Cultura Japonesa Vol. 4 – Era Meiji – Etsuko Sugimoto, a filha de samurai que atravessou o oceano

Os construtores e protagonistas da Era Meiji

Etsuko Sugimoto

A jovem da família Inagaki, casa-se com um emigrante japonês para viver nos Estados Unidos


Texto original em japonês de Masaomi Ise

Referência: (1) “Bushi no Musume” (Filha de samurai) – Etsuko Sugimoto, Editora Chikuma Bunko, 1994. (2) “Meiji-jin no Sugata” (Pessoas da Era Meiji) – Yoshiko Sakurai, Shogakkan 101 Shinsho, 2009

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 4, de Dezembro de 2016


 

Etsuko Sugimoto

 

 

A jovem da família Inagaki, linhagem tradicional de karô (administradores gerais de suseranias e do xogunato) da Era Edo, casa-se com um emigrante japonês para viver nos Estados Unidos. Um rebento brotado da raiz de uma cerejeira milenária ganhava vida levada a um país estrangeiro. O espírito samurai encontrava afinidade no mundo, mesmo porque a educação em uma casa de samurais não distinguia homens de mulheres. Os Estados Unidos são o palco desta história, mas não teriam os emigrantes japoneses ao Brasil passado por coisas semelhantes? Levar as qualidades que o Japão possui desde a Era Meiji como contribuição ao país de destino – quem sabe seja esse o ponto fundamental desta narrativa. (A redação – Jornal Nikkey Shimbun)

 

 

“Por que veio vestida de quimono?”

 

1898, certa cidade do leste americano. O trem transcontinental chega à estação e uma japonesa em quimono de longas mangas, ainda jovem, desce à plataforma. Ali entre a multidão, um moço japonês observa com grande atenção os passageiros que desembarcam. Os dois se reconhecem imediatamente. As primeiras palavras, ditas pelo moço em tom de censura, são: “– Por que veio vestida de quimono?”

A jovem era Etsuko Inagaki, 25 anos. Nascera em 1872, sexta filha dos Inagaki, família tradicional de administradores gerais da suserania de Nagaoka, em Echigo (região próxima à atual cidade de Nagaoka, Província de Niigata). Viera para os Estados Unidos para se casar com Matsuo Sugimoto, japonês que se dedicava ao comércio nesse país.

Ocorre que a roupa que Etsuko vestiria ao sair do Japão havia sido alvo de discussão na família, e provocara até uma reunião de parentes para decidir sobre o caso. O irmão mais velho de Etsuko defendia que ela trajasse vestido ocidental para a viagem, o tio de Tóquio concordava, mas a avó, em tom sereno, protestava solenemente:

“– A manga tubular desses vestidos, como eu vi em figuras, são muito deselegantes, parecem até calções de operário. Chegamos ao ponto de precisar que minha neta tenha de se vestir como operário? Eu fico triste, quando penso nisso.” (1, pag. 181)

A opinião da avó, pessoa mais importante entre os presentes, acabou acatada. Decidiu-se por fim que o vestido ficaria por conta do marido, nos Estados Unidos, e a família aprontaria apenas quimonos para a noiva levar.

O noivo se preocupava se o casal Wilson, em cuja residência se hospedava, não estranharia essa aparência, e por essa razão se mostrara insatisfeito. Etsuko, contudo, foi recebida com muito carinho.

 

“Senhorita,
assim não será possível estudar!”

 

Nascida em uma família de administradores gerais, Estuko passou por rígida disciplina desde a infância, mesmo na época moderna da Restauração de Meiji em que viera ao mundo.

A partir da idade de 4 ou 5 anos, um monge do templo da família passava a comparecer invariavelmente aos terceiros e sétimos dias do mês para lhe ministrar os ensinamentos dos Quatro Livros, textos básicos do confucionismo.

Uma mesa havia sido instalada em uma sala espaçosa, bem limpa, sem um grão de poeira sequer. O monge mestre sentava-se diante dela, e com rosto bondoso, discorria sobre os textos por quase 2 horas seguidas, perfeitamente imóvel, sem mexer senão os lábios e as mãos.

