‘Casa do NEB’, projeto ‘Piratininga 2040’ quer ser também a ‘casa da comunidade nipo-brasileira’

O vice-presidente Shigeki Sameshima, o presidente Paulo Nishimura e o diretor Carlos Koga (Aldo Shiguti)

Depois de quase ter um final melancólico, a história de um dos mais tradicionais clubes da comunidade nipo-brasileira, a Associação Cultural e Esportiva Piratininga, está ganhando novos capítulos. E novos personagens também. Localizada em uma região privilegiada, no bairro de Pinheiros, zona Oeste de São Paulo – e em um ponto estratégico, de fácil acesso – próximo à Avenida Faria Lima e a cerca de 300 metros da Estação do metrô Faria Lima, o Pira – como é carinhosamente chamado – pode se tornar, futuramente, “a casa da comunidade nipo-brasileira”.
Até alcançar esse status, porém, muita coisa mudou com a atual Diretoria do Piratininga, que tem à frente o engenheiro e diretor do Conselho da Niplan Engenharia, Paulo Nishimura.
Para falar um pouco sobre essas mudanças e os projetos do clube, ele recebeu a reportagem do Jornal Nippak no último dia 10, na sede da ACEP, que foi totalmente revitalizada desde que assumiu a presidência.
Sua estrutura, em um edifício de três andares, com direito a piscina semi-olímpica e quadra poliesportiva em quase nada lembra o imóvel de algumas décadas passadas. A começar pela fachada, totalmente reformada e que ganhou o acréscimo da sigla NEB – Nikkey Empreendedores do Brasil – uma associação sem fins lucrativos que busca cultivar e difundir os valores trazidos pelos antepassados para a atual e futuras gerações por meio de práticas empresariais. E que tem o mesmo Paulo Nishimura como presidente. Não por caso, as duas histórias – do Piratininga e do NEB – acabam se cruzando. Assim como a da Mirai Engenharia.
A conversa com o presidente aconteceu no também novíssimo restaurante Kura Izakaya e contou com as presenças do vice-presidente do Piratininga e diretor da Mirai, Shigeki Sameshima; do diretor executivo do Piratininga e da NEB, Carlos Koga, e do diretor da Mirai, Wilson Honda.

Bailinhos – Paulo Nishimura lembra que está no Piratininga há cerca de sete anos. “Vim aqui a pedido de três pessoas: o [empresário] Tokio Isobata, o [advogado, falecido em 2016] Samuel [Massanori)]Yoshida e o [médico] Zyun Massuda”, conta Nishimura, acrescentando que nunca foi sócio do clube.
“Frequentava o clube na época da minha juventude, quando tinham os bailinhos de carnaval, mas vinha aqui muito esporadicamente”, diz o engenheiro, explicando que Isobata, Yoshida e Massuda pediram uma ajuda pois o clube não andava lá muito bem. Um pouco mais atrás, na época das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, em 2008, a situação do Piratininga, bem como a de outros tradicionais clubes paulistanos já não era das melhores. Muito por conta do envelhecimento dessas agremiações, como atesta o próprio Paulo Nishimura.
“Na época eles pediram uma ajuda porque sou empresário da área de construção e me perguntaram se eu não podia ajudar no sentido de dar uma contribuição com uma visão um pouco mais empresarial, justamente por causa deste envelhecimento”, conta, afirmando que, naquela época, o clube era presidido por Seiti Sacay, que veio a falecer em fevereiro de 2016 e presidiu ainda a Beneficência Nipo-Brasileira de São Paulo (Enkyo) e o Grupo Escoteiro Caramuru, além de ter sido diretor e membro do Conselho Deliberativo do Bunkyo.

Curto prazo – Com a morte de Sacay, Paulo Nishimura conta que acabou virando presidente do Piratininga. “Nesse período fizemos algumas revitalizações, começando pela entrada”, diz. Carlos Koga lembra que era parecida com as das estações de trens de Noiva York, “com uma cancela na entrada”.
“Enfim, estava muito antiga e foi nossa primeira revitalização porque eu pensava da seguinte forma: ´É o nosso cartão de visitas’. Quando você chega numa casa, a primeira coisa que você vê é a sala. Então fizemos uma primeira revitalização na base de mútuo”, diz.
Depois de de “um ano e pouco” foi feita a segunda revitalização, desta vez no ginásio de esportes, onde foi trocado os pisos e construídos novos banheiros. A terceira e última grande revitalização incluiu a construção do restaurante, a cafeteria e a reforma de todos os andares.

Curto prazo – “Tudo isso com uma visão de curto prazo”, esclarece Paulo Nishimura, que faz questão de situar o NEB na história. A associação foi lançada oficialmente em 25 de outubro de 2019 em concorrido evento realizado na Vila Blue Tree, na Chácara Antonio, zona Sul de São Paulo, e contou com a presença de políticos e empresários.
Além do próprio Paulo Nishimura, foram alguns dos fundadores: Uyeda Jr., Jorge Yamaniski (Osten/Hiroshima), Ricardo Ikesaki (Ikesaki/Taiff), Roberto Ohara (Sakura), Chieko Aoki (Blue Tree), Angela Hirata (SurianaTrading), Alessandra Nishimura (Jacto) e Claudio Kurita (Hikari Alimentos). Hoje, o NEB reúne cerca de 80 associados que cultivam valores como “ética, disciplina, simplicidade, gratidão, família, trabalho e resiliência”.

