Shonai por Takamori Saigo


Texto original em japonês de Masaomi Ise

Referências: (1) “Shin-yaku Nanshuuoh Ikun – Saigo Takamori ga nokoshita ‘Keiten Aijin’ no Oshie” (Testamento do Venerável Saigo, Nova Versão – A máxima ‘Venerar a Deus e amar as pessoas’, deixada por Takamori Saigo) – Matsuura Mitsunobu, Edição Kindle, Centro de Pesquisa PHP, 2008. (2) “Hanashikotoba de yomeru ‘Nanshuuoh Ikun’ Buji wa Yuji no gotoku, Yuji wa buji no gotoku” (O ‘Testamento do Venerável Saigo’ em linguagem coloquial – A Paz como Crise, e a Crise como Paz) – Edição Kindle, Biblioteca PHP – 2005

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 4, de Dezembro de 2016


 

Takamori Saigo (à esquerda) e Tadazumi Sakai, suserano de Shonan

 

A vitória não dá ao vitorioso o direito de humilhar os derrotados. Antes de vilipendiar os derrotados, os samurais, pelo contrário, procuravam respeitá-los pelo valor que demonstraram em combate, tanto maior esse respeito quanto maior as penas que suportaram para vencê-los. Por isso mesmo a Restauração de Meiji se realizou em prazo tão reduzido e com mínimo de sacrifício de vidas humanas, como nunca se viu na história. Este espírito é também necessário até nos dias de hoje. Mereceria ser melhor divulgado tanto entre políticos como entre esportistas.  (A redação – Jornal Nikkey Shimbun)

 

 

O respeito e amor do povo
de Shonai por Takamori Saigo

 

O relacionamento entre pessoas neste mundo é por vezes intrigante. É o caso do relacionamento entre Takamori Saigo e pessoas da suserania de Shonai (atual região de Shonai da Província de Yamagata).

 

Takamori Saigo

 

Em 1868, a suserania de Shonai foi derrotada na batalha de Boshin e se rendeu ao exército imperial do governo Meiji comandado por Takamori Saigo. Impressionado, porém, com a nobreza de comportamento de Saigo, o próprio suserano de Shonai, à frente de mais de 70 samurais seus vassalos, se dirigiu até Satsuma para solicitar-lhe preleções.

Saigo, contudo, teve mais tarde um fim trágico. Nos primeiros anos do governo Meiji, da qual fez parte como ministro, não se entendeu com seus pares e se retirou para Satsuma, de onde comandou uma rebelião contra o governo. À frente das tropas de Satsuma, avançou contra Tóquio originando um grande conflito interno – o Conflito de Seinan. Derrotado, porém, em sucessivos confrontos contra o exército imperial que ele mesmo comandara anos atrás, Saigo morreu em 1877, em batalha. Considerado rebelde, foi, entretanto, perdoado postumamente em 1889 pelo imperador Meiji que lhe agraciou nessa ocasião o título de Shousanmi, um dos mais nobres da hierarquia da corte imperial.

Tão logo se soube desse agraciamento, pessoas de Shonan editaram um livro contendo os ensinamentos de Saigo e foram distribuir exemplares por todos os recantos do país, carregando-os nas próprias costas.

O povo de Shonan dedica até hoje profundo respeito a Saigo. Existe na região um templo construído em sua memória, e se realizam atividades de divulgação de suas virtudes – uma bela história de veneração a um herói, tipicamente japonesa. Apreciemos essa história em detalhes.

 

O exército do governo Meiji
que comoveu a suserania de Shonan

 

Em dezembro de 1867, samurais ronin (desempregados) reunidos na mansão pertencente à representação da suserania de Satsuma em Edo promoviam perturbações em Edo. Cinco suseranias, encabeçadas pela de Shonan, responsável pela segurança da cidade, receberam ordem do xogum para atacar a representação de Satsuma. Canhões foram disparados contra a mansão e ela foi incendiada. Este incidente serviu de gatilho para a batalha de Toba-Fushimi entre as tropas do xogum e do governo Meiji, dando início ao conflito de Boshin, entre o xogunato e o exército imperial, de um ano e meio.