A uma criança de apenas 5 anos de idade, compreender os Anacletos de Confúcio era tarefa impossível. Às perguntas ocasionais de Etsuko, o mestre costumava responder apenas: “– A menina é ainda muito jovem para entender em profundidade este texto”, ou “– Se pensar bastante, as palavras ganharão sentido naturalmente, e então poderá entender.”

Etsuko nada entendia, mas conseguia decorar algumas palavras pela musicalidade da pronúncia. E à medida que crescia, lembrava-se casualmente de algumas passagens bem memorizadas, que passavam a fazer sentido. Um raio de luz emergia dentre as nuvens.

Estsuko era mantida em posição sentada sobre os pés dobrados, sobre o tatami, sem poder se mexer nem um pouco diante do mestre. Moveu-se, apenas uma vez, inclinando só um pouco o corpo para aliviar o joelho.

No mesmo instante, o mestre estampou no rosto uma leve expressão de espanto. Fechou o livro, e disse, com delicadeza:

“– Senhorita, não é possível estudar com essa disposição de espírito. Acho melhor que se retire ao seu quarto para refletir sobre o que fez.”

O pequeno coração de Etsuko quase explodiu de vergonha. Atrapalhada, ela cumprimentou o mestre e se retirou. Mesmo crescida, isso permaneceu como ferida velha em sua alma. Sentia uma pontada no peito sempre que se recordava desse incidente.

 

“Seu noivo foi escolhido”

 

Muitas correspondências começavam a chegar dos Estados Unidos. Vinham de um amigo de seu irmão mais velho, que se dedicava ao comércio naquele país. Os tios se reuniram em conselho familiar.

Durante a longa reunião, Etsuko estava absorta praticando exercícios de caligrafia a pincel, mas foi chamada de repente à sala da reunião. A mãe lhe falou com carinho:

“– Etsuko querida, seu noivo foi escolhido com a bênção dos deuses. A escolha foi feita pelo seu irmão mais velho, e também, pelas pessoas que estão aqui. Agradeça muito bem a elas.”

Etsuko se curvou profundamente em agradecimento, quase tocando o tatami com a testa. E depois retornou ao seu quarto para continuar na prática da caligrafia. Era ainda uma menina pequena de apenas 13 anos de idade, mas como todas dessa época, sabia desde criança que um dia sairia de sua casa para casar-se. Assim, não se espantou. E também entendia que o casamento não era uma decisão pessoal, envolvia a família inteira. Por isso, nem se interessou em saber quem seria seu noivo.

Tratava-se de Matsuo Sugimoto, amigo de seu irmão mais velho, também nos Estados Unidos. Meses depois, um tio seu veio de Quioto para os acertos finais. E a partir desse dia, Etsuko começou a ser preparada para o casamento. Já havia recebido algumas instruções sobre preparo de comida, costura, afazeres domésticos e etiqueta, mas passou a aprender tudo isso com seriedade para poder ser uma boa esposa na casa do marido.

Em ocasiões de festejo e no aniversário de Matsuo, competia a ela preparar banquete ao noivo ainda desconhecido. Preparava os pratos preferidos do noivo informados pelo irmão e os servia simbolicamente ao noivo ausente.

 

“Seja homem ou mulher,
a vida de samurai é a mesma”

 

Certo dia, Matsuo enviava um recado através do intermediador do casamento. Ele se transferia da região oeste dos Estados Unidos para a região leste, para iniciar atividades comerciais por própria iniciativa. Assim, não poderia mais retornar ao Japão por alguns anos, e pedia a Etsuko que viesse para os Estados Unidos. Entre os samurais, a prática de enviar noivas para o casamente a regiões longínquas era normal, e por isso, a viagem de Etsuko àquele país cruzando o oceano não constituiu problema maior.

A avó lhe contou certa noite sua história, enquanto se aqueciam juntos sob o kotatsu (aquecedor envolvido por cobertor grosso). Sessenta anos atrás, nessa mesma noite, a avó então com 14 anos de idade deixara sua família para ser enviada aos Inagaki em casamento. Viera de terra distante, muito além de Quioto. Viajara por um mês até chegar a Nagaoka, em Echigo.

“– Quando cheguei, vi que tudo era muito diferente da minha terra: as palavras, os costumes, tudo era estanho, como se estivesse em um país estrangeiro. Por isso, a vovó morre estes dias de preocupação por você, que vai para um país estrangeiro. Está me ouvindo, Etsubô (tratamento afetivo de Etsuko)?”

E acrescentou com brandura:

“– Entretanto, seja homem ou mulher, a vida de samurai é a mesma, não importa onde se vá morar. Tudo se resume em fidelidade e coragem para defender nosso amo. Lembre-se sempre do que lhe diz sua avó. Seja fiel ao seu marido, tenha coragem e enfrente sem temor quem quer que seja para proteger seu marido. Basta isso, e você viverá feliz.” (1, pag. 119)

 

“Broto nascido na raiz
da cerejeira milenar”

 

Com o intuito de se preparar para os Estados Unidos, Etsuko foi estudar inglês em uma escola de Tóquio. Alojou-se na casa de um velho amigo de seu pai para frequentar a escola administrada por um missionário, e se dedicou com afinco ao estudo de japonês e inglês, e também, de história e da Bíblia. Gostava especialmente do Velho Testamento. A forma como viveram os heróis do Velho Testamento lhe parecia semelhante aos dos antigos samurais do Japão.

Plantações se espalhavam por toda parte ao deixar o portão da escola. Em dias de sol, os alunos costumavam passear conduzidos pelo professor pelos caminhos de terra. O professor parou um dia junto ao muro coberto de musgos do templo de Hachiman, e apontou para uma cerejeira jovem e frondosa. Essa cerejeira nascia do oco de um velho tronco apodrecido. Havia uma inscrição ao lado. Dizia: “Nova cerejeira nascida da raiz de um tronco milenar”. Disse o professor sorrindo:

“– Esta cerejeira é muito parecida com vocês. A magnífica civilização do Japão antigo está dando energia a vocês, jovens. Por isso, vocês devem crescer com todo vigor e recompensar o Japão de hoje com uma energia ainda maior, ainda mais bela que a do Japão antigo. Não se esqueçam jamais disso.” (1, pag. 172)

Etsuko se imaginou uma cerejeira jovem, nascida da raiz de um tronco milenar. Pretendia se transferir e florescer em terras estrangeiras.

 

“Veneranda mãe” americana

 

Após passar quase 20 dias hospedados entre o casal Wilson, Matsuo e Etsuko celebraram casamento em um belo dia de junho. Uma mesa adornada em marfim havia sido posta em uma sala perfumada por odor de flores, tendo diante dela as bandeiras japonesa e americana dispostas em cruz. Ali, os noivos se colocaram lado a lado ali, e ouviram a leitura da Bíblia. Todos os participantes elogiaram o belo casamento.

O casal passou logo mais a viver na residência de uma senhora viúva, parente da senhora Wilson – uma casa construída em estilo antigo no cume de um morro próximo, cercada de árvores. A viúva era uma senhora que tinha em seu sangue a severidade da Nova Inglaterra e a delicadeza aristocrática de Virgínia.

Essa senhora se simpatizava com japoneses. Havia convidado uma vez o casal à sua residência, quando nasceu entre eles afinidade recíproca. Isso os levou a viverem juntos. Etsuko passou a amar essa senhora, que considerava sua “veneranda mãe” americana.

É de se crer que essa senhora, criada em rígido ambiente da Nova Inglaterra e no meio da sociedade aristocrática de Virgínia, tenha se simpatizado com Etsuko, que embora estrangeira, recebera severa educação como filha de samurais.

 

A farda do avô

 

Certo dia, Etsuko auxiliava sua “veneranda mãe” a arrumar as roupas que estavam no interior de um baú, no sótão da casa. Nessa hora, a “veneranda mãe” lhe mostrou a farda envergada por seu pai durante a guerra de independência contra os ingleses, em 1812.

De repente, isso ressuscitou na memória de Etsuko antigas recordações do Japão, do dia em que roupas antigas guardadas em armários da sua casa eram postas a arejar para evitar a ação dos insetos. Recordou-se, como se visse diante dos próprios olhos, da cena dos empregados atarefados movendo-se de um lado a outro entre cordas com roupas estendias, e do quarto da avó onde entrou atrás do pai passando entre eles.

“– Etsu querida, você parece perdida em pensamentos, não? Seus olhos estão distantes, vendo cinco mil milhas ao longe …” – disse a “veneranda mãe” sorrindo.

“– Mais longe ainda, na verdade. Eu estava vendo coisas que aconteceram antes do meu nascimento” – respondeu.

Etsuko se curvou, para acariciar a gola da velha farda do avô americano, sobre o colo da mãe também americana. De tudo que havia encontrado nos Estados Unidos, aquilo lhe pareceu mais familiar, mais chegado à sua alma.

“– Mãe, nós também temos guardado em casa preciosas lembranças de guerra” – Estuko passava a contar para a mãe americana os feitos do avô que ouvira em criança.

 

Orgulho de samurai

 

No conflito de Boshin, a suserania de Nagaoka lutou a favor do xogunato contra o exército imperial. Derrotada, as forças inimigas conduziram prisioneiro o administrador geral da suserania, pai de Etsuko, e o retiveram como refém.

“– A condição de refém não era, entretanto, ruim como imaginávamos. Ao redor, o ambiente era ainda de guerra, mas a sede do quartel geral do exército imperial se achava em um templo no interior de uma floresta silenciosa. Esse templo servia ao mesmo tempo de quartel geral e também de prisão dos samurais de alta hierarquia do exército derrotado. Embora prisioneiro, meu pai recebia tratamento de hóspede visitante.

… Pela aparência, nada havia ao redor dele que lembrasse um cárcere, e acredito que de fato, não se tratava de cárcere. Ele estava acorrentado apenas por sua honra de samurai, como os encarregados da sua vigilância bem sabiam.

A distração maior que meu pai encontrava durante esses dias tediosos provinham de leitura e das partidas de igo que jogava com o comandante das forças do governo. O comandante, pessoa educada e altamente instruída, vinha de tempo em tempo conversar com meu pai. Tinham os mesmos hábitos de lazer, ambos valorizavam os mesmos princípios, e assim, a amizade estabelecida entre ambos nesse curto período de tempo sobrepujando diferenças ideológicas nunca se alterou pelo resto de sua vida.” (1, pag. 202)

Certo dia, um samurai lhe trouxe como sempre o jantar, mas com a tigela de arroz do lado direito e a da sopa do lado esquerdo. O hashi vinha espetado no arroz, à maneira das oferendas aos mortos, e o peixe assado, com a cabeça decepada. Era o sinal de que a sua hora chegara.

O pai serviu-se do jantar com sempre. Tomou banho, vestiu o traje azul envergada por samurais nos últimos momentos de vida e aguardou silenciosamente a chegada da hora da execução (entre 1 e 3 horas).

O comandante da tropa imperial entrou em seu quarto. Apagando do rosto a profunda emoção que ia em sua alma, disse:

“– Não estou aqui na qualidade de comandante. Vim como amigo, para receber seu último recado às pessoas da sua terra.”

Respondeu-lhe o pai:

“– Estou muito agradecido pelas demonstrações de amizade com que me distinguiu todo este tempo, inclusive esta última que acabo de receber. Saí da minha casa já preparado para nunca mais regressar, e assim, deixei dito tudo o que desejava. Agora, nada mais me resta dizer.”

 

“Como todos os países
deste mundo são parecidos!”

 

Chegada a hora, o pai descera calmamente ao jardim interno do templo mostrando em postura o orgulho da família centenária, tradicional de samurais, a que pertencia. Entrou no cercado preparado para a ocasião, onde já se achavam outros condenados à morte juntamente com ele, entre os quais o irmão da Etsuko, ainda criança, sentado ao lado do seu executor.

Ao ver o pai, o irmão se mexeu ligeiramente, e foi contido pelo algoz que o deteve pelas mangas da roupa. Com passadas calmas, o pai se dirigiu ao último assento, os olhos fixos à frente. O irmão permanecia perfeitamente imóvel, sentado em posição ereta, a face voltada para diante. Ainda criança, o irmão já se comportava como samurai.

Ao narrar até este ponto, Etsuko agarrava com força a gola da farda e curvava o rosto para esconder as lágrimas. Sentiu as mãos da sua “veneranda mãe” sobre os ombros, mas não ergueu a face. Para filha de samurai, mostrar lágrimas era vergonha, seria indigna do pai.