Piratininga 2040 – Mas como ele mesmo costuma dizer: “Ninguém na vida consegue se fortalecer se não tiver um casa”. “Isso é fundamento, é a essência. Você não constrói uma família se não tiver uma casa.”, assegura o presidente. E foi assim que o Piratininga virou também a casa do NEB. Ou seja, os associados do NEB, automaticamente, viraram associados do Piratininga. “Hoje, somos em 130 associados, 50 que eram do Piratininga e que já estão com uma certa idade, e outros 80 que entraram nos últimos dois anos como empresários associados do NEB”, justifica Paulo Nishimura, destacando que, paralelamente, o grupo elaborou um projeto batizado de “Piratininga 2040”, “uma visão futura do que nós queremos como Piratininga daqui a 20 anos”.
“É algo similar ao que existe em Nova York. Você pega um terreno de 3 mil metros mil quadrados, ao lado da Faria Lima, uma das principais avenidas de São Paulo, um terreno muito valioso em termos de metro quadrado. Nós não vamos mais ter aqui esse conceito de ter uma piscina olímpica e uma quadra de esportes porque perde o sentido. Se você tiver um olhar para o futuro, vai enxergar as grandes metrópoles, onde o valor do terreno é muito alto. Essa é a visão de clubes de Nova York, são clubes sociais onde têm restaurantes, um ponto de encontro para happy hour, tem uma dança de salão e karaokê, por exemplo. Enfim, trata-se de um clube social e não esportivo”, diz, acrescentando que o projeto foi organizado pela Mirai.

Contrato assinado – Baseado nesse conceito, explica, foi feito um projeto de estruturação de desenvolvimento imobiliário e social, que visa construir no local, um terreno de 3 mil metros quadrados, o novo Piratininga e uma torre residencial.
“Aqui tem 3 mil metros quadrados, sendo que o terreno do clube vai ser um prédio de três andares. Para se ter uma ideia somente para o clube serão 4.500 mil metros de área construída. E depois ainda teremos uma torre residencial, do tipo estúdio”, revela, afirmando que o contrato com a incorporadora Cyrela já está assinado.
Segundo o empresário, um dos destaques do projeto será um grande salão de eventos com capacidade para cerca de mil pessoas. Para ele, o Piratininga é um patrimônio da comunidade e deve continuar sendo. “O Piratininga foi fundado em 1950 e, inicialmente, funcionava como alojamento para estudantes, principalmente aqueles que vinham do interior estudar na Capital. E depois de alguns anos foi transformado em clube por causa da ligação com a Cooperativa Agrícola de Cotia, que ficava aqui ao lado, no Largo da Batata”, conta Paulo Nishimura.

– Mas para colocar em prática o “Piratininga 2040”, todo o trabalho de revitalização promovido durante sua gestão irá, literalmente, por terra. “Para quem está de fora, acha que é loucura, mas tinha que dar uma demonstração de fé. Fé é você acreditar e confiar. Não adiantava fazer um projeto e ficar apenas no discurso. Com empresários você tem que mostrar alguma coisa, mesmo que esse exemplo dure dois anos”, diz ele, explicando que o mundo mudou em seis meses. “Imagina em dois anos.?”, pergunta, para depois concluir: “Vamos investir 2 milhões para depois derrubar tudo? Não, esses dois milhões foram pagos pelo projeto. Nós construímos e com esse projeto nós tínhamos que dar uma demonstração de que somos capazes”, afirma o engenheiro, lembrando que foram apresentadas 10 propostas e a da Cyrela foi a vencedora porque “foi a melhor proposta para o Piratininga em termos de permuta, em termos de qualidade, em termos de torna (dinheiro que ficará no caixa do clube) e em termos de segurança financeira ”.
“E vamos receber em troca 4.500 mil m2 de área construída em um terreno de 3 mil m2 de área construída”, explica, acrescentando que o projeto, elaborado durante a pandemia, foi “totalmente aprovado pelos associados” que, aliás, não sairão do clube.
Segundo ele, sinais dos tempos, que, aliás, está muito mudado. “O tempo está passando e tudo na vida tem um timing. Nós, descendentes, que temos o DNA japonês, somos lembrados por sermos honestos e trabalhadores. Só que nós somos brasileiros e temos que acelerar de vez em quando. Para mim as coisas tem quer início, meio e fim. Não adianta a gente ficar apenas discutindo. Vai passar um ano e não fizemos nada. Isso tem que mudar, as pessoas tem que entender que a vida tem um timing”, diz.

Casa – Para Carlos Koga, o Piratininga será a “casa da comunidade”. “Na verdade, não é só uma questão de tendência, com salas de coworking, etc. A gente precisa de uma casa para poder fazer essa união que a gente tanto almeja. A gente precisa de um lugar pra chamar de nosso. Somos mais de 2 milhões e meio de descendentes e não temos um lugar que a gente possa falar que é nosso. O que é mais importante são os nossos valores que estão dentro da gente e que nós herdamos. Por isso a gente acredita que é importante ter um lugar na Faria Lima, onde o metro quadrado é caríssimo e é por isso que a gente segura com tanto firmeza, principalmente para as novas gerações”, destaca Koga.

União – Para Paulo Nishimura, “será o legado para as próximas gerações”. Mas, mais que uma construção, ele afirma que o essencial é o sentimento de união. “O que nós queremos também por intermédio do NEB e do Piratininga, é fazer uma união além dos empresários, das associações e dos clubes. Nós já fechamos uma parceria moral com o Cooper e estamos conversando com o Anhanguera. Pretendo retomar as conversas com o Nippon Country Club, com quem já conversei no passado e também com outros clubes, como o Arujá Golf Club e tantos outros kaikans da região. É um sonho, um desejo de deixar isso para a comunidade. É tentar unir toda a nossa comunidade por intermédio desse primeiro passo que estamos dando”, explica Paulo Nishimura, afirmando que a ideia é “somar e unir”.

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