COVID-19 NO JAPÃO: Comunidade dos nikkeis latinos no Japão durante a pandemia do novo coronavírus

*ALBERTO MATSUMOTO

Alberto Matsumoto (divulgação)

Grassando há mais de um ano, o novo coronavírus continua causando um impacto tremendo na vida de qualquer pessoa em todos os aspectos no mundo inteiro, como nos diversos valores e estilos de vida, nas atividades e planos de negócios corporativos, na gestão política e respostas administrativas, nas maneiras de deslocamentos e sua frequência, especialmente nas viagens internacionais. Hoje, dia 10 de março de 2021, cerca de 120 milhões de pessoas no mundo foram infectadas pelo novo coronavírus, número equivalente à população total do Japão, e morreram 2,6 milhões de pessoas contaminadas, na qual 40% dessas mortes ocorreram no continente americano. Na América do Sul, o Brasil tem de longe o maior número de pessoas infectadas, com mais de 11 milhões de casos confirmados e mais de 260 mil mortos.
Há treze meses, quando a questão deste vírus foi reconhecido pela primeira vez como uma pandemia, alguns estrangeiros residentes no Japão e japoneses no exterior criticavam veementemente as medidas de “auto-contenção” e de prevenção das infecções demasiadamente frouxas do Japão. Contudo, alguns meses depois, a porcentagem de uso de máscara, a condição da gestão sanitária na sociedade, a paciência e a disciplina do povo japonês foram altamente elogiadas por muitos meios de comunicação social estrangeiros. Eu também fui entrevistado por programas de rádio e revistas em Buenos Aires e, nessas ocasiões, enfatizei fortemente que muitas vidas são salvas somente seguindo as regulamentações sobre os cuidados básicos de higiene.
Desde o início, vim acompanhando as redes sociais como o Facebook, Instagram, etc., da comunidade nikkei no Japão, e mesmo antes da primeira declaração do estado de emergência no dia 7 de abril, os eventos em ambientes fechados e as atividades religiosas em igrejas realizadas pelos nikkeis latinos nas regiões de Kanto e Tokai se tornaram polêmica.
O Consulado-Geral do Brasil e do Peru em Tóquio e Nagoia divulgaram ativamente as chamadas e precauções do governo japonês em português ou em espanhol e os conselheiros e intérpretes dos governos locais e das associações de intercâmbios aos quais relacionam com a comunidade nikkei forneceram com entusiasmo as informações apropriadas de forma mais compreensível possível (Shizuoka Shimbun, 21 de maio de 2020).

Estatísticas – As informações multilingue do governo japonês com desenhos também são muito fácil de compreender e continua sendo divulgada regularmente nas redes sociais até hoje. Foi noticiado durante esse período que duas mulheres nikkeis brasileiras doaram 600 máscaras artesanais à cidade de Kasai da província de Shizuoka (Chunichi Shimbun, edição Shizuoka, 3 de abril de 2020). Este ato emocionante foi muito bem recebido diante da falta de máscaras que na época enfrentava.
Por outro lado, foi noticiado que um grande número de funcionários da Murata Manufacturing foram infectados pelo novo coronavírus na cidade de Izumo da província de Shimane, onde vivem 1.700 brasileiros (Nihon Keizai Shimbun, 14 de abril de 2020). Naquele momento, não houve nenhuma confirmação de infecção em brasileiros.
Alguns meses depois, muitas pessoas foram infectadas nas regiões de Tokai e Kita-Kanto, densamente habitadas pelos brasileiros e peruanos. As estatísticas do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social do Japão sobre o número de casos confirmados e de mortes mostram tal dados por cada província, mas não revelam nenhum detalhe de dados por nacionalidade.

Mídia – Mesmo assim, a situação pode ser vislumbrada nas notícias da mídia local e nas coletivas de imprensa dos governadores. Durante a coletiva de imprensa do governador Yamamoto da província de Gunma, realizada no início de dezembro do ano passado, o governador esclareceu uma informação incorreta de que 80% das pessoas infetadas na província eram de origem estrangeiras (BuzzFeed Japão, 8 de dezembro de 2020). Apontou que tal informação refletia uma situação isolada durante uma semana do final de setembro de uma maneira exagerada e que estava circulado sem controle nas redes sociais. Mesmo que tenha sido apenas por um certo período, não há dúvidas de que um grande número de estrangeiros foram infetados. E, pelo fato de que entre mais de 60.000 estrangeiros que residem na província de Gunma, 13.000 são brasileiros e 4.800 são peruanos, as suspeitas de contágios foram dirigidos a eles, mesmo sem os dados sobre as nacionalidades dos casos confirmados. Felizmente, graças às respostas da agência administrativa, das organizações comunitárias e da mídia, não se tornou um grande problema.
Além disso, embora existam casos de infecções, não houve notícias de demissões em massa de trabalhadores nikkeis. Entretanto, os intérpretes que atuam nos pontos de atendimentos aos estrangeiros ficaram super sobrecarregados.
É um trabalho duro transmitir informações relacionadas ao vírus e providenciar procedimentos de hospitalização (Gifu Shimbun, 23 de fevereiro de 2021), responder às perguntas para realizar o teste PCR em um centro de saúde pública, identificar as pessoas que tiveram contato próximo, entre outas ações. Todos esses procedimentos, via interprete, levam no mínimo três horas.
Dependendo do resultado do teste PCR, a pessoa poderá recuperar-se em casa ou em um hotel, ou poderá ser hospitalizado. Aqueles que receberam instruções para ficarem em casa ou recuperar-se em um hotel são assintomáticos ou tiveram sintomas leves, e dizem que havia muitos peruanos que receberam essas instruções.