Entretanto, poucos minutos antes do início da execução (os samurais deveriam rasgar o próprio ventre em seppuku), um mensageiro do novo governo entrava a cavalo, galopando pelo recinto, com uma mensagem urgente. A guerra terminara, e o governo perdoava todos os rebeldes. Por um triz, o pai e o irmão se salvavam da morte.

A “veneranda mãe” comentou com tristeza:

“– É assim mesmo. Nós sabemos que nos tempos em que as mensagens eram transmitidas por mensageiros a cavalo ou a pé, coisas como essas ocorriam com frequência. É culpa de ninguém!”

E continuou, segurando a farda com os olhos úmidos, a face ruborizada:

“– Mas como os países do mundo se parecem, uns com outros!”

Trocaram sorrisos a “veneranda mãe” americana filha de militar americano e Etsuko, filha de samurai japonês.
Desde então, Etsuko passou a amar do fundo do coração a mãe americana.

 

Aspectos da comunidade

 

Com o passar dos tempos, Etsuko, de início atraída por novidades, começava a perceber semelhanças entre os Estados Unidos e Japão.

Perto das 8 horas da manhã, ao ver crianças rindo, gritando pelos companheiros e caminhando juntas pelas ruas levando o material escolar, recordava-se das manhãs no Japão por volta das 7 horas, quando meninos em uniformes e meninas em roupas típicas transitavam pelas ruas em ruidosos getás (tamancos de madeira de sola alta) carregando o material escolar embrulhado em trouxas de pano.

O 14 de fevereiro era o dia de São Valentino. Mensagens de amor escritas em papel vermelho, cortado em forma de coração e amarrado em ramos de rosa se assemelhavam ao costume japonês da comemoração do Tanabata, quando se erguiam ramos de bambu com mensagens em tiras coloridas de papel.

Em 30 de maio, dia dedicado aos que morreram em guerra, quando via flores e pequenas bandeiras americanas enfeitando túmulos no cemitério em memória dos mortos nas guerras da independência e de secessão, recordava-se das comemorações do Shokonsha (atual Templo de Yasukuni em Tóquio), quando milhares de pessoas compareciam ininterruptamente o dia todo diante do altar.

A cena de 4 de julho, dia da independência comemorada com bandeiras nacionais e fogos, se assemelhava com as do festival de Kigensetsu (atual Dia da Fundação Nacional), quando se comemorava a entronização do imperador Jinmu há 2.500 anos.

O Natal, quando a cidade se adornava festivamente e as pessoas andavam pelas ruas carregando pacotes de presente, lembrava o Shogatsu (Dia do Ano Novo) japonês, quando as casas se enfeitavam com shimenawa (cordas de enfeite utilizadas como talismã contra maldades) e kadomatsu (decoração feita geralmente de pinho e bambu para receber o espírito de ancestrais) nos portões, e o povo se divertia com brincadeiras típicas do dia como karuta (do português “carta”, espécie de baralho japonês) e hanetsuki (minúsculas petecas jogadas com raquetes de madeira decoradas).

Em essência, atividades como criar filhos, agradecer aos ancestrais, lembrar dos que morreram em guerra, e comemorar a passagem do ano são realizadas da mesma forma em qualquer parte do mundo todo enquanto o ser humano conviva em comunidade.

Etsuko começava a pensar que sua vida, desde o tempo em que vivia no Japão como filha de samurais até os dias atuais de vida nos Estados Unidos, transcorrera afinal sem qualquer mudança, fluindo continuamente como uma torrente.

 

“Sou uma criança japonesa, não sou?”

 

Matsuo e Etsuko tiveram uma menina. A “veneranda mãe” americana chamava-se Florence, nome derivado de flor. Em homenagem a ela, deram à menina o nome de “Kano” (“Ka” de flor e “no”, de campo). Kano cresceu com saúde, sob os carinhos dos pais e da “veneranda mãe”.

Etsuko (à esquerda) ao lado da Florence, e as suas duas filhas

 

Aos 6 anos de idade, Suzan, sua amiga, veio certo dia visitá-la com uma irmãzinha, linda criancinha loira que iniciava seus primeiros passos. Invejosa, Kano passou a rezar todas as noites antes de dormir: “– Deus, me dê uma irmãzinha igual à da Suzan!”

Deus a atendeu, quem sabe, e ela teve uma irmã. Kano arregalou os olhos e observou os cabelos negros da irmã. Depois, foi sem nada dizer ao quarto da “veneranda mãe” para se queixar: “Eu não pedi uma irmã igual a ela, eu queria um bebê de cabelos loiros, como a irmã da Suzan!”

Carregando-a sobre o colo, a “mãe veneranda” lhe explicou que agora, a família tinha duas meninas japonesas, e isso era uma grande felicidade. A decepção de Kano se amainava um pouco.

Certa tarde, a “veneranda mãe” deu com Kano parada diante de um espelho na sala de visita, e lhe perguntou o que fazia.

“Eu sou uma criança japonesa afinal das contas, não é? Não sou como Suzan, e nem como a irmã dela”, respondeu, e disse, contendo as lágrimas com a voz embargada:

“– Mas a mamãe tem cabelos pretos, e meus cabelos são iguais aos da mamãe”.

Desde esse dia, Kano começou a se interessar por coisas japonesas. Estsuko lhe contava todas as noites contos de fadas japoneses. Histórias de lindas meninas japonesas de cabelos escuros, em particular daquela que passou uma linha em pétalas de cerejeira para formar um colar, lhe agradavam. E quando Etsuko se punha a cantar canções japonesas de ninar, Kano a acompanhava, cantando em voz baixa.

 

Até que os estrangeiros
e as pessoas do divino Japão
abram seus corações entre si

 

A vida feliz e tranquila da família Sugimoto com a “veneranda mãe” americana chegou repentinamente ao fim com o súbito falecimento de Matsuo. Etsuko regressou a Tóquio com suas duas filhas. As meninas penaram para aprender o japonês, mas aos poucos se transformaram em lindas meninas japonesas de cabelos negros, vestidas em quimono.

A mãe de Etsuko veio a morar também com elas em Tóquio. As meninas passaram então a ouvir as histórias da avó e a aprender a ler livros japoneses com ela. Foi a avó quem lhes ensinou a escrever em kanji (ideogramas chineses utilizados em japonês) a palavra “Veneranda avó americana”, com as duas sentadas ao seu lado.

Kano, que fora uma menina ativa nos Estados Unidos, adquirira hábitos discretos e elegantes educada pela avó. Etsuko, entretanto, se preocupava com isso. Kano seria realmente feliz? Havia agora brandura no olhar da menina, mas perdera o brilho do passado.

Quando a mãe faleceu por causa da idade avançada, Etsuko resolveu regressar aos Estados Unidos com as duas filhas. Antes de partir, levou as filhas a Nagaoka, sua terra natal. Na residência de sua irmã, encontrou no depósito da casa a velha almofada verde que sua avó utilizara no passado, quando Etsuko era criança. E lembrou-se do que a avó lhe dissera, sentada sobre essa almofada:

“– Veja, Etsubô, enquanto os estrangeiros e o povo do divino Japão não se entenderem abrindo entre eles seus corações, nunca ocorrerá uma aproximação entre países, não importa quantas vezes os navios viagem de um lado a outro.” (1, pag. 377)

Mas “Etsubô” havia embarcado em um dos “navios negros”, e viajado até um país estrangeiro bem distante, para descobrir que tanto ocidentais como orientais eram iguais em sentimentos humanos. Isso, porém, era um segredo ainda desconhecido para muitos ocidentais e orientais.

“– Estrangeiros de rosto avermelhado e pessoas do divino Japão continuam ainda hoje sem se entender, por não abrirem seus corações. Assim, o segredo se mantém ainda escondido. Mas os navios continuam indo e vindo, eles nunca param. Nunca param…”

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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CULTURA JAPONESA 4
Os textos foram extraídos do site de língua japonesa “Curso para a Formação de Japoneses da Geração Internacional”, e aqui traduzidos e publicados com a permissão do autor, Masaomi Ise. Estes tem por intuito expor de forma compreensível as peculiaridades da história e da cultura japonesas.

Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo de 15 de Dezembro de 2016
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Autores: Masaomi Ise, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão português: Aldo Shiguti

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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