COMPORTAMENTO: Shisa Kanko: Quando apontar e falar sozinho vai além da loucura

Shisa Kanko tem sido usado para qualquer tipo de atividade (divulgação)

Se falar consigo mesmo em voz alta já é motivo de julgamento, o que dirão os ocidentais ao observar um indivíduo falando sozinho e apontando para direções aleatórias. Apesar da vergonha inicial e do estranhamento, essas são atitudes indispensáveis, no Japão e em algumas fábricas, chamadas de Shisa Kanko, Shisa Kakunin Kanko, Yubisashi Kasho ou, simplesmente, “apontar e falar”.
Ao citar a cultura japonesa, é inevitável falar sobre produtividade e assertividade, pois são fatores considerados extremamente importantes para a população, evitando desperdício de tempo e riscos, ao mesmo passo em que garante segurança, qualidade e eficácia em suas atividades.
Assim o Shisa Kanko surgiu como forma de aumentar o desempenho e foco nas tarefas, pois foi percebido que quando uma ação é realizada repetidamente, há maior probabilidade de erro ao acreditar que sempre irá acertar, porém, quando o afazer é dito em voz alta, a atenção se intensifica e as chances de imprecisão diminuem para 84%.

História do Shisa Kanko
A origem do Shisa Kanko ainda é um tanto quanto incerta, mas suas primeiras aparições no mundo moderno e sistemático aconteceram em 1900 a partir de duas teorias. A primeira delas conta a história de Yasoichi Hori, engenheiro de locomotivas, que começou a perder sua visão e iniciou os primeiros procedimentos da técnica, falando em voz alta os comandos e sinalizando, esperando a confirmação do bombeiro assistente, de modo a manter todos os passageiros e trabalhadores em segurança e diminuindo as possibilidades de erro.
A segunda hipótese, afirma que tudo começou devido à difícil comunicação entre os trabalhadores ferroviários, causada pela fumaça e ruídos fortes dos trens, aumentando o perigo durante as viagens. Logo foi necessário a cooperação em voz alta, o que preveniu diversos acidentes. Com o passar dos anos, foi adicionado o ato de apontar, além de outros mais que variam de acordo com a cultura de cada país, como por exemplo na China, onde além de falar e apontar com o dedo indicador, ainda há o uso do dedo médio e o cotovelo direito que deve ser dobrado em 90º para representar cautela.
Em países ocidentais, o Shisa Kanko também tem se tornado comum, principalmente no trânsito e nos trens, já que anteriormente ocorriam muitos incidentes, como a abertura das portas de locomotivas no túnel.

Shisa Kanko surgiu para aumentar a produtividade e o foco (divulgação)

Porque aplicar no dia a dia
A vantagem da aplicação do Shisa Kanko foi comprovada por meio de estudos realizados pelo Railway Technical Research Institute (Instituto de Pesquisa Técnica Ferroviária) do Japão, que analisou as atividades de alguns trabalhadores, em duas etapas. A primeira fase consistia em executar tarefas simples e repetitivas sem a prática do “apontar e falar”, enquanto que a segunda demandava as atividades com a utilização da técnica.
Embora muitas pessoas se sentissem envergonhadas, foi percebido que agindo automaticamente os indivíduos tendem a cometer 2,38% de falhas, e, ao dizer em voz alta o que devia ser feito, os erros caem para 0,38%. Ou seja, ao expor sua ação, a mente e o corpo ficam mais atentos, prometendo operar exatamente o que está sendo dito, concluindo cada tarefa como se faz com um check-list, isso porque o ato de “apontar” fornece concentração e o “falar” aumenta a memorização e encontra erros.
Assim, o Shisa Kanko tem sido usado para qualquer tipo de atividade, como por exemplo: conferência de material escolar, análise de dados do computador e afazeres domésticos, de modo que dificilmente há a interrupção por distrações, favorecendo ao cumprimento dos deveres diários em um tempo mais curto e à garantia de que tudo está sendo efetivado de maneira correta, mesmo que haja pequenos erros, que não costumam ser fatais na rotina. Então, tente implementar a técnica ao dia-a-dia e tenha mais foco, eficiência e produtividade.

Como executar o Shisa Kanko
Para qualquer decisão tomada, uma coisa é certa: querendo ou não, a pessoa sempre realiza um tipo de Shisa Kanko interno, uma vez que é comum que o indivíduo visualize o alvo de sua ação para que o cérebro capte o que deve ser feito, independentemente da obrigatoriedade e necessidade de atenção. Contudo esse ainda pode ser um ato falho, já que permite apenas o agir automático, ignorando as possíveis falhas e executando o que deve ser feito sem muita concentração.
Ao optar pelo “apontar e falar”, o ser percebe a importância do cuidado em cada afazer e tem seu estranhamento e vergonha diminuídos, pois não há por que se constranger ao exteriorizar os seus pensamentos e atividades, já que será essencial para evitar erros, desperdício de tempo e diminuir os perigos de algo sem consciência plena.

Ato de apontar e falar pode tornar a vida mais simples e fácil (divulgação)

Alguns exemplos do Shisa Kanko são:

  • Enquanto cozinha: sendo indicado apontar para os ingredientes, panela, fogão e utensílios, ao mesmo passo em que diz todas as etapas que devem ser executadas durante o cozimento dos alimentos. Essa pode ser uma boa maneira de não esquecer o fogão com o fogo aceso, evitar acidentes e diminuir o tempo gasto na cozinha;
  • Durante o trabalho: exponha e aponte para todos os objetos que devem ser organizados ou trabalhados, coloque uma ordem nas atividades, assegurando mais produtividade e menos procrastinação;
  • Ao começar o dia: há muito o que fazer, porém é possível fazer um breve check-list, de modo que seu dia não será apenas mais um ato automático, proporcionando que viva todos os momentos da vida com atenção plena e menos arrependimentos.

Com o “apontar e falar” a vida pode ser mais simples, pois se torna mais fácil guiar a mente e o corpo aos objetivos corretos, reduzindo a necessidade de memorização interna constante, que muitas vezes causa confusão e esquecimento.
(Mariana Kisaki)

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