Testes – Por outro lado, no Consulado-Geral do Peru em Nagoya, cuja jurisdição abrange a região de Tokai entre outras, houve uma consulta sobre a legalidade de cobrar dos trabalhadores o custo de testes de antígeno que algumas agências de empregos e contratação realizam regularmente como parte das medidas de prevenção contra infecções do coronavírus. Segundo os detalhes, no início os testes foram financiados pelo empregador, mas devido ao aumento de número de pessoas estrangeiras infectadas, o empregador resolveu obrigar os seus empregados a pagarem metade ou o total do preço.
O empregador, que até então divulgava repetidamente as medidas de prevenção contra a infecção em várias línguas, tomou essa decisão porque os trabalhadores não as cumpriram adequadamente. Nesses casos, os trabalhadores estrangeiros também devem estar cientes de que, nos piores dos casos, podem resultar em demissão, além da obrigação do pagamento para os testes.
Devido ao prolongamento da pandemia, o governo tomou várias medidas de apoio desde o início como o pagamento de subsídio e uma delas foi o “Benefício Especial de Valor Fixo” implementado em meado do ano passado. 100.000 ienes foram pagos uniformemente a todas as pessoas, incluindo os estrangeiros (residentes registrados no registro básico de residentes).

Horas extras – Ainda assim, algumas pequenas e médias empresas estão sofrendo pela redução de horas extras, horas de trabalho ou os dias de trabalho e, o número de falência de fabricantes, empresas de processamento de alimentos e restaurantes está aumentando gradualmente (de acordo com a Tokyo Shoko Research, houve 7.773 falências no ano passado e 49.698 negócios fechados, batendo o recorde de maior número da história).
Há consideravelmente menos eventos familiares (festa de aniversário de 15 anos, aniversário de casamento etc.) que os nikkeis latinos no Japão gostam e, os restaurantes que eles frequentavam estão superando esta situação por meio de delivery e retirada no local. Por outro lado, não há trabalho de freelance para produção de filmes. Ainda assim, em seus sites, Instagram e mídia étnica, há publicações sobre várias celebrações e banquetes.

thumbnail of tabela 1Percepção dos nikkeis latinos no Japão e “alívio e preocupação” atual

Segundo a estatística da OMS, o número de pessoas infectadas e mortes na Europa, Estados Unidos e os países da América Latina é incomparavelmente maior do que o do Japão. Ao tornarem cientes disso, os nikkeis latinos no Japão começaram a reavaliar a sua segurança no Japão, e aparentemente mantêm esse sentimento até hoje.
No que diz respeito à situação no Brasil, Peru, Argentina e México, segundo às informações da internet, ocorrem meses de restrições rigorosas de locomoção e toque de recolher e o número de pessoas infectadas volta a aumentar na medida em que afrouxa tais restrições. Nas redes sociais, há também publicações de nikkeis que perderam conhecidos, amigos e parentes pelo coronavírus.
De acordo com o “ Relatório da Situação de Emprego dos Estrangeiros (publicado em outubro de 2020)” do Ministério da Saúde, Trabalho e Previdência Social, 1,72 milhão de estrangeiros estão empregados e 130 mil brasileiros e cerca de 30 mil peruanos trabalham no mesmo setor e/ou nas mesmas regiões. Metade dos trabalhadores nikkeis latino americanos trabalham por meio de empreiteiras e, houve um declínio de número de trabalhadores, entre eles, 4.343 brasileiros e 500 peruanos em relação a 2019.
Esse número é um pouco preocupante. De acordo com a “Estatística de Residentes” do Departamento de Imigração do Ministério da Justiça, 211.178 brasileiros e 48.395 peruanos estão no Japão. Houve uma queda de pouco mais de 1% em relação ao ano anterior, mas é 10% maior comparado com cinco anos atrás. Isso significa que não houve uma queda de número de trabalhadores dos dois países.

