Cultura Japonesa Vol. 3 – Torasaburo Kobayashi – O espírito das 100 sacas de arroz – “Vamos construir escolas, porque não temos o que comer”

EDUCAÇÃO JAPONESA

Torasaburo Kobayashi

Formar pessoas é construir a nação


Texto original em japonês de Masaomi Ise

Referência: (1) Ken-ichi Matsumoto – “Kobayashi Torasaburo – ‘Kome Hyaku Hyoo’ no Shisou” (Torasaburo Kobayashi – o ideal das “Cem Sacas de Arroz”) – Editora Gakken MBunko – 2001

Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 3, de Agosto de 2016


 

Torasaburo Kobayashi

 

 

Ao invés de investir em educação e saúde, prefere-se investir em estádios de futebol para a Copa do Mundo. Muito dinheiro público foi gasto em construção de estádios desportivos para as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Porém, se pensarmos seriamente em construir uma nação, não deveríamos iniciar investindo em educação? Com a elevação do nível de educação do povo, o país passará a produzir mercadorias de melhor qualidade e a exportação crescerá, a divulgação das medidas de prevenção sanitária se ampliará entre as pessoas, e o senso de moralidade se espalhará na sociedade melhorando com isso a segurança social. Durante a restauração da Era Meiji, a suserania de Nagaoka entrou em colapso por ter participado da oposição ao movimento de formação do novo império Meiji. No fundo da miséria em que se encontrava, a suserania recebeu uma doação de 100 sacas de arroz (uma saca = 60 kg). Quando discutiam sobre o que fazer com essas sacas, surgiu um homem que defendeu: “Vamos construir escolas, porque não temos o que comer”. Esta história bem poderia ser transportada ao Brasil de hoje, quando se faz necessário meditar sobre o que se deve fazer neste momento para o bem do país. (A redação – Jornal Nikkey Shimbun)

 

 

 

“O espírito das 100 sacas de arroz”

 

A expressão “espírito das 100 sacas de arroz” se tornou famosa pelo discurso do primeiro-ministro Junichiro Koizumi sobre política geral, pronunciado em 7 de maio de 2001 em reunião extraordinária do Congresso. Eis a parte do discurso referente à expressão:

“Um auxílio de 100 sacas de arroz” foi concedido no início da Era Meiji à suserania de Nagaoka, que se encontrava em profunda pobreza. Essas 100 sacas, se utilizadas para mitigar a fome, terminariam em poucos dias. Por isso, os dirigentes da época preferiram transformá-la em capital para a construção de escolas, para formar personalidades e multiplicar as 100 sacas para mil, dez mil sacas no futuro. A escola Kokkan Gakko surgida em consequência dessa iniciativa formou personalidades em quantidade. Neste momento em que nos preparamos para avançar com as nossas reformas, parece-me que nos falta este “espírito das cem sacas de arroz”, que nos leva a suportar as vicissitudes de hoje para o benefício do dia de amanhã.

Independentemente do sucesso ou não da política do premiê Koizumi, a expressão “espírito das cem sacas de arroz” repercutiu nos corações de muitos japoneses.

Dez anos se passaram. Hoje, o nosso país Japão se envolve em política populista de angariação de votos, como a do auxílio à criança, espalhando indiscriminadamente quase a metade do orçamento nacional para criar dívidas públicas, ou seja, deixando as dívidas decorrentes aos nossos descendentes. Adota por postura “postergar as vicissitudes para o benefício de hoje”. Não estaríamos na hora de relembrar o “espírito das cem sacas de arroz”?

 

Torasaburo Kobayashi

 

Torasaburo Kobayashi foi o homem das “cem sacas de arroz”. Em 1868, ano inicial da Era Meiji, a suserania de Nagaoka (hoje área pertencente à cidade de Nagaoka e adjacências, Província de Niigata) lutou no conflito de Boshin ao lado das forças do xogum contra o exército do novo governo imperial e foi derrotada. Após a derrota, Kobayashi foi nomeado Grão Conselheiro e recebeu a incumbência de reconstruir a suserania.

O estipêndio da suserania, fixada em 74 mil koku (100 mil koku na realidade), fora substancialmente reduzido para 24 mil koku. Muitos dos samurais de Nagaoka passavam a comer apenas kayu (papa de arroz rala) nas refeições, mesmo assim quando podiam.

Em 1870, a suserania de Mineyama, subordinada à de Nagaoka, enviava compadecida uma doação de mais de cem sacas de arroz. Torasaburo Kobayashi destinou-as integralmente à construção da escola Kokkan Gakko que planejava realizar. Os vassalos da suserania de Nagaoka com certeza esperavam que o arroz lhes fosse distribuído, mas Kobayashi os convenceu.