A suserania de Shonan se colocou ao lado do xogum juntamente com as suseranias de Aizu e Yonezawa, e invadiu a suserania de Akita, que defendia o novo governo imperial (o Imperador Meiji havia decretado a revogação do xogunato), obtendo vitória em batalhas sucessivas. Shonan sempre procurara proteger seu povo. Havia uma forte união entre o suserano, seus samurais e o povo em geral. Tanto assim que a Casa Honma, opulento estabelecimento comercial antigo na região que dava suporte ao governo da suserania, efetuou doações substanciais para a aquisição de armas modernas, entre as quais o fuzil Snider.

Essa suserania resistiu à invasão das tropas do governo Meiji mesmo após a rendição das outras, de Yonezawa e Aizu. Mas quando restou sozinha na luta, resolveu finalmente declarar submissão em setembro de 1868.

Assim, tendo sido a última a permanecer obstinadamente em guerra com o novo governo, todos em Shonan acreditavam que o governo vitorioso lhes imporia punições particularmente severas, e se preocupavam.

Entretanto, para enorme surpresa, as tropas do governo imperial que ingressaram triunfantes em Shonan vinham desarmadas. Com isso, o novo governo imperial impedia que seus soldados, levados pelo ímpeto da vitória, cometessem desatinos contra a população. E, no entanto, permita aos samurais derrotados de Shonan que conservassem suas espadas, para não ferir a honra deles! Tudo isso causou enorme admiração entre o povo de Shonan.

As penalidades impostas à suserania que o delegado do governo, Kiyotaka Kuroda, oficial de Satsuma, dava a conhecer, foram também incrivelmente benévolas: O lorde Tadazumi Sakai, suserano de Shonan, era destituído e confinado à prisão domiciliar, substituído no trono da suserania por seu irmão Tadamichi; e a suserania sofria uma pequena redução das terras do seu domínio.

 

Tadazumi Sakai, suserano de Shonan

 

Durante a cerimônia da decretação das penalidades realizada no salão principal do palácio perante a guarnição inteira ali reunida, inclusive o suserano, Kuroda, na qualidade de representante do governo imperial vitorioso anunciava o texto do decreto ocupando o assento nobre reservado ao lorde Sakai, suserano de Shonan. Mas lida a declaração, abandonava prontamente o assento devolvendo-o ao suserano derrotado. E, para o espanto de todos, disse curvando-se respeitosamente a ele:

“– Perdoe-me a insolência que cometi em função do meu ofício.”

Nem é preciso dizer como a aderência exemplar à ética de samurai demonstrada por Kuroda comoveu profundamente todos os presentes.

 

“Haverá neste mundo algum samurai
tão digno como esse?”

 

Em 1869, Sanehide Suge, administrador geral da suserania de Shonai, comparecia a Edo para iniciar os trâmites da rendição. Nessa oportunidade, foi visitar Kuroda para agradecer-lhe pela brandura das penas impostas.

“– As punições não foram estabelecidas por mim”, disse então Kuroda, e esclareceu:
“– Eu apenas cumpri o que o mestre Saigo me ordenou.”

Saigo, que comandava o exército do recém-instituído governo imperial, pretendia retirar-se logo no dia seguinte à rendição de Shonai. Kuroda, porém, se opusera a Saigo. A rendição fora bem recente, ninguém sabia o que poderia acontecer depois.

 

“– Mestre Saigo me disse, porém: – ‘A guerra … basta vencê-la, não há mais o que fazer. Não se preocupe com o depois, somos todos japoneses. … Somos todos companheiros na tarefa de construção de um novo Japão, não somos? Não há mais amigos ou inimigos.’”(1, pg.32)

 

Kan se emocionou: “Haverá neste mundo algum samurai tão digno como esse?” É de se imaginar o impacto causado por esse episódio envolvendo Saigo naqueles que dele souberam por intermédio de Kan.

Em 1870, o lorde Tadazumi Sakai, ex-suserano de Shonai nessa época com 18 anos, conduziu uma missão composta de mais de 70 samurais, vassalos da suserania para visitar Satsuma e solicitar preleções a Saigo. Este os acolheu com entusiasmo e lhes forneceu pedaços de sua sabedoria.

Impressionado com os ensinamentos de Saigo, Tadazumi relegava de vez sua condição de lorde e se misturava aos seus vassalos comendo e dormindo entre eles. Esses ensinamentos foram posteriormente reunidos em um livro, as “Preleções Póstumas do Venerável Saigo”.

 

Lágrimas de Saigo

 

Uma das passagens em “Preleções Póstumas” é particularmente impressionante: parece até transportar através dos tempos a própria voz de Saigo em preleção aos samurais de Shonai. É a seguinte:

 

“Certa vez, nos disse o mestre Saigo:
‘– Espera-se daqueles que se dedicam à política como líderes do povo, que sejam humildes e discretos, que tenham conduta irrepreensível, que se cuidem em não cometer extravagâncias, e que se empenhem de corpo e alma ao trabalho, …, em outras palavras, que sirvam de modelo aos outros, não é assim?

Mas veja esses políticos do governo atual. Vivemos uma fase muito preciosa, quando tudo deve ser iniciado. Estamos no ponto de partida de um novo período! Não obstante, eles vivem em enormes mansões, vestem roupas caríssimas, possuem belas mulheres como amantes, e com que se preocupam? Preocupam-se apenas em enriquecer o próprio patrimônio! Pergunto, foi para isso que iniciamos a restauração de Meiji? Desse jeito, não há como atingir os objetivos iniciais.

Aquele conflito de Boshin, iniciado com a batalha de Toba-Fushimi e findo com a de Goryokaku, não era para ser uma guerra justa, de reconstrução do Japão? Mas veja só esse governo, criado por essa guerra!

O que acontecerá desse jeito? Chegaremos em suma à conclusão de que essa guerra foi feita apenas para o proveito desses altos funcionários do governo!

Assim, como posso me desculpar perante o mundo, especialmente, perante aqueles que morreram combatendo nessa guerra? Eu sinto muito, muito mesmo por eles …’

Mestre Saigo disse tudo isso em lágrimas. Não conseguia conter as emoções que lhe afluíam do fundo da alma.” (1, pg781)

 

É de se crer que até os samurais de Shonai que combateram no conflito de Boshin lutando contra Saigo não tenham também contido suas lágrimas.

 

“A guerra ‘justa’
para reconstruir o Japão”

 

Saigo dissera que o conflito de Boshin deveria ter sido uma guerra ‘justa’ para reconstruir o Japão, e assim se manifestou a respeito dessa ‘justiça’:

 

“– Integridade, moralidade, …. sentimento de vergonha … não há como a nação se manter se o povo perder essas coisas, tanto aqui como no ocidente.

Se, por exemplo, políticos, oficiais do governo e funcionários públicos, em seus altos postos, passarem apenas a extorquir os lucros do povo esquecendo de exercer a justiça social, o que acontecerá?

O povo passará a imitá-los, passará a perseguir o dinheiro, e a avareza se espalhará dia a dia.
E então, como se poderá governar o país?” (1, pg 1245)

 

O país não se manterá caso o povo perca a moralidade. Os altos funcionários do governo Meiji estão trabalhando apenas por interesses próprios e com isso, destroem o país. Assim, Saigo se sentia culpado perante aqueles que haviam dado suas vidas na guerra que acreditavam ser a “guerra justa para o renascimento do Japão”. Aí estava a causa de suas lágrimas.

Saigo dissera: “A guerra … basta vencê-la, não há mais o que fazer. Não se preocupe com o depois, somos todos japoneses…. Somos todos camaradas, na tarefa de construção de um novo Japão, não somos?” Podemos compreender a benevolência de Saigo para com a suserania de Shonai quando tomamos conhecimento da forma como ele considerava o conflito de Boshin: uma guerra justa para a reconstrução do Japão.

Ele louvava os samurais de Shonai. Considerava-os “bravos samurais que se mantiveram fiéis ao xogum Tokugawa até o final do final”. E desejava que eles se juntassem no esforço de reconstruir o Japão.

 

“O ocidente é selvagem!”

 

Essa guerra justa, de reconstrução do Japão foi travada sob a ameaça das potências estrangeiras, materializada pela chegada dos “navios negros”. Saigo falou aos samurais da suserania de Shonai a respeito dessas potências ocidentais:

 

“Mestre Saigo disse certa vez:
‘– O que vocês entendem por “civilização”? Essa é uma palavra utilizada em louvor àqueles países onde a moralidade está largamente difundida entre as pessoas, e praticada. Não se refere em absoluto a exterioridades desimportantes, tais como a existência de palácios enormes e fabulosos, ou de pessoas bem vestidas …

Eu discuti tempos atrás com certa pessoa. Disse nessa hora: ‘O ocidente é selvagem!’

Essa pessoa me respondeu: ‘– Não, o ocidente é civilizado!’

Eu retruquei com energia: ‘– Nada, o ocidente é selvagem!’

A pessoa se exasperou: ‘– Mas por que o senhor denigre o ocidente dessa forma?’ – me perguntou, agastada.

Então, eu lhe disse: ‘– Se os países do ocidente fossem mesmo civilizados, não deveriam estar conduzindo os países atrasados rumo ao desenvolvimento com delicadeza, com esclarecimentos bondosos, e fazendo o povo compreender?

Mas não é isso que o ocidente tem feito. Quanto mais atrasado o país, quanto mais ignorante, o ocidente o trata com maior crueldade. Em suma, o ocidente só tem procurado satisfazer seus próprios interesses. Se isso não for selvageria, então me explique: o que é selvageria?’

Depois disso, a pessoa se calou, não disse mais nada.“- Mestre Saigo concluiu, com uma risada.” (1, pg 1069)

 

Nessa época, potências ocidentais exploravam os países da África e Ásia, fazendo delas suas colônias. Essa atitude dos países dominantes induz os povos dominados ao colonialismo. Assim, todos passam a trabalhar por interesses particulares. O ocidente produz selvageria entre os países africanos e asiáticos.

Saigo pensava que a “civilização” dizia respeito a países “onde a moralidade está largamente difundida e praticada entre o povo”. Nenhum país poderia alcançar a civilização caso fosse subjugada pelas potências ocidentais e colonizada por eles.

O “jô-i”, ou seja, o movimento pela expulsão dos “bárbaros” ocorrido na fase final do xogunato, tivera na realidade por intenção proteger a pátria da “selvageria” dessas potências ocidentais.

Argumenta o professor Mitsunobu Matsuura da Universidade Kogakkan e autor da obra referenciada em (1):

 

“Os nossos ancestrais não estavam interessados em defender simplesmente interesses nacionais quando iniciaram o jô-i. Este ponto é muito importante. O que procuravam defender era, em essência, a moralidade.” (1, pg 1106)

 

“Máximo Legado para a Posteridade”

 

Setenta samurais de Shonai liderados pelo antigo suserano foram até Saigo em busca de ensinamentos, impressionados pela extrema moralidade no comportamento dele. Isso se deu porque não eram samurais quaisquer. Eram “samurais honrados, que se mantiveram fiéis ao xogum até o final do final”, como louvou o próprio Saigo.

Esses samurais, instruídos pelos ensinamentos de Saigo, com certeza se transformaram em “companheiros na construção de um novo Japão”. Doze anos após o término do conflito de Seinan, o imperador Meiji rendia homenagem póstuma a Saigo conferindo-lhe o título Shousanmi recuperando assim sua honradez. Tanto bastou para que esses samurais registrassem em um volume as “Preleções Póstumas do Venerável Saigo”, que se puseram a espalhar e divulgar por todo Japão, em uma demonstração de puro companheirismo na luta pelo desenvolvimento do país.

Kanzo Uchimura menciona Takamori Saigo em seu ensaio sobre “Vultos Representativos do Japão”. Em conferência pronunciada sobre “Máximo Legado para a Posteridade”, diz ele:

 

“– Há um legado que qualquer pessoa pode deixar para a posteridade, que só traz benefícios e nenhum dano. Refiro-me a uma vida nobre e corajosa.”

 

Tadazumi Sakai é também um dos idealizadores e responsáveis pela construção da estátua de Takamori Saigo do Parque Ueno

 

A vida nobre de Takamori Saigo e dos samurais de Shonai constituem sem dúvida o “Máximo Legado a Posteridade” deixado para nós. Está em nós saber utilizá-lo, em nossas próprias vidas. ❀

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 4
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo de 15 de Dezembro de 2016
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão português: Aldo Shiguti

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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