Situação demográfica – No entanto, em uma situação em que o envelhecimento dos nikkeis latinos não pode ser ignorado, devemos atentar à situação demográfica, na qual temos 20.000 pessoas entre 55 a 60 anos, 14.000 com 61 a 65 anos e 11.000 pessoas com mais de 66 anos (os brasileiros com mais de 65 anos são 4,6% dos 210.000, enquanto os peruanos são 6,4% dos 48.000.).
Nos últimos anos, o número de consultas sobre aposentadoria está aumentando e eles estão mais conscientes do que nunca de que a quantidade de benefícios futuros é incerta mesmo que paguem o seguro social.
Há apenas regulamentos bastante frouxos sobre o trabalho e a vida cotidiana no Japão mesmo durante a “declaração do estado de emergência”, entretanto, pode-se dizer que é bastante seguro se seguir com os protocolos básicos de higiene (uso de máscara, esterilização, lavagem de mãos, etc.) e evitar os “3 mitsu” (lugares sem ventilação, lugares com aglomeração e lugares onde as pessoas se comunicam sem manter distância).
Restaurantes e shows ao vivo ainda enfrentam dificuldades, mas as atividades ao ar livre estão sendo realizadas sem grande problema e, jogos de beisebol e futebol também foram liberados desde o segundo semestre do ano passado, com restrição de número de torcedores. Com exceção das universidades, o funcionamento de escolas está “normal” e nem se compara com a América do Sul (as atividades extracurriculares e competições de esportes ainda estão sendo restritas ou canceladas).

Preocupação – O que mais preocupa os nikkeis no Japão agora é a situação de seus parentes em seus países de origem e a aplicação das vacinas. Por outro lado, no Japão, embora o número de casos seja pequena, há preocupações sobre o programa de vacinação (sinto que o ritmo é muito mais lento do que no exterior), sobre a possibilidade de viagens e estadia temporária na América Latina, sobre as medidas e prazos da quarentena ao voltar para o Japão. A realidade é que os nikkeis latinos, que correm o risco de perderem seus empregos se forem impedidos de voltarem ao Japão, são forçados a “abster-se” da volta para seus países de origem.
Em certas regiões ou setores, as pessoas estão preocupadas não só em perder o emprego pelo aumento do número de estagiários técnicos asiáticos mas também em ser vítima de aglomerações infecciosas que de fato estão ocorrendo, pois esses estagiários estão em vários campos de trabalho.

thumbnail of tabela 2Como se vê no gráfico acima, 81% dos brasileiros e 83% dos peruanos habitantes no Japão concentram em 11 prefeituras e, por outro lado, na coluna direita, não há distinção de nacionalidade no número de pessoas infectadas publicado pelo Ministério da Saúde, Trabalho e Previdência Social. Podemos especular número de estrangeiros infectados pelos relatos da mídia local e tweets de funcionários locais de alto cargo, mas às vezes essas informações são espalhadas com má intenção para alimentar uma sensação de ameaça e discriminação.

Conscientização – Como contramedida, os consulados também estão atentos e dando continuidade no trabalho de divulgação das informações oficiais e conscientização das medidas de prevenção contra a infecção. Os seus funcionários também estão em contato estreito com os governos municipais e trocando opiniões com frequência.
Quem mora no Japão sabe que é fácil viajar de trem, metrô ou ônibus mesmo nas grandes cidades e é possível seguir a vida normal caso cumpram com as recomendações do governo de autocontenção e regulamentações sob a declaração do estado de emergência. Em comparação com alguns países latino-americanos, que há detenções pelos policiais e militares, apreensão de carros e obrigação de apresentar identidades ou licenciamento de locomoção, no Japão você se sente mais seguro e as atividades econômicas estão sendo protegidas.
O número de pessoas infectadas a cada 100.000 pessoas são 348 no Japão (6 mortos), 4.000 no Peru (145 mortos) e 5.000 no Brasil (fonte: WHO Covid-19 Dashboard). As restrições econômicas ao longo do último ano afetou duramente a economia dos países latino-americanos e de acordo com a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL/ECLC), a taxa de desemprego atingiu 10,7% em 2020 com aumento de 2,6% em relação ao ano anterior.
Além disso, pelo menos 20 milhões de pessoas sofreram redução de salário e o número de pessoas carentes atingiu 209 milhões. A América Latina é responsável por 27,8% das mortes causadas pelo novo-coronavírus no mundo e está enfrentando um agravamento nos problemas apontados até agora, como a fragilidade do sistema de saúde e os efeitos adversos de uma alta taxa de economia informal.

Vacinação – Em relação à vacinação, o número de vacinados na América Latina é certamente maior que no Japão, mas ainda há uma forte visão de que a vida no Japão é mais segura porque o emprego é garantido. Após a quebra do Lehman em 2008, muitos brasileiros fizeram fila em frente as agências de emprego em vários lugares para se beneficiar do seguro-desemprego e dar início aos procedimentos de busca de uma nova oportunidade, mas até agora não houve tal cena durante essa pandemia.
O assentamento de nikkeis latinos no Japão está bastante estável e, nos últimos anos, há um número crescente de consultas sobre o ensino médio e universidade de seus filhos. Há uma estatísticas de que somente cerca de 50% dos nikkeis vão para o ensino médio no Japão, mas é muito animador o fato de que está aumentando o número de nikkeis matriculados nas universidades. Desejo que a integração e a contribuição dos nikkeis da próxima geração na sociedade japonesa sejam uma nova fortuna para essa sociedade. Com grande expectativa, torço pelos jovens que estão começando a decolar na sociedade.

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