Esta história se tornou famosa no mundo em virtude do drama “Cem sacas de arroz” produzido durante a guerra por Yuzo Yamamoto.

 

Estátua do Torasaburo Kobayashi, retratando o incidente das Cem Sacas de Arroz – Nagaoka, Província de Niigata

 

“Construo escola porque passamos fome”

 

Yuzo Yamamoto descreve a cena em sua peça teatral da seguinte forma:

“Sanzaemon: – Ouço falar que V.Sa. não pretende nos distribuir o arroz doado à nossa suserania pelos samurais da suserania de Mineyama, nossa irmã. Será verdade?

Den-hachiro: – Ouvi além disso que V.Sa. deseja vender esse arroz e construir uma escola com o dinheiro. É o que pretende dizer, de fato, ao nosso amo? Peço que seja claro.”

A esse questionamento, Torasaburo dá uma resposta inesperada:

“Torasaburo: – Mas são vocês que reclamam que não têm o que comer. Quero construir uma escola porque vocês dizem que não podem comer.”

“Não há lógica em construir escola porque não temos comida”, replica Sanzaemon. Torazaburo responde que as cem sacas de arroz distribuídas entre 8.500 vassalos da suserania se esgotarão quando muito em um ou dois dias, e ensinou:

“Ora, façam de conta que nunca tivemos esse arroz e estará tudo bem. … Comer é sem dúvida importante. O homem não vive sem comida. Entretanto, se nos preocuparmos apenas em comer, Nagaoka jamais se recuperará. Vocês nunca poderão comer à fartura.

É por isso que quero construir uma escola, com essas cem sacas de arroz. Quero construir escola, quero preparar crianças. Hoje, essas cem sacas de arroz não passam disso, mas poderão se transformar nos anos vindouros em dez mil sacas, um milhão de sacas, as possibilidades são imensuráveis. Minto, elas se transformarão em algo muito mais precioso, impossível de se medir em termos de sacas de arroz. Nagaoka não se reerguerá vivendo o dia-a-dia. Não veremos nascer um novo Japão.”

 

Construção do Kokkan Gakko

 

O Kokkan Gakko foi construído em junho de 1870, em conformidade com as ideias de Torasaburo. O novo governo Meiji fundou também uma escola primária em Tóquio nesse mesmo ano e mês, o que mostra a previdência de Torasaburo, que assumiu ele mesmo o cargo de diretor.

 

Desenho retratando a estrutura da escola “Kokkan Gakko” – Revista Nagaoka Kaikyu Zashi, Tochi Ogawa, Ano 12 da Era Meiji (1879)

 

A escola, uma ampla construção térrea, dispunha de 6 salas de aula e um salão para a prática de artes marciais. Consta que se gastaram 400 ryo entre custos de construção, materiais para a prática de artes marciais e biblioteca. A venda das cem sacas de arroz havia rendido cerca de 250 ryo. Presume-se que a diferença tenha sido coberta pela suserania. As finanças da suserania estavam em situação falimentar. Se mesmo assim a suserania se dispôs a investir na escola, certamente houve nisso o dedo de Torazaburo.

Duas características diferenciavam o Kokkan Gakko: em primeiro lugar, a escola aceitava alunos de todas as classes sociais, inclusive plebeus e camponeses, sem se limitar à classe dos samurais. Por esse motivo, foi desde o início muito procurada. Seguia as diretrizes de Torasaburo, para quem a educação deveria ser extensiva ao povo em geral.

Em segundo lugar, a escola incluía em seu currículo matérias sobre a cultura e história nacionais. Contrastava nisso com as escolas públicas feudais da época que se limitavam a ensinar cultura chinesa. Com respeito à história japonesa, o que se ensinava até então eram o Dai Nihon Shi e o Nihon Gaishi, redigidas em chinês. Por isso, Torasaburo editou o “Shogaku Kokushi” (História do Japão para o Curso Primário), em 12 volumes. Introduziu além disso no currículo escolar matérias como a Geografia Mundial, Relações Internacionais, Filosofia, Física e Ciências Naturais. Procurava dotar o povo de educação e conhecimentos futuramente necessários ao Japão.

 

A educação e a instrução do povo
determinam o fortalecimento
ou o enfraquecimento da nação

 

Torasaburo expõe sua ideologia sobre a educação na introdução da obra de sua autoria “Tokukoku Gakko Ronryaku”, em que ele discute o regime pedagógico alemão.

Sobre o motivo de seu interesse particular no regime pedagógico da Alemanha (Prussia), Torasaburo diz de início no prólogo da obra que a Alemanha, após derrotar a Áustria a leste e a França a oeste se tornara um país temido até por potências como a Inglaterra e a Rússia, e atribui a fonte de desse poder ao fato de ter o país intensificado a construção de escolas e dado peso à educação.

Em contraste, a China, grande nação tradicional da Ásia, era frágil. Embora possua 400 milhões de habitantes correspondente a um terço da população mundial, foi derrotada na guerra do ópio e teve seu território invadido pelas potências ocidentais.

A população tanto da China como das potências ocidentais é constituída de seres humanos, iguais embora pertencentes a etnias diferentes. Se mesmo assim acabou surgindo essa brutal diferença de poder entre essas nações é porque houve diferença na educação e instrução de seus povos, ensinava Torasaburo.

Para ele, educação não envolvia apenas ciência e tecnologia. Diz ele em sua obra “Kyougaku Shiron” (Minha Tese sobre o Incentivo à Educação) escrita dez anos antes da fundação do Kokkan Gakko: “É necessário que a educação englobe arte e moralidade.” Em outras palavras, a moralidade, que se preocupa com o comportamento do ser humano, e a arte, que ensina a ciência, a tecnologia e a prática são as duas rodas que levam cada pessoa de uma nação a ser forte e justa, do que resultará uma nação também justa e forte.

Na juventude, Torasaburo se fizera discípulo de Zosan Sakuma, e teve por colega Torajiro (Shoin) Yoshida, os “dois Tora” como ficaram conhecidos. Zosan tinha por lema “Moralidade oriental e arte (técnica) ocidental”, lema esse apreciado e posto em prática por Torasaburo.

Para ele, a educação do povo, voltada tanto à moralidade como à ciência, construía a nação. Essa convicção o levou a estendê-la até a casta dos plebeus e camponeses, para que fossem instruídos não apenas em estudos chineses, mas por um currículo amplamente diversificado, envolvendo estudos da cultura japonesa e ocidental.

 

Produção sucessiva de inúmeros líderes
que contribuíram para o desenvolvimento
do Japão moderno

 

A Kokkan Gakko se transformou posteriormente na Escola Primária Saka-no-ue, uma instituição pública. Expandiu-se também, dando origem à Escola de Estudos Ocidentais e à Escola de Medicina, que também se desenvolveram e se transformaram respectivamente em Escola Secundária de Nagaoka e Hospital Nagaoka.
Uma sucessão de líderes emergiu do Kokkan Gakko, da Escola Primária Saka-no-ue e da Escola Secundária de Nagaoka. Renkichi Watanabe, aluno do Kokkan Gakko na época da sua fundação, foi para Áustria estudar Direito e Ciência Política. Participou depois da elaboração da Constituição Imperial Japonesa subordinado a Hirobumi Ito.

Yoshikiyo Koganei (sobrinho de Torasaburo), primeiro doutor em Medicina japonês, estudou Anatomia e Histologia na Alemanha. Professor da Faculdade de Medicina da Universidade Imperial de Toquio após o retorno, foi o primeiro japonês a dar uma preleção sobre Anatomia.

Além deles, uma quantidade espantosa de personalidades se formou em diversas áreas de atividades: Denzaburo Hatano que desenvolveu atividades no Partido Kaishin e se tornou governador da Província de Fukui, Naoshi Ohara que trabalhou como promotor e se tornou Ministro da Justiça, Kiheiji Onozuka, reitor da Universidade Imperial de Tóquio, Shotaro Oyama pintor de quadros da escola ocidental, Sahei Ohashi, fundador da Editora Hirobumi – a maior da Era Meiji, Isoroku Yamamoto, supremo comandante da Esquadra Conjunta Japonesa, entre muitos outros.

Da suserania de Nagaoka, derrotada na guerra contra o exército do novo governo Meiji, empobrecida a ponto de mal ter para comer senão papas ralas de arroz nas refeições, surgiam líderes em tão grande quantidade que contribuíram substancialmente para o desenvolvimento do Japão. Isto prova quanto Torasaburo estava certo ao afirmar: “Construo escola porque não temos o que comer”.

 

“Formar pessoas” –
ordem dada durante a guerra

 

Isoroku Yamamoto, líder produzido por Nagaoka, cumpriu papel central no desenvolvimento da força aérea japonesa, empenhou-se a fundo para impedir a guerra com os Estados Unidos. Mas declarada a guerra contra a sua vontade, obteve resultados determinantes no ataque a Pearl Harbor que permaneceram nos anais da história das batalhas aéreas.

E em 18 de abril de 1943, o avião em que estava foi abatido por caças americanos nos céus de Solomon e morreu em combate. Dois meses após, Yuzo Yamamoto publicava “As Cem Sacas de Arroz”.

No prefácio, Yuzo Yamamoto diz o seguinte:

“‘Produzam arroz!’ ‘Produzam navios!’ ‘Produzam aviões!’ – todos falam aos gritos. Obviamente, é necessário que nos esforcemos ao máximo para produzir coisas como essas no Japão de hoje. Entretanto, não deveríamos ouvir também: “Produzam personalidades!”, voz essa não menos necessária? Não devemos nos descuidar disso se quisermos vencer esta longa guerra, se Japão quiser ser o líder da Grande Ásia.”

Este texto exprime de forma concisa os motivos que levaram Yuzo Yamamoto a publicar “As cem sacas de arroz” em pleno período excepcional da grande guerra mundial. Na verdade, desde julho de 1940, ele estava proibido de escrever por ter protestado contra o regime de censura imposto pelo Ministério do Interior. Violava quase três anos de silêncio forçado para redigir essa obra. Quem sabe a morte de Isoroku Yamamoto tivesse acendido em sua alma um alarme.

Ele dizia não ver como produzir personalidades capazes de conduzir em posição de supremacia a longa guerra até o fim, com convicção e engenhosidade, e mais ainda, de liderar a Ásia, recorrendo apenas à imposição de censuras sobre a livre expressão e vociferando ordens para ‘produzir arroz’, ‘produzir navios’ e ‘produzir aviões’.

 

“Não produzimos homens,
e por isso, não temos o que comer”

 

Em meio à crise dos anos finais do xogunato, quando potências ocidentais ameaçavam invadir o Japão, o país conseguiu defender sua independência promovendo uma rápida modernização. Isso foi possível porque o país conquistara excepcional nível de instrução popular, mesmo em âmbito internacional, proporcionado pelos teragoya e escolas abertas pelas diversas suseranias do período Edo.

Como uma primeira medida da política de modernização do país, o governo Meiji implantou em agosto de 1872 um regime de ensino que em dois anos fez construir mais de 24.000 escolas espalhadas em todas as regiões do Japão. Nessa época, o espírito das “cem sacas de arroz” estava vivo nos corações de todos os japoneses.

Mesmo após a Segunda Grande Guerra, o Japão realizou uma recuperação miraculosa e um crescimento acelerado. A força motora que possibilitou esses resultados teve por fonte a alta qualidade do regime educacional japonês, fato esse reconhecido desde muito tempo.

Atualmente, o Japão passa por estagnação econômica, redução e envelhecimento populacional e instabilidade política, que constituem quem sabe a terceira crise nacional. Não por influência externa, mas por causas internas, por falta de formação de recursos humanos, seja na área econômica como política. Fato é que a educação de viés esquerdista proporcionado pelo Sindicato dos Professores Japoneses e o relaxamento do Ministério da Cultura na área do ensino escolar foram responsáveis pela “formação negligente de recursos humanos” e causaram a crise, não obstante existirem escolas em quantidades suficientes.

Disse Torasaburo: “Construo escola porque não temos o que comer”. Se invertermos o sentido dessas palavras, dir-se-ia: “Não formamos recursos humanos, e por isso, não temos o que comer”, e isso se casaria bem à situação do Japão de hoje. De certo, a “formação de recursos humanos” não compete apenas às escolas. O povo deve arcar com a responsabilidade de pôr em prática o “espírito das cem sacas de arroz” em todos os ambientes da nossa vida diária, seja no lar, nos postos de trabalho ou nas comunidades regionais. É esse o caminho da gratidão aos nossos pioneiros, que leva também à felicidade dos nossos descendentes. ✿

 


Capítulo extraído do livro Cultura Japonesa Volume 3.

 

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Cultura Japonesa – Vol.3

Autores: Masaomi Ise, Masayuki Fukasawa
Tradução: Shintaro Hayashi
Revisão português: Aldo Shiguti
Edição: Editora Jornalística União Nikkey Ltda. – Jornal Nikkey Shimbun
Redator-chefe: Masayuki Fukasawa
Publicação: Biblioteca Jovem de São Paulo, de Agosto de 2016

Biblioteca Jovem de São Paulo
Diretora: Lena Maki Kitahara
Colônia Pinhal, CxP 80 – CEP 18230-000
São Miguel Arcanjo, SP

Todos os textos em português e japonês com furigana